sábado, 31 de março de 2012

E AGORA?... NÃO HÁ NADA!

José da Gama e Castro, Marquês de Penalva, Frei Jacinto de Deus, Frei João dos Prazeres, Sebastião César de Meneses, José Acúrcio das Neves, José Agostinho de Macedo.

ET MAINTENANT?... IL N'Y A RIEN!

Joseph de Maistre, de Bonald, Frédéric Le Play, Taine, Maurice Barrès, Jacques Bainville, Charles Maurras.

sexta-feira, 30 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 10
A carteira hoje pôs-me satisfeita. Enfiei a mão, sorrateira, ela baralhou e saiu um estado de alma. Ainda por cima aquele que mais faz parte do nosso quotidiano: a insatisfação.
Num genuíno dicionário de português, a palavra satisfação apenas devia aparecer como mero antónimo de insatisfação. Não tem por cá definição própria. Ao latim apenas fomos buscar a raiz da palavra para depressa lhe antepormos o prefixo que a nega.
Quem é que está satisfeito em Portugal? Rigorosamente ninguém. O maior optimista português também reclama contra a fila na repartição…
A insatisfação é intrínseca à portugalidade, está inscrita no nosso ADN. Vê-se mesmo que os únicos satisfeitos que por aí andam não têm este gene. Foram importados por engano. Alguém se esqueceu de verificar se estava preenchido o campo 459 da declaração alfandegária, que exige a insatisfação como permanente estado de alma.
Começa logo de manhã. “Como está, passou bem?” Nunca passou. Nunca. Normalmente vai passando.
Segue-se o tempo. Por mais que se esforce, não há forma de o clima conseguir satisfazer um português. Jamais está a contento.
Depois a vida - ai a vida! – que é sempre madrasta. Da sogra aos filhos, da escola ao trabalho, do hospital às férias, a insatisfação é um parasita constante, sem remédio nem cura. Nunca nada é perfeito. O verdadeiro português nem o que está perto da perfeição aprecia. Se não é perfeito, não satisfaz. Não se contenta com pouco, quer toda a perfeição a que tem direito.
Ao fim do dia, a política. Não conseguem apontar uma única medida que os satisfaça, ou, se conseguem, calam-na para que só as insatisfatórias brilhem no espaço sideral. Esta qualidade do insatisfatório aplica-se especialmente aos intervenientes. Aqui podemos fazer uma ressalva, pois é o único caso em que a insatisfação total se adequa à realidade. Valha-nos uma insatisfação justificada! Desculpa todas as infundadas.
Há 2 espécies de insatisfeitos. Completamente diferentes uma da outra, embora às vezes se encontrem à esquina.
A primeira são os insatisfeitos que gritam e esbracejam em público mas na frente do funcionário são cordeirinhos mansos. Reclamam, queixam-se, murmuram continuamente palavras de ódio entre dentes rangentes, mas afinal baixam os braços, aceitando resignados, e como cruz, a raiz, caule, flor e frutos da insatisfação.
A segunda espécie - nem vão acreditar - deu origem aos Descobrimentos. Afinal sempre pode ser uma virtude, a insatisfação… Estes insatisfeitos são os que não gostam desse estado de alma e, por isso, lutam em busca da resolução do busílis da questão. Sofrem de inquietude aguda e não ficam satisfeitos enquanto não se livram do que lhes rói a alma. São os que não desistem, actuam, escrevem no livro amarelo, emigram, lutam, vão àquela manifestação por aquilo em que acreditam mesmo que sejam só vinte.
Afinal, não fora os insatisfeitos não haveria Portugal, ou não fossem D. Afonso Henriques, D. João I, o Infante D. Henrique, os conjurados, D. João IV, uns perfeitos insatisfeitos…
Na essência, somos produto das duas espécies, dependendo das circunstâncias, e neste momento Portugal precisa urgentemente da segunda. A brava.

Leonor Martins de Carvalho

quarta-feira, 28 de março de 2012

PODEMOS PASSAR AO LADO DA PRIMAVERA?

Com o tempo da Quaresma começa para os cristãos o acordar da Primavera. Na Natureza já não se conseguem esconder os sinais da sua presença: das árvores de grande porte à mais singela flor, tudo parece despertar da penumbra do Inverno. Sentimo-nos como naquela passagem da Carta aos Hebreus, que diz: «estamos envolvidos por uma nuvem de testemunhas». De facto, o grande alvoroço de vida, com que a criação, a nosso lado, se reveste, constitui um desafio que vai directo ao interior de nós. Podemos passar ao lado da Primavera sem reflorir?

