Sexta-feira, 16 de Março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 8
Esperava pelo usual inesperado que a déspota que dá pelo nome de carteira me costuma proporcionar, mas esta semana, quando vi o que me saiu em sorte, senti-me enganada. Estará a perder os seus dotes e a ficar um pouco previsível? Mais uma destas partidas e proponho que perca todos os direitos ao elevado estatuto de genuína carteira de senhora. Contudo, hoje não me resta senão agarrar o mote e arranjar-lhe umas voltas.
De há uns tempos para cá, gradual e sub-repticiamente, foi aterrando em Lisboa uma nova espécie de extraterrestre, que tomou a estranha forma de riscas cor-de-tijolo. A Câmara, aliada nesta invasão, chamou-lhes pomposamente ciclovias.
Embora seja uma invenção herdada do séc. XIX, os lisboetas, por nunca antes postos perante tal visão, assumem-nas como o maior símbolo de modernidade à face da Terra.
Claro que as tais riscas são finas. Quero eu dizer com isto que não se dão lá muito com o povo, não apreciam muitas misturas. São mais acomodadas, umas senhoras burguesas que gostam de andar a direito para não se cansarem. Nada de trepar colinas. Etapas com nomes como Castelo ou Graça, são disfarçadamente evitadas, porque prémios de montanha só na Volta a Portugal em bicicleta e em Lisboa ninguém se chama Joaquim Agostinho.
As ciclovias de Lisboa tinham de arranjar maneira de marcar a diferença em relação às ciclovias do resto do Mundo. Tinham de ser únicas, umas alfacinhas de gema. Lá se fez um brain-storming cujo resultado foi considerado genial e então saíram-se com uma característica única: as ciclovias lisboetas acabam abruptamente uns três metros antes de chegarem a uma qualquer rua ou avenida. Entram numa espécie de coma súbito e ressuscitam de forma imprevista outros três metros depois de se atravessar a dita via. Alguém ainda vai reivindicar esta invenção da ciclovia saltitante.
Há ainda um outro pequeno problema com as ciclovias. Esqueceram-se do manual de instruções. Pensaram que os alfacinhas não precisavam, que eram todos viajantes, altamente cosmopolitas, com verdadeiro conhecimento de causa. É verdade que se houvesse manual de instruções, a probabilidade de o lerem era exactamente igual à de lerem os manuais de qualquer equipamento, ou seja, muito próximo de zero, mas pelo menos sabia-se que existia.
Assim, os lisboetas pensam que as riscas cor-de-tijolo foram uma dádiva do céu, uma forma de eles próprios poderem passear ordeiramente porque tem divisória ao meio e tudo.
Há alturas do dia em que as pessoas ocupam todo espaço das ciclovias, às vezes sendo mesmo obrigadas a atrasar o passo na fila ordeira, situação que parece totalmente estranha ao povo português, quando ao seu lado repousa sózinho um enorme passeio de calçada à portuguesa. Parece que as riscas cor-de-tijolo conseguem disciplinar as pessoas só porque tem um risco branco no meio. Afinal era só preciso um risco no meio e ninguém tinha ainda descoberto…
Outros utilizadores frequentes são as crianças com os seus triciclos, os doidinhos por skate, e ainda os maníacos da saúde, nas suas corridas matinais ou de fim-de-tarde.
Até os turistas, tão habituados a elas no seu próprio país, acabam a mimetizar os autóctones e dão-lhes o mesmo tipo de uso, pensando talvez que estavam enganados e aquilo, embora muito parecido, não será uma ciclovia mas outra coisa qualquer. Outro dia fui surpreendida por um grupo de raparigas que, sob as ordens enérgicas da sua treinadora, fazia um treino de aquecimento, precisamente sobre a pista da ciclovia em frente ao seu Hotel. Duvido que tal utilização seja autorizada no seu país, mas em Portugal um dia vira moda. Ainda vamos exportar a ideia.
Pouco a pouco começaram a surgir os verdadeiros utentes das riscas cor-de-tijolo. Espaçados de umas horas entre si, mas vai havendo.
Bicicletas antigas, modernas, inteiriças ou dobráveis, bicicletas simples ou cheias de acessórios. Os que as domam são estudantes de mochila, na sua maioria, mas aparece de tudo. Miúdos, graúdos, mulheres com carteira e homens com mala, gente sem equipamento nenhum e gente equipada dos pés à cabeça, com capacete, luvas, joelheiras, cotoveleiras e tudo o mais que imaginem imprescindível ao que entendem ser o ciclismo. O prémio do melhor apetrecho vai para um capacete com luz traseira, encarnada e intermitente.
Na semana passada assisti, pela primeira vez, in loco, e prometo que tinha os óculos postos no local devido, ao cruzamento de duas bicicletas em plena ciclovia.
Não há dúvida. É mesmo o sinal de que já estamos ao nível dos dinamarqueses.

Leonor Martins de Carvalho

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

SERÁ CHEGADA A HORA DO MERECIDO REPOUSO?

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Quarta-feira, 14 de Março de 2012

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA

João Augusto Marchante
(Sousel, 12.03.1897 — Lisboa, 20.05.1988)

Médico, Lavrador e Político.
Vice-Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1928-1940);
Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1940-1947);
Governador Civil do Distrito de Portalegre (1947-1951);
Presidente da Junta Nacional dos Produtos Pecuários (1951-1957);
Deputado à Assembleia Nacional (1957-1961);
Etc.

Terça-feira, 13 de Março de 2012

A LIÇÃO DA TERRA E DOS MORTOS

Metido que ando em trabalhos de investigação sobre os meus antepassados, chego a uma conclusão — na linha do pensamento de Maurice Barrès — toda ela límpida e clara: é com a terra e com os mortos que mais temos a aprender nesta vida terrena.

