sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ROMANCE PARA O FIM-DE-SEMANA

Um Estranho Encontro, Ernst Jünger, Difel, Lisboa, 1987.
Romance escrito aos 89 anos de idade por um autor que supera qualquer adjectivo possível para o qualificar. Quem não conhece a sua obra, pode começar por este livro. Às vezes, ler certas bibliografias do fim para o princípio ajuda a cativar e faz-nos chegar à raiz dos temas que habitam o imaginário dos escritores de uma forma mais profunda. Penso que este método se pode aplicar com vantagem a Jünger, que atravessou todo o século XX com a sua vida e obra. Esta edição portuguesa tem tradução de Ana Maria Carvalho e revisão literária, posfácio e notas de Rafael Gomes Filipe. Leia-se, pois.     

PORTUGAL PERMANECE NAS PALAVRAS DOS SEUS POETAS

Com o poeta em mente, vou à estante dos poetas, tiro um livro de poesia, escolho um poema e sento-me ao computador a passá-lo. As costas ficam num oito e os olhos queimados pela artificial luz do ecrã desta danada máquina. Porém, depois duma trabalheira não remunerada e consequente inglória canseira, como esta, volta e meia, acontece-me ter recompensadoras surpresas, que me dão a agradável sensação de missão cumprida: por exemplo, agorinha mesmo, e não foi a primeira nem a segunda vez que aconteceu, acabei de receber um mail pedindo-me informações sobre um poeta aqui publicado, do qual o remetente nunca tinha ouvido falar. Pois, pudera, este agora pequeno e pobre País não está para Poetas! Principalmente para os Poetas que sempre puseram a Pátria acima de tudo!

TUDO

Em surdina chegaste
E em surdina te vais:
— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!
E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses
— Por nada!

AMÂNDIO CÉSAR
(1921 — 1987)


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SOMBRA

No cimo dum rochedo hostil e obscuro,
Eu náufrago há que tempos, muitos anos,
Espero algum navio nos oceanos
Descobrir, lento e longe, quase obscuro.
Quando passa, afinal, o que procuro,
Lento e longe esvaindo..., quase ufanos
Os maus braços levanto, em surto abano-os,
A chamá-lo, esse vulto de futuro!
Mas ele passa ao largo, lento e longe,
Solitário e tristonho tal um monge,
Na distância esfumando os traços frios.
Madrugada. Nem sol e nem tormentas.
Ao rochedo, só águas vêm, lentas,
Que roçaram as quilhas dos navios.

FLORENTINO GOULART NOGUEIRA
(1924  — )

MONARQUIA REALISTA

A Monarquia Portuguesa tem um Rei que governa, à frente dum governo escolhido e presidido por ele próprio, é hereditária, católica, nacional, patriótica, tradicionalista, orgânica, e tem Cortes Gerais, com poderes consultivos e deliberativos, sendo compostas pelos representantes eleitos de todas as corporações (associações profissionais) e regiões (províncias e municípios). Simples e eficaz. Foi assim no passado, durante sete séculos a fio (de 1128 a 1834), e voltará a ser assim no futuro; ou então não valerá a pena restaurá-la. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

ONDE A TERRA SE ACABA E O MAR COMEÇA

Onde a terra se acaba e o mar começa
É Portugal;
simples pretexto para o litoral,
verde nau que ao mar largo se arremessa.
Onde a terra se acaba e o mar começa
a Estremadura está,
com o Verde pino que em glória floresça,
mosteiros, castelos, tanta pátria ali há!
Onde a pátria se acaba e o mar começa
há uma casa onde amei, sonhei, sofri;
encheu-se-me de brancura a cabeça
e, debruçado para o mar, envelheci...
Onde a terra se acaba e o mar começa
é a bruma, a ilha que o Desejo tem;
e ouço nos búzios, 'té que o som esmoreça,
novas da minha pátria — além, além...

