sábado, 31 de março de 2012

E AGORA?... NÃO HÁ NADA!

José da Gama e Castro, Marquês de Penalva, Frei Jacinto de Deus, Frei João dos Prazeres, Sebastião César de Meneses, José Acúrcio das Neves, José Agostinho de Macedo.

ET MAINTENANT?... IL N'Y A RIEN!

Joseph de Maistre, de Bonald, Frédéric Le Play, Taine, Maurice Barrès, Jacques Bainville, Charles Maurras.

sexta-feira, 30 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 10
A carteira hoje pôs-me satisfeita. Enfiei a mão, sorrateira, ela baralhou e saiu um estado de alma. Ainda por cima aquele que mais faz parte do nosso quotidiano: a insatisfação.
Num genuíno dicionário de português, a palavra satisfação apenas devia aparecer como mero antónimo de insatisfação. Não tem por cá definição própria. Ao latim apenas fomos buscar a raiz da palavra para depressa lhe antepormos o prefixo que a nega.
Quem é que está satisfeito em Portugal? Rigorosamente ninguém. O maior optimista português também reclama contra a fila na repartição…
A insatisfação é intrínseca à portugalidade, está inscrita no nosso ADN. Vê-se mesmo que os únicos satisfeitos que por aí andam não têm este gene. Foram importados por engano. Alguém se esqueceu de verificar se estava preenchido o campo 459 da declaração alfandegária, que exige a insatisfação como permanente estado de alma.
Começa logo de manhã. “Como está, passou bem?” Nunca passou. Nunca. Normalmente vai passando.
Segue-se o tempo. Por mais que se esforce, não há forma de o clima conseguir satisfazer um português. Jamais está a contento.
Depois a vida - ai a vida! – que é sempre madrasta. Da sogra aos filhos, da escola ao trabalho, do hospital às férias, a insatisfação é um parasita constante, sem remédio nem cura. Nunca nada é perfeito. O verdadeiro português nem o que está perto da perfeição aprecia. Se não é perfeito, não satisfaz. Não se contenta com pouco, quer toda a perfeição a que tem direito.
Ao fim do dia, a política. Não conseguem apontar uma única medida que os satisfaça, ou, se conseguem, calam-na para que só as insatisfatórias brilhem no espaço sideral. Esta qualidade do insatisfatório aplica-se especialmente aos intervenientes. Aqui podemos fazer uma ressalva, pois é o único caso em que a insatisfação total se adequa à realidade. Valha-nos uma insatisfação justificada! Desculpa todas as infundadas.
Há 2 espécies de insatisfeitos. Completamente diferentes uma da outra, embora às vezes se encontrem à esquina.
A primeira são os insatisfeitos que gritam e esbracejam em público mas na frente do funcionário são cordeirinhos mansos. Reclamam, queixam-se, murmuram continuamente palavras de ódio entre dentes rangentes, mas afinal baixam os braços, aceitando resignados, e como cruz, a raiz, caule, flor e frutos da insatisfação.
A segunda espécie - nem vão acreditar - deu origem aos Descobrimentos. Afinal sempre pode ser uma virtude, a insatisfação… Estes insatisfeitos são os que não gostam desse estado de alma e, por isso, lutam em busca da resolução do busílis da questão. Sofrem de inquietude aguda e não ficam satisfeitos enquanto não se livram do que lhes rói a alma. São os que não desistem, actuam, escrevem no livro amarelo, emigram, lutam, vão àquela manifestação por aquilo em que acreditam mesmo que sejam só vinte.
Afinal, não fora os insatisfeitos não haveria Portugal, ou não fossem D. Afonso Henriques, D. João I, o Infante D. Henrique, os conjurados, D. João IV, uns perfeitos insatisfeitos…
Na essência, somos produto das duas espécies, dependendo das circunstâncias, e neste momento Portugal precisa urgentemente da segunda. A brava.

Leonor Martins de Carvalho

quarta-feira, 28 de março de 2012

PODEMOS PASSAR AO LADO DA PRIMAVERA?

Com o tempo da Quaresma começa para os cristãos o acordar da Primavera. Na Natureza já não se conseguem esconder os sinais da sua presença: das árvores de grande porte à mais singela flor, tudo parece despertar da penumbra do Inverno. Sentimo-nos como naquela passagem da Carta aos Hebreus, que diz: «estamos envolvidos por uma nuvem de testemunhas». De facto, o grande alvoroço de vida, com que a criação, a nosso lado, se reveste, constitui um desafio que vai directo ao interior de nós. Podemos passar ao lado da Primavera sem reflorir?

Padre José Tolentino de Mendonça

sábado, 24 de março de 2012

VERDADES ETERNAS RELEMBRADAS A PROPÓSITO DA ACTUAL CRISE

O Homem deve à Europa aquilo que mais contribuiu para lhe modelar a personalidade e para lhe indicar o caminho — uma Filosofia, um Direito e uma Teologia e todos três orientados no sentido da criação de uma Ordem.
(...)
Quero ainda ter fé nos princípios em que assenta a civilização do Ocidente, heleno-romano-cristã. A tempestade desencadeada agora significa, de algum modo, a falência desses princípios? Significa, sim, a falência de tudo quanto se construiu, ou pretendeu construir, sem eles ou contra eles.

