terça-feira, 10 de abril de 2018

DA DECADÊNCIA DA EUROPA

La Dolce Vita (Itália/França, 1960), de Federico Fellini.
Fellini retratou metaforicamente neste filme a decadência da civilização europeia. Contudo, ninguém quis olhar e ver a fita em profundidade. Ainda agora, os relatos da película apontam apenas para um boémio e belo dolce fare niente de uma decadente alta sociedade romana. Mas, o que vemos e ouvimos é muito mais do que isso.
Atentemos na última sequência de La Dolce Vita:
Após uma triste orgia, e ainda mal refeitos do tédio, um grupo de bons vivants encaminha-se para a praia, ao nascer do Sol. Lá, espera-os um monstro marinho (felliniano símbolo premonitório do Apocalipse?),  dado à costa e recolhido por pescadores. A estranha criatura mira-os — morta ou viva, nunca saberemos — com um perturbante olhar fixo. Mas a coisa não fica por aqui...
O grupo de pândegos, derreado por uma ressaca brutal, decide retirar-se.
No entanto, Marcello Mastroianni (colega do foto-jornalista Paparazzo, que assim dá origem à designação profissional) fica para trás, atraído por uma angelical pré-adolescente, que o chama por gestos e palavras, surgida do nada, sem estar ligada à referida pandilha. Ao longe, ele tenta entendê-la, percebê-la, compreendê-la... Mas, crueldade suprema, não consegue sequer ouvir as palavras que saem da sua boca. O som do mar está ali, como que criando uma barreira natural à comunicação. Hesitando ainda em se aproximar, logo é repescado por uma vamp ainda semi-embriagada que o leva por um braço, enquanto a rapariguinha fica a encarar-nos de frente — agora a nós, espectadores.
Nunca experimentei com tanta força e frieza o vazio e o silêncio numa sequência de fotogramas, porque senti que Fellini se dirigia a mim, a todos nós.
Os europeus renegaram as suas raízes espirituais, indo ao ponto de não se deixarem bafejar pela pureza.
É só isto. E está lá tudo. O horror do nada. A vida vazia e sem sentido.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O HORROR DO NADA

La Dolce Vita (Itália/França, 1960), de Federico Fellini.
Fellini antecipou metaforicamente neste filme a decadência da cultura europeia tal como a vivemos desde há séculos. Ninguém quis olhar e ver a fita em profundidade. Ainda agora, os relatos da película apontam para um boémio e belo dolce fare niente de uma decadente alta sociedade romana. Mas, o que vemos e ouvimos é muito mais do que isso. Obrigatório deveria ser exibir em todas as escolas a última parte de La Dolce Vita: após uma triste orgia, e ainda mal refeitos do tédio, um grupo de bons vivants encaminha-se para a praia, ao nascer do Sol. Lá, espera-os um monstro marinho dado à costa e recolhido por pescadores. A estranha criatura mira-os — morta ou viva, nunca saberemos — com um perturbante olhar fixo. Mas a coisa não fica por aqui. O grupo de pândegos, derreado por uma ressaca brutal, decide retirar-se. No entanto, Marcello Mastroianni (colega do foto-jornalista Paparazzo, que assim dá origem à designação profissional) fica para trás, atraído por uma angelical adolescente, que o chama por gestos e palavras, surgida do nada, sem estar ligada à referida pandilha. Ao longe, ele tenta entendê-la, percebê-la, compreendê-la... Mas, crueldade suprema, não consegue sequer ouvir as palavras que saem da sua boca. O som do mar está ali, como que criando uma barreira natural à comunicação. Hesitando ainda em se aproximar, logo é repescado por uma vamp ainda semi-embriagada que o leva por um braço, enquanto a rapariguinha fica a encarar-nos de frente — agora a nós, espectadores. Nunca experimentei com tanta força e frieza o vazio e o silêncio numa sequência de fotogramas, porque senti que Fellini se dirigia a mim, a todos nós.
Os europeus renegaram as suas raízes espirituais, indo ao ponto de não se deixarem bafejar pela Graça.
É só isto. E está lá tudo. O horror do nada. A vida sem sentido.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A EXAUSTÃO LEVA À CONFISSÃO

Pela primeira vez, desde que cheguei a estas andanças, abro esta caixa, para publicar um postal, sem a mínima ideia do que irei escrever. A angústia que sinto já foi tratada no Cinema por Federico Fellini em 8 1/2. Aí, Marcello Mastroianni dava magistralmente corpo e alma a um realizador atormentado pelas suas memórias. Não lhe bastando essa provação, ainda se via obrigado a fazer um filme, para o qual não tinha ideia alguma. Estou mais ou menos assim, mas, ao contrário: tenho a ideia feita — e vertida em letra de forma e tudo —, faltando-me apenas alguém que me obrigue a fazê-lo. Seguindo a lição de Fellini — confesso-o aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

1960, ANO ITALIANO

Em Itália, em 1960, são feitos os seguintes filmes: L'Avventura, de Michelangelo Antonioni; La Dolce Vita, de Federico Fellini; La Maschera Del Demonio, de Mario Bava e Lee Kresel; e, Rocco E I Suoi Fratelli, de Luchino Visconti. Que se pode esperar duma cinematografia que arranca, para uma nova década, assim? Tudo!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

LIÇÃO DE UM ARTISTA ESPIRITUAL

A oração é uma ginástica que nos aproxima do Sobrenatural.
FEDERICO FELLINI
(1920 — 1993)

PORQUE EM ARTE A MENTIRA É MAIS SINCERA DO QUE A VERDADE

Cinéma-vérité? Prefiro o «cinema-mentira!»
FEDERICO FELLINI
(1920 — 1993)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

EI-LA, À FITA!

8 1/2 (Itália/França, 1963),
de
Federico Fellini,
com Anouk Aimée, Barbara Steele, Claudia Cardinale
e outras...

CINEASTA PARA HOJE (4)

Se me fizessem hoje a fatal pergunta, responderia que 8 1/2 é «o filme da minha vida». Amanhã, não sei, logo se verá. A vida dá muitas voltas...