domingo, 7 de fevereiro de 2016

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [8.º AVÔ JERÓNIMO]

Jerónimo Moreira de Carvalho
(Estremoz, c. 1673 — c. 1748) 

Médico, Cirurgião e Escritor.

Formado em Medicina pela Universidade de Coimbra (1697).
Bacharel e Licenciado em Artes pela Universidade de Coimbra (1692 e 1694).
Médico dos Exércitos da Província do Alentejo.
Físico-Mór da Gente de Guerra do Reino do Algarve.
Compôs uma misteriosa massa com que curou várias doenças.
Deve-se a ele o primeiro tratamento para problemas da uretra.
Escreveu e traduziu vários livros de Medicina, História e Romances de Cavalaria.

Bibliografia e Arquivos:
Dicionário Bibliográfico Português. Estudos Aplicáveis a Portugal e ao Brasil, Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Imprensa Nacional, Lisboa, 1858-1923.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
Estremoz e o seu Termo Regional, Marques Crespo, Edição Fac-similada — Centro Social Paroquial Santo André —  Estremoz, Vila Viçosa, 1987 (2.ª edição).
Gazeta de Lisboa, N.º 7, 18 de Fevereiro de 1723.
Arquivo da Universidade de Coimbra.
Arquivo Distrital de Évora.
Arquivo Distrital de Portalegre.

Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta síntese biográfica sobre Jerónimo Moreira de Carvalho).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

SURREALISTA E TUDO!

Rapto na Paisagem Povoada, 1946
ANTÓNIO PEDRO
(1909 — 1966)
Óleo sobre tela
121 x 122 cm
 
Recordando o muito nosso surrealista, no ano em que passam cinquenta anos sobre a sua morte física, com uma sua pintura de há setenta anos. Nunca ninguém se lembra dele. Porque será?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CULTIVANDO O TRADICIONALISMO EM SOCIEDADE

«Quem não aparece, esquece», diz, sabiamente, o nosso povo. Circunstâncias obrigatórias várias, de braço dado com outras tantas energias convergentes, ou apenas acasos, fizeram-me reaparecer em algumas ocasiões sociais, e aí retomar conversas interropidas há muitos anos; contrariando, desta maneira, uma tendência misantrópica que se vinha agravando ao longo dos últimos tempos. Assim, uma das mais recentes actividades a que compareci, foi o lançamento dum interessante livro, num antiquíssimo clube privado (só para cavalheiros). Mais uma vez, reencontrei figuras — desta feita, eminentes — que marcaram os meus anos de formação intelectual, e recordei factos de combates político-culturais pelos meus valores de sempre. No meio das meias-tintas em que subvivemos, ainda há Grandes Senhores em Portugal. Distinguem-se pela sua capacidade de fazer corar os conservadores e empalidecer os progressistas. Chamam-se: Tradicionalistas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SANTO DO DIA

S. João de Brito (1.3.1647 — 4.2.1693). Mártir.
Missionário Lisboeta no Ultramar Português.

Aproveite-se a maravilhosa pausa pós-prandial deste luminoso dia para ler o delicioso livrinho sobre a sua fascinante Vida: João de Brito — Herói da Fé e do Império, de João Ameal.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

VIDAS E OBRAS DO ROMÂNTICO SÉCULO XIX

Olympia, 1863
ÉDOUARD MANET
(1832 — 1883)
Óleo sobre tela,
130,5 x 190 cm

Um olhar de 19 anos — Victorine, modelo e amante do Pintor — desafia o público burguês dos salões, e das salinhas, de Paris. O corpo nu — ou despido —, descontraído mas firme, impõe-se, como centro de uma composição, só aparentemente académica.

Aqui, a novidade encontra-se, duplamente, na forma e no tema. Não é um nu clássico, de uma qualquer odalisca, que vemos. É uma mulher mundana que nos encara. Os acessórios, adereços e figurantes são escolhidos para — por detrás de um aparente naturalismo — nos desassossegarem: as jóias sobre a nua pele branca, a flor no cabelo e as flores oferecidas, os sapatos-de-quarto anunciando o abandono de alcova, e, ainda, as desconcertantes presenças de uma criada africana — num gritante alto-contraste cromático e social — e de um gato preto eriçado — contra todas as convenções da representação dos animais domésticos na História da Pintura, qual figuração diabólica.

Em três palavras: romântico, inovador e provocador. Por outras palavras: eterno.

Confesso que esta tela me veio à cabeça porque tenho andado deliciado a rever uma extraordinária série de ficção que a BBC produziu a propósito do fascinante grupo dos Pré-Rafaelitas e que a RTP 2 exibiu em tempos nos serões de segunda-feira. Estranhas ligações feitas pelo subconsciente. Serve portanto também esta mensagem de lembrete para me obrigar a vir aqui falar sobre a referida série Desperate Romantics. E, já agora, também irei meter a vida e a obra de Charles Dickens ao barulho.

Afinal, são tudo coisas com mais ou menos dois séculos de idade e que vieram para ficar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A LIÇÃO DA TERRA E DOS MORTOS

Metido que ando em trabalhos de investigação genealógica sobre os meus antepassados, com vista à publicação de um livrinho para consumo essencialmente familiar, chego a uma conclusão — na linha do pensamento de Maurice Barrès e António Sardinha — límpida e cristalina: é com a terra e com os mortos que mais temos a aprender nesta vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

AFINIDADES ELECTIVAS

Quando as conversas entre pessoas que não se encontram há anos começam como se tivessem sido interrompidas no dia anterior, estamos perante uma comunhão espiritual só acessível a amigos que se fizeram nos tempos puros da desinteressada e desinteresseira — mas mil vezes interessante — idade da adolescência.

domingo, 31 de janeiro de 2016

SLOW DA SÉRIE «QUEM ME DERA TER OUTRA VEZ 18 ANOS» [5]


SLOW DA SÉRIE «QUEM ME DERA TER OUTRA VEZ 18 ANOS» [4]


SLOW DA SÉRIE «QUEM ME DERA TER OUTRA VEZ 18 ANOS» [3]


SLOW DA SÉRIE «QUEM ME DERA TER OUTRA VEZ 18 ANOS» [2]


SLOW DA SÉRIE «QUEM ME DERA TER OUTRA VEZ 18 ANOS» [1]


sábado, 30 de janeiro de 2016

DA COMUNICAÇÃO NA INTERNET

Dou mais uma vez uma explicação aos meus amigos que simpática e repetidamente me têm convidado para aderir ao LinkedIn e ao Twitter. Até agora, não senti necessidade de aderir a essas duas redes, pelas seguintes razões: em relação ao primeiro caso, o meu site (convido todos a visitarem-no) cobre essa área de comunicação profissional; com respeito ao segundo, as mensagens que escrevo neste blogue pessoal são quase todas num estilo que me parece ser também o dessa outra rede, ou seja, «blogo» como «twittaria». Contudo, peço que me convençam do contrário, em ambos os casos. Se assim for, aderirei entusiasticamente – logo que tenha tempo para tal – às referidas plataformas. Já agora, quanto ao Facebook, não tenciono voltar a navegar nessas águas chilras e pantanosas. 

RELATÓRIO & CONTAS

O décimo mês de  Janeiro do Eternas Saudades do Futuro ainda não acabou e é já o que regista mais visitas de sempre. Até um blogue pessoal e solitário como este gosta de saber que há gente desse lado. Bem-hajam!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SANTO PARA HOJE E SEMPRE

S. Tomás de Aquino
(28.01.1225 — 07.03.1274)
Doutor da Igreja
Patrono especial de todas as Universidades e Escolas Católicas
Dediquei este fim-de-semana, como sempre faço nas vésperas do Dia deste Santo, a aprofundar o conhecimento da Vida e Obra de S. Tomás de Aquino, através da releitura da brilhante biografia escrita por Chesterton. Daí, parti para a História da Europa de João Ameal. Em momentos assim, penso imediatamente que deveria ter vivido no Século XIII... Não desesperemos, pode ser que consigamos fazer no III Milénio algo parecido. Deus nos dê artistas, sábios, santos, heróis e reis como os desse Século de Apogeu da Cristandade.