JOÃO AMEAL
(1902 — 1982)

sexta-feira, 23 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 9
Por mais que mexa e remexa, ainda não encontrei o tal texto que tinha posto na carteira por volta do século passado. Desta vez apareceu um papel todo amarrotado que, depois de cuidadosamente desdobrado para não se rasgar, apenas tinha escrito, em letra apressada, “trabalho”, assim uma coisa meio vaga, que por isso se vai reflectir em texto necessariamente curto para não ter muito do dito.
Parece estranho falar ironicamente sobre trabalho num país que cada vez tem menos para oferecer aos seus. Assim, pensai que esta crónica se passa num país normal, aquele que um dia imaginamos será o nosso, e não nesta Ilusitânia (nome com que meu avô baptizou o Portugal de Salazar em 1940 e perfeitamente actual).
Aqui há quem teime em qualificar ou desqualificar o trabalho por zonas geográficas e climáticas. Essa iluminada teoria tenta convencer-nos que no Norte se trabalha mesmo muito, no Sul quase nada, em zonas frias o labor é intensivo e em zonas quentes só existe o passo do caracol.
Pensam eles que têm teorias originais, mas esta divisão é mais conhecida e revisitada que a Mona Lisa. No fundo é puro plágio das mesmas teorias divisionistas feitas noutros países, e até por analogia extensiva nos impingem constantemente a sua comprovação prática a zonas geográficas que galgam fronteiras e mesmo continentes: Europa do Norte versus Europa do Sul, Europa versus África e, apetece-me dizer, Terra versus Lua.
Outro costume enraizado nos portugueses é menosprezar o trabalho dos outros. Sim, porque o nosso é que é mesmo a sério. Nós trabalhamos que nem mouros. Os outros nunca trabalham ou, condescendendo muito, trabalham poucochinho. Têm empregos! Andam na boa vida enquanto nós, pobres sofredores, carregamos nos ombros a responsabilidade do autêntico, genuíno e patenteado trabalho.
Assim de chofre, vêm logo à baila três palavras que enganadoramente parecem sinónimos entre si, mas que afinal, consoante as pessoas que as pronunciam e o tom em que são ditas, espelham visões diferentes do trabalho. Estou a pensar em trabalho, emprego e serviço, termos que, no seu uso quotidiano, tanto significam o local onde se exerce, como o trabalho propriamente dito.
Quando logo de manhã nos dirigimos para onde ganhamos o nosso pão e leite e luz e casa, ninguém diz vou para a lavandaria Rosa Maria ou para a sociedade de advogados Rui, António e Lopes Associados. O uso do nome por extenso é para o cliente do estabelecimento. O comum dos mortais vai para o trabalho, para o serviço ou para o emprego. As raras excepções têm-nas quem à viva força quer que todos saibam onde labuta, desparecendo então as formas abreviadas para dar lugar ao ridículo do nome por extenso.
Trabalho é palavra maldita para uns, os que o tratam tu cá tu lá por emprego, sonhando com o dia da libertação, que virá jogando esperançada e desesperadamente em todos os jogos da Santa Casa.
Para outros é salvífica, adoram o que fazem, sem aquele trabalho feito à sua exacta medida a vida não faria qualquer sentido e reformam-se só quando são obrigados, entrando numa espécie de negação quando de repente se vêem sem horário para cumprir nem tarefas pré-determinadas.
Há depois os que usam a palavra serviço, normalmente funcionários públicos, herança de tempos idos em que o serviço ao país tinha valor. Hoje, serviço na função pública tanto pode significar trabalho como emprego, embora haja ainda quem faça jus ao termo.
O trabalho é coisa muito séria. O serviço também, tanto que sói dizer-se “eu não brinco em serviço”. Estranho é a expressão não se aplicar ao trabalho e ao emprego, o que poderia indiciar que nestes o folguedo é constante, mentira mal construída então agora que acabou o Carnaval.
Nada do que foi dito acima é taxativo e as combinações são múltiplas: há quem esteja empregado mas trabalhe, quem esteja ao serviço mas tenha emprego, quem trabalhe mas esteja ao serviço.
Afinal o texto acabou por ser mais longo que o previsto, deu bastante trabalho, não vai ter emprego decente, nem prestou serviço em condições.
Os três termos apenas se reencontram no seu contrário, o desemprego. Aí, quem tinha trabalho, emprego ou serviço sente-se traído, abandonado, deitado fora, como o papel amarrotado em que a palavra surgiu…

Leonor Martins de Carvalho

quarta-feira, 21 de março de 2012

SAUDADES QUE DOEM



Tenho saudades do Clube dos Amigos da Sétima Arte — CASA. Fundei-o em Setembro de 2004 e animei-o até Maio de 2010. Desde o princípio até ao fim. Tudo o que é bom acaba, já se sabe. Depois, as memórias transformam-se em agridoces recordações, daquelas que despertam um suave ardor na alma, entre a dor e o prazer. Assim sendo, dedico este belíssimo tema a todos aqueles que fequentaram as tertúlias semanais do Clube, nos diferentes grupos e níveis, nem que tenha sido apenas por um só dia... Portanto (se me esqueci de alguém, avisem), esta vai para os cinéfilos muito cá de CASA:
Diogo L, António PS, Laura, Pedro V, Ana Rita, Pedro, Inês, Sofia, Inês GR, Maria, Jorge, Concepcion, Francisco, Lourenço, Tomaz H, Sofia, Paulo C, José, Sofia, Francisco, Cláudia AA, Maria do Rosário J, Rita C, Ana C, Cristiana, Pedro, João, Sofia U, Mafalda, Pedro, Marta, Patrícia M, Teresa, Pedro, Helena, Marta, Rory, Joana, Álvaro, Marcelo L, Isabel F, Inês R, Ana Margarida, António, João, António, Cristina, Mariana, Miguel C, Isabel.
Guardo-os a todos no meu coração.

terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA BOREAL

Primavera, c. 1482
SANDRO BOTTICELLI (1445 — 1510)
Têmpera sobre Papel, 203 x 314 cm
Galleria degli Uffizi, Florença.