Padre José Tolentino de Mendonça

sábado, 24 de março de 2012

VERDADES ETERNAS RELEMBRADAS A PROPÓSITO DA ACTUAL CRISE

O Homem deve à Europa aquilo que mais contribuiu para lhe modelar a personalidade e para lhe indicar o caminho — uma Filosofia, um Direito e uma Teologia e todos três orientados no sentido da criação de uma Ordem.
(...)
Quero ainda ter fé nos princípios em que assenta a civilização do Ocidente, heleno-romano-cristã. A tempestade desencadeada agora significa, de algum modo, a falência desses princípios? Significa, sim, a falência de tudo quanto se construiu, ou pretendeu construir, sem eles ou contra eles.

JOÃO AMEAL
(1902 — 1982)

sexta-feira, 23 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 9
Por mais que mexa e remexa, ainda não encontrei o tal texto que tinha posto na carteira por volta do século passado. Desta vez apareceu um papel todo amarrotado que, depois de cuidadosamente desdobrado para não se rasgar, apenas tinha escrito, em letra apressada, “trabalho”, assim uma coisa meio vaga, que por isso se vai reflectir em texto necessariamente curto para não ter muito do dito.
Parece estranho falar ironicamente sobre trabalho num país que cada vez tem menos para oferecer aos seus. Assim, pensai que esta crónica se passa num país normal, aquele que um dia imaginamos será o nosso, e não nesta Ilusitânia (nome com que meu avô baptizou o Portugal de Salazar em 1940 e perfeitamente actual).
Aqui há quem teime em qualificar ou desqualificar o trabalho por zonas geográficas e climáticas. Essa iluminada teoria tenta convencer-nos que no Norte se trabalha mesmo muito, no Sul quase nada, em zonas frias o labor é intensivo e em zonas quentes só existe o passo do caracol.
Pensam eles que têm teorias originais, mas esta divisão é mais conhecida e revisitada que a Mona Lisa. No fundo é puro plágio das mesmas teorias divisionistas feitas noutros países, e até por analogia extensiva nos impingem constantemente a sua comprovação prática a zonas geográficas que galgam fronteiras e mesmo continentes: Europa do Norte versus Europa do Sul, Europa versus África e, apetece-me dizer, Terra versus Lua.
Outro costume enraizado nos portugueses é menosprezar o trabalho dos outros. Sim, porque o nosso é que é mesmo a sério. Nós trabalhamos que nem mouros. Os outros nunca trabalham ou, condescendendo muito, trabalham poucochinho. Têm empregos! Andam na boa vida enquanto nós, pobres sofredores, carregamos nos ombros a responsabilidade do autêntico, genuíno e patenteado trabalho.
Assim de chofre, vêm logo à baila três palavras que enganadoramente parecem sinónimos entre si, mas que afinal, consoante as pessoas que as pronunciam e o tom em que são ditas, espelham visões diferentes do trabalho. Estou a pensar em trabalho, emprego e serviço, termos que, no seu uso quotidiano, tanto significam o local onde se exerce, como o trabalho propriamente dito.
Quando logo de manhã nos dirigimos para onde ganhamos o nosso pão e leite e luz e casa, ninguém diz vou para a lavandaria Rosa Maria ou para a sociedade de advogados Rui, António e Lopes Associados. O uso do nome por extenso é para o cliente do estabelecimento. O comum dos mortais vai para o trabalho, para o serviço ou para o emprego. As raras excepções têm-nas quem à viva força quer que todos saibam onde labuta, desparecendo então as formas abreviadas para dar lugar ao ridículo do nome por extenso.
Trabalho é palavra maldita para uns, os que o tratam tu cá tu lá por emprego, sonhando com o dia da libertação, que virá jogando esperançada e desesperadamente em todos os jogos da Santa Casa.
Para outros é salvífica, adoram o que fazem, sem aquele trabalho feito à sua exacta medida a vida não faria qualquer sentido e reformam-se só quando são obrigados, entrando numa espécie de negação quando de repente se vêem sem horário para cumprir nem tarefas pré-determinadas.
Há depois os que usam a palavra serviço, normalmente funcionários públicos, herança de tempos idos em que o serviço ao país tinha valor. Hoje, serviço na função pública tanto pode significar trabalho como emprego, embora haja ainda quem faça jus ao termo.
O trabalho é coisa muito séria. O serviço também, tanto que sói dizer-se “eu não brinco em serviço”. Estranho é a expressão não se aplicar ao trabalho e ao emprego, o que poderia indiciar que nestes o folguedo é constante, mentira mal construída então agora que acabou o Carnaval.
Nada do que foi dito acima é taxativo e as combinações são múltiplas: há quem esteja empregado mas trabalhe, quem esteja ao serviço mas tenha emprego, quem trabalhe mas esteja ao serviço.
Afinal o texto acabou por ser mais longo que o previsto, deu bastante trabalho, não vai ter emprego decente, nem prestou serviço em condições.
Os três termos apenas se reencontram no seu contrário, o desemprego. Aí, quem tinha trabalho, emprego ou serviço sente-se traído, abandonado, deitado fora, como o papel amarrotado em que a palavra surgiu…