QUANDO A VIDA É DOCE E BELA


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DOS LIVROS ANTIGOS

Uma antiguidade é uma peça de qualidade com mais de 100 anos. Aplico este mesmo conceito aos livros.

DO CHEIRO DOS LIVROS

Tenho o hábito de cheirar os meus livros. São, quase todos, velhos. Alguns, antigos, até. Portanto, os seus aromas transportam-me, longamente e largamente, no tempo e no espaço. Fragrâncias de tabacos, lareiras, madeiras, perfumes, flores, vinhos... Assim se vão recordando, ou imaginando, pessoas e lugares.

DOS LIVROS

Desde que comecei a escolher os livros que leio, calculo que deva ter lido cerca de 15 000. Espero vir a ter outro tanto tempo, para ainda poder ler outros tantos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CONSERVADORISMO VERSUS TRADICIONALISMO

Não sou conservador, pois não quero conservar o presente. Sou tradicionalista, porque quero construir o futuro com o passado bem estudado.

DO FUTURO

Tradicionalista é aquele que constrói o futuro com o passado bem estudado.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

«A» DE AUTOR E DE ALFRED


Alfred Hitchcock (1899 — 1980) nasce em Londres. Sendo, pois, à partida, um homem directamente herdeiro do espírito vitoriano do século XIX, revela, no entanto, um extraordinário sentido de utilização dos modernos meios de marketing e publicidade (antecipando-os), para divulgar as suas obras. Cedo irá transformar em marca icónica o seu nome, tornando-o reconhecível e apetecível para toda a comunidade mundial de cinéfilos, e, mesmo, para os grandes e despersonalizados públicos generalistas. Revela-se, ainda, e dentro desta estratégia de comunicação global, um especialista nas relações públicas; especialmente com a imprensa, com o objectivo de se promover profissionalmente.

Dito isto, há que afirmar, de imediato, que toda esta comunicação eficaz era apenas a ponta-de-lança de uma obra complexa e profunda. Vamos a ela, que é o fulcro da questão!

Hitchcock, oriundo de uma família de classe média-baixa, é instruído pelos jesuítas. Se refiro este facto é porque os seus filmes virão a reflectir uma série de conhecimentos que terá assimilado nos seus estudos feitos numa escola católica destes, bem conhecidos pela vasta cultura que forneciam; terá, também, através dos referidos jesuítas, tomado contacto com G. K. Chesterton (1874 — 1936), que lerá entusiasmado na juventude. Outras influências literárias que o marcaram, mais tarde, como erudito auto-didacta que era, foram Edgar Allan Poe (1809 — 1849) e Oscar Wilde (1854 — 1900).

Por outro lado, devorava jornais e lia revistas de criminologia e de cinema. Curioso é constatar o casamento entre estas fontes de inspiração para o seu despertar como autor de filmes. Os seus temas serão, principalmente, os seguintes: falsos culpados, assassínios, trocas de identidade, medo, voyeurismo, paixões frias mas arrebatadoras.

Porém, antes de chegar à realização de fitas, começa por desenhar intertítulos para filmes mudos, escrever argumentos e trabalhar como assistente de realização. Esta conjugação, de conhecimento prático da técnica cinematográfica com a cultura que ia adquirindo pela leitura, possibilita uma mestria na criação das suas narrativas fílmicas, apimentadas com o tão apregoado suspense.

Na sétima arte, Hitch (gostava de ser assim tratado) bebeu de várias fontes: Fritz Lang (1890 — 1976) e F. W. Murnau (1888 — 1931) — esses dois mestres do mudo alemão — foram determinantes para a estruturação da sua linguagem estética. Esteve na UFA — os grandes estúdios de Berlim — e conheceu-os pessoalmente. Lá trabalhou e lá filmou. Esta marca será visível, claramente, nos seus filmes mudos; e, mais subtilmente, nos sonoros.

O seu género eleito será o melodrama policial, pontuado de fantástico e de mistério. Esbate, pois, assim, as fronteiras de vários géneros convencionais, criando uma abordagem própria, com elementos retirados de todos eles.

No que toca à realização, o seu estilo é essencialmente visual, dando-nos a sensação de que aquelas histórias só fazem sentido em cinema; ou seja, por escrito não teriam o mesmo impacto. Sabia de tal forma o que queria que a montagem das suas películas seguia ao milímetro o que ele próprio tinha definido na planificação (última fase do argumento, em que este fica pronto a ser filmado). A esta atitude chama-se trabalhar com «guião de ferro». Hitch dizia que o acto de rodar era uma maçada, pois já sabia exactamente como seria o filme ao tê-lo definido na planificação. Esta ideia traduz uma inabalável confiança do cineasta em si próprio, enquanto director de actores, e uma invulgar capacidade de visualização.

Hitchcock assentava a sua estética numa cumplicidade com o espectador. Dava-lhe alguns conhecimentos secretos sobre a acção, mantendo-o ansioso pelo desfecho da narrativa. Esta tensão psicológica pode até levar o espectador a querer comunicar com a personagem ameaçada na tela, para a avisar do perigo... Eis a força manipuladora do suspense.

Não havendo, no entanto, técnica que resista à falta de ideias, é preciso deixar bem explícito que o cinema de Hitch assenta em temas fortes, já atrás referidos. Recapitulando, e desenvolvendo: culpa — com o inocente falso culpado como fio-condutor da narrativa, entrando aqui, por vezes, a troca de identidades; medo — pontuado pelo susto, e nas margens do terror; desejo — com simbologia e alegorias sexuais; ansiedade — mantida pelo suspensevoyeurismopeeping-tom, em bom inglês, espreitando e violando a esfera privada e íntima; autoridade — que assegura a investigação criminal, mas também pode ser desafiada (detestava polícias vulgares, de «ronda»); morte — sob a forma de assassínio, o crime mais grave, e que os espectadores, morbidamente, gostam de ver no recatado conforto da sala escura. Todos eles temas de identificação e projecção psicológica do espectador. Eis o cinema, na sua mais poderosa forma alquímica, servido pela mão do mestre Hitchcock.

Importante é vencer o medo, esperar para ver o desfecho, e perceber que a chave dos seus filmes é o triunfo final da luz sobre as trevas. Toda a sua obra é uma variação sobre este principal grande tema.

E, se não menciono um único filme do realizador, a justificação é simples: devem ser vistos todos, cronologicamente — dos mudos aos sonoros, dos ingleses aos americanos, dos filmados a preto-e-branco aos rodados a cores —, com o objectivo de se conseguir captar, na sua plenitude, agora em 2015 mais do que nunca, toda a sua temática de fundo, e todo o seu estilo visual e sonoro profundo; enfim, todas as suas indeléveis marcas autorais.

Nota: Escrevi este artigo para a revista online Alameda Digital. Foi republicado em novas versões no blogue Eternas Saudades do Futuro e no jornal O Diabo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

DA DOCE VIDA


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

REALIDADE E FICÇÃO NO CINEMA

De todas as Artes, o Cinema é a que melhor consegue fazer o retrato de uma determinada realidade, para memória futura. Por outro lado, tem a capacidade de lançar o seu olhar mais além, no tempo e no espaço, antecipando o futuro.

A CAUSA DA COISA

A palavra blog resulta da contracção de web e log. Web é, por sua vez, a forma sintética de World Wide Web (WWW), que significa «Teia do Tamanho do Mundo» e se refere à teia constituída por computadores de todo o mundo ligados na Internet (Rede de redes electrónicas). Log é o registo escrito oficial de uma viagem — terrestre, marítima ou aérea — e tem como sinónimo «diário de bordo». Numa primeira fase obtemos weblog; mas, logo de seguida, encontraremos, simplesmente, blog. Blog será, assim, um «diário de bordo na teia» ou, melhor dizendo, um «diário na rede». Em Língua Portuguesa, sem qualquer complexo, podemos e devemos dizer: blogue.