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

Foi hoje, às 5 horas e 14 minutos do dia 20 de Março, porque este ano é bissexto e Fevereiro teve 29 dias e não só.
E já sinto claramente a Primavera no corpo e na alma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

DIA DO PAI

É Dia do Pai, porque é Dia de S. José, marido da Virgem Santa Maria.
E é hoje. Mas, só por enquanto..., porque, estas bestas, que teimam em apagar sistematicamente todos os Fundamentos Cristãos da Europa, podem sempre lembrar-se de o mudar, como fizeram com o Dia da Mãe.
Sendo este o terceiro ano sucessivo que passo o Dia do Pai sem o meu Pai, dedico-Lhe o estudo que estou a escrever, com vista a ser publicado, sobre a nossa Família (sei que Ele vai gostar).

domingo, 18 de março de 2012

DA GENEALOGIA [TIO-BISAVÔ CARLOS]

Carlos Moreira da Costa Pinto
(Sousel, São João Baptista da Ribeira, 18.02.1871 —
  — Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 28.03.1944)

Lavrador, Proprietário e Político.

Filho de Joaquim Pereira da Costa Pinto e de D. Leonor do Carmo Moreira, irmão mais novo de Mariano Moreira da Costa Pinto, Carlos Moreira da Costa Pinto, que recebe o mesmo nome próprio de seu avô-paterno, Carlos da Costa Pinto da Fonseca, nasce na casa de habitação da Herdade da Revenduda, propriedade de seu Pai.
Descendente de famílias tradicionais, ligadas à Igreja e à Coroa, que serviram a Pátria através das armas, das leis, das letras, das artes e das ciências: Magalhães (sua varonia), do Minho, Pintos da Fonseca, Moreiras e Costas Ramos, da Beira, por via paterna; Moreiras de Carvalho, Cordeiros Vinagres e Barreiros Godinhos, do Alentejo, por via materna.
Será no monte da referida herdade que ficará a residir, mesmo depois de casado, com D. Joana da Conceição Chaveiro (também ela duma família, à semelhança dos Costa Pinto, da principalidade local, de grandes lavradores, proprietários e políticos), e é a partir desta morada que dirigirá a sua vasta e moderna casa agrícola de vários milhares de hectares, sucedendo a seu Pai — após a morte deste e da partida de seu mano Mariano, como rendeiro, para a Herdade de Torre de Palma — como proprietário e lavrador da Herdade da Revenduda.
Os seus métodos de lavoura mereceram a atenção e o estudo de especialistas como Acrísio Canas Mendes e D. Manuel de Bragança.
Avesso a títulos e a cargos, à semelhança do seu irmão mais velho, Mariano, só os aceitando quando, de facto, serviam para servir directamente as populações das suas terras, recusou várias vezes, entre outros, o convite para ser Ministro da Agricultura, um dos quais feito pessoalmente por Bernardino Machado.
Republicano desde os tempos da Monarquia, apesar de neto e homónimo de um miguelista, a sua adesão ao Partido Republicano Português (PRP) foi um factor de credibilidade do mesmo, devido à sua seriedade e ao seu prestígio a nível regional e nacional; e, logo foi nomeado membro da Comissão Distrital de Portalegre do PRP, chegando rapidamente a seu Presidente, ainda antes da implantação da República.
Mais tarde, rompeu com o referido partido e foi evolucionista. Depois, patriota e republicano conservador, que sempre foi, apoiou Sidónio Pais e exerceu o cargo de Administrador do Concelho de Sousel (pela segunda vez) durante o consulado do Presidente-Rei . De seguida, filiou-se no Partido Unionista do seu amigo Brito Camacho. Finalmente, na sequência de toda esta coerente e dinâmica linha de pensamento e acção, aderiu ao Estado Novo.
Por outro lado, homem culto, teve como amigos António Sérgio, Câmara Reys e Cruz Malpique, bem como outras importantes figuras da Oposição; esteve ligado à revista Seara Nova, que ajudou a sobreviver em pleno Estado Novo; e, subscreveu o Manifesto Nação (1923).
Pode pois concluir-se que a guiá-lo esteve sempre a sua consciência, contra modas, ventos e marés.
Filantropo activo, preocupou-se também com a alimentação e a assistência médica dos mais carenciados e para isso fundou e dirigiu os Socorros Mútuos de Sousel.
Benemérito cultural, ofereceu gratuitamente peças ao Museu Etnológico Português (actual Museu Nacional de Arqueologia).
Mecenas das artes e letras, custeou generosamente os estudos de pessoas em que soube antever talento e que vieram a ser reconhecidos pintores e escritores.
Jaz sepultado em jazigo próprio no Cemitério de Sousel («Jazigo de Carlos Moreira Costa Pinto e de sua Esposa D. Joana Chaveiro Costa Pinto»).