AFONSO LOPES VIEIRA
(1878 — 1946)

PORTUGAL É GRANDE

Portugal é grande,
cai co'a alma doída,
mas a mudança pedida avança,
e renasce a terra caída
— da lembrança havida
cria-se, ainda criança,
a lusitana, antiga verdade.
Cai, co'a alma dorida,
mas cresce e avança, sentida,
a perdida esperança.

JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO
(1942 — )

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SÉTIMA ARTE À SEGUNDA-FEIRA

A expressão «Sétima Arte» anda na boca de toda a gente. Falemos, então, sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.

Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) quem baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), sedeada em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des sept arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.

Se, por esta altura, os meus leitores já perceberam que estamos perante um teórico da Arte, não estranharão saber que Canudo lança, em 1923, o Manifeste des Sept Arts, após uma série de outros textos preparatórios, o primeiro dos quais data de 1908; e, num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.

Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é — antes de tudo — Arte.

Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa (ou debate, como agora se diz) em aberto, pois isso representa um sinal da vitalidade dos nossos pensadores. Para este escritor italiano do século XX, as Sete Artes são: Arquitectura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema. Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.

É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».

Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.

Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação ao vivo de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direccção artística, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.

Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!

É, portanto, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética. E, acima de tudo, aquela que, incorporando todas as outras, melhor transporta o nosso Património histórico, estético e cultural — projectando-o no futuro —, através da permanente reformulação e actualização das ancestrais e intemporais narrativas da nossa matriz identitária.

Haja sempre cineastas portugueses à altura desta missão universal.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

REFLEXÕES PARA A CRIAÇÃO DUMA RENOVADA E GRANDE EUROPA

Todo o mundo já percebeu que a desunião europeia que nos desgoverna, e nos faz a vida negra, está por um fio. Também toda a gente já pressentiu que os povos europeus vão passar a escolher de forma livre e consciente, muito em breve, pessoas patriotas para liderar e governar, como deve ser, os seus diversos países. Digamos que o que estamos a assistir na Grécia é, apenas, uma antecâmara e um anti-clímax do que se aproxima a passos largos. Escusado seria acrescentar que os políticos do sistema e os seus papagaios de serviço nos meios de comunicação para enganar as massas, formatados ainda, uns e outros, no já morto e enterrado marxismo cultural, estão completamente a leste do busílis da questão.
É portanto chegada a hora de construir uma Europa a sério; e, nesse sentido, para assegurar uma verdadeira e sólida Aliança entre os vários futuros renovados Estados do Continente Europeu, há que criar rapidamente uma Ideia que seja uma Síntese transcendente e superadora dos contrários. Esta nova Doutrina terá de levar em conta o actual mapa-múndi geopolítico — perigosíssimo, porque pleno hoje de estranhos actores não-convencionais — e deverá ser elaborada por pensadores com sólidas bases ideológicas e apurada visão geoestratégica, a fim de poder ser aplicada globalmente, num quadro de realpolitik, no interesse de todas as Nações europeias mas unicamente em nome da renovada  e grande Europa.    

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

OS POETAS DA PÁTRIA NÃO MORREM: RODRIGO EMÍLIO (1944 — 2004)

— Tu conheces bem a História...
— Sou Tradicionalista, do ponto-de-vista Histórico.
— Afinal, não estás agarrado à cultura da tourada e do fado...
— Sou Vanguardista, do ponto-de-vista Cultural.
— Como é que consegues ser desprendido das coisas materiais?
— Sou Aristocrático, do ponto-de-vista Espiritual.
— É estranho... Tens referências de que eu gosto...
— Sou Cosmopolita, do ponto-de-vista Estético.
— Mas tu não és pelos ricos e contra os pobres?
— Sou Justicialista, do ponto-de-vista Social.
— Eu pensava que tu eras conservador...
— Sou Revolucionário, do ponto-de-vista Ontológico.

Diálogo imaginário, em que crio as perguntas e transcrevo, sob a forma de respostas, a famosa declaração de princípios de Rodrigo Emílio. Evoco assim, desta respeitosa e pessoalíssima maneira, a sua Memória, no dia dos 71 anos do seu nascimento.