LÁ E CÁ É TUDO A MESMA TRAMPA

Os ingleses tiveram Chaucer e Shakespeare. Quinhentos anos depois, inventaram o «Basic English» — idioma infantil, com apenas quinhentas palavras, para exportação para todo o mundo. A maltinha, modernaça à brava, mete hamburger pela goela dentro e cospe inglês básico pela boca fora.
Por cá, trocaram o rico vocabulário de Gil Vicente e Camões pela meia-dúzia de palavrinhas dos noticiários e das telenovelas. É confrangedor observar alguém à procura da palavra certa para traduzir uma emoção ou uma ideia e não conseguir encontrá-la. Pois, pudera; o vocabulário da nossa juventude é já muito inferior aos seus sentimentos.

DA REPETIÇÃO

Havendo alguns casos em que a repetição possa ser um sintoma de senilidade, quero crer que ela é fundamentalmente um sinal de coerência.

PORTUGAL E O MUNDO NA ERA DA INTERNET

Perguntaram-me:
— O que é que um Português pode fazer por Portugal na Internet?
Respondi:
— Pode começar por tratar a Língua Portuguesa com toda a atenção e deve acabar a amá-la como se fosse a mais bela, inteligente e culta Mulher do Mundo.

PELA CULTURA É QUE VAMOS

Através da cultura influencia-se a política. Com a vantagem de se dispensar assim a maçada da conquista e conservação do poder. Saibamos pois transmitir pelas artes e letras os valores que queremos ver aplicados na coisa pública.

DA LÍNGUA PORTUGUESA

Os espectadores assistem agora ao triste espectáculo de serem rebaptizados espetadores. Esta linda obra é certamente da responsabilidade daqueles trogloditas que se dedicam a espetar farpas na Língua Portuguesa. Bate tudo certo.

NOVE ANOS DE ETERNAS SAUDADES DO FUTURO

... E, contudo, parece-me ter sido ontem que comecei esta solitária aventura.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

SANTO DO DIA E REI DO DIA

288 — Morre S. Sebastião, Defensor da Igreja, Mártir.
1554 — Nasce D. Sebastião, O Desejado, Rei de Portugal.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

SENHORAS DESTAS JÁ NÃO HÁ. HÉLÀS!

Conchita Cintrón
(1922 – 2009)
Bayonne, França, 1947
Fotografia atribuída a
Jean Dieuzaide
(1921 – 2003)
Neste mesmo ano de 1947, em que aqui em cima a vemos registada para a posteridade numa belíssima fotografia, a maior cavaleira tauromáquica de todos os tempos veio ser cabeça-de-cartaz duma corrida a Portugal.
Conchita Cintrón, na Praça de Touros de Portalegre, lidou touros do meu tio-avô Mariano Firmino Costa Pinto. Ainda no Alentejo, toureou também em Cabeço de Vide, onde alternou com o cavaleiro tauromáquico, primo-direito do meu Pai, Mariano Vaz Costa Pinto.
Quem quiser conhecer a vida e a obra desta extraordinária Senhora, pode começar por consultar a Wikipédia. Vão ver, que vão gostar; e, muito provavelmente, apaixonar-se.
Sobre Conchita Cintrón, disse Orson Welles: «A sua memória destaca-se como uma repreensão aos que afirmam que uma mulher perde algo da sua feminilidade quando pretende competir com os homens».

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

CAMPO — CONTRA-CAMPO

Falei ontem com dois amigos, separadamente, sobre um acontecimento que todos os três, e mais outros tantos, vivemos há largos anos. O primeiro referiu-me uma série de pessoas envolvidas e relatou-me, com detalhes, várias peripécias; curiosamente, o segundo, sem saber da anterior conversa, nomeou apenas os restantes intervenientes e referiu pormenores diferentes. Sempre achei deliciosa esta desmultiplicação de uma acção através dos olhares de diversos pontos-de-vista. Colando as peças do puzzle temos uma visão completa, e surpreendente, dos factos. Foi isso que Orson Welles fez em Citizen Kane .

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

DA ARTE DE CONVERSAR

Tenho cá para mim como certo e sabido que a coisa que melhor distingue as pessoas entre si — sim, porque não somos todos iguais — é a sua capacidade de boa conversação.
Nesta matéria, geração após geração, os que passam o crivo do bom senso e do bom gosto são cada vez menos. Nas actuais reuniões sociais, o panorama é desolador: uns, entram mudos e saem calados; outros, debitam estéreis banalidades (quando não são imbecis inconveniências); finalmente, há um reduzidíssimo mas irredutível escol — infelizmente mingando em número de dia para dia — que ainda cultiva a arte de bem conversar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

DECLARAÇÃO DE ABSTENÇÃO

Sou monárquico. Contudo, abro de bom grado uma excepção para votar num candidato a Presidente da República que defenda na Chefia de Estado os eternos valores da tradição nacional. Porém, nunca aconteceu, porque tal pessoa nunca apareceu. E está visto que também não será desta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

ENCERRAMENTO DA SALA DO VEADO | DIA 29 DE JANEIRO | 21 HORAS

 
Encerramento da Sala do Veado
29 de janeiro | 21H00

Programa
Lançamento do livro Sala do Veado Vinte Cinco Anos (1990 – 2015)
Homenagem aos artistas da Sala do Veado Gosto da Sala do Veado, e a Sala do Veado gosta de mim
Manuel M. Veiga (piano) + DJ Djaz PT

A Sala do Veado é uma instalação, que se vai transformando, crescendo, movimentando e adquirindo formas e pensamentos, sempre em colaboração com os trabalhos expostos. Os artistas deixam lá os seus vestígios. É um acumular de passados onde  nunca se parte do zero.  É colecção de memórias.
Sofia Marçal, Sala do Veado

MUITO SE DANÇOU E NAMOROU AO SOM DESTE SENHOR


OPÚSCULO NA CALHA (PARA PRIMOS E AMIGOS)

Atendendo aos estimulantes pedidos de várias pessoas, decidi-me finalmente a organizar, sob a forma de um volumezinho, para consumo essencialmente familiar, os dados que fui compilando nas minhas, demasiado longas mas muito amadoras e intermitentes, pesquisas genealógicas. Para já, ainda ando aos papéis... Por isso, enquanto não os ordeno definitivamente (os dados e os papéis), nem encontro o tom do discurso para narrar a história, e porque se temos que começar por algum lado podemos sempre fazê-lo pelo início, defini o título  provisório do livrinho:
Costa Pinto — uma Família de Lavradores do Alto Alentejo (1794-2016).   

FADO FILMADO E CINEMA CANTADO

Em Portugal, no ano de 1947, entre as sete longas-metragens produzidas, surge Fado, História d’Uma Cantadeira, que, dez anos depois, virá a ser o primeiro filme exibido pela Televisão Portuguesa, no arranque da RTP.

O seu realizador é Perdigão Queiroga, nascido em Évora, em 1916, e morto fisicamente num acidente de automóvel, em 1980. Este cineasta, depois de uma fase de aprendizagem das técnicas cinematográficas, trabalha como profissional nas áreas da imagem e da montagem. De seguida, em plena II Guerra Mundial, e Golden Age do Cinema Americano, ruma a Hollywood — para os estúdios da major Paramount (uma das cinco maiores empresas de produção cinematográfica dos E. U. A.) —, onde trabalha em montagem. De regresso à Pátria, inicia a preparação de Fado, que será o seu primeiro filme de fundo, numa obra com dezenas de títulos.

A sua filmografia divide-se, como era hábito nos autores clássicos completos, entre documentários (a que hoje chamaríamos «institucionais») e longas-metragens de ficção. Outro ponto alto da sua carreira viria a ser As Pupilas do Senhor Reitor (1961), a partir de Júlio Diniz, e que foi o primeiro filme nacional rodado em cinemascope (formato de ecrã largo).