Dados Biográficos:
- Grande Lavrador.
- Grande Proprietário.
- Político.
- Proprietário da Herdade da Revenduda.
- Presidente da Comissão Distrital de Portalegre do Partido Republicano Português (1909).
- Administrador do Concelho de Fronteira (03.11.1910-13.01.1911).
- Administrador do Concelho de Sousel (20.12.1911-12.04.1913 e 24.12.1917-16.03.1918).
- Fundador e Presidente da Assembleia-Geral da Associação de Socorros Mútuos de Sousel (1914-...).
- Governador Civil do Distrito de Portalegre (11.06.1921-14.11.1921).
- Orador do Triângulo n.º 185 da Maçonaria de Rito Francês (iniciado em 31.07.1911 no referido Triângulo de Sousel com o nome simbólico de «Magalhães»).
Etc.

Bibliografia e Arquivos:
- Álbum Republicano, J. Ramos e Luís Derouet, Typographia Adolpho de Mendonça, Lisboa, 1908.
- Colecção Oficial de Legislação Portuguesa, Imprensa Nacional, 1909.
- De Terra em Terra — Excursões Arqueológico-Etnográficas através de Portugal (Norte, Centro e Sul), José Leite de Vasconcellos, Imprensa Nacional de Lisboa, 1927.
- Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
- O Alentejo na Fundação e Restauração: Canal ou Ameixial?, Marques Crespo, Brados do Alentejo, 1941.
- Uma Filosofia da Cultura — Aspectos Pedagógicos, Manuel da Cruz Malpique, Edição do Autor, Porto, 1962.
- Aquilino, o Homem e o Escritor, Cruz Malpique, Divulgação, 1964.
- Miguéis — to the seventh decade, John Austin Kerr, Romance Monographs, EUA, 1977.
- Guia de História da 1.ª República Portuguesa, A. H. de Oliveira Marques, Editorial Estampa, Lisboa, 1981.
- Estremoz e o seu Termo Regional, Marques Crespo, Centro Social Paroquial, Estremoz, 1987 (2.ª edição fac-similada).
- Nobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gaio, Carvalhos de Basto, Braga, 1989 (2.ª edição).
- Pelas Searas da Vida, Felizardo António Martins, Câmara Municipal de Sousel, Sousel, 1992.
- Entre a República e a Acracia: o Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914), António Ventura, Edições Colibri, 1995.
- Costados Alentejanos, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 1999.
- Livro Genealógico das Famílias desta Cidade de Portalegre, Manuel da Costa Juzarte de Brito, anotado, corrigido e actualizado por Nuno Gonçalo Pereira Borrego e Gonçalo de Mello Guimarães, Edição dos Autores das notas, correcções e actualizações, Lisboa, 2002.
- Gente D'Algo, Manuel Arnao Metello, Edição do Autor, Lisboa, 2002.
- Cartas de Brasão de Armas - Colectânea, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição Guarda-Mor, Lisboa, 2003.
- Cartas de Brasão de Armas - II, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição DisLivro Histórica, 2005.
- Costados Alentejanos II, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 2005.
- As Ordenanças e as Milícias em Portugal - Subsídios para o seu Estudo. Volume I, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição Guarda-Mor, Lisboa, 2006.
- A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), António Ventura, Caleidoscópio, 2007.
- Lavradores Alentejanos - Genealogias (Volumes I e II), Pedro Amaral de Carvalho, Edição do Autor, Lisboa, 2015.
- Revista O Arqueólogo Português, Museu Etnográfico Português.
- Revista Gazeta das Aldeias.
- Revista Seara Nova.
- Revista Vida Alentejana.
- Jornal Brados do Alentejo.
- Arquivo Distrital de Évora.
- Arquivo Distrital de Portalegre.
- Arquivo-Museu da Diocese de Lamego.
- Arquivo Nacional Torre do Tombo.
- Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta resenha biográfica sobre Carlos Moreira da Costa Pinto).
- 1.º draft do livro Mariano Moreira da Costa Pinto — Vida, Antepassados e Descendentes dum Grande Lavrador Alentejano, de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro).

Nota: Este texto será actualizado sempre que surjam novos dados na minha investigação bem como serão acrescentados livros à bibliografia à medida que forem saindo novas obras sobre a matéria do estudo.  

PROJECTO SOCIAL

Um dia hei-de sentar à mesma mesa, em enorme távola redonda, todos os meus amigos. Tenho-os de direita e de esquerda, bonitos e feios, ricos e pobres, eruditos e simples, conversadores e calados, antigos e novos, velhos e jovens; mas, todos — todos mesmo — aristocratas do espírito.

DA GENEALOGIA [AVÓ LUÍSA]

Maria Luísa Firmino Costa Pinto
(Monforte, Vaiamonte, 15.06.1907 —
— Lisboa, Santa Isabel, 22.12.1991)
Foi uma das primeiras Mulheres a fazer Fotografia em Portugal, como hobby. Para o efeito, mandou montar um laboratório fotográfico na Herdade de Torre de Palma, casa onde nasceu e viveu em solteira. Assim, aí revelava e imprimia as fotografias que tirava, durante a década de 1920.
Arquivos e Iconografia:
Arquivo Distrital de Portalegre.
Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta evocação biográfica sobre Maria Luísa Firmino Costa Pinto).

ESTA MIÚDA TEM QUALQUER COISA...

sábado, 17 de março de 2012

DA GENEALOGIA [BISAVÔ MARIANO]

Mariano Moreira da Costa Pinto
(Sousel, São João Baptista da Ribeira, 31.10.1868 —
— Monforte, Vaiamonte, 26.04.1930)

Lavrador, Proprietário e Político.

Mariano Moreira da Costa Pinto, filho de Joaquim Pereira da Costa Pinto e de D. Leonor do Carmo Moreira, nasceu na imponente e bonita casa de habitação (Monte, como se diz no Alentejo) da exemplar Herdade da Revenduda, situada na actualmente extinta freguesia de São João Baptista da Ribeira do concelho de Sousel, propriedade de seu Pai, aos 31 de Outubro de 1868.

No Baptismo tem como Padrinho o tio paterno Francisco da Costa Ramos Pinto da Fonseca, grande lavrador e proprietário em Fronteira, e como Madrinha a tia materna D. Maria da Orada Moreira, proprietária em Sousel. Recebe o nome próprio do seu tio-materno Mariano Rodrigues Moreira, grande lavrador e proprietário em Sousel.

Descendente de famílias tradicionais, ligadas à Igreja e à Coroa, que serviram a Pátria através das armas, das leis, das letras, das artes e das ciências: Magalhães (sua varonia), do Minho, Pintos da Fonseca, Moreiras e Costas Ramos, da Beira, por via paterna; Moreiras de Carvalho, Cordeiros Vinagres e Barreiros Godinhos, do Alentejo, por via materna.

Era um colosso, com dois metros de altura e 150 quilos de peso, detentor de uma força hercúlea, que viria a usar, por exemplo, entre outras famosas histórias, para, em plena corrida de touros, descer do camarote e ir dominar sozinho, fazendo-o recolher aos curros, um touro que os forcados não conseguiram pegar.
Proverbial era também o seu apetite, a ponto de os criados o alcunharem de Senhor 22, pois teria o hábito de comer vinte e duas peças de fruta à refeição…! Dizem certas más-línguas que esta alcunha teria a ver, por outro lado, com os seus filhos fora dos casamentos, mas essa é outra história e não é para aqui chamada. E esta é apenas a primeira de três das suas alcunhas, como veremos mais à frente.


Após seu Pai, em 1891, e sua Mãe, em 1892, terem morrido, a sua vida vai mudar. Assim:

Casa I em Monforte, Vaiamonte, Igreja Paroquial de Santo António, aos 08.10.1893, com D. Rosalina Maria [que usou Rosalina da Conceição Monteiro Costa Pinto, quatro apelidos provenientes dos seus dois maridos], nascida em Monforte, Vaiamonte, aos 09.10.1848, falecida em Monforte, Vaiamonte, Herdade da Torre de Palma, aos 22.12.1899 (viúva sem geração de Joaquim Anastácio Monteiro, nascido em Monforte, Vaiamonte, aos 10.09.1822, falecido em Portalegre, Sé, aos 14.03.1891, Lavrador, Rendeiro da Herdade da Torre de Palma, filho de Anastácio da Conceição Monteiro [também conhecido por Anastácio Monteiro da Conceição], nascido em Pinhel, Alverca, Lavrador, e de sua Mulher D. Maria Josefa, nascida em Monforte, Vaiamonte), filha de Joaquim António, nascido em Alter do Chão, Seda, aos, falecido em aos, Lavrador, e de sua Mulher D. Margarida do Mileu, nascida em Estremoz, Veiros, aos, falecida em aos. Neste seu 1.º casamento teve como testemunhas José Alfredo Menice Sardinha e Joaquim António de Calça e Pina. Não houve descendência deste casamento.

Casa II em Monforte, Vaiamonte, Igreja Paroquial de Santo António, aos 02.04.1900, com D. Catarina Rosa Firmino, nascida em Sousel, Sousel, aos 19.06.1872, falecida em Monforte, Vaiamonte, aos 09.11.1941, filha de António Firmino, nascido em Sousel, Sousel, aos 15.02.1834, falecido em Sousel, Sousel, aos 28.08.1908, foi o primeiro a usar o apelido Firmino nesta Família de Sousel, Proprietário, e de sua Mulher D. Mariana Celestina, nascida em Sousel, Sousel, aos 10.12.1841, falecida cerca de 1912 (bisneta por via paterna-paterna de Manuel Mendes Bagorro, nascido em Elvas, Vila Boim, aos 14.06.1741, falecido em Elvas, Terrugem, aos 05.06.1819, Juiz, Tabelião e Professor Régio de Primeiras Letras em Vila Boim). Neste seu 2.º casamento teve como testemunhas Francisco Augusto da Costa Falcão, Proprietário da Herdade da Torre de Palma, residente em Lisboa, e Carlos Moreira da Costa Pinto (seu irmão).

Ao fim de alguns anos de casados, D. Catarina, porque não houvesse ainda descendência, prometeu a Nossa Senhora da Vila Velha, de Fronteira, que lhe ofereceria um Menino Jesus de ouro maciço quando lhe nascesse um filho. Meses volvidos, nasceu o primeiro e a promessa foi paga. E continuaram a nascer, à média de um por ano. Assim sendo, Mariano disse à Mulher: «Catarina, parece-me que tens de prometer outro Menino Jesus, a ver se não temos mais filhos. Já vamos em meia dúzia…».    

Estabeleceu-se desta forma definitivamente, como morador e lavrador, na Herdade da Torre de Palma, em Vaiamonte, concelho de Monforte, a qual arrendou, sendo por isso também conhecido por Mariano de Palma, pois era hábito no Alentejo da época os lavradores serem referidos pelos nomes das herdades que exploravam.

E, enquanto seu irmão mais novo, Carlos Moreira da Costa Pinto, se iniciava, como proprietário e lavrador, na Herdade da Revenduda, onde ambos nasceram e cresceram, Mariano logo adoptou de corpo e alma a sua terra de adopção, Torre de Palma, feita terra do seu coração.

Fruto do seu trabalho, como activo agricultor, adquiriu uma série de herdades: Samarruda, Nora, Palhinha, Gis, Picão, Vale dos Homens, Tapadão de Alter, Esquerdos, Relvácho, Asseca, Pintas, Torradas e Sernila, etc. Estas terras estavam, na sua maioria, quando as comprou, cobertas por densos e extensos matagais. Empreendedor, mandou arrotear esses milhares de hectares considerados por outros indivíduos como improdutivos.

De seguida, transformou as referidas herdades em belos solos de semeadura, montados de sobro e azinho, olivais, etc. Isto fez dele, até hoje, um dos lavradores do Distrito de Portalegre que maior quantidade de território mandou limpar, plantar e semear.

Estava desta maneira erguida, a partir da arrendada sede da lavoura, na belíssima e histórica Herdade de Torre de Palma, onde sempre continuou a residir, onde lhe nasceram todos os seus sete filhos (dos quais, tirando o primeiro, que morreu em criança, todos chegaram em vida a avós) de sua querida mulher D. Catarina Rosa Firmino e onde viria a morrer, uma Casa Agrícola que ainda hoje pode e deve ser uma referência de estudo para os agora chamados empresários dos ramos de produção agrícola e animal (cabe aqui referir que foi igualmente um grande criador de diversos tipos de gado, onde se incluía uma Caudelaria de cavalos de raça espanhola com ferro CP).

Faz portanto parte daquela geração de homens que contribuíram, através de uma agricultura moderna e dinâmica, para transformar o Alto Alentejo numa produtiva e rica Província de Portugal.

Rematando esta breve resenha biográfica, acrescentarei apenas que Mariano Moreira da Costa Pinto foi um proprietário alentejano com um profundo sentido social, que se traduzia na benemérita ajuda aos mais desfavorecidos, e que ainda teve tempo e energia para cultivar o espírito, com igual paixão com que cultivava a terra, lavrador culto que era.

Com 57 anos, homem de família que era, querendo sempre o melhor para os seus descendentes, sentindo-se adoentando e pressentindo que ia deixar este mundo terreno, fez partilhas: doou as herdades aos filhos, pagando ele todos os direitos de transmissão. Aos que casaram em sua vida, deu-lhes o dote de 100 contos a cada, e os solteiros receberam igual quantia quando ele morreu. Deixou pois assim tudo preparado para que após a sua morte não surgissem incidentes entre os filhos, os quais, aliás, sempre foram bons irmãos entre si. E, de facto, todos ficaram satisfeitos com esta justa forma de tratamento.
Perto da hora da morte, usando umas compridas barbas brancas, manda-as cortar, dividir em seis parcelas iguais, e colocar em outros tantos envelopes. Cada filho recebe um envelope e ouve dele as seguintes palavras: «Meus filhos, em cada um destes envelopes vos deixo parte das minhas barbas. Peço-vos que nunca mas envergonhem». As barbas eram, como sabia este culto lavrador, que conhecia e usava a linguagem simbólica, sinal de honestidade e respeito. Estava assim a dizer aos filhos para seguirem o seu exemplo de vida.


Alma inconformada e irrequieta, qual força da Natureza, a ponto de merecer a alcunha de Mariano Alma (que adiante veremos ter também um significado secreto), usou a sua influência, de importante figura a nível regional, para — através da acção política, que aliás viu sempre e só no nobre sentido de serviço público — beneficiar o seu amado Alentejo. Nestas suas andanças políticas em prol do regionalismo e da República teve como companheiro inseparável o seu grande amigo José Alfredo Menice Sardinha (outro destacado alentejano  — que foi padrinho de baptismo de António Sardinha — a merecer a rápida publicação de uma biografia). Por conseguinte, Mariano Moreira da Costa Pinto, não obstante ser neto de um miguelista — Carlos da Costa Pinto da Fonseca —, e descendente de tradicionais famílias católicas e monárquicas, optou por servir a Pátria no republicanismo.

Morreu finalmente, no Monte de Palma (na magnífica casa de habitação da Herdade da Torre de Palma), freguesia de Vaiamonte, concelho de Monforte, aos 26 de Abril de 1930.

Em sua Memória foi dado o nome «Mariano Moreira Costa Pinto» a uma Rua em Monforte e a um Largo em Vaiamonte. O referido Largo encontra-se ajardinado e tem ao centro um Busto de Bronze representando o Homenageado.

Dados Biográficos:
- Grande Lavrador.
- Grande Proprietário.
- Político.
- Proprietário das Herdades de Samarruda, Nora, Courelas de Valverde (as duas últimas anexas à primeira), Palhinha, Gis, Picão, Vale dos Homens, Tapadão de Alter, Esquerdos, Relvacho, Asseca, Pintas, Torradas, Sernila e Matança.
- Rendeiro da Herdade de Torre de Palma.
- Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Monforte.
- Presidente da Junta de Paróquia de Vaiamonte.
- Juiz de Paz de Vaiamonte.
- Membro do Partido Republicano Português.
- Mestre Maçon, Presidente do Triângulo n.º 169 da Maçonaria de Rito Francês (iniciado em 14.05.1911 no referido Triângulo de Monforte com o nome simbólico de «Alma»).
Bibliografia e Arquivos:
- Raças Cavalares da Península e Marcas a Ferro que Usam nas suas Caudelarias os Criadores e Produtores Portugueses e Espanhóis, Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira, Tipografia Belenense, Lisboa, 1905.
- Colecção Oficial de Legislação Portuguesa, Imprensa Nacional, 1915.
- Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
- Motivos Alentejanos, João Ribeirinho Leal, Edição do Autor, 1982.
- Estremoz e o seu Termo Regional, Marques Crespo, Centro Social Paroquial, Estremoz, 1987 (2.ª edição, fac-similada).
- Nobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gaio, Carvalhos de Basto, Braga, 1989 (2.ª edição).
- Teófilo Júnior: Vida e Obra, António Ventura, Câmara Municipal de Arronches, Arronches, 1991.
- Pelas Searas da Vida, Felizardo António Martins, Câmara Municipal de Sousel, Sousel, 1992.
- Família e Poder no Alentejo (Elites de Avis: 1886 – 1941), Maria Antónia Pires de Almeida, Edições Colibri, Lisboa, 1997.
- Costados Alentejanos, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 1999.
- Livro Genealógico das Famílias desta Cidade de Portalegre, Manuel da Costa Juzarte de Brito, anotado, corrigido e actualizado por Nuno Gonçalo Pereira Borrego e Gonçalo de Mello Guimarães, Edição dos Autores das notas, correcções e actualizações, Lisboa, 2002.
- Gente D'Algo, Manuel Arnao Metello, Edição do Autor, Lisboa, 2002.
- Cartas de Brasão de Armas - Colectânea, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição Guarda-Mor, Lisboa, 2003.
- Cartas de Brasão de Armas - II, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição DisLivro Histórica, 2005.
- Costados Alentejanos II, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 2005.
- As Ordenanças e as Milícias em Portugal - Subsídios para o seu Estudo. Volume I, Nuno Gonçalo Pereira Borrego, edição Guarda-Mor, Lisboa, 2006.
- A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), António Ventura, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, SA, Portugal, 2007.
- Motivos Alentejanos, João Ribeirinho Leal, Edições Colibri, Lisboa, 2009 (2.º edição, revista e aumentada).
- Lavradores Alentejanos - Genealogias (Volumes I e II), Pedro Amaral de Carvalho, Edição do Autor, Lisboa, 2015.
- Revista Vida Alentejana.- Jornal Brados do Alentejo.
- Jornal A Plebe.
- Jornal O Carbonário.- Arquivo Distrital de Évora.
- Arquivo Distrital de Portalegre.
- Arquivo-Museu da Diocese de Lamego.
- Arquivo Nacional Torre do Tombo.
- Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta breve resenha biográfica sobre Mariano Moreira da Costa Pinto).
- In 1.º draft do livro Mariano Moreira da Costa Pinto — Vida, Antepassados e Descendentes dum Grande Lavrador Alentejano, de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro).
Nota: Este texto será actualizado sempre que surjam novos dados na minha investigação bem como serão acrescentados livros à bibliografia à medida que forem saindo novas obras sobre a matéria do estudo. 

ESTA MIÚDA TEM QUALQUER COISA...

sexta-feira, 16 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 8
Esperava pelo usual inesperado que a déspota que dá pelo nome de carteira me costuma proporcionar, mas esta semana, quando vi o que me saiu em sorte, senti-me enganada. Estará a perder os seus dotes e a ficar um pouco previsível? Mais uma destas partidas e proponho que perca todos os direitos ao elevado estatuto de genuína carteira de senhora. Contudo, hoje não me resta senão agarrar o mote e arranjar-lhe umas voltas.
De há uns tempos para cá, gradual e sub-repticiamente, foi aterrando em Lisboa uma nova espécie de extraterrestre, que tomou a estranha forma de riscas cor-de-tijolo. A Câmara, aliada nesta invasão, chamou-lhes pomposamente ciclovias.
Embora seja uma invenção herdada do séc. XIX, os lisboetas, por nunca antes postos perante tal visão, assumem-nas como o maior símbolo de modernidade à face da Terra.
Claro que as tais riscas são finas. Quero eu dizer com isto que não se dão lá muito com o povo, não apreciam muitas misturas. São mais acomodadas, umas senhoras burguesas que gostam de andar a direito para não se cansarem. Nada de trepar colinas. Etapas com nomes como Castelo ou Graça, são disfarçadamente evitadas, porque prémios de montanha só na Volta a Portugal em bicicleta e em Lisboa ninguém se chama Joaquim Agostinho.
As ciclovias de Lisboa tinham de arranjar maneira de marcar a diferença em relação às ciclovias do resto do Mundo. Tinham de ser únicas, umas alfacinhas de gema. Lá se fez um brain-storming cujo resultado foi considerado genial e então saíram-se com uma característica única: as ciclovias lisboetas acabam abruptamente uns três metros antes de chegarem a uma qualquer rua ou avenida. Entram numa espécie de coma súbito e ressuscitam de forma imprevista outros três metros depois de se atravessar a dita via. Alguém ainda vai reivindicar esta invenção da ciclovia saltitante.
Há ainda um outro pequeno problema com as ciclovias. Esqueceram-se do manual de instruções. Pensaram que os alfacinhas não precisavam, que eram todos viajantes, altamente cosmopolitas, com verdadeiro conhecimento de causa. É verdade que se houvesse manual de instruções, a probabilidade de o lerem era exactamente igual à de lerem os manuais de qualquer equipamento, ou seja, muito próximo de zero, mas pelo menos sabia-se que existia.
Assim, os lisboetas pensam que as riscas cor-de-tijolo foram uma dádiva do céu, uma forma de eles próprios poderem passear ordeiramente porque tem divisória ao meio e tudo.
Há alturas do dia em que as pessoas ocupam todo espaço das ciclovias, às vezes sendo mesmo obrigadas a atrasar o passo na fila ordeira, situação que parece totalmente estranha ao povo português, quando ao seu lado repousa sózinho um enorme passeio de calçada à portuguesa. Parece que as riscas cor-de-tijolo conseguem disciplinar as pessoas só porque tem um risco branco no meio. Afinal era só preciso um risco no meio e ninguém tinha ainda descoberto…
Outros utilizadores frequentes são as crianças com os seus triciclos, os doidinhos por skate, e ainda os maníacos da saúde, nas suas corridas matinais ou de fim-de-tarde.
Até os turistas, tão habituados a elas no seu próprio país, acabam a mimetizar os autóctones e dão-lhes o mesmo tipo de uso, pensando talvez que estavam enganados e aquilo, embora muito parecido, não será uma ciclovia mas outra coisa qualquer. Outro dia fui surpreendida por um grupo de raparigas que, sob as ordens enérgicas da sua treinadora, fazia um treino de aquecimento, precisamente sobre a pista da ciclovia em frente ao seu Hotel. Duvido que tal utilização seja autorizada no seu país, mas em Portugal um dia vira moda. Ainda vamos exportar a ideia.
Pouco a pouco começaram a surgir os verdadeiros utentes das riscas cor-de-tijolo. Espaçados de umas horas entre si, mas vai havendo.
Bicicletas antigas, modernas, inteiriças ou dobráveis, bicicletas simples ou cheias de acessórios. Os que as domam são estudantes de mochila, na sua maioria, mas aparece de tudo. Miúdos, graúdos, mulheres com carteira e homens com mala, gente sem equipamento nenhum e gente equipada dos pés à cabeça, com capacete, luvas, joelheiras, cotoveleiras e tudo o mais que imaginem imprescindível ao que entendem ser o ciclismo. O prémio do melhor apetrecho vai para um capacete com luz traseira, encarnada e intermitente.
Na semana passada assisti, pela primeira vez, in loco, e prometo que tinha os óculos postos no local devido, ao cruzamento de duas bicicletas em plena ciclovia.
Não há dúvida. É mesmo o sinal de que já estamos ao nível dos dinamarqueses.

Leonor Martins de Carvalho

quinta-feira, 15 de março de 2012

SERÁ CHEGADA A HORA DO MERECIDO REPOUSO?

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quarta-feira, 14 de março de 2012

DA GENEALOGIA [AVÔ JOÃO]

João Augusto Firmino Marchante
(Sousel, Sousel, 12.03.1897 — Lisboa, Santa Isabel, 20.05.1988)

Médico, Lavrador, Proprietário, Político e Administrador.
Filho de João Augusto Marchante e de D. Ana Josefa Firmino.

Licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa (1926)*;
Vice-Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1928-1940);
Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1940-1947);
Governador Civil do Distrito de Portalegre (1947-1951);
Presidente da Junta Nacional dos Produtos Pecuários (1951-19...);
Deputado à Assembleia Nacional (1957-1961);
Vogal da Junta de Província do Alto Alentejo (1961-...);
Presidente do Conselho de Administração dos Nitratos de Portugal;
Presidente do Grémio da Lavoura de Sousel;
Vereador da Santa Casa da Misericórdia de Sousel;
Sócio do Centro Académico da Democracia Cristã;
Presidente da Comissão Concelhia de Sousel da União Nacional;
Comandante de Lança da Legião Portuguesa;
Médico da Guarda Nacional Republicana;
Etc.

* Fez os primeiros anos do Curso de Medicina na Universidade de Coimbra.

Nota:
Após o casamento, com a sua prima direita Maria Luísa Firmino Costa Pinto, corta o seu apelido Firmino e passa a assinar apenas João Augusto Marchante.

Bibliografia e Arquivos:
Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
Governantes de Portugal desde 1820 até ao Dr. Salazar, António Manuel Pereira, Edição Manuel Barreira, Porto, 1959.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
Pelas Searas da Vida, Felizardo António Martins, Câmara Municipal de Sousel, Sousel, 1992.
Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974), Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Assembleia da República, Lisboa, 2005.
O Poder Local do Estado Novo à Democracia: Presidentes de Câmara e Governadores Civis, 1936-2012, Maria Antónia Pires de Almeida, Edição da Autora, Lisboa, 2013.
Dicionário Biográfico do Poder Local em Portugal, 1936-2013, Maria Antónia Pires de Almeida, Edição da Autora, Lisboa, 2014.
A Vida Privada das Elites do Estado Novo, Conceição Queiroz, Vogais, Lisboa, 2016.
Arquivo Distrital de Portalegre.
Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta síntese biográfica sobre João Augusto Firmino Marchante).