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

ARTISTA E MUSA

Salvador Dalí e Raquel Welch

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 7
Pela primeira vez, meto a mão na carteira e aparece o que procurava. Deve ser caso único, e aproveito esta generosa dádiva.
Vou então toda lampeira discorrer sobre a condução, assunto em que a minha competência pode ser considerada duvidosa, já que apenas passei quando fiz o exame pela segunda vez. O que se passou na primeira tem que se lhe diga, mas não me vou alongar em argumentos que sei serão prontamente rebatidos com ar trocista, especialmente pelo, sempre pronto a isso, género complementar (nunca digo oposto).
Sobre táxis e taxistas não me vou pronunciar. São um mundo à parte, que parece ter regras escritas em código específico a que não nos é dado acesso. Nem adianta refilar em caso de conflito porque a razão mesmo não lhes assistindo, está estranhamente sempre do mesmo lado. Talvez um dia apareça um capítulo próprio com as histórias, boas e más.
De camiões e camionistas então, nem arrisco falar. Tenho um respeito imenso. Sempre que ultrapasso um, passa-me pela cabeça que é desta que apanho um maluco que quer brincar com o meu matchbox e encosto-me perigosamente à divisória de betão até me lembrar que assim ainda vai parecer suicídio, e que o plano dele vai resultar, e ninguém vai perceber que foi engendrado pelo camionista, pelo que tento então manter uma rota que me pareça salvaguardar dos dois, para sair dali o mais rapidamente possível sem pensar muito nisso.
Voltemos pois ao que interessa. O resto dos condutores, os nossos vizinhos de estrada, esses condóminos em andamento.
Cada português está convencido que ninguém conduz melhor que ele. Vê-se desde logo na atitude com que acciona o comando remoto e depois abre lentamente a porta do carro, varrendo disfarçadamente o espaço em seu redor com olhar sobranceiro, apenas aparentemente indiferente. Eis-me, o condutor magnífico entrando no meu carro magnífico.
Se antes de entrar no carro já achava que era o melhor condutor do Universo, quando se senta e põe as mãos no volante passa a ter a certeza. Absoluta. Encarna todos os campeões de Fórmula 1 ou de todo-o-terreno e sabe que foi apenas um pequeno percalço, um revés da vida que não o levou à internacionalização, ao reconhecimento, à fama. A partir daqui, tudo pode acontecer.
Há vários tipos de condutores e estes são apenas alguns: os muito conhecidos condutores de domingo, que com muita calma, mesmo com muita calma, levam a passear a família inteira com excepção do canário, os que guiam de chapéu, um verdadeiro mistério, de quem devemos fugir a sete rodas porque há-de haver uma razão secreta para o usarem mas não é com certeza a boa condução, os nervosos, que chamam nomes que não conseguimos ouvir ou que insistem em fazer gestos obscenos não percebendo que nunca os chegamos a ver, os que têm como lema “o camisola amarela sou eu”, os que nem sabem para que serve o pisca-pisca mas têm a mão colada à buzina, e os que estão ali para proporcionar aos outros música ambiente, debitada a decibéis não previstos por Regulamentos da União Europeia.
A estrada não é como uma festa privada por convite. Toda esta diversidade se encontra ao mesmo tempo nos mesmos sítios, quer sejam estradas municipais, nacionais ou auto-estradas.
Dantes, as auto-estradas eram simples, tinham apenas duas faixas: uma para andar, outra para ultrapassar. Se bem que sempre houve alguns que apenas conheciam a faixa da esquerda.
Com a invenção da 3ª faixa, conseguiram baralhar os portugueses. Convenceram alguns, normalmente os que conduzem a 60 à hora, que a faixa da direita está reservada. Não para eles, mas para camiões, que até andam a 80. É pois vê-los todos catitas, na faixa do meio, obrigando os que estejam à sua direita a manobras dignas de rali para os conseguir ultrapassar e voltar à faixa normal, a da direita, como diz o Código, o tal que todos esquecem mal ouvem a palavra “passado!”, no exame.
Este fenómeno da faixa do meio chama-se “complexo Scaletrix”, e é perfeitamente compreensível pelo facto de a iniciação à condução se ter dado nas pistas com o mesmo nome. Se bem se lembram, a pista tinha uma espécie de guia, ao longo da qual o carrinho telecomandado deslizava. Não saía da guia a não ser por despiste.
É assim, nas auto-estradas portuguesas. Entram com o carro na faixa do meio e nunca, mas nunca mais de lá saem. Para alguns, esse complexo aplica-se à faixa mais à esquerda, mas esses já nós conhecíamos e tratávamos por tu.
Há ainda toda uma série de características de condução, por mero acaso ou não, mais masculinas, que levam a situações como por exemplo, estarmos a ultrapassar e aparecer de repente um tipo coladinho (de onde é que este apareceu?) a fazer sinais de luzes desesperados. Esqueça. Não faça isso que eu travo.
Ou naqueles dias de filas desesperantes, saltitarem de faixa em faixa com ar vitorioso, em guinadas súbitas, sem se aperceberem que afinal, o vizinho do lado acabou por chegar ao destino antes.
Ou as entradas intempestivas, à papo-seco em linguagem de automobilista, na auto-estrada. Estas entradas têm relação directa com o complexo Scaletrix, uma vez que quem entra, pensa estar ainda na mesma pista.
Ou aqueles que após serem ultrapassados por uma mulher, mais feridos no seu orgulho do que quando o seu clube perde com o maior rival, não descansam enquanto não executam a sua vingança mesmo à custa do esforço hercúleo de um motor fraquito. Coitados, nem lhes passa pela cabeça que o sabor da vitória dura pouco. O tempo de voltar à faixa da direita. Ou do meio, se sofrer do complexo Scaletrix.
Não há como a experiência de ter um carro de velocidade limitada para aprender a ter calma ao volante. Quando andava de Dyane, e tive duas, naquelas idas ou voltas de férias, nunca me queixei de filas. É verdade que era sempre a última.
Agora apenas queria informar que aquela que está a guiar o meu carro, não sou eu…

Leonor Martins de Carvalho

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

FRANCISCO CABRAL DE MONCADA TEM A PALAVRA

Portugal morreu?

Dei com esta pergunta do meu amigo Manuel Brás aqui de chofre, há poucos dias. Reconheci então prontamente que essa pergunta, ela mesma, inquietantemente, dolorosamente, se me alojara no espírito, como hóspede não convidado, há muito tempo. E que, como uma lapa bem viva, foi resistindo sempre à rejeição. Hoje, vejo que é tempo de expressar a atenção que ela merece, e que é enorme. De facto, creio que nos últimos tempos, medidos por décadas, não há mesmo coisa que deva merecer maior atenção dos Portugueses.

O brado final da Mensagem -- «É a Hora!» -- poderia condensar, se fosse possível um resumo, o que me ocorreria chamar o testamento moral de Fernando Pessoa: aquilo que fica, aparentemente, de mais positivo e virado para o outro, singular ou colectivo, da sua mensagem. Liberto, ou esquecido, em ultra-lúcido transe, do seu ego angustiado, desesperado, encarcerado (que será o do seu poema Hora Absurda, p. ex.), ele deixa-nos uma última e dupla exortação -- primeiro, à nossa consciência colectiva e, logo após, à de cada um -- para que reajamos ao marasmo, ao desalento, à desgraça pessoal e colectiva, e a transformemos, ou colaboremos na transformação redentora do estado de abatimento e confusão (o «nevoeiro») a que se teriam confinado as nossas almas e, por extensão, a do País, através de um renovado projecto pessoal e nacional (a «Distancia»). Não sendo eu, sei-o bem, um grande conhecedor da vasta e complexa obra de Fernando Pessoa, suponho que isto que acabo de dizer não deverá ter nada de original ou de polémico e constituirá talvez até uma interpretação bastante vulgar.

Uma questão crucial, aqui hoje, é a da identidade, mais concretamente, o problema gravíssimo da negação e abandono forçado da nossa identidade histórica fundamental, associado e agravado por um ingente problema de fundo, no chamado mundo ocidental em que nos situamos, de esvaimento gradual e progressivo das energias morais, se quisermos. Pensando bem, nem sei qual destes dois aspectos será o mais decisivo, visto o intricado, entre nós, das suas mútuas relações.

Estou em crer que uma nação não resiste inteira a mudanças radicais de identidade. Costuma partir-se em dois, as mais das vezes. Que tem hoje a França pós-moderna a ver com os restos da França profunda, os que ainda se lembram de Santa Joana d'Arc? Portugal -- para mim, e julgo que também para uma maioria mais ou menos consciente, pelo menos até há algumas décadas -- já desde o seu princípio e ao longo dos séculos, representou sempre sobretudo um projecto comum, e autónomo, em acção. Não um projecto qualquer mas, precisamente, a expressão de um certo ideal de convivência fraterna (o contrário da confusão igualitária) e universal entre homens e entre raças, povos ou nações: numa palavra, o Ideal Católico. Viver e partilhar o exemplo de Cristo, aqui e pelo mundo fora, à nossa maneira. Uma maneira forçosamente imperfeita, é claro, mas que num balanço geral se deve reconhecer ter sido generosa e levada avante de boa fé. E, vendo bem as coisas como se passaram parece que, nessa grande aventura, foi como se a Providência nos tivesse ido presenteando, em jeito de pródiga e não negociada recompensa, com as condições e os frutos que nos vários momentos fomos porfiada e esforçadamente buscando, encontrando e conquistando, e que tão necessários foram ao nosso sustento, à nossa realização e à nossa independência.

Parece-me que é isto mesmo, em suma, o que uma História bem contada reiteradamente nos recorda. Um testemunho flagrante desta ideia de Portugal, do tempo em que Portugal foi mais feliz, e que revela o estado de um Povo em uníssono, é o que nos oferece, em luminoso instantâneo, o conjunto dos painéis de Nuno Gonçalves. Esta mesma ideia-mestra, e o seu pôr em prática, vigorou e persistiu, apesar de todas as crises e depressões passadas, gravíssimas algumas, até não há muitos anos. Tudo isto são coisas sabidas e já ditas e reditas, mas que nunca são demais relembrar. Mas é de realçar que aquelas anteriores crises e depressões nunca foram crises e depressões de identidade, pelo menos em grau que de longe se compare à gravidade da derradeira e presente grande crise (não me refiro à recentíssima crise financeira, que já é em parte uma consequência daqueloutra).