Mas vamos ao nosso Fado, História d’Uma Cantadeira (1947), de Perdigão Queiroga, que a isso viemos e nisso estamos. Este filme baseia-se, muito livremente, na biografia da grande Amália Rodrigues, então no auge da sua carreira e beleza. Será esta formidável «cantadeira» a protagonizar a fita, com a qual iluminará a tela, como estrela deste melodrama romântico. Para que a musa lusa brilhe, em toda a sua plenitude, muito ajudarão os belíssimos fados de Frederico de Freitas, as letras de Amadeu do Vale, Linhares Barbosa, Gabriel de Oliveira e João Mota, as «sínteses de fados» de Frederico Valério e Jaime Santos, os versos de Silva Tavares e José Galhardo; e, toda esta equipa de luxo, sob a direcção musical de Jaime Mendes.

Abordemos então agora a história, propriamente dita: os cânones do melodrama, herdados — pelo Cinema — da Literatura e do Teatro do século XIX, estão lá todos; e, de uma forma não muito diferente daquela como eram praticados, à época, em Hollywood, mas convenientemente transpostos para a realidade social da Lisboa dos anos 40 do século passado, como se pretende.

Assim, temos uma fadista pobre de Alfama, com um namorado (o guitarrista Júlio — interpretado convincentemente pelo grande Virgílio Teixeira), que, tornando-se famosa, sai do seu bairro, abandonando o apaixonado companheiro e trocando-o pelos círculos da alta-burguesia e da aristocracia de Lisboa. Por fim, depois de peripécias várias, numa trama narrativa bem urdida, temos um final na boa tradição do happy end da Capital do Cinema. Se destaco esta ligação ao cinema clássico narrativo sonoro, que tinha as suas regras ditadas pelos norte-americanos, é porque o filme tem uma desenvoltura própria dos melhores produtos saídos dessas «fábricas de sonhos» que eram os Estúdios de Hollywood.

Perdigão Queiroga junta-lhe ainda os principais ingredientes da Cultura Popular Portuguesa — olhada por alguns arrivistas com desconfiança, pois talvez lhes faça lembrar o berço que renegam —, e, assim, conseguiu fazer um filme que é um dos maiores êxitos de bilheteira — até hoje — do Cinema Português, ao mesmo tempo que recebeu críticas muitíssimo positivas; conjugação esta não habitual. Capas Negras, de Armando de Miranda, desse mesmo ano e também com Amália, foi demolido pela crítica, e com toda a razão, devido ao cinema pobrezinho que revelava.

Neste caso — no nosso Fado —, o pano de fundo de carácter realista com que são pintados os bairros tradicionais de Lisboa, a excepcional representação do galã português de dimensão internacional — Virgílio Teixeira —, o rosto, a voz, e a naturalidade expressiva de Amália, o rigor fotográfico de Francesco Izzarelli, a fluidez da montagem do próprio Perdigão Queiroga — em «estilo invisível», à maneira de Hollywood —, as presenças de António Silva, Vasco Santana, Eugénio Salvador, Tony d’Algy, Raul de Carvalho, e mais uma mão cheia de outros grandes actores, fizeram toda a diferença.

Convém aqui realçar que o Fado e os Toiros são dois mitos permanentes da iconografia nacional; e, se convenientemente levados para a Cinematografia Portuguesa — com um tratamento narrativo e plástico sempre renovado, de acordo com o espírito dos tempos —, podem constituir-se como uma das matrizes estruturais de um verdadeiro género indígena. Os E. U. A. fazem exactamente o mesmo com os seus géneros: Western, Gangsters, Musical. Esta linha do Cinema Português foi, aliás, logo consagrada no primeiro filme sonoro (sonorizado, no entanto, ainda, em França): Severa, de Leitão de Barros.

Em relação a Fado, História d’Uma Cantadeira, diga-se que o Estado Novo — através do SNI, de António Ferro — pareceu gostar a atribuiu-lhe o Grande Prémio, nesse ano de 1947, demarcando-se, deste modo, de Capas Negras, que, apesar de tudo, teve um maior sucesso de bilheteira na época (e mesmo, também, um dos maiores de sempre, até à actualidade).

De facto, António Ferro, com o seu inovador bom-gosto, sabia o que fazia ao distinguir este filme, pois Fado tem tudo: por um lado, uma extraordinária beleza plástica — esse rosto de Amália nada fica a dever aos de outras divas do Cinema Mundial, muito graças ao já referido director de fotografia italiano, que tinha trabalhado no Camões, de Leitão de Barros, e que tem um estilo visual a fazer lembrar o expressionismo alemão; por outro, a banda sonora, já convenientemente aqui destacada, que reunia os melhores autores da música popular portuguesa de então. Finalmente, os diálogos — esse ponto fraco da Cinematografia Nacional — são convincentes e vivos, e ditos com boa dicção, e ainda melhor interpretação, depois de saídos da pena criativa de Armando Vieira Pinto.

E agora vou mas é rever a fita, que fiquei cheio de vontade, e esperar — pessimista, mas esperançoso que sou — que o Cinema Português se reconcilie com o seu público e possa voltar a erguer produções desta dimensão, para que, como neste caso, não abdicando da requintada expressão estética do autor, possa servir, com narrativas escorreitas e simples, temas onde as pessoas realmente se revejam, pois já basta de décadas de divagações umbiguistas, em tom hermético, para consumo próprio (com honrosas excepções, apesar de tudo).

Bem sei que agora, em 2016, já não temos Amália, aqui e ao vivo, nem Virgílio Teixeira — e que falta fazem! —, mas há por cá novos e bons actores — potenciais novas estrelas! Estarão os actores portugueses para sempre fadados a fazer telenovelas em manhoso estilo sul-americano, ou poderão voltar a brilhar em Filmes Portugueses populares e de qualidade?...
A ver vamos.

domingo, 10 de janeiro de 2016

ENCERRAMENTO DA SALA DO VEADO | DIA 29 DE JANEIRO | 21 HORAS


DA SÉTIMA ARTE

A expressão «Sétima Arte» anda na boca de toda a gente. Falemos, então, sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.

Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) quem baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), sedeada em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des sept arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.

Se, por esta altura, os meus leitores já perceberam que estamos perante um teórico da Arte, não estranharão saber que Canudo lança, em 1923, o Manifeste des Sept Arts, após uma série de outros textos preparatórios, o primeiro dos quais data de 1908; e, num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.

Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é — antes de tudo — Arte.

Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa (ou debate, como agora se diz) em aberto, pois isso representa um sinal da vitalidade dos nossos pensadores. Para este escritor italiano do século XX, as Sete Artes são: Arquitectura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema. Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.

É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».

Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.

Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação ao vivo de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direccção artística, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.

Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!

É, portanto, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética. E, acima de tudo, aquela que, incorporando todas as outras, melhor transporta o nosso Património histórico, estético e cultural — projectando-o no futuro —, através da permanente reformulação e actualização das ancestrais e intemporais narrativas da nossa matriz identitária.

Haja sempre cineastas portugueses à altura desta missão universal.

LUZ DE INVERNO


sábado, 9 de janeiro de 2016

DAS DIFERENTES LÓGICAS DO TABACO E DO VINHO

Se, em matéria de tabaco, nada supera o prazer de fumar um puro (charuto feito com folhas provenientes todas da mesma origem), no que diz respeito ao vinho, a moda das monocastas produz néctares sem alma. 

