sexta-feira, 13 de julho de 2012

CARTEIRA DE SENHORA


DIA 24

Ponho a mão na carteira em busca desesperada de tema. Mexo, remexo e nada. Anda muda a coitada. Que faço agora? É sua a crónica, mesmo que às vezes pense que faça batota. Lá a convenci a fazer uns exercícios respiratórios tentando acalmar a agonia causada pelo mar de podridão que por aí grassa. E que tal um tema distractivo que distraia da distracção-mor do Reino por estes dias?

Pois é isso mesmo, distrair quando não podemos andar distraídos. Falemos então de distracções. Das mentiras, mentirinhas e mentironas que são distracções. Das promessas e dos enganos. Dos engodos. Das manipulações. Das omissões. Das inverdades e das meias-verdades.

A verdade, o falar verdade, deixou de ter importância. Não é valor interessante, não tem cotação em Bolsa nem traz vantagens patrimoniais.

Onde está hoje quem diz a verdade? Onde está a verdade? Esconderam-na.

Já não nos deixam vê-la, ouvi-la, tocá-la. Tapam-na com vestidos de alta-costura para nos distrair. Ou com burkas que nos cegam. Fecharam-na na quarta cave numa arrecadação blindada para que se não ouçam os seus gritos. Ou num sótão esconso, rodeada de velharias, tratada como coisa, descartável e descartada.

Tão escondida está que já a mentira ocupou pressurosamente o seu lugar. Uma ocupação selvagem, sem licenças, sem desculpas e sem arrependimentos.

A mentira assume-se então como a “nova verdade” ou a “verdade renascida”. Sendo mentira, trabalha por turnos: é constantemente substituída por outra. Tanto faz, na verdade. Qualquer mentira é sempre uma nova verdade sabendo nós que não é a verdadeira, mas apenas um seu travesti.

Mentem governantes, políticos, empresas e por contágio jornalistas e todos nós. Mentem a todos e até a si próprios. Passou a fazer parte da vida dos portugueses esta mentira, máscara da verdade. Aceite naturalmente e praticada como se fosse inata. Poucos se indignam. Quase parece que desejamos que nos mintam.

Vivemos assim num mundo paralelo, ilusão e sombra do real, que continua entretanto o seu caminho, ignorante da nossa cegueira e ansioso por salvação.

Estamos quase a esquecer que afinal a verdade existe, que até é o valor principal, que sem verdade somos humanos inacabados.

Precisamos urgentemente da verdade. Chegou a hora de a descobrir, resgatá-la das peias que a prendem e dar-lhe o lugar de honra que merece.

É que as mentiras dividem e a verdade une. Se queremos ajudar a reconstruir Portugal, busquemos a verdade. Por todos os cantos.

Leonor Martins de Carvalho