Desgraçadamente, parece que Portugal, há coisa de uns quarenta anos a esta parte, se cansou, e esqueceu, de si próprio. E digo parece porque, na realidade, por essa data e em certos meios sociais, políticos e militares, para já não falar no chamado católico-progressista, as suas forças morais e a própria ideia nacional já vinham sendo paulatina, insensível e insidiosamente minados. O certo é que, cruamente, quase de um dia para o outro, o nosso plurissecular projecto apareceu desfeito como um castelo de cartas. Hoje, Deus nos valha, Portugal lembra a espaços um louco perdido, querendo fugir da própria sombra, e a ideia que os pomposamente chamados cidadãos revelam ter do seu País pulverizou-se já em enorme parte ou sumiu-se mesmo por completo em muitas almas, após anos e anos de demagogia maciça e de tentativa constante, em grande parte conseguida, de transformação gradual, disfarçada e insensível, do senso comum, objectivo este tão caro, como é sabido, do marxismo cultural, inconfessado mas de facto omnipresente, à semelhança do ar que a ave não vê. Resultado final: Mourinho, CR7 e companhia (por muito estimáveis que sejam...) são hoje os heróis da pátria... E nisto, curiosamente, talvez não passe afinal de um pudor que receia o abuso do nome santo, a juntar à intuição da verdade, o uso, já relativamente vulgar, cru e castigador, que uma certa parte da população, da porventura mais sábia, vem fazendo, quando se refere à terra onde vive em termos alternativos, depreciativos ou anedóticos, para designar uma realidade que sente ser produto adulterado, e o qual não quer, no fundo, ver confundido com o original -- tais como «este país», «isto», «esta m....», «tugolândia», etc.

Releia-se Franco Nogueira e os gritos de alerta por ele deixados há vinte e mais anos (As Crises e os Homens; Juízo Final). Eu diria que agora será um verdadeiro milagre poder regenerar-se a situação descrita a curto prazo, porque os poderes inimigos da Nação, da autoridade do Estado, da Igreja e da justa e tradicional relação de complementaridade, nas suas esferas próprias (nem sempre perfeitamente respeitadas no passado, é certo), entre estes dois últimos -- ordenada ao respeito da moral católica no plano do poder temporal -- vêm triunfando, no balanço actual, em toda a linha.

Esses poderes, que têm servido desígnios em última análise meta-políticos, aberta ou veladamente revolucionários (e tem-nos havido para todos os gostos, desde os do liberalismo e no capitalismo até ao comunismo), tiranicamente e em nome dos «sagrados princípios», e não raro em conjunto com o próprio auto-aniquilamento, conseguiram acabar já há muito com a nossa Nobreza (o escol, a elite, em suma, o conjunto dos melhores valores na sociedade, reconhecido como tal), a qual, quando com genuíno papel social, constitui naturalmente um membro especialmente eficaz e indispensável de qualquer comunidade justamente ordenada. Não obstante, em círculos restritos mas sobretudo, isoladamente, continua a haver, apesar de tudo, estou em crer, um número muito razoável de portugueses a muitos títulos, nobres.

Por outro lado, e custa admiti-lo, não se percebem claramente na actual hierarquia da Igreja, em Portugal, as altas e tão necessárias qualidades de zelo pastoral e vigor reactivo face aos inimigos externos e internos, que os há igualmente desta última espécie, o que não surpreende e já foi aliás mencionado pelo actual Papa Bento XVI, em alusão de abrangência geral não confinada ao nosso país.

Com a ruptura brutal do projecto Português, de que não há fugir, e sem outra versão igualmente digna daquele, no horizonte próximo das possibilidades que se afiguram viáveis; sem um Estado visando sempre o bem-comum para lá dos discursos e dos textos, e detendo a necessária autoridade, impossível em partidocracia; com uma Igreja que não tem demonstrado a capacidade de estar plenamente à altura das agressões e ameaças da hora presente; sem o vislumbre de um escol organizável e minimamente efectivo; e, para cúmulo, com a continuada lavagem de cérebros e obnubilação infligidas ao nosso Povo -- o quadro é mesmo muito, muito negro e tende a enegrecer cada vez mais. O «nevoeiro» está cada vez mais cerrado. O que equivale a dizer: a identidade e o nervo da Nação, cada um deles, estão cada vez mais indistintos. Daí a pertinência e a lucidez da cruciante mas fatal pergunta do meu valente amigo Manuel Brás: Portugal morreu?

Não sei se já morreu. Ou se é como se tivesse morrido, qual nau cativa num mar de «sargaço». Mas porém, como acredito de facto em milagres, aos que desconhecem o verbo desistir, direi: oxalá não seja esse, ainda, o caso. Como..., quando..., não sei (alguém saberá já, ao certo?); contudo, e querendo acreditar que ainda não é findo, o tempo, de conseguirmos começar a repintar o negro quadro, parece-me que, para começar, bem forçoso seja -- e para mim próprio falo, em primeiro lugar -- que aqueles, menos ou mais numerosos, os que formos, que não desistimos de Portugal, passemos todos a acordar com o cantar do galo, a lavar bem os olhos, a abrir velhos e novos livros, a ouvir o silêncio, a procurar os nossos pares. Será este o nosso prévio trabalho de casa, a dosear à medida de cada um.

Mas depois, ou enquanto isso, que mais deveremos fazer? Como avaliar o que nos espera e quais as reais possibilidades de salvação?

Antes de continuar, porém, é necessário abordar, em breve linhas, o problema político. Há um problema político em Portugal? É evidente que sim. Consiste ele no actual e já velho beco sem saída, no nosso país, que é o divórcio crónico insanável entre governantes -- por sistema desenquadrados de uma visão integrada e continua, ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, do bem-comum e da própria realidade concreta do País -- e governados -- por sistema desenquadrados das formas de participação política que melhor poderão representar o papel de cada um e o todo nacional. O sistema político vigente, assente num conjunto de supostas certezas contestáveis, tais como a liberdade do indivíduo como fim único do Estado e a igualdade dos homens, conducentes à noção atomizada/massificada de povo, a razão das maiorias, a soberania popular e a excelência do sufrágio universal individualista e do sistema dos partidos políticos, tem demonstrado ficar muito aquém das necessidades concretas da Nação e do Povo real que a constitui. O resultado está bem à vista e é este: uma partidocracia demagógica num Estado gigantesco, controlador e omnipresente, mas fraco. É muito mau, é muito curto, não serve. É preciso outro.

Em todo o caso, a resolução do problema político parece poder vir a ser a verdadeira chave mágica do problema mais geral -- a salvação de Portugal. Uma mudança política que nos abra o caminho para um novo projecto mobilizador e regenerador das nossas energias mais profundas -- a tal «Distancia» na voz do Poeta, em continuidade e harmonia com a nossa identidade de sempre. Teremos aqui um caso de aplicação maurrasiana da «politique d'abord»? Veremos.

