O QUE É QUE LISBOA TEM EM NOVEMBRO?
Lisboa em Novembro tem uma límpida e subtil luz sob a qual se revela a beleza, inteligência e cultura das mulheres que habitam hoje a milenar e misteriosa cidade.
Lisboa em Novembro tem uma límpida e subtil luz sob a qual se revela a beleza, inteligência e cultura das mulheres que habitam hoje a milenar e misteriosa cidade.
Embora prezando ambos bastante o valor da identidade nacional, um culto cavalheiro português e um culto cavalheiro francês (ou inglês, alemão, italiano, etc.) sentem mais afinidades entre si do que com a ignorante gente dos seus próprios países.
Este terrível facto é mostrado magistralmente por Jean Renoir na sua obra-prima La Grande Illusion e embora apresentado de forma subliminar constitui cá para mim o tema principal da fita.
A frivolidade é uma arma das mulheres inteligentes. A futilidade é uma sina das mulheres indigentes.
O azul é nobreza e o encarnado realeza. Historicamente é um facto e esteticamente perfeito. E contudo tem na sua origem uma explicação prosaica: o azul usado pelos pintores era feito do caro e raro lápis-lazúli e reflectia a riqueza do retratado ou do patrono da obra, que à época seria portanto necessariamente de classe nobre; o encarnado, em especial o púrpura, alcançado a partir de dois valiosos e misteriosos pigmentos, só era à partida acessível materialmente a reis, e, como tal, ficou para sempre associado a estes.
Medite-se na vida do santo, comam-se castanhas e beba-se vinho.
Sempre gostei da aliança ente sagrado e profano!
Stendhal afirmou que o olhar é a grande arma da coquetterie virtuosa. Com este mesmo espírito devem ser aplicados os olhos na contemplação das obras de arte, diga-se en passant. E não se pense que isto significa ver menos. Antes pelo contrário. Ensinam mesmo a literatura e a vida que, disfarçado de observação superficial e frívola, o olhar das coquettes (intérpretes superiores do referido método) alcança a compreensão intuitiva das coisas e toca em profundidade a alma das pessoas.
Espanto-me ao constatar através do contador do blogue que a maior parte das muitas pessoas que visitaram o Eternas Saudades do Futuro durante o passado mês leram posts sobre genealogia. Aliás, no top dos mais lidos destes quase 20 anos de aventura, as publicações sobre essa matéria continuam nos lugares cimeiros. Assim, volto a comunicar que entretanto criei um blogue monotemático para tratar desses assuntos e transcrevi para lá todos os meus trabalhos que aqui divulguei bem como é ali que passei a publicar exclusivamente todos os novos estudos que tenho desenvolvido. Façam pois o favor de clicar na seguinte híper-ligação: Da Genealogia.
Meio a sério meio a brincar, que é como as coisas que contam devem ser feitas, e contando com algumas colaborações amigas sob a forma de sugestões, reparti o «Acerca de mim» no perfil do Blogger em 31 partes (como nas velhas e belas fitas da Sétima Arte!). Desafio divertido agora será criar um heterónimo para cada um dos itens.
À medida que a vida avança, vou trocando o convívio com as pessoas pela intimidade com os livros. Será a idade da sabedoria a chegar ou apenas uma fase de misantropia? Contudo, contrariando esta tendência e tentando conciliar as coisas, e seguindo o meu velho impulso para lançar pontes entre iguais e fazer sínteses de ideias, pretendo fundar finalmente o - por mim há muito imaginado e anunciado - Clube dos Bibliófilos com Biblioteca. Espero que esta tertúlia venha a ter existência tão longa e proveitosa quanto a do Clube dos Amigos da Sétima Arte, a qual já vai em 21 anos bem contados e melhor passados!
Há uma boa dúzia de anos, bebia uma imperial de fim de tarde na esplanada sobre a praia quando reparei no velho banheiro sentado no muro sobre a mesma com um pequeno grupo de antigos companheiros de faina marítima que o tinham vindo visitar.
De entre eles, há um que, em tom desconfiado, atira:
-- Ouve lá, eles aqui tratam-se todos por tio e tia!?...
O velho banheiro, que tem sempre réplica para tudo, mesmo quando não sabe a resposta, abarca toda a praia com um grande gesto e remata:
-- É que eles aqui são todos primos.
Lembro-me que lancei uma gargalhada interior, selada com um golo de deliciosa cerveja gelada.
Passado todo este tempo, fruto das minhas consabidas investigações histórico-genealógicas, estou em condições de afirmar (salvo uma ou duas excepções, as quais, como é consagrado, confirmam a regra) o seguinte: naquela famosa praia do Oeste, as famílias que lá veraneiam, acantonadas desde sempre em toldos e barracas, são, de facto, mais ou menos remotamente, parentes entre si; e, mais interessante ainda, além de outras ligações, todas entroncam em antepassados comuns daquela zona da histórica província da Estremadura.