DO ROMANCE HISTÓRICO ENQUANTO MANUAL DE CONDUTA

Releio O Hussardo, de Arturo Pérez-Reverte. Este seu primeiro livro, de 1983, editado em Portugal a partir da revisão do autor feita em 2004, é um romance histórico, passado em 1808, na invasão napoleónica de Espanha.
O fio-condutor da narrativa é assegurado por dois jovens hussardos (oficiais da cavalaria ligeira francesa), que acamaradam a partir de sólidas afinidades de carácter e gosto, sendo provenientes, no entanto, de classes distintas. Os relatos intimistas, com deliciosos detalhes realistas, revelam uma fina sensibilidade para construir personagens e ambientes autênticos; por outro lado, as descrições das batalhas e de toda a militaria prendem pela sua escala grandiosa e revelam um profundo conhecimento de História Militar; e, a Andaluzia está pintada de tal maneira — telúrica e sensual — que sentimos o seu Sol queimar e a sua luz cegar. Os tradicionais valores de qualquer cavalheiro estão aqui bem esplanados: coragem, cultura, honra, fidelidade, heroísmo, hierarquia, camaradagem, sobriedade. Note-se bem que a acção decorre na sequência de todos os males erradiados a partir de França. Os nossos heróis remam, portanto, contra a maré dos novos tempos.
Perante uma obra assim, agradeço à Literatura por ser uma Arte que permite a pausa, a aceleração, o retardamento... — ou seja: possibilita ao leitor comandar o tempo e o ritmo de fruição da obra, para melhor a poder saborear. Aqui, não há ditadura do olhar, como, por exemplo, no Cinema. Posso parar para pensar, e reler, e acelerar à procura do desfecho de uma cena, ou abrandar numa passagem cativante.
Mas, afinal, o que é que esta obra tem?... Faz-nos interrogar sobre o que andamos nós aqui a fazer, neste século materialista. Leva-nos à nostalgia de um passado em que o espírito imperava. Sentimos saudades de um tempo em que os homens se olhavam nos olhos — enquanto amigos, adversários ou inimigos.

BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA

Se, citando mais uma vez Fernando Pessoa, (...) Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente —, então há que procurar os indícios de veneno mental que, no pensamento como na literatura, sob os alibis da crítica social, do racionalismo e do progressismo, tem vindo a deitar por terra a nossa identidade nacional, a nossa personalidade colectica, a nossa independência política.
A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos Cem Anos, António Quadros, edição Fundação Lusíada, Colecção Lusíada — Ensaios, n.º 1, Lisboa, 1989.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

DIA DE REIS

A Adoração dos Magos, 1305
GIOTTO (1266 — 1337)
Fresco
Cappella della Scrovegni, Pádua, Itália

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O FIO-CONDUTOR INVISÍVEL DA TRADIÇÃO

Releio fascinado O Arco de Sant'Ana de Almeida Garrett. Volto a surpreender-me com algumas passagens do mais puro tradicionalismo. Levanto-me e vou à estante oposta buscar No Saguão do Liberalismo de Fernando Campos. Encontro, transcritas neste livro, as mesmas frases do desencantado romântico liberal, a par de outras, igualmente impressionantes, de tantos homens de semelhante calibre: Antero, Eça, Herculano, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão... Valham-nos compilações assim, para termos à mão de semear o profundo pensamento dos que são conhecidos apenas superficialmente nos dias de hoje. 

POSOLOGIA

Ler um livro por dia dá saúde mental e alegria de viver.

QUADRANTES LITERÁRIOS

Fui queirosiano na juventude e tenho sido camiliano na maturidade. O que virei a ser na terceira idade?

DA LITERATURA

Poucos escritores merecem que se leia a sua obra toda e contudo aprende-se mais com esses do que com todos os outros juntos.

DE KUNDERA A HOUELLEBECQ

Para além dos «clássicos», que já atingiram a eternidade, consagrados pelo facto de passados cem anos sobre a sua morte continuarem a ser lidos, há os escritores do nosso tempo. Destes, é sempre um tiro no escuro apontar para os que pensamos se irão juntar àqueles. Não gasto muito tempo com esse exercício, mas cheira-me que o meu faro não me engana. Assim, considero ter sorte por alguns dos meus escritores contemporâneos preferidos, dos quais fui lendo os livros à medida que iam sendo publicados, darem sinais de virem pelas suas obras a tornar-se imortais.
Dito isto, confesso que o prazer que tenho retirado, no início deste milénio, da leitura de Houellebecq só é comparável ao que tive, nos anos 80 do século passado, com Kundera. São romancistas de mão cheia, bom gosto e fino — mas mui cortante — humor; enfim, senhores de um estilo próprio, inconfundível e incomparável.
Mas há mais: Se Kundera foi premonitório na implosão do totalitarismo comunista a leste, Houellebecq perfila-se como visionário da queda do mundialismo demo-liberal a ocidente. Escritores do espírito, vivem, testemunham e, inteligentemente criticando, aceleram — à sua maneira, e de que maneira!— o fim do materialismo na Europa. 

BLOGUE QUE VISITA ESTE E QUE ESTE VISITA (COM HONRA E PRAZER)

sábado, 2 de janeiro de 2016

ESPERANÇAS DE ANO NOVO

Os anos bissextos trouxeram-me sempre acontecimentos positivos e inauguraram habitualmente fases dinâmicas na minha vida. Assim foi em 1984, 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008 e 2012. A ver vamos o que me reserva 2016. Deus queira que seja igualmente bom. Cheira-me que sim. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016 D.C.

Desejo um óptimo Ano Novo, com saúde e trabalho, a todos os meus leitores e suas famílias.

ROCK PURO E DURO COMO EU GOSTO [R.I.P. LEMMY]


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

DA OUTRORA MARAVILHOSA TERRA DE VERA CRUZ

No próximo ano haverá Jogos Olímpicos no Brasil. O povão terá circo. O pão não está garantido.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [BISAVÔ JOÃO]

João Augusto Marchante
(Sousel, 1860 — Sousel, 1920)

Arquivos e Iconografia:
— Arquivo Distrital de Portalegre.
— Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta evocação biográfica sobre João Augusto Marchante). 

LIVRO PARA A SAISON

Christmas Holiday, W. Somerset Maugham.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

TRADICIONALISMO NOS VALORES, VANGUARDISMO NAS FORMAS

As principais causas das derrotas político-ideológicas são os erros. Tem isto, apesar de tudo, uma grande vantagem: quem conseguir identificá-los e corrigi-los está apto a vencer os combates seguintes. Desgraçadamente, de há mais de 200 anos para cá, os tradicionalistas portugueses (chamem-se eles conservadores, contra-revolucionários, reaccionários, legitimistas, integralistas ou, simplesmente, católicos e monárquicos) têm repetido sempre os mesmos erros. É caso para dizer que nada aprenderam. E, para que esta mensagem não soe a pura abstracção, dou um exemplo: têm-se preocupado apenas em modernizar o conteúdo doutrinário, pensando com isto agradar às massas,  e reservado a permanência do tradicionalismo para a forma. Quando o que se exige é exactamente o contrário!
Prefiro um tradicionalista de t-shirt do que um progressista de gravata.

sábado, 26 de dezembro de 2015

DO ESCOL

Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que a constituem a nível mental — a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por «élite».
(...)
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais — económicas ou outras —, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.