Em tese, assim poderia ser. Em 1926, assim foi -- por intermédio de um golpe militar e de uma posterior revolução contra-revolucionária, que conseguiu em grande medida sanar a situação anterior. Mas hoje, aqui, no momento presente, não se afigura possível uma coisa dessas. Não só os militares estão, ao que parece, se não maioritariamente conformados, pelo menos eficazmente submetidos ao poder civil, como a população em geral não parece ainda consciente e suficientemente receptiva a qualquer mudança decisiva, pela confusão que tomou muitos espíritos, resultado da continuada desinformação e propaganda que lhes tem sido ministrada ao longo de muitos anos. O caminho a seguir, portanto, para chegar a conseguir uma eficaz mudança política a prazo, parece só poder vir a ser o da recuperação das inteligências e das vontades -- a recuperação da consciência patriótica, das consciências tout-court, de um número crítico inicial de Portugueses, pondo-se depois em marcha o esperado efeito multiplicador. Tal só será possível, assim, pela intensificação do combate cultural. À revolução mundial e ao marxismo cultural, preferencialmente utilizado por aquela depois da II Grande Guerra, só poderá responder-se com a contra-revolucão. Com anti-marxismo cultural e, sobretudo, idealmente, com a devoção expressa publicamente por palavras e por obras ao tríplice desígnio Deus -- Pátria -- Rei. Invista-se pois a fundo, por todos os meios ao nosso alcance -- em que se destaca a enorme e até ao presente bem aberta janela da Internet -- neste combate cultural.

Agora, sobre a possibilidade de um novo sistema. Julgando-me eu monárquico e convencido da bondade e da viabilidade a certo prazo por ora indeterminado, de uma solução política monárquica para Portugal (não vou agora aqui detalhar porquê, mas bastará ter em devida conta os resultados da nossa tradição política alargada), uma saída verdadeiramente regeneradora não ficará garantida, como alguns poderão pensar, com uma nominal troca de regime: será necessário ir muito mais além do que sair simplesmente o Presidente da República e entrar o Rei. Será preciso, a meu ver e indo por partes, começar por substituir o actual sistema político por um sistema novo, com outros pressupostos. Um sistema em que a participação dos Portugueses represente, de facto, o valor e o papel social de cada pessoa, desde a mais humilde e até ao topo. Em que o voto e a participação de cada um não se limitem à de indivíduo isolado mas o sejam, de preferência, hierarquicamente e como membro das diversas comunidades naturais, profissionais, culturais, etc., em que se integra. Falo de um sistema de representação orgânica, como já repararam.

Não vou aqui alongar-me muito neste tema, mas queria só adiantar que provavelmente não serão necessárias excepcionais qualidades criativas no levantar esse novo sistema político: bastará alguma inspiração, a retirar da nossa plurissecular tradição, e uma sábia adaptação aos novos tempos. Garantido isto, o Rei virá, de preferência já em simultâneo, presidir o novo (afinal já muito antigo, em sua essência) sistema, com a sua devida autoridade. Uma autoridade e um poder que deverão transcender, em boa medida, os de simples árbitro. Já tem sido defendido que as funções vitais da Justiça, da Defesa e das Relações Externas, pelo menos, deveriam ficar sob o seu directo controlo. Quem já cedo no século passado e até pode dizer-se aos nossos dias, veio propugnando uma solução deste tipo, sabemo-lo bem quem foi: os fundadores do Movimento do Integralismo Lusitano, com António Sardinha à cabeça, e as suas várias gerações de continuadores. Eu acredito que será esse o melhor caminho. O mais natural, no fundo. E que ele poderá ser viável, dada a sua estabilidade intrínseca básica (já durou grosso modo pelo menos cinco séculos seguidos), mesmo que numa conjuntura futura tão complexa e imprevisível como a presente, desde que aos Portugueses o dito caminho venha a ser apresentado de boa fé e tal como é ou poderá ser antevisto. Então, mais tarde ou mais cedo e apesar de tudo, eles o saberão reconhecer, e eleger.

Para concluir, uma referência ao aspecto, tão importante, das relações, dependências e influências externas, oficiais ou apenas reais, existentes ou expectáveis. Tal como as coisas estão agora deveremos contar com a hostilidade declarada dos poderes internacionais dominantes a qualquer mudança política interna que se pareça com a atrás defendida -- veja-se o actual caso da Hungria, e as imediatas reacções internacionais surgidas face à sua nova Constituição. No entanto, a relação de forças representativa dos diferentes desígnios em presença, na Europa, poderá mudar no futuro. Que nos reservará o amanhã? Devendo-nos nós preocupar, antes de mais nada, em prosseguir com o nosso próprio trabalho, poderá bem acontecer que o caminho húngaro, por exemplo, acabe por vingar, fazer carreira e chegar também até nós. Por outro lado, noutro campo muito distinto, julgo que poderemos ter muito a ganhar, a vários títulos entre os quais realço aqui o do nosso reforço identitário, com o estreitamento das relações com os países que outrora integraram ou se relacionaram com o nosso passado Império, e nos quais persistem populações que prezam a nossa memória e desejam uma colaboração renovada.

Dito isto tudo, poderá, é claro, o cepticismo de alguém, e até sem nenhuma malícia, começar por questionar: não será este longo repto algo de pouco credível? Vã pretensão apenas, de um Dom Quixote menor?... Bom..., a isso também não sei responder. Em todo o caso isto sei:

Se nos afirmamos Portugueses, então..., cumpre-nos honrar, todos nós e de preferência em concerto, e em concreto, custe o que custar, o brado final..., a ordem..., de Fernando Pessoa.

Portugal passou e continua a passar pela sua, nossa voz.

Francisco Cabral de Moncada

PROVA ANUAL DE VIDA

Quarenta e seis anos já cá cantam.

Domingo, 4 de Março de 2012

SENHORAS DESTAS JÁ NÃO HÁ. HÉLÀS!

Conchita Cintrón
(1922 – 2009)

Bayonne, França, 1947
Fotografia atribuída a
Jean Dieuzaide
(1921 – 2003)

Neste mesmo ano de 1947, em que aqui em cima a vemos registada para a posteridade numa belíssima fotografia, a maior cavaleira tauromáquica de todos os tempos veio ser cabeça de cartaz a Portugal. Conchita Cintrón, na Praça de Touros de Portalegre, lidou touros do meu Tio-Avô Mariano Firmino Costa Pinto. Ainda no Alentejo, toureou também em Cabeço de Vide, onde alternou com o cavaleiro tauromáquico, Primo-Direito do meu Pai, Mariano Vaz Costa Pinto. Quem quiser conhecer a vida e a obra desta extraordinária Senhora, pode começar por consultar a Wikipédia. Vão ver, que vão gostar; e, muito provavelmente, apaixonar-se. Sobre Conchita Cintrón, disse Orson Welles: «A sua memória destaca-se como uma repreensão aos que afirmam que uma mulher perde algo da sua feminilidade quando pretende competir com os homens».

QUE FAZER?

Talvez ler.