Leonor Martins de Carvalho

quarta-feira, 21 de março de 2012

SAUDADES QUE DOEM



Tenho saudades do Clube dos Amigos da Sétima Arte — CASA. Fundei-o em Setembro de 2004 e animei-o até Maio de 2010. Desde o princípio até ao fim. Tudo o que é bom acaba, já se sabe. Depois, as memórias transformam-se em agridoces recordações, daquelas que despertam um suave ardor na alma, entre a dor e o prazer. Assim sendo, dedico este belíssimo tema a todos aqueles que fequentaram as tertúlias semanais do Clube, nos diferentes grupos e níveis, nem que tenha sido apenas por um só dia... Portanto (se me esqueci de alguém, avisem), esta vai para os cinéfilos muito cá de CASA:
Diogo L, António PS, Laura, Pedro V, Ana Rita, Pedro, Inês, Sofia, Inês GR, Maria, Jorge, Concepcion, Francisco, Lourenço, Tomaz H, Sofia, Paulo C, José, Sofia, Francisco, Cláudia AA, Maria do Rosário J, Rita C, Ana C, Cristiana, Pedro, João, Sofia U, Mafalda, Pedro, Marta, Patrícia M, Teresa, Pedro, Helena, Marta, Rory, Joana, Álvaro, Marcelo L, Isabel F, Inês R, Ana Margarida, António, João, António, Cristina, Mariana, Miguel C, Isabel.
Guardo-os a todos no meu coração.

terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA BOREAL

Primavera, c. 1482
SANDRO BOTTICELLI (1445 — 1510)
Têmpera sobre Papel, 203 x 314 cm
Galleria degli Uffizi, Florença.

EQUINÓCIO DA PRIMAVERA

Foi hoje, às 5 horas e 14 minutos do dia 20 de Março, porque este ano é bissexto e Fevereiro teve 29 dias e não só.
E já sinto claramente a Primavera no corpo e na alma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

DIA DO PAI

É Dia do Pai, porque é Dia de S. José, marido da Virgem Santa Maria.
E é hoje. Mas, só por enquanto..., porque, estas bestas, que teimam em apagar sistematicamente todos os Fundamentos Cristãos da Europa, podem sempre lembrar-se de o mudar, como fizeram com o Dia da Mãe.
Sendo este o terceiro ano sucessivo que passo o Dia do Pai sem o meu Pai, dedico-Lhe o estudo que estou a escrever, com vista a ser publicado, sobre a nossa Família (sei que Ele vai gostar).

domingo, 18 de março de 2012

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [TIO-BISAVÔ CARLOS]

Carlos Moreira da Costa Pinto
(Sousel, São João Baptista da Ribeira, 18.02.1871 —
  — Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 28.03.1944)

Lavrador, Proprietário e Político.