FERNANDO PESSOA
(1888 — 1935)

SOL DE INVERNO


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

LIVRO PARA HOJE E SEMPRE

Natal... Natais — Oito Séculos de Poesia sobre o Natal, antologia organizada por Vasco Graça Moura, edição do jornal Público, Lisboa, 2005.
Livro obrigatório numa boa biblioteca portuguesa (pública ou particular). Poemas de Natal, da autoria dos melhores poetas portugueses, numa bela edição, com capa dura e tudo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O ETERNAS SAUDADES DO FUTURO DESEJA AOS SEUS LEITORES UM SANTO NATAL EM CRISTO

 Natividade, 1650 a 1660
JOSEFA DE ÓBIDOS (1630 — 1684)
Óleo sobre Cobre, 21 x 16 cm
Colecção Particular

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SOLSTÍCIO DE INVERNO

A Estação do Inverno começou e o frio chegou. A Natureza não falha, porque Deus não dorme.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A IDENTIDADE LUSITANA VISTA DO OUTRO EXTREMO DA EUROPA

Recentemente, numa actividade social (das pouquíssimas a que actualmente vou), tive oportunidade de trocar ideias com uma bonita, inteligente e culta jovem senhora (combinação raríssima, hoje em dia). Era russa. Conversámos em inglês, pois, para mal dos meus pecados, ainda não venci a preguiça e me decidi finalmente a aprender russo. Em princípio, falo francês com os russos, o que faz toda a diferença, devido às afinidades culturais entre esses dois nobres povos; mas, para já, as considerações sobre essa problemática ficam para uma futura mensagem neste blogue.
Agora, vamos ao que interessa: depois de falarmos de Tolstói e Dostoiévski, Camões e Pessoa, e tutti quanti, disse-me que lhe tinham apresentado Portugal como sendo um país mediterrânico e confessava-se agradavelmente espantada com o facto de estar, pelo contrário, de facto, perante uma pátria atlântica; rematou afirmando que a Rússia e Portugal têm imensas afinidades espirituais, porque são duas nações com Antiguidade e Alma.
Ouvir estas opiniões — que também são muito minhas e que vão contra a corrente dos habituais lugares-comuns impingidos pelos imbecis discursos politicamente correctos  —, vindas da boca da bela russa, fez-me sentir que, volta e meia, vale a pena sair de casa.  

QUEM, DO NATAL?

Quem esperamos? Quem,
No silêncio, na sombra, no deserto?
O menino divino de Belém,
Ou o rei Encoberto?
Esperamos alguém:
Qualquer que tenha o coração aberto.

É demais esta ausência, este vazio!
Quem adorar, servir, como Deus e senhor?
— O que estender a ponte sobre o rio
Da miséria e pavor!
O que apascente e semeie em desafio!
O que disser: — Eu sou! E for.

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA
(1923 — 2010)

domingo, 20 de dezembro de 2015

DOMINGO IV DO ADVENTO


sábado, 19 de dezembro de 2015

RELATÓRIO & CONTAS ANUAL DESTE VOSSO BLOGUISTA

Utilizo o Blogger desde 19 de Dezembro de 2006. Faz hoje 9 anos. De lá para cá tive 15541 visualizações do meu Perfil.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

UMA QUESTÃO DE PINTA

Sempre gostei de ver um certo ar aristocrático nas mulheres (quer sejam provenientes do povo, da burguesia ou da nobreza, como é o caso desta). E sempre gostei também de vê-las, coisa geracional certamente, com uma certa atitude punk. Esta miúda, mais nova mas ainda da minha geração, combina ambos os factores, como nenhuma outra. Isso já não é para todas, e faz dela (quase) única. Chamo a essa superior síntese, simplesmente, ter pinta. Rematando este romântico relambório, pois a belíssima Stella Tennant faz hoje anos, dou-lhe os meus Parabéns!

TELEVISÃO QUE NÃO SÓ NÃO É LIXO COMO É UM LUXO

Downton Abbey.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

PORQUE NEM TODA A TELEVISÃO É LIXO

Vale muito a pena ver o Programa Visita Guiada de Paula Moura Pinheiro na RTP2.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

LIVRO PARA HOJE

D. Fernando II  — Um Mecenas Alemão Regente de Portugal, de Marion Ehrhardt, colecção Paisagem-Arte, nº 7, edição Paisagem Editora, Porto, 1985.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

EM MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI

Sidónio Pais
Caminha, 01.05.1872 — Lisboa, 14.12.1918

BLOGUE QUE VISITA ESTE E QUE ESTE VISITA (COM HONRA E PRAZER)

HERÓI DO DIA

Sidónio Pais.
[Assassinado há exactamente 97 anos.]

LIVRO PARA HOJE

Poesias Completas, de S. João da Cruz; tradução, prólogo e notas de José Bento; edição Assírio & Alvim; colecção Biblioteca Editores Independentes, n.º 29; Lisboa, 2008.

domingo, 13 de dezembro de 2015

AJUDA À IGREJA QUE SOFRE: ACORDEM! POR CAUSA DO IRAQUE, DA SÍRIA E NÃO SÓ...


TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO


sábado, 12 de dezembro de 2015

ALEGRIA DE VIVER

Em Dezembro de 1932, iniciaram-se os trabalhos de edificação do estúdio cinematográfico da Tobis, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, em Lisboa. No início do ano, tinha sido dado o arranque para a Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klang Film, que se constituiu formalmente em Junho de 1932. Este nome ficou a dever-se à casa-mãe alemã (Tobis, abreviatura de Tonbild SyndiKat), por ter sido esta a fornecer-lhe a aparelhagem técnica. Lisboa e Berlim surgem assim de mãos dadas, para o advento do Cinema Sonoro em Portugal.

O então jovem arquitecto Cottinelli Telmo desenha e orienta a construção do estúdio, num radical projecto de fino recorte moderno e funcional, em articulação com a bela paisagem envolvente. José Ângelo Cottinelli Telmo nasceu em Lisboa, em Novembro de 1897, e viria a morrer num trágico acidente de pesca desportiva na Praia do Guincho, sportsman que era, em 1948. Filho de músicos, entra em 1915 para as Belas-Artes de Lisboa, a fim de cursar Arquitectura. Antes de aí se licenciar, em 1920, Cottinelli participa nas animadas tertúlias do Chiado, onde convive com os «novos», virando as costas ao academismo passadista da escola. Dessas relações sairiam, por exemplo, trabalhos para bailados (com Almada Negreiros), bandas desenhadas (para o ABC), décors de filmes de Leitão de Barros, e etc. e tal. Revelou-se, ainda, como actor e compositor, nas festas de estudantes de Belas-Artes. Como arquitecto, constrói alguns dos primeiros edifícios modernistas de Lisboa: Stand da FIAT (Av.da Liberdade, 1926-1929); Estação Fluvial do Terreiro do Paço (1928-1932); e, finalmente, a nossa Tobis. Carreira esta que atingiria o apogeu com a sua nomeação para arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português, em 1940.

Foi, por esta altura, o principal colaborador de Duarte Pacheco (se este não tivesse morrido em 1943, Cottinelli em 1948, e Ferro em 1956, a História das Artes e dos Espectáculos, no Século XX, em Portugal, teria cantado mais alto… mas, essa é outra história… fica para a próxima).

A Tobis só ficou concluída no ano de 1934. No entanto, antes disso, Portugal vai ter o seu primeiro filme sonoro rodado aí, num plateau improvisado. Ao mesmo tempo que orienta a construção do estúdio, que, no local, era dirigida pelo francês A. P. Richard, Telmo escrevia e realizava A Canção de Lisboa, tendo como conselheiro técnico Chianca de Garcia, outro dos grandes entusiastas da Tobis, desde a primeira hora, a par de Cottinelli Telmo e Leitão de Barros.

A Canção de Lisboa (Portugal, 1933) surge, pois, como fruto da gente nova, formada na cinefilia, no culto das Artes, e no bom-gosto. Se esta nova geração está pronta, e as infra-estruturas lançadas no terreno, faltavam ainda técnicos e actores para dar corpo ao primeiro filme sonoro totalmente feito (rodado e sonorizado) em Portugal.

Olhando com atenção para a ficha técnica (hábito perdido nos apressados dias de hoje, onde nos servem ao domicílio os filmes amputados dessa parte), descobrimos toda a fina-flor da Arte Portuguesa de então. O próprio genérico é de Almada Negreiros, que desenha também os dois cartazes do filme; o pintor Carlos Botelho é assistente de realização; José Galhardo escreve os inesquecíveis diálogos e as letras das canções, que passam de pais para filhos há exactamente oitenta anos; encontramos um trio de luxo na fotografia — Henri Barreyre, Octávio Bobone e César de Sá; o «russo branco» — vindo do Cinema Mudo Russo (pré-soviético; pois não foram os comunistas que lá inventaram o Cinema, como alguns parecem pensar) — Chakatonny; o engenheiro Paulo de Brito Aranha na direcção de som (cargo que iria manter na Tobis, por largos anos); o poeta José Gomes Ferreira — esse mesmo! — na assistência de montagem; Raul Ferrão e Raul Portela na autoria da música das canções; e, por aí fora…

Os actores constituem um elenco «de se lhe tirar o chapéu»: Vasco Santana, Beatriz Costa, António Silva, Teresa Gomes, Álvaro de Almeida, Manuel Santos Carvalho, e o jovem realizador Manoel de Oliveira, numa breve aparição como o galã, bon-vivant (que, de facto, era) e fiel amigo, Carlos, do desgraçado Vasquinho (Vasco Santana).