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 6
Inesperadamente, da carteira hoje saltou qualquer coisa que, para alguns, parecerá não condizer com um acessório de senhora. Já agora aviso que para meu puro deleite recorro propositadamente a generalizações.
Primeiro, o objecto. A coisa. Estou a referir-me ao automóvel, à viatura, mais comummente designada de carro. Assim o chamam as mulheres, claro, que o tratam por aquilo que o objecto é, um carro. Quando o assunto vem à baila é sempre como o meu carro, ou quando muito, a minha carrinha.
Os homens, não. Dizer o meu carro é pouco. Fazem questão de marcar a diferença e tratá-lo pelo nome próprio. O meu Audi, o teu Porsche, o nosso Jaguar, o vosso Mercedes e o Aston Martin, sempre invejado, mas que é dele, do outro.
Alguns até preferem usar o nome completo com os apelidos todos da família, ipsis verbis o livrete, “o meu BMW X3 série 5 JKYHG”, especialmente quando sabem que o interlocutor tem um BMW da série inferior. Se a situação fosse inversa, ou não tendo a certeza, apenas refeririam “o meu BMW” para que a dúvida ficasse subtilmente a pairar…
Alturas houve em que os modelos de carros tiveram direito a estatuto próprio, emanciparam-se do nome de família e ganharam alcunha: a arrastadeira, o 2 cavalos, o boca de sapo, o carocha, o 4 latas... Já não acontece. Os carros deixaram de ter personalidade.
Há muitos anos, quando se comprava um carro era quase para a vida. A escolha era ponderada e discutida, tornava-se quase cerimonial a ida familiar ao stand (mais conhecido por alguns como stander…). Muito estimado pois, o carro, queria-se bem protegido com aquelas capas de retalhos em formatos desiguais de vários tons de cinzento, e a matrícula ora pintada em letras garrafais, de lado, ou no tecto, para proporcionar uma visão do alto, não se percebia bem a quem, mas talvez aos próprios donos que o espreitavam com desvelo do seu apartamento no 6º frente, ora num rectângulo desenhado precisamente por cima do sítio onde estava a verdadeira matrícula, reproduzindo-a fielmente, como se o carro fosse mesmo aquilo, aquele embrulho cinzento. Uma grande parte dos fins-de-semana era dedicada à viatura, proporcionando-lhe uma sessão de beleza completa com manicura incluída, e o célebre passeio de domingo.
Hoje muitos já nem compram carro, devolvem-no após poucos anos, no fim de contratos rebuscados com nomes cada vez estranhos e estrangeirados. Não é bem coisa sua. É como se fosse emprestada. Perdeu-se também, este bem-querer.
Para a mulher um carro é apenas uma coisa útil. Tão útil quanto outra coisa qualquer. As coisas, para as mulheres, ou são bonitas ou são úteis. Só as coisas bonitas têm autorização para serem inúteis. As úteis podem ser feias, desde que a utilidade esteja comprovada. Para além de permitir cumprir o objectivo de executar com rapidez uma sucessão de tarefas num período mais ou menos curto, as mulheres gostariam que o carro fosse ainda mais útil e avisasse, talvez com aquelas vozes de GPS ou vários alarmes sonoros, quando é preciso mudar o óleo, a água, os limpa pára-brisas, os pneus, tudo com a antecedência devida, porque a agenda é apertada. Também dava jeito que um senhor engenheiro inventasse uma forma mais simples de mudar pneus.
O meu carro, que é carrinha, não diz nada. Foi muito útil antes de o preço da gasolina ter inviabilizado a sua utilidade. Agora, está para ali, sujo, a desfazer-se, coleccionando anúncios de videntes, ginásios e gabinetes de estética. Qualquer dia não pia. Não parece, mas gosto dele: não se queixa e espera-me.
Do verbo, conduzir ou guiar, como vos aprouver, tentarei que salte da carteira no próximo dia, em capítulo próprio.

Leonor Martins de Carvalho

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

COISAS INDISSOCIÁVEIS — IV

Boa-educação, bom-gosto e bom-humor.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — III

Beleza, Bem e Verdade.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — II

Fé, Esperança e Caridade.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — I

Deus, Pátria e Rei.

NESTE DIA NASCERAM

O Nascimento de Vénus, 1483
SANDRO BOTTICELLI (1445 — 1510)
Têmpera sobre Tela, 172,5 x 278,5 cm
Galleria degli Uffizi, Florença.


1445 — Sandro Botticelli.
1647 — S. João de Brito.
1810 — Frédéric Chopin.
1905 — Álvaro Ribeiro.


Um Pintor, um Santo, um Músico e um Filósofo. Todos muito cá de casa. Ora digam lá se há melhor maneira do que esta de começar o meu querido Mês de Março.

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

NOVES FORA, NADA?

Será que os descendentes dos que fundaram Portugal e dos que o fizeram crescer ao longo de novecentos anos durante trinta gerações a fio vão assistir impávidos e serenos ao País a ser afundado? Eu, não. Não me conformo, nem me calo.

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

MILAGRES DA CRISE

Tive hoje que recorrer a dois serviços públicos. Preparei-me mentalmente para enfrentar os habituais funcionários antipáticos e incompetentes. Para meu espanto, fui atendido por duas funcionárias simpáticas e eficientes. Portugal estará a mudar? Cheira-me que a sombra do desemprego faz alguns trabalharem mais e melhor. Antes assim.

OS MEUS QUADRANTES — IV

Do simbolismo de Nobre ao modernismo de Sá-Carneiro.

OS MEUS QUADRANTES — III

Do romantismo de Garrett ao saudosismo de Lopes Vieira.

OS MEUS QUADRANTES — II

Do fogo vital de Camões à espiritualidade etérea de Pascoaes.

OS MEUS QUADRANTES — I

Do fascínio aquático de Pessoa ao apelo telúrico de Régio.

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 5
Já aqui escrevi sobre quotidiano, como prometido, e penso ter usado q.b. de ironia, outra parte da promessa. Faltava a pitada de monarquia, e aqui está ela.
Deixei de contar as vezes que tentei escrever sobre o assunto, não por coincidência em número igual às desistências. Agora, disse a um amigo que tentaria deixar a alma falar, mas para isso é preciso que haja intérprete à altura. Os dedos e a mente podem não saber traduzir.
Um grande amigo, a propósito dos indissociáveis integralismo e monarquia, afirma que ele acordou com um duche, frio, enquanto eu tive direito a banho de imersão.
É verdade, mas é mais do que isso. A monarquia está entranhada de tal forma que faz parte de todo o meu ser. Entranhada naquilo que fui, sou e serei. Gravada nas curvas de nível imutáveis das minhas impressões digitais.
Tenho por isso enorme dificuldade em perceber a relutância de certas pessoas pela monarquia, quando ela me é tão natural e instintiva como respirar e amar.
Podia invocar argumentos políticos, económicos, culturais, que os há, até todos, mas comigo não é assim. Há quem lá chegue pela lógica, pela economia, pela tradição, pela razão. Posso também ir por aí, mas a razão é de outro teor, para mim mais funda, para outros, se calhar, incompreensível ou fútil: tem a ver com sentimentos, com afectos.
Um presidente não é meu. Ninguém diz o “meu” presidente. Nem os que nele votaram. Nem sequer dizem o “nosso” presidente. De facto, há apenas aquele momento em que votam, e imediatamente se desapegam. Não têm, nem sentem, qualquer especial ligação à pessoa.
As formas dos pronomes possessivos não querem nada com um presidente. Com o Rei sim. O Rei anda de mão dada com os pronomes possessivos. O Rei é meu, teu, seu, nosso, vosso e seu.
Ele é o país, a História, um povo, nós. Nós também o somos com ele, como foram os nossos avós e serão os nossos filhos, porque a aliança é inquebrável.
Quero acabar com este pesadelo. Quero um país de pessoas e de comunidades com voz. Quero um Rei. De preferência para ontem.
(Consegui desta?)

Leonor Martins de Carvalho

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

EIS UM BLOGUE DE UMA VERDADEIRA PORTUGUESA

Ego Quoque, de Leonor Raposo.

PARA ACABAR DE VEZ COM OS CRIMES CONTRA O PATRIMÓNIO

EIS UM BLOGUE DE UM VERDADEIRO PORTUGUÊS

Lourenço de Almada, de Lourenço de Almada.

110 SEGUIDORES

Agradeço, a todos e a cada um, o interesse revelado pelo blogue Eternas Saudades do Futuro.

PORQUE JÁ CHEIRA A PRIMAVERA



Monica Bellucci

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

PERGUNTA POLITICAMENTE INCORRECTA

Quase trinta anos depois, gostaria de saber se já são conhecidos todos os efeitos das duas explosões que destruíram um reactor nuclear da central de Chernobil, na Ucrânia, em plena União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Refiro-me, especialmente, além das mortes causadas directamente pelas explosões e pela contaminação por radiações que se seguiu, às consequências provocadas, ao longo de todos estes anos, pela nuvem radioactiva, composta por muitas toneladas de material radioactivo expelido para a atmosfera terrestre, que sobrevoou toda a Europa. Portanto, pergunto directamente:
— Até agora, por culpa de Chernobil, quantas mortes por cancro foram causadas pela precipitação radioactiva?

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

ARQUIVAR PARA RECORDAR E RECORDAR PARA VIVER

A coisa que mais aprecio no blogue é o seu sistema de arquivamento mensal. Tenho sempre a sensação de que tudo o que aqui escrevo será guardado com o objectivo de poder vir a ser relido no momento mais apropriado. Saiba o bom-senso deixar as memórias transformarem-se em suaves recordações para depois podermos usufruir delas no tempo certo. É como o acto de ir à garrafeira buscar o vinho indicado para aquele dia em especial.