Porque sei que aqui vêm dar muitos pessoas (historiadores, genealogistas profissionais e amadores, parentes mais ou menos próximos, etc.) à procura dos estudos genealógicos que vou fazendo nos tempos livres por carolice mas também com algum espírito de missão pessoal e familiar, indico de seguida o blogue onde publico os resultados dos referidos hercúleos trabalhos: Da Genealogia.
Certa vez, vai para trinta anos, numa turma de cinema contaminada pelas americanadas das salas multiplex dos centros comerciais e pelo lixo televisivo, perguntei o que pensavam sobre o cinema francês. Uma aluna, fora do baralho, pôs a mão no ar e, perante o espanto e a admiração geral, respondeu:
-- Eu gosto, porque nos filmes franceses as personagens são como eu e fazem as coisas que eu faço.
Esta resposta vale por mil teses sobre a matéria.
O coração da bela aristobeta oscilava entre dois pretendentes: o simples agrobeto e o sofisticado artistobeto.
Entrámos no meu querido mês de Outubro. Chegou doce e morno, como sempre. As outonais flores do cabeçalho do Eternas Saudades do Futuro devem portanto estar quase a aparecer ao vivo e a cores nas árvores de certas históricas artérias de Lisboa. Momento ideal para dar diletantes passeios contemplativos, em jardins secretos, com pessoas iniciadas nestas matérias estéticas. Tempos de luz dourada. Coisas do espírito e da alma.
Exponho em casas outrora vividas mas agora desabitadas para poder habitá-las de novo com imagens de personagens femininas por mim propositadamente construídas e fotografadas para este efeito.
Actualizei o meu perfil no Blogger após o douto parecer sobre a matéria dado pelo meu advogado de direitos de autor e propriedade intelectual.
O recém-terminado mês foi aquele com mais visualizações (23.798) de sempre do blogue.
Iniciei Setembro -- mês de reencontros e recomeços -- da seguinte deliciosa forma: durante o dia, aproveitando a boa luz solar de Lisboa, a ler Lawrence da Arábia, de Robert Payne, e durante a noite a ver na televisão em directo de Nova Iorque pela madrugada dentro as partidas de Ténis das sessões nocturnas do US Open em Flushing Meadows, Queens (bairro consagrado à nossa Catarina de Bragança).
Ambas as actividades, e respectivas temáticas e problemáticas, têm mais em comum do que se possa, à primeira impressão, pensar.
Sabem bem os meus leitores, começando pelos da primeira hora, que optei há muito por vir para férias sem livros. Conhecem também a razão: neste lugar, onde, segundo Ramalho Ortigão escreveu com espanto, no seu maravilhoso livro As Praias de Portugal, «olhando-se para dentro das casas, até para as do povo, avistavam-se livros em estantes» (citei de cor), existem vários sítios, mais ou menos secretos, onde se podem adquirir livros de qualidade, em segunda-mão, por módico pecúnio. Calhou pois este Verão saltar-me à vista e vir ao meu encontro o tão sensual quão existencial romance Mulheres, de Charles Bukowski, num simpático volume. Nunca tendo eu lido a referida obra, nem nesta edição nem noutra qualquer, senti um misterioso déjà vu ao devorá-la, quase de um só fôlego, na barraca da praia durante o dia e depois em casa pela noite dentro. E bem me lembro que mesmo em plenos acelerados anos 80 e 90 do século passado, onde se liam muitos livros e viam muitos filmes, num ritmo en passant, com muitas e desvairadas gentes, fiquei-me pelo livro A Sul de Nenhum Norte, do referido autor, e pelo filme Barfly, sobre o mesmo escritor. Recordo-me até que à época senti claramente que não era chegada a hora de mergulhar na sua obra toda. Há, de facto, um tempo para tudo. É agora.
Já se sabe que a Ericeira é uma vila com especial ligação às belas-letras (e às belas-artes também). Porém, que se saiba, há apenas um grande romance português -- de um dos maiores escritores portugueses, por sinal -- cuja acção decorre integralmente nesta mística terra: Tristezas à Beira-Mar, de Manuel Pinheiro Chagas. Leia-se, pois.
Já aqui atrás em tempos referi a sábia observação de cariz sociológico do grande escritor e dandy Ramalho Ortigão a propósito do lugar onde veraneio; e, na sequência disso, não posso deixar de recordar, e de confessar até, que é a seguinte certeira frase (a qual pode ser lida na badana da capa do livro Ericeira - uma fotobiografia, de José Constantino Costa, com esquissos de Rui Pinheiro, Mar de Letras Editora, Ericeira, 2004) que melhor traduz o meu mais íntimo sentimento em relação a esta mística terra: «A Ericeira não tem banhistas, tem devotos». O grande historiador e comunicador José Hermano Saraiva dixit.