segunda-feira, 14 de novembro de 2011

EXPRESSO DO OCIDENTE

Segunda-feira, 7 de Novembro
Alargado fim de semana madrileno, opção sempre válida para escapar um pouco aos dias arrastados e agora mais escuros deste cada vez mais triste fado lusitano. De barrio em barrio, dias corridos a pinchos, cañas e tapas, deparo-me com ruas repletas de gente de dia e de noite que igualmente garantem o sustento das tão habituais como enormes filas para as salas de cinema da Gran Vía, apesar da chuva menos convidativa e da crise que também pela capital espanhola se vai sentindo. Mas apesar da dita, tenho como certo que os espanhóis se vão safar dos estragos um nadinha melhor do que nós e cá estaremos para ver se o escriba tem ou não razão. Perante os dias difíceis, por quase toda a cidade observo uma economia de portas abertas e boa disposição; há tradições que se mantêm e são muito poucas, na verdade, as tiendas que tomam por exemplo o domingo como descanso semanal. A contrastar com uma Lisboa de portas fechadas e menos sorrisos, em que o programa habitual do novo-riquismo promovido nas últimas décadas decreta, se tanto, romarias parolas a centros comerciais gigantes e desagradáveis. Acresce que em pleno Barrio de Salamanca, nas melhores (e mais caras) lojas de Madrid, se lobrigam uma série de artigos que - vá lá a gente entender a razão… - custam por cá mais quarenta ou cinquenta euros a peça, quando somos nós a ganhar em média menos umas centenas valentes por mês da radiosa e fulgurante moeda comum. Ainda alguém me explicará um dia a razão destes pormenores.
Mas sendo menos mau do que por estas bandas, não se pense que a coisa corre de feição. Pelo contrário, em plena campanha eleitoral é evidente a cada esquina a derrota mais ou menos esmagadora que espera os socialistas de Rubalcaba nas eleições gerais do próximo 20 de Novembro. Mariano Rajoy vai chegar por fim a primeiro-ministro e a coisa, de tão óbvia, quase não constituirá notícia daqui por oito dias. E se é de eleições que tratamos, saiba quem se interesse pelo estado das chamadas "fuerzas nacionales" (e similares) que desta vez não há muito que seguir em plena noite eleitoral: as esperanças estão depositadas nos resultados da Plataforma per Catalunya em Barcelona - onde os mais optimistas chegam a admitir a eleição como deputado do líder Josep Anglada - e do movimento España 2000 em Castellón, Valência. Tudo o mais, as siglas de sempre, ou não existe ou, se existe, é só no papel.
Regressado à Pátria, observo no jornal que a "Justiça" pretende levar a tribunal um sem-abrigo que terá tentado furtar seis chocolates no valor de 14,34€ de um supermercado Lidl à Rua de Agramonte, no Porto. A coisa não se consumou porque o desgraçado foi apanhado pelo segurança de serviço, mas a administração da cadeia de supermercados alemã recusa retirar a queixa. Tivesse o homem roubado um banco ou tivesse ao invés adquirido um outro com dinheiro que lhe não pertencia e, ao invés do procedimento criminal, seria agora credor de uma comenda no próximo 10 de Junho. Por vontade minha, regressava de imediato ao aeroporto em busca do primeiro avião que me retornasse a um sítio decente. Para minha infelicidade, o cinto apertado não o permite.

Quarta-feira, 9 de Novembro
Titulavam ontem as gazetas que os "investidores reagem com entusiasmo ao anúncio da demissão de Berlusconi". Os mesmos pasquins juram hoje que "o anúncio da demissão do primeiro-ministro italiano arrastou os juros da dívida italiana para valores acima da barreira psicológica dos 7 por cento". Descontada a clarividência sempre independente da lusa imprensa, querem lá ver que afinal de contas o problema não estava no mulherengo dono do Milan?!…

Quinta-feira, 10 de Novembro
Já bem distante dos "huevos rotos con salsichón, patatas y jamón" que me animaram a incursão madrilena, constato que o mundo - pelo menos o meu - parece querer manter-se focado em questões gastronómicas. Num dos raros momentos em que a minha televisão não sintoniza a SportTV, verifico que afinal Armando Vara e Manuel Godinho - o sujeito da "Face Oculta", para quem não saiba - mal se conheciam. Mais ainda: em juízo, o amigo do engenheiro Sócrates que é também afamado banqueiro e homem de negócios exemplares terá dito que apenas recebeu do sr. Godinho uns robalos, um pão-de-ló e - pasme-se! - uma camisola do Esmoriz! Já Vara, por ser gente educada, recorda-se de ter agradecido o gesto com a oferta ao sucateiro de umas alheiras. E assim estamos, numa verdadeira caldeirada. Rios de dinheiro gastos entre investigações e profissionais da justiça, escutas, centenas de testemunhas e prometidos recursos e, afinal de contas, estaremos apenas na presença de dois cavalheiros que gostam de trocar uns presentes apesar de quase não se conhecerem.

Sexta-feira, 11 de Novembro
Mais uma greve. Apesar de uma dívida acumulada na casa dos dez mil milhões de euros, as empresas de transportes públicos insistem em tornar num inferno a vida dos incautos que ainda são clientes das ditas e que, para cúmulo, são quem paga os ordenados daquela canalha - do pica-bilhetes até ao administrador. Pode ser que, com o andar - ou o não andar, neste caso - da carruagem, qualquer dia também eles fiquem em terra. Se calhar já faltou mais.

Sábado, 12 de Novembro
Sucedem-se as substituições de governos eleitos por conselhos de administração nomeados de fora. Depois de Papademos, em Atenas, ter tomado o lugar de um Papandreu que - escândalo dos escândalos! - teria assumido o desplante de referendar o milésimo pacote de "ajuda externa", agora é a vez de Mario Monti assumir ao que tudo indica o lugar de Berlusconi à frente do governo italiano. Já toda a gente sabe disto, pelo que não constitui novidade. O que talvez nem toda a gente saiba é que tanto Papademos como Monti - os dois técnicos colocados, sem eleições, à frente dos governos dos respectivos países - são dois influentes pontas-de-lança da Comissão Trilateral, uma organização internacional mais ou menos sinistra fundada em 1973 por David Rockfeller. Sem juízos de valor, não posso deixar de anotar a curiosidade e de recordar que já nos anos 80 e 90 do passado século a estrutura em causa foi objecto de diversas publicações e estudos nas principais revistas do movimento nacionalista e nacional-revolucionário europeu. Provavelmente, este é apenas mais um exemplo de que não é impossível ter razão antes do tempo. Em jeito mais ou menos lateral, eis até uma boa ocasião para recordar que uma das pessoas que mais coisas terá editado sobre a referida Trilateral - o editor espanhol Pedro Varela - está preso faz hoje exactamente onze meses pelo único crime de editar e vender uns livros incómodos. Eis o lado mais asqueroso das "amplas liberdades democráticas" desta Europa sempre tão plural em tudo o que lhe convém.
Por cá, as coisas não correm melhor. No Expresso, Isabel Jonet - presidente do Banco Alimentar Contra a Fome - dá conta de uma duríssima realidade que tenderá a agravar-se em 2012: há cada vez mais gente a precisar de ajuda e há cada vez menos pessoas e empresas com possibilidade de ajudar. A consequência é que, ao que tudo indica, será necessário diminuir em 2012 o número de instituições apoiadas, levando menos auxílio às pessoas no momento em que estas mais precisam dele. E estamos a falar de toneladas de bens de primeira necessidade, meus caros.

Pedro Guedes da Silva