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

DA TERTÚLIA GASTRONÓMICO-CULTURAL DAS QUINTAS-FEIRAS

Na sequência do último almoço dos Jovens do Restelo saiu, como é hábito, mais um desafio. Convido os leitores do Eternas Saudades do Futuro a visitarem o referido blogue e a participarem no tal concurso.

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 4
Quando se diz que uma carteira de senhora não tem fundo, é porque cabe lá tudo, sendo exactamente esse o problema. A verdade é que todas têm fundo, mesmo esta, mas não há maneira de conseguir encontrar o tal texto que tinha começado. O truque é não insistir numa procura específica. Um dia o acaso trará à tona o que quero. Assim, surgiu qualquer coisa com uma pitada de crise.
De há uns tempos a esta parte que vimos ouvindo dia sim, dia não, sermões admoestadores de um senhor Silva e de muitas outras réplicas do senhor Silva, economistas na sua maioria, sobre como os portugueses têm vivido acima das suas possibilidades.
Confesso que não me tinha apercebido desse facto, e dediquei-me de coração a elaborar um estudo aprofundado sobre o assunto na parte que me diz respeito.
Os senhores Silvas até parecem videntes e deviam concorrer com os inúmeros professores de nomes vagamente africanos que prometem mil e uma salvações em minúsculos papelinhos que distribuem à porta do metropolitano. Então não é que estava mesmo a viver acima das minhas possibilidades? Esquadrinhando despesa a despesa e saltando convenientemente a linha que continha a palavra tabaco e que até pusera em pé-de-página com letra de apólice de seguro, apercebi-me que, de facto, uma determinada área da minha vida saltava à vista desarmada, em letras grandes e florescentes, como problemática: o almoço.
Almoçar fora todos os dias gastando uma média de 8 € era sem dúvida viver acima das minhas possibilidades, e como não queria mais sentir-me incluída nos tais sermões, mudei radicalmente a minha vida, como aquelas mentes que se iluminam pelos discursos inflamados de homens vulgares erigidos a profetas glorificando os seus livros de auto-ajuda agora no topo das vendas das livrarias.
Sendo funcionária pública, retomei o antigo hábito de quando a idade era boa por ser pouca mas rimava com dificuldade: ir à cantina. Nós dizemos ir à cantina, mas na verdade, o nome oficial é refeitório. Palavra comprida demais para frases que se querem curtas no aperto dos horários e cantina até lembra escola.
Aqui perto há dois lugares à escolha, um mais “chique” do que o outro, mas o preço por uma refeição completa é o mesmo, menos de metade do que pagava apenas por um prato!
Um deles é enorme, provavelmente antiga garagem transformada em cantina. Permite um almoço mais sossegado e tem uma outra vantagem: as mesas são para quatro pessoas e as cadeiras, surpresa das surpresas, são uma espécie de baloiços. Não sei descrever à moda de manual técnico, mas em termos simples, são giratórias. Como se fosse um parque infantil à mesa do almoço, uma espécie de presente para os mais velhos, com um certo sabor a brincadeira proibida, lembrando os dias em que seus pais lhes chamavam a atenção “está quieto com a cadeira!”.
Aqui são mais os reformados que vêm, alguns desde muito cedo, sentando-se na sala de entrada à espera de serem os primeiros da fila e adoram ter motivos para chamar a atenção de quem acham que lhes está a passar à frente.
Na cantina chique, mais pequena, as mesas são corridas, há mais gente e, embora também seja frequentada por velhinhos, os mais novos estão aqui em grande número, pelo que o barulho é a condizer.
Antes de ordeira e pacientemente ir para a fila do self-service, compram-se as refeições em máquinas muito evoluídas, com ecrã táctil e uma voz de senhora num metálico irritante a dar ordens: insira o seu cartão, não retire o seu cartão, efectue o pagamento, retire o cartão, retire o troco, retire o recibo. Na cantina grande, as máquinas até têm arrumador. Um senhor que ajuda quem se atrapalha com a máquina diabólica esperando que lhe caia em sorte ou bondade uma moeda.
As funcionárias adoram ser cúmplices e sugerem o que devemos comer com acenos de cabeça, um piscar de olhos ou uma deixa apropriada.
Há os velhinhos que vêm em grupo, normalmente mulheres, antigas professoras aposto, muito bem arranjadas, às vezes até de casacos de peles e maquilhadas, sobretudo muito conversadeiras. Há os que vêm sozinhos e descobrem os outros, e os que vêm sozinhos e não querem mesmo ser descobertos.
Os que vêm de bengala ou canadianas são ajudados pelas funcionárias que lhes levam o tabuleiro até á mesa.
Há quem ache que tem aquele lugar reservado e se sente no lugar ao lado refilando entre dentes o tempo todo, em tentativa de reconquista do lugar adorado pela força da indignação expressa em palavras sussurradas.
Há, descobri hoje quando um senhor desmaiou, muita solidariedade e um conhecimento mútuo mas calado.
A cantina parece um outro mundo, paralelo, com passagem secreta atrás de portas discretas, mas é o nosso mundo. O meu e o vosso.
Deprimente? Nem tanto. É a vida.

Leonor Martins de Carvalho

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

VIDAS E OBRAS DO ROMÂNTICO SÉCULO XIX


Olympia, 1863
ÉDOUARD MANET (1832 — 1883)
Óleo sobre tela, 130,5 x 190 cm

Um olhar de 19 anos — Victorine, modelo e amante do Pintor — desafia o público burguês dos salões, e das salinhas, de Paris. O corpo nu — ou despido —, descontraído mas firme, impõe-se, como centro de uma composição, só aparentemente académica.
Aqui, a novidade encontra-se, duplamente, na forma e no tema. Não é um nu clássico, de uma qualquer odalisca, que vemos. É uma mulher mundana que nos encara. Os acessórios, adereços e figurantes são escolhidos para — por detrás de um aparente naturalismo — nos desassossegarem: as jóias sobre a nua pele branca, a flor no cabelo e as flores oferecidas, os sapatos-de-quarto anunciando o abandono de alcova, e, ainda, as desconcertantes presenças de uma criada africana — num gritante alto-contraste cromático e social — e de um gato preto eriçado — contra todas as convenções da representação dos animais domésticos na História da Pintura, qual figuração diabólica.
Em três palavras: romântico, inovador e provocador. Por outras palavras: eterno.
Confesso que esta tela me veio à cabeça porque tenho andado deliciado a ver uma extraordinária série de ficção que a BBC produziu a propósito do fascinante grupo dos Pré-Rafaelitas e que a RTP 2 exibe nos serões de Segunda-Feira. Estranhas ligações feitas pelo subconsciente. Serve portanto também esta mensagem de lembrete para me obrigar a vir aqui falar sobre a referida série Desperate Romantics. E, já agora, também vou meter a vida e a obra de Charles Dickens ao barulho. Afinal, são tudo coisas com mais ou menos dois séculos de idade e que vieram para ficar.

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

AVISO AOS LEITORES

Pedro Guedes da Silva, veterano bloguista e meu bom amigo, convidado semanal desta casa desde 15 de Fevereiro de 2011, continua impossibitado, por motivos de saúde, de escrever as crónicas para a sua coluna no Eternas Saudades do Futuro. Se tudo correr como previsto, regressará para a semana, ainda a tempo de comemorar um ano do seu «Expresso do Ocidente». Rápidas melhoras e forte abraço!