A articulação entre as equipas técnica e artística contou com a preciosa colaboração de técnicos profissionais vindos, essencialmente, da Alemanha e de França: Hans-Christof Wolhrab, Tonka Taldy, Jeanette Pakon, para além dos já nomeados anteriormente.

Sinal dos tempos, é de referir que Beatriz Costa saía de uma peça de teatro de revista, em cena na altura, onde era cabeça de cartaz, às duas horas da manhã, e apresentava-se às sete horas, da mesma manhã, na Tobis, impecavelmente maquilhada, à espera da ordem: «Acção!».

Por tudo isto, estamos perante um filme fundador: não só do Cinema Sonoro Português, mas do género fílmico da Comédia Portuguesa. Até hoje, tudo o que se tenta fazer, neste domínio, continua a ter como referência e influência A Canção de Lisboa.

Não vamos contar aqui a história da fita, pois ela está gravada na memória colectiva das famílias da nossa Terra. Parece-me é ser importante, para os intelectuais desconfiados do género cómico, lembrar que, à época, também René Clair e Jean Renoir o praticavam, na Europa; e, vendo a nossa Canção ao lado dessas películas, percebemos que o Cinema Português esteve alinhado com o «espírito do tempo» e conseguiu — simultaneamente — ser espelho da comunidade lisboeta, em todos os seus detalhes de puzzle social complexo, por de trás de uma aparente simplicidade brejeira.

Não basta, de facto, olhar. É preciso ver. E, para isso, há que lavar os olhos entre dois olhares, libertando-os de preconceitos aviados em estilo erudito por certos escribas da nossa praça que conseguem descortinar maravilhas nos mais obscuros objectos (antes fosse o do Buñuel) e cegar perante a luminosidade d’A Canção de Lisboa.

Aproveitemos a Quadra de Vida, que é o Natal, para a revermos — em Família — nos oitenta anos da sua estreia, que neste ano de 2015 se comemora.

Alguns cépticos perguntarão ainda: «Mas o que é que a fita tem?». Tem uma história bem contada — o estudante de Medicina, apaixonado pela costureirinha do bairro, filha de um «pai tirano», surpreendido pelas velhas tias tontas, mas ricas, e provincianas —, diálogos de extraordinário ritmo — ditos com irrepreensível dicção, e cheios de segundos sentidos e trocadilhos —, actores que representam com alegria e vivacidade, uma bela estrutura musical, o fado, o lirismo, os sentimentos — sem ser sentimentalista —, as piadas, a psicologia do Povo Português (Lisboa como síntese da Alma Nacional) apresentada com naturalidade e com subtil — quase invisível — profundidade.

Tão simples… e tão difícil de fazer de novo!

Nota: Escrevi este artigo para a revista online Alameda Digital. Foi republicado em novas versões nos blogues Eternas Saudades do Futuro e Jovens do Restelo, e no jornal O Diabo.

SUSPENSE

Alfred Hitchcock (1899 — 1980) nasce em Londres. Sendo, pois, à partida, um homem directamente herdeiro do espírito vitoriano do século XIX, revela, no entanto, um extraordinário sentido de utilização dos modernos meios de marketing e publicidade (antecipando-os), para divulgar as suas obras. Cedo irá transformar em marca icónica o seu nome, tornando-o reconhecível e apetecível para toda a comunidade mundial de cinéfilos, e, mesmo, para os grandes e despersonalizados públicos generalistas. Revela-se, ainda, e dentro desta estratégia de comunicação global, um especialista nas relações públicas; especialmente com a imprensa, com o objectivo de se promover profissionalmente.

Dito isto, há que afirmar, de imediato, que toda esta comunicação eficaz era apenas a ponta-de-lança de uma obra complexa e profunda. Vamos a ela, que é o fulcro da questão!

Hitchcock, oriundo de uma família de classe média-baixa, é instruído pelos jesuítas. Se refiro este facto é porque os seus filmes virão a reflectir uma série de conhecimentos que terá assimilado nos seus estudos feitos numa escola católica destes, bem conhecidos pela vasta cultura que forneciam; terá, também, através dos referidos jesuítas, tomado contacto com G. K. Chesterton (1874 — 1936), que lerá entusiasmado na juventude. Outras influências literárias que o marcaram, mais tarde, como erudito auto-didacta que era, foram Edgar Allan Poe (1809 — 1849) e Oscar Wilde (1854 — 1900).

Por outro lado, devorava jornais e lia revistas de criminologia e de cinema. Curioso é constatar o casamento entre estas fontes de inspiração para o seu despertar como autor de filmes. Os seus temas serão, principalmente, os seguintes: falsos culpados, assassínios, trocas de identidade, medo, voyeurismo, paixões frias mas arrebatadoras.

Porém, antes de chegar à realização de fitas, começa por desenhar intertítulos para filmes mudos, escrever argumentos e trabalhar como assistente de realização. Esta conjugação, de conhecimento prático da técnica cinematográfica com a cultura que ia adquirindo pela leitura, possibilita uma mestria na criação das suas narrativas fílmicas, apimentadas com o tão apregoado suspense.

Na sétima arte, Hitch (gostava de ser assim tratado) bebeu de várias fontes: Fritz Lang (1890 — 1976) e F. W. Murnau (1888 — 1931) — esses dois mestres do mudo alemão — foram determinantes para a estruturação da sua linguagem estética. Esteve na UFA — os grandes estúdios de Berlim — e conheceu-os pessoalmente. Lá trabalhou e lá filmou. Esta marca será visível, claramente, nos seus filmes mudos; e, mais subtilmente, nos sonoros.

O seu género eleito será o melodrama policial, pontuado de fantástico e de mistério. Esbate, pois, assim, as fronteiras de vários géneros convencionais, criando uma abordagem própria, com elementos retirados de todos eles.

No que toca à realização, o seu estilo é essencialmente visual, dando-nos a sensação de que aquelas histórias só fazem sentido em cinema; ou seja, por escrito não teriam o mesmo impacto. Sabia de tal forma o que queria que a montagem das suas películas seguia ao milímetro o que ele próprio tinha definido na planificação (última fase do argumento, em que este fica pronto a ser filmado). A esta atitude chama-se trabalhar com «guião de ferro». Hitch dizia que o acto de rodar era uma maçada, pois já sabia exactamente como seria o filme ao tê-lo definido na planificação. Esta ideia traduz uma inabalável confiança do cineasta em si próprio, enquanto director de actores, e uma invulgar capacidade de visualização.

Hitchcock assentava a sua estética numa cumplicidade com o espectador. Dava-lhe alguns conhecimentos secretos sobre a acção, mantendo-o ansioso pelo desfecho da narrativa. Esta tensão psicológica pode até levar o espectador a querer comunicar com a personagem ameaçada na tela, para a avisar do perigo... Eis a força manipuladora do suspense.

Não havendo, no entanto, técnica que resista à falta de ideias, é preciso deixar bem explícito que o cinema de Hitch assenta em temas fortes, já atrás referidos. Recapitulando, e desenvolvendo: culpa — com o inocente falso culpado como fio-condutor da narrativa, entrando aqui, por vezes, a troca de identidades; medo — pontuado pelo susto, e nas margens do terror; desejo — com simbologia e alegorias sexuais; ansiedade — mantida pelo suspensevoyeurismopeeping-tom, em bom inglês, espreitando e violando a esfera privada e íntima; autoridade — que assegura a investigação criminal, mas também pode ser desafiada (detestava polícias vulgares, de «ronda»); morte — sob a forma de assassínio, o crime mais grave, e que os espectadores, morbidamente, gostam de ver no recatado conforto da sala escura. Todos eles temas de identificação e projecção psicológica do espectador. Eis o cinema, na sua mais poderosa forma alquímica, servido pela mão do mestre Hitchcock.