Filho de Joaquim Pereira da Costa Pinto e de D. Leonor do Carmo Moreira, irmão mais novo de Mariano Moreira da Costa Pinto, Carlos Moreira da Costa Pinto, que recebe o mesmo nome próprio de seu avô-paterno, Carlos da Costa Pinto da Fonseca, nasce na Herdade da Revenduda, propriedade de seu Pai.
Descendente de famílias tradicionais, ligadas à Igreja e à Coroa, que serviram a Pátria através das armas, das leis, das letras, das artes e das ciências: Magalhães (sua varonia), do Minho, Pintos da Fonseca, Moreiras e Costas Ramos, da Beira, por via paterna; Moreiras de Carvalho, Cordeiros Vinagres e Barreiros Godinhos, do Alentejo, por via materna.
Será na casa de habitação da referida herdade que ficará a residir, mesmo depois de casado, com D. Joana da Conceição Chaveiro (também ela duma família, à semelhança dos Costa Pinto, da principalidade local, de grandes lavradores, proprietários e políticos), e é a partir desta morada que dirigirá a sua vasta e moderna casa agrícola de mais de 2000 hectares, sucedendo a seu Pai — após a morte deste e da partida de seu mano Mariano, como rendeiro, para a Herdade de Torre de Palma — como proprietário e lavrador da Herdade da Revenduda.
Os seus métodos de lavoura mereceram a atenção e o estudo de especialistas como Acrísio Canas Mendes e D. Manuel de Bragança.
Avesso a títulos e a cargos, à semelhança do seu irmão mais velho, Mariano, só os aceitando quando, de facto, serviam para servir directamente as populações das suas terras, recusou várias vezes, entre outros, o convite para ser Ministro da Agricultura, um dos quais feito pessoalmente por Bernardino Machado.
Republicano desde os tempos da Monarquia, apesar de neto e homónimo de um miguelista, a sua adesão ao Partido Republicano Português (PRP) foi um factor de credibilidade do mesmo, devido à sua seriedade e ao seu prestígio a nível regional e nacional; e, logo foi nomeado membro da Comissão Distrital de Portalegre do PRP, chegando rapidamente a seu Presidente, ainda antes da implantação da República.
Mais tarde, rompeu com o referido partido e foi evolucionista. Depois, patriota e republicano conservador, que sempre foi, apoiou Sidónio Pais e exerceu o cargo de Administrador do Concelho de Sousel (pela segunda vez) durante o consulado do Presidente-Rei . De seguida, filiou-se no Partido Unionista do seu amigo Brito Camacho. Finalmente, na sequência de toda esta coerente e dinâmica linha de pensamento e acção, aderiu ao Estado Novo.
Por outro lado, homem culto, teve como amigos António Sérgio, Câmara Reys e Cruz Malpique, bem como outras importantes figuras da Oposição; esteve ligado à revista Seara Nova, que ajudou a sobreviver em pleno Estado Novo; e, subscreveu o Manifesto Nação (1923).
Pode pois concluir-se que a guiá-lo esteve sempre a sua consciência, contra modas, ventos e marés.
Filantropo activo, preocupou-se também com a alimentação e a assistência médica dos mais carenciados e para isso fundou e dirigiu os Socorros Mútuos de Sousel.
Benemérito cultural, ofereceu gratuitamente peças ao Museu Etnológico Português (actual Museu Nacional de Arqueologia).
Mecenas das artes e letras, custeou generosamente os estudos de pessoas em que soube antever talento e que vieram a ser reconhecidos pintores e escritores.
Jaz sepultado em jazigo próprio no Cemitério de Sousel («Jazigo de Carlos Moreira Costa Pinto e de sua Esposa D. Joana Chaveiro Costa Pinto»).

- Presidente da Comissão Distrital de Portalegre do Partido Republicano Português (1909).
- Administrador do Concelho de Sousel (16.10.1911-... e 24.12.1917-16.03.1918).
- Fundador e Presidente da Assembleia-Geral da Associação de Socorros Mútuos de Sousel (1914-...).
- Governador Civil do Distrito de Portalegre (11.06.1921-14.11.1921).
- Orador do Triângulo n.º 185 da Maçonaria de Rito Francês (iniciado em 31.07.1911 no referido Triângulo de Sousel com o nome simbólico de «Magalhães»).
Etc.