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

UM HERÓI DO PASSADO QUE TEM FUTURO

Henrique de Paiva Couceiro
(30.12.1861 — 11.02.1944)

Acabei agora mesmo, a propósito da efeméride histórica de hoje, de reler, mais uma vez, a biografia de Henrique Paiva Couceiro, escrita por Vasco Pulido Valente.
O autor não resiste a tentar apoucar, aqui e ali, o Herói Português. No entanto, o livrinho tem méritos. A saber: é mais uma achega para a criação de hábitos de leitura na área da arte da biografia; género raro em Portugal, vá-se lá saber porquê — por falta de homens interessantes no nosso passado histórico não será, certamente. Por outro lado, VPV demonstra maus fígados (fruto das libações perigosas?...) na análise que faz de certos episódios da vida e obra de Paiva Couceiro, mas até assim desperta no leitor curiosidade de conhecer o eterno capitão. Falo por mim.
Devo confessar que, estranhamente, na idade do culto dos heróis — nacionais e outros —, sendo eu já monárquico militante, nunca coloquei Paiva Couceiro no meu altar de santos, heróis e sábios. E hoje, na maturidade da meia idade, já sei identificar a causa da coisa: cá para mim, Mouzinho de Albuquerque ocupava, em toda a plenitude, o lugar que outros reservavam a Couceiro. Continuo fiel a Mouzinho, mas este livrinho deu-me uma enorme vontade de partir à (re)descoberta de Henrique de Paiva Couceiro — homem de fé profunda e carácter férreo. Características estas caídas em desuso, e que devem incomodar bastante os intelectuais a que hoje temos direito; os quais, no que diz respeito a consistência de valores e personalidade, são, em geral, pouco mais do que gelatina.
Leia-se, pois.

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 3
Estava a escrever um texto e cometi o imperdoável erro de o voltar a pôr na carteira. Quando, a medo mas esperançosa, voltei a lá enfiar a mão para o recuperar, saiu outro. Previsível… Logo por azar, muito feminino.
É linda a calçada portuguesa, pois é. Original e tudo. Very typical, dizem os turistas de fim-de-semana. Só mesmo quem não tem de a calcorrear todos os santos dias. Claro que também gosto, da sua beleza, por ser diferente e até pela cor. Combina com a nossa luz e sobretudo com a de Lisboa. Ao menos temos uns passeios que de cinzentões não têm nada.
Há sempre um “mas” à nossa espera ao virar da esquina, e este vem informar que a calçada tem os seus pequenos senãos. O principal resulta de já não haver calceteiros à altura. Hoje as pedras são postas com pouco cuidado, já não ficam bem juntinhas, e a calçada não é batida convenientemente, porque é preciso despachar a obra, porque há que poupar nas horas de trabalho que são caras, porque a empreitada tem de cumprir o prazo (o tal que nunca é cumprido na mesma) …
Outro grande óbice à sua perfeição é a quantidade de vezes que se abrem buracos num passeio. Nos mesmos sítios. Quando se refaz uma calçada, mesmo se mal feita, está linda, direitinha, os sapatos até pedem para a estrear. Nem uma semana passou e está a empresa do gás a abrir um buraco. Aquelas obras em que para um metro quadrado de área são precisos, no mínimo, uns quatro trabalhadores, um para dar uso à picareta e os outros três para uma espécie de apoio moral, amálgama de ordens, conselhos e palavrões. As suas posições relativas vão alternando consoante o instrumento de trabalho que se segue. Ao fechar-se o buraco, nasce a primeira lomba naquele até então bem nivelado passeio de calçada à portuguesa.
Eis senão quando, a empresa da água lembra-se de um cano que tem de ser substituído precisamente no mesmo metro quadrado. Os trabalhadores não são os mesmos, mas a história é. Vede senhores como a primeira lomba se transforma em duas.
É preciso continuar? Um ano depois, o produto final é uma calçada à portuguesa à moda da Serra da Estrela, com montanhas, picos e vales. Quando chove o postal fica completo com os lagos.
Temos ainda a originalidade de passeios com declive lateral, como nos autódromos, em direcção à rua, perfeitos para testar a aderência das solas.
Finalmente, quando chove, abordar uma descida com mais de 20 graus de inclinação, mesmo nada rara em Lisboa, é suicídio. Parece que alguém concebeu um plano para encher as urgências dos hospitais que devem estar pelas ruas da amargura, essas que não têm passeios com calçada à portuguesa.
Perante este verdadeiro circuito de corta-mato citadino, como é possível a uma mulher que acabou de comprar aqueles sapatos de salto alto de sonho, ter o andar elegante que lhe é prometido em todas as revistas femininas, se o dito salto se enfia precisamente, em cada um dos interstícios das pedras, esvaziados de terra com as primeiras chuvadas? Não há elegância possível em pés que a cada dois segundos se viram lateralmente, em sentidos opostos, proporcionando uma estranha visão de corpo retorcido na quase-queda e novamente retorcido no retomar do equilíbrio, resultando num caminhar a soluços.
Confesso que já caí. Humilhação completa, porque logo olhares trocistas me avaliaram sem hesitar como “aquela que não sabe andar de saltos altos”.
Realmente as mulheres portuguesas são extraordinárias. Caminhar de saltos altos nesta calçada é equivalente ao trilhar de mares desconhecidos pelos navegadores. Se organizarem o campeonato mundial aqui, ganhamos.
O pior inimigo da mulher portuguesa não é, ao contrário do que possa parecer, o homem português. É outra fêmea, também portuguesa: a calçada.

Leonor Martins de Carvalho

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

BLOGUES VERDADEIRAMENTE MONÁRQUICOS (2)

BLOGUES VERDADEIRAMENTE MONÁRQUICOS (1)

AINDA O SENTIDO DA VIDA

Muitos continuam a procurar a felicidade numa caldeirada New Age. E o Catolicismo — este sim Universal — aqui tão perto.

DO SENTIDO DA VIDA

Não nos deixemos iludir com os Direitos do Homem, saibamos cumprir — isso sim — os Deveres do Homem.

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

DO FUTURO DA NAÇÃO PORTUGUESA


Depois de muitas tentativas de activismo — partidos, movimentos, associações, etc. —, algumas delas com bons resultados registados no combate político e das ideias, todas devedoras — directa ou indirectamente — do Pensamento e da Acção do Integralismo Lusitano, parece-me finalmente estar a surgir uma nova geração de pensadores monárquicos, que, se tudo correr bem, será a dos doutrinadores de amanhã, e insuflará fundamentos teóricos a uma juventude sequiosa de acção — nas escolas, nas universidades, nas empresas —, com vista à futura Restauração. Esta não se limitará a colocar uma coroa na cabeça de alguém, mas irá restaurar os Valores sobre os quais se edificou Portugal, e que estão consagrados por 900 anos de sangue derramado por Deus e pela Pátria; e, mais ainda, terá de refazer uma comunidade tradicional orgânica, apropriada para os dias de hoje, preparada para enfrentar os problemas internos e externos, como Portugal sempre fez, muitas vezes na vanguarda — espiritual, militar, estética, política — do Mundo.
Não se trata, portanto, de mudar apenas de regime, mantendo o sistema. Não. Mude-se, primeiro, o sistema e depois aclame-se o Rei, como a Tradição ensina e sempre foi praticado. As forças vivas da Nação real, reunidas em Cortes (cabe aos pensadores definir exactamente a sua futura composição), traçarão o caminho para o País, pois são as Cortes a mais perfeita expressão total do Estado, isto é, da comunidade nacional orgânica. A saber: das Famílias portuguesas (que constituem a Pátria), das Comunidades locais (organizadas em Províncias e Municípios), da Inteligência (representada pelas Escolas, dos vários tipos e níveis de ensino, e pelas Associações Culturais) e do Trabalho (as Empresas, com patrões e empregados em paridade, e as Associações de Profissionais Independentes); e, por consequência, devem ser as Cortes a definir, em prol do Bem Comum, como sempre fizeram, o rumo da Nação Portuguesa.