Importante é vencer o medo, esperar para ver o desfecho, e perceber que a chave dos seus filmes é o triunfo final da luz sobre as trevas. Toda a sua obra é uma variação sobre este principal grande tema.

E, se não menciono um único filme do realizador, a justificação é simples: devem ser vistos todos, cronologicamente — dos mudos aos sonoros, dos ingleses aos americanos, dos filmados a preto-e-branco aos rodados a cores —, com o objectivo de se conseguir captar, na sua plenitude, agora em 2015 mais do que nunca, toda a sua temática de fundo, e todo o seu estilo visual e sonoro profundo; enfim, todas as suas indeléveis marcas autorais.

Nota: Escrevi este artigo para a revista online Alameda Digital. Foi republicado em novas versões no blogue Eternas Saudades do Futuro e no jornal O Diabo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

CONFESSO-ME DOIDO POR MARY


DA IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ERNST OU DO FUTURO DA EUROPA

Tenho estado a reler todo o Ernst Jünger que tenho à mão e que não é pouco. Mergulharmos num autor que atravessou com a sua aventureira vida e a sua visionária obra quase todo o século passado é a melhor maneira de nos prepararmos para este. Constatar que praticamente tudo o que profetizou já entretanto ocorreu faz-nos segui-lo com redobrada atenção procurando nas entrelinhas o que ainda está por cumprir.   

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

5 SIGNIFICADOS DA PALAVRA MARCHANTE (QUAL DELES O MAIS DELICIOSO)

1. Homem que mantém uma ou mais amantes.
2. Negociante de obras de arte.
3. Negociante de cabeças de gado.
4. Participante nas Marchas Populares de Lisboa.
5. Praticante de marcha atlética (modalidade olímpica).

TEMPO DE ENCONTRO

Aproximando-se o Natal e o Ano Novo há logo umas pessoas que começam a querer combinar imensas e intensas andanças sociais. Durante muitos anos considerei essas almoçaradas e jantaradas supérfluas; pois, se estava sempre que queria com esses amigos, por que razão haveria necessidade de marcarem-se actividades por obrigação? O que é um facto é que, entretanto, as décadas foram decorrendo, cada um foi para o seu lado e à sua vida; e, agora, não aparecendo as tais almas caridosas a quererem reunir os grupos, estaríamos na iminência de pura e simplesmente deixarmos de nos ver. Bem-hajam, portanto.

BLOGUE QUE VISITA ESTE E QUE ESTE VISITA (COM HONRA E PRAZER)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

DOS LIVROS E DOS BOLETINS DE VOTO

Portugal tem o povo mais iletrado e inculto da Europa. Tem também o eleitorado mais à esquerda de todos os países da Europa. Estarão ambos os factos relacionados? Cheira-me que sim.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

DUPLA MISSÃO PARA O DIA DA IMACULADA CONCEIÇÃO


Fazer o Presépio em Família e pendurar à janela o Estandarte de Natal do Menino Jesus. Dupla missão cumprida — de véspera, e tudo!  

PINTURA DO DIA

Imaculada Conceição, 1618
DIEGO VELÁZQUEZ (1599 — 1660)

HINO DO DIA

Salve, nobre Padroeira
Do Povo, teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.

Ó glória da nossa Terra,
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor.

Com tua graça e beleza
Um jardim não ornas só,
Linda flor de Jericó,
De Portugal és a Flor!

Flor de suave perfume,
Para toda a Lusa gente,
Entre nós, em cada crente
Tens esmerado cultor.

Acode-nos, Mãe piedosa,
Nestes dias desgraçados,
Em que vivemos lançados
No pranto, no dissabor.

Lobos famintos, raivosos
O teu rebanho atassalham,
As ovelhas se tresmalham,
Surdas à voz do pastor.

Da fé a lâmpada santa,
Que tão viva outrora ardia,
Se teu zelo a não vigia,
Perde o restante fulgor.

Ai! da Lusa sociedade,
Se o sol do mundo moral
Se apaga… Ó noite fatal!
Ó noite de negro horror!

És a nossa Padroeira,
Não largues o padroado
Do rebanho confiado
A teu poder protector.

Portugal, qual outra Fénix,
À vida torne outra vez.
Não se chame Português
Quem cristão de fé não for.

Composto por Padre Francisco Rafael da Silveira Malhão (1794 — 1860).

O Hino da Padroeira foi composto por ocasião da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, em 8 de Dezembro de 1854.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

AINDA E SEMPRE A DOCE E BELA FRANÇA FRANCESA


DA DOCE FRANÇA


domingo, 6 de dezembro de 2015

DO ALCANCE UNIVERSAL DUM BLOGUE NACIONAL

Sendo o Eternas Saudades do Futuro um blogue português — portuguesíssimo até — é com um sentimento misto de surpresa e alegria que constato através das estatísticas oficiais cá da casa ter leitores nos seguintes importantes, distantes e díspares países: Portugal, Estados Unidos da América, Brasil, Rússia, Alemanha, França, Reino Unido, China, Ucrânia e Espanha (top ten por ordem decrescente e referente aos dados totais de visualizações de páginas desde 1 de Julho de 2010).

sábado, 5 de dezembro de 2015

ENQUANTO HOUVER PORTUGUESES

8 de Dezembro é dia da Imaculada Conceição ou de Nossa Senhora da Conceição.
Padroeira de
Portugal a partir das Cortes de 1645-1646 do Reinado de D. João IV, 8.º Duque de Bragança, em cujas veias corria o sangue de D. Nuno Álvares Pereira / S. Nuno de Santa Maria. Este Rei devolveu aos Portugueses uma Pátria livre, na sequência da Restauração da Independência Nacional levada a cabo pelos 40 Conjurados no 1.º de Dezembro de 1640.

Este é também o verdadeiro Dia da Mãe.

E é ainda o dia em que se deve fazer o Presépio em Família.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SANTO DO DIA

Beato Adolph Kolping (Kerpen,08.12.1813 — Köln, 04.12.1865). Sacerdote.

Precursor da Encíclica Rerum Novarum, base da Doutrina Social da Igreja.

Beatificado pelo Papa João Paulo II no dia 27 de Outubro de 1991.

Na homilia da missa solene da beatificação, o Santo Padre apresentou os quatro principais pontos do pensamento e da acção pastoral deste Servo de Deus:
Igreja, Família, Trabalho e Política.

IDENTIDADE CULTURAL

Um Povo é a Música que compõe e ouve, a Gastronomia que confecciona e saboreia, a Literatura que cria e lê, a Pintura que faz e aprecia, a Arquitectura que edifica e admira, os Espectáculos que concebe e frequenta.

VIAJAR É PRECISO

A globalização, o multiculturalismo e o turismo de massas vieram uniformizar de tal maneira as grandes cidades — descaracterizando-as — que não tenho hoje a mínima vontade de ir visitar as minhas outrora queridas capitais europeias. As próximas incursões que farei serão certamente ao mundo rural. Porque aí ainda se respira genuína identidade cultural. Entretanto, vou passeando através de livros, pinturas, fotografias, discos e filmes. São as minhas pessoalíssimas viagens interiores.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

EIS A RAZÃO DO NATAL

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TEMPO DE ADVENTO — TEMPO DE ESPERANÇA

Tempo para sentimentos de aproximação e confiança, partilha e amizade, solidariedade e aliança.

LITERATURA E BLOGOSFERA

Os livros eternos são escritos por quem ama a bela literatura e os melhores blogues são feitos por quem gosta da blogosfera culta.