Bibliografia e Arquivos:
- Álbum Republicano, J. Ramos e Luís Derouet, Typographia Adolpho de Mendonça, Lisboa, 1908.
- Colecção Oficial de Legislação Portuguesa, Imprensa Nacional, 1909.
- De Terra em Terra — Excursões Arqueológico-Etnográficas através de Portugal (Norte, Centro e Sul), José Leite de Vasconcellos, Imprensa Nacional de Lisboa, 1927.
- Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
- O Alentejo na Fundação e Restauração: Canal ou Ameixial?, Marques Crespo, Brados do Alentejo, 1941.
- Uma Filosofia da Cultura — Aspectos Pedagógicos, Manuel da Cruz Malpique, Edição do Autor, Porto, 1962.
- Aquilino, o Homem e o Escritor, Cruz Malpique, Divulgação, 1964.
- Miguéis — to the seventh decade, John Austin Kerr, Romance Monographs, EUA, 1977.
- Guia de História da 1.ª República Portuguesa, A. H. de Oliveira Marques, Editorial Estampa, Lisboa, 1981.
- Estremoz e o seu Termo Regional, Marques Crespo, Centro Social Paroquial, Estremoz, 1987 (2.ª edição fac-similada).
- Nobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gaio, Carvalhos de Basto, Braga, 1989 (2.ª edição).
- Pelas Searas da Vida, Felizardo António Martins, Câmara Municipal de Sousel, Sousel, 1992.
- Entre a República e a Acracia: o Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914), António Ventura, Edições Colibri, 1995.
- Costados Alentejanos, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 1999.
- Costados Alentejanos II, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 2005.
- A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), António Ventura, Caleidoscópio, 2007.
- Revista O Arqueólogo Português, Museu Etnográfico Português, Lisboa, 1914 e 1929.
- Revista Gazeta das Aldeias, 1937.
- Revista Seara Nova, 1939.
- Revista Vida Alentejana.
- Jornal Brados do Alentejo, Estremoz, secção «Latifúndio» e nº 202, 9 de Dezembro de 1934.
- Arquivo Distrital de Évora.
- Arquivo Distrital de Portalegre.
- Arquivo-Museu da Diocese de Lamego.
- Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta resenha biográfica sobre Carlos Moreira da Costa Pinto).
- 1.º draft do livro Mariano Moreira da Costa Pinto — Vida, Antepassados e Descendentes dum Grande Lavrador Alentejano, de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro).

Nota: Este texto será actualizado sempre que surjam novos dados na minha investigação bem como serão acrescentados livros à bibliografia à medida que forem saindo novas obras sobre a matéria do estudo.  

PROJECTO SOCIAL

Um dia hei-de sentar à mesma mesa, em enorme távola redonda, todos os meus amigos. Tenho-os de direita e de esquerda, bonitos e feios, ricos e pobres, eruditos e simples, conversadores e calados, antigos e novos, velhos e jovens; mas, todos — todos mesmo — aristocratas do espírito.

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [AVÓ LUÍSA]

Maria Luísa Firmino Costa Pinto
(Monforte, Vaiamonte, 15.06.1907 —
— Lisboa, Santa Isabel, 22.12.1991)
Foi uma das primeiras Mulheres a fazer Fotografia em Portugal, como hobby. Para o efeito, mandou montar um laboratório fotográfico na Herdade de Torre de Palma, casa onde nasceu e viveu em solteira. Assim, aí revelava e imprimia as fotografias que tirava, durante a década de 1920.
Arquivos e Iconografia:
Arquivo Distrital de Portalegre.
Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta evocação biográfica sobre Maria Luísa Firmino Costa Pinto).

ESTA MIÚDA TEM QUALQUER COISA...

sábado, 17 de março de 2012

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [BISAVÔ MARIANO]

Mariano Moreira da Costa Pinto
(Sousel, São João Baptista da Ribeira, 31.10.1868 —
— Monforte, Vaiamonte, 26.04.1930)

Lavrador, Proprietário e Político.

Mariano Moreira da Costa Pinto, filho de Joaquim Pereira da Costa Pinto e de D. Leonor do Carmo Moreira, nasceu na bonita e exemplar Herdade da Revenduda, situada na actualmente extinta freguesia de São João Baptista da Ribeira do concelho de Sousel, propriedade de seu Pai.

No Baptismo tem como Padrinho o tio paterno Francisco da Costa Ramos Pinto da Fonseca, grande lavrador e proprietário em Fronteira, e como Madrinha a tia materna D. Maria da Orada Moreira, proprietária em Sousel. Recebe o nome próprio do seu tio-materno Mariano Rodrigues Moreira, grande lavrador e proprietário em Sousel.

Descendente de famílias tradicionais, ligadas à Igreja e à Coroa, que serviram a Pátria através das armas, das leis, das letras, das artes e das ciências: Magalhães (sua varonia), do Minho, Pintos da Fonseca, Moreiras e Costas Ramos, da Beira, por via paterna; Moreiras de Carvalho, Cordeiros Vinagres e Barreiros Godinhos, do Alentejo, por via materna.