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

ANTES DE RESTAURARMOS A MONARQUIA É NECESSÁRIO REFUNDARMOS A NAÇÃO

Não andando eu com muito tempo, nem pachorra, para escrever sobre certos assuntos, remeto os meus leitores para a seguinte mensagem, do meu confrade e amigo Humberto Nuno de Oliveira, com a qual me identifico totalmente e portanto assino por baixo: «A Minha Razão».

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

SÉRIE DE PEQUENAS NOTAS DE LEITURA (1)

O Prazer da Leitura, de Marcel Proust, é um livro sobre livros.
Proust parte das sensações propiciadas pela leitura e acaba formulando um elogio dos Clássicos. O autor da monumental obra que inaugura o romance moderno dá-nos a sua pessoalíssima visão da História da Literatura. Tudo isto num delicioso volumezinho que se consome de um só fôlego. Ensaio feito por um homem culto, e não um erudito, que aqui é conciso nas referências a obras e escritores. Porém, deixa-se divagar, pintando o retrato — com as cores das suas memórias pessoais — duma infância iniciática nestas coisas da bibliofilia. Por isso, este livro se consome de um só trago, como um shot; e, depois, sobe, como estes, provocando-nos variadas experiências. Leva-nos por caminhos sedutores e seguros, ora sensoriais — apelando às nossas próprias recordações, a partir das suas —, ora racionais — todos eles pontuados por referências bibliográficas, devidamente explicadas —, fazendo-nos assim finalmente chegar ao (seu) porto de abrigo: os Clássicos, relidos e reescritos pelos Românticos.

LER, PENSAR, ESCREVER E PARTILHAR

Tenho como marcadores de livros, desde há muito tempo, velhas fichas de bibliotecário (ditas «catalográficas»). Pergunto-me se, nesta era da informática, ainda serão utilizadas nas bibliotecas. São pequenas cartolinas rectangulares brancas, pautadas longitudinalmente, de 10 x 15 cm, feitas para caberem em gavetas de arquivo. As minhas encontram-se hoje, todas elas, amarelecidas pelo tempo. Por mais voltas que dê à cabeça, não consigo lembrar-me quando e onde as arranjei. Não lhes atribuo a função para a qual foram desenhadas. Atraído pela sua forma, ponho-as dentro dos livros, como já confessei. E uso-as também na qualidade de folhas de apontamentos. Serve esta divagação para dizer aos meus leitores que começarei aqui finalmente a publicar em breve uma outrora prometida série de postais com base nas notas que tomei nessas fichas aquando da leitura dos volumes que as acolhem.

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 2
Até podia aproveitar a maré das efemérides desta semana para uma alfinetada monárquica. Contudo, tal como os nossos antepassados aprenderam a navegar à bolina para chegar a bom porto, decidi ir contra o vento. Afinal nem tinha outra hipótese, pois nesta carteira, gémea de todas as outras, o aleatório é quase comandante. Nunca se encontra o que se quer e sai sempre o inesperado.
Parafraseando os saudosos Monty Python, passemos então a algo completamente diferente: “os políticos”. Queixamo-nos todos os dias dos políticos em geral e de muitos em particular. Que fazer? Haverá solução? Será que ligeiras alterações à sua carreira fariam alguma diferença? É mesmo o que proponho, ligeiríssimas alterações.
Todos os aspirantes a uma carreira na política, seriam obrigados a passar por uma série de provas. À moda dos Jogos sem Fronteiras, lembram-se? Para que o povo conhecesse bem os futuros políticos, as provas seriam televisionadas e apresentadas pelo Eládio Clímaco, que tem a experiência requerida.
Deixo aqui dois singelos exemplos:
1. Viver um mês numa aldeia isolada.
Pode ser em Trás-os-Montes, Beiras ou Alentejo, tanto faz.
A preferência seria por uma aldeia num vale recôndito, sem rede de telemóvel nem de Internet, nem sequer acesso à novíssima TDT. Ficariam a 20 km de outra aldeia e a 50 km da vila mais próxima, através de belíssimas estradas com curvas a cada 5 metros e com espaço suficiente para passar um Mini.
Os candidatos receberiam a reforma mínima, não tinham direito a automóvel e teriam de fazer a vida de uma família normal: ir para o trabalho, às compras, ao médico, à escola, à Câmara, ao tribunal (antes ainda do novo mapa judiciário).
O júri era constituído por habitantes locais com fama de incorruptíveis, que se encarregavam de verificar se não havia batotas.
2. Viver em ambiente urbano sem automóvel, num qualquer subúrbio de Lisboa.
Pode ser Seixal, Stª Iria de Azóia ou Algueirão, tanto faz.
Nesta prova, com o pecúlio aumentado para o salário mínimo, teriam de descobrir que tipo de passe comprar, as ligações e transbordos necessários, e depois ir para e voltar do trabalho à hora de ponta, bem como efectuar percursos em horário nocturno e em fim-de-semana.
Também aqui se poderia recorrer a habitantes locais como jurados, mas um concurso para voluntários controladores não era má ideia, desde que fossem revistados antes, para evitar vinganças privadas.
Os sobreviventes a estas provas e mais algumas outras, elaborariam a final um relatório, que, para testar a sua capacidade de síntese, não poderia exceder uma folha A4, com as suas impressões, pontos fortes e fracos e currículo completo, anexando carta de motivação, sobre o tema “Ser político é servir”. Esta seria a base da entrevista, onde seriam testados ao limite, ligados a um polígrafo.
Talvez assim os futuros políticos consigam perceber a diferença entre o mapa no gabinete e a vida real. Talvez assim, cada vez que tomam decisões, se lembrem das pessoas. Talvez assim conheçam o povo, o ouçam, nas suas queixas e nas suas histórias, e aprendam o que é solidariedade.
Acredito que as provas tornariam os futuros políticos melhores pessoas e por isso melhores políticos. Caso contrário, seriam casos perdidos, que deviam ser banidos de cargos públicos ou exportados para melhorar a balança comercial. Não muito, porque o seu valor é baixo.

Leonor Martins de Carvalho

COISAS IMPORTANTES DAS QUINTAS E DAS SEXTAS

Almocei com a tertúlia gastronómico-cultural das Quintas-Feiras e desafio os meus leitores a acertarem nos livros que cada um dos membros levou. Basta clicar aqui.
E agora deixo-vos com a convidada das Sextas-Feiras cá da casa. É já a seguir.

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

INTERLÚDIO ARTÍSTICO

Perguntam-me por que razão não publico aqui fotografias da minha autoria, não sendo eu representado por nenhuma galeria neste momento. A resposta é simples: este blogue não é um blogue de fotografia. Para esse efeito surgirá em breve um site pessoal com o objectivo único de mostrar a minha criação em vídeo e fotografia. Lá serão publicados os vídeos que realizei desde 1987 e as fotografias que fiz desde 1997, independentemente de os primeiros já terem sido exibidos e de as segundas já terem sido expostas. A partir desse sítio levantarei também o véu sobre os projectos que estou a desenvolver actualmente na área do vídeo e da fotografia, e que serão apresentados este ano em local a anunciar. Obrigado a todos os que perguntaram, pelo interesse demonstrado.

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

PINTURA DE UM ARTISTA ASSASSINADO

O Sobreiro, 1905
D. CARLOS DE BRAGANÇA (1863 — 1908)
[D. Carlos I, Rei de Portugal]
Pastel sobre Cartão, 177 x 91 cm
Palácio Ducal — Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, Portugal.

DIA DE LUTO NACIONAL


Há exactamente 104 anos assassinaram o Chefe de Estado de Portugal — S. M. F. El-Rei Dom Carlos I — e o seu Filho — Príncipe Real Dom Luís Filipe. Não escrevo. Nem trabalho. Vou passear ao Sol, apanhar ar e ver as vistas. São as únicas coisas que ainda se aproveitam neste desgraçado, triste e miserável País.

Adenda: Como já vem sendo hábito, o 1.º de Fevereiro pôs-se um dia cinzento. Há sinais assim. Deus não dorme.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

PARABÉNS PELOS SEUS CEM ANOS DE VIDA!