Após seu Pai, em 1891, e sua Mãe, em 1892, terem morrido, a sua vida vai mudar. Assim:

Casa I em Monforte, Vaiamonte, Igreja Paroquial de Santo António, aos 08.10.1893, com D. Rosalina Maria [que usou Rosalina da Conceição Monteiro Costa Pinto, quatro apelidos provenientes dos seus dois maridos], nascida em Monforte, Vaiamonte, aos 09.10.1848, falecida em Monforte, Vaiamonte, Herdade da Torre de Palma, aos 22.12.1899 (viúva sem geração de Joaquim Anastácio Monteiro, nascido em Monforte, Vaiamonte, aos 10.09.1822, falecido em Portalegre, Sé, aos 14.03.1891, Lavrador, Rendeiro da Herdade da Torre de Palma, filho de Anastácio da Conceição Monteiro [também conhecido por Anastácio Monteiro da Conceição], nascido em Pinhel, Alverca, Lavrador, e de sua Mulher D. Maria Josefa, nascida em Monforte, Vaiamonte), filha de Joaquim António, nascido em Alter do Chão, Seda, aos, falecido em aos, Lavrador, e de sua Mulher D. Margarida do Mileu, nascida em Estremoz, Veiros, aos, falecida em aos. Neste seu 1.º casamento teve como testemunhas José Alfredo Menice Sardinha e Joaquim António de Calça e Pina. Não houve descendência deste casamento.

Casa II em Monforte, Vaiamonte, Igreja Paroquial de Santo António, aos 02.04.1900, com D. Catarina Rosa Firmino, nascida em Sousel, Sousel, aos 19.06.1872, falecida em Monforte, Vaiamonte, aos 09.11.1941, filha de António Firmino, nascido em Sousel, Sousel, aos 15.02.1834, falecido em Sousel, Sousel, aos 28.08.1908, foi o primeiro a usar o apelido Firmino nesta Família de Sousel, Proprietário, e de sua Mulher D. Mariana Celestina, nascida em Sousel, Sousel, aos 10.12.1841, falecida cerca de 1912 (bisneta por via paterna-paterna de Manuel Mendes Bagorro, nascido em Elvas, Vila Boim, aos 14.06.1741, falecido em Elvas, Terrugem, aos 05.06.1819, Juiz, Tabelião e Professor Régio de Primeiras Letras em Vila Boim). Neste seu 2.º casamento teve como testemunhas Francisco Augusto da Costa Falcão, Proprietário da Herdade da Torre de Palma, e Carlos Moreira da Costa Pinto (seu irmão).

Estabeleceu-se assim definitivamente, como morador e lavrador, na Herdade da Torre de Palma, em Vaiamonte, concelho de Monforte, a qual arrendou.

E, enquanto seu irmão mais novo, Carlos Moreira da Costa Pinto, se iniciava, como proprietário e lavrador, na Herdade da Revenduda, onde ambos nasceram e cresceram, Mariano logo adoptou de corpo e alma a sua terra de adopção, Torre de Palma, feita terra do seu coração.

Fruto do seu trabalho, como activo agricultor, adquiriu uma série de herdades: Samarruda, Nora, Palhinha, Gis, Picão, Vale dos Homens, Tapadão de Alter, Esquerdos, Relvácho, Asseca, Pintas, Torradas, Sernila e Matança. Estas terras estavam, na sua maioria, quando as comprou, cobertas por densos e extensos matagais. Empreendedor, mandou arrotear esses milhares de hectares considerados por outros indivíduos como improdutivos.

De seguida, transformou as referidas herdades em belos solos de semeadura, montados de sobro e azinho, olivais, etc. Isto fez dele, até hoje, um dos lavradores do Distrito de Portalegre que maior quantidade de território mandou limpar, plantar e semear.

Estava assim erguida, a partir da arrendada sede da lavoura, na belíssima e histórica Herdade de Torre de Palma, onde sempre continuou a residir, onde lhe nasceram todos os seus sete filhos de sua querida mulher D. Catarina Rosa Firmino e onde viria a morrer, uma Casa Agrícola que ainda hoje pode e deve ser uma referência de estudo para os agora chamados empresários dos ramos de produção agrícola e animal (cabe aqui referir que foi igualmente um grande criador de diversos tipos de gado, onde se incluía uma Caudelaria).

Faz assim parte daquela geração de homens que contribuíram, através de uma agricultura moderna e dinâmica, para transformar o Alto Alentejo numa produtiva e rica Província de Portugal.

Rematando esta breve resenha biográfica, acrescentarei apenas que Mariano Moreira da Costa Pinto foi um proprietário alentejano com um profundo sentido social, que se traduzia na benemérita ajuda aos mais desfavorecidos, e que ainda teve tempo e energia para cultivar o espírito, com igual paixão com que cultivava a terra, lavrador culto que era.

Alma inconformada e irrequieta, usou também a sua influência, de importante figura a nível regional, para — através da acção política, que aliás viu sempre e só no nobre sentido de serviço público — beneficiar o seu amado Alentejo. Por conseguinte, não obstante ser neto de um miguelista — Carlos da Costa Pinto da Fonseca —, e descendente de tradicionais famílias católicas e monárquicas, optou por servir a Pátria no republicanismo.

Em sua Memória foi dado o nome «Mariano Moreira Costa Pinto» a uma Rua em Monforte e a um Largo em Vaiamonte. O referido Largo encontra-se ajardinado e tem ao centro um Busto de Bronze representando o Homenageado.

- Proprietário das Herdades de Samarruda, Nora, Courelas de Valverde (as duas últimas anexas à primeira), Palhinha, Gis, Picão, Vale dos Homens, Tapadão de Alter, Esquerdos, Relvacho, Asseca, Pintas, Torradas, Sernila e Matança.
- Rendeiro da Herdade de Torre de Palma.
- Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Monforte.
- Presidente da Junta de Paróquia de Vaiamonte.
- Juiz de Paz de Vaiamonte.
- Membro do Partido Republicano Português.
- Presidente do Triângulo n.º 169 da Maçonaria de Rito Francês (iniciado em 14.05.1911 no referido Triângulo de Monforte com o nome simbólico de «Alma»).

Bibliografia e Arquivos:
- Raças Cavalares da Península e Marcas a Ferro que Usam nas suas Caudelarias os Criadores e Produtores Portugueses e Espanhóis, Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira, Tipografia Belenense, Lisboa, 1905.
- Colecção Oficial de Legislação Portuguesa, Imprensa Nacional, 1915.
- Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
- Motivos Alentejanos, João Ribeirinho Leal, Edição do Autor, 1982.
- Nobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gaio, Carvalhos de Basto, Braga, 1989 (2.ª edição).
- Teófilo Júnior: Vida e Obra, António Ventura, Câmara Municipal de Arronches, Arronches, 1991.
- Família e Poder no Alentejo (Elites de Avis: 1886 – 1941), Maria Antónia Pires de Almeida, Edições Colibri, Lisboa, 1997.
- Costados Alentejanos, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 1999.
- Costados Alentejanos II, António Pestana de Vasconcellos, Edição do Autor, Évora, 2005.
- A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), António Ventura, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, SA, Portugal, 2007.
- Lavradores Alentejanos - Genealogias (Volumes I e II), Pedro Amaral de Carvalho, Edição do Autor, Lisboa, Maio de 2015 (1.ª edição).
- Revista Vida Alentejana.
- Jornal A Plebe, n.º 826, 6 de Agosto de 1911.
- Arquivo Distrital de Évora.
. Arquivo Distrital de Portalegre.
- Arquivo-Museu da Diocese de Lamego.
- Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta breve resenha biográfica sobre Mariano Moreira da Costa Pinto).
- 1.º draft do livro Mariano Moreira da Costa Pinto — Vida, Antepassados e Descendentes dum Grande Lavrador Alentejano, de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro).

Nota: Este texto será actualizado sempre que surjam novos dados na minha investigação bem como serão acrescentados livros à bibliografia à medida que forem saindo novas obras sobre a matéria do estudo.  

ESTA MIÚDA TEM QUALQUER COISA...

sexta-feira, 16 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 8
Esperava pelo usual inesperado que a déspota que dá pelo nome de carteira me costuma proporcionar, mas esta semana, quando vi o que me saiu em sorte, senti-me enganada. Estará a perder os seus dotes e a ficar um pouco previsível? Mais uma destas partidas e proponho que perca todos os direitos ao elevado estatuto de genuína carteira de senhora. Contudo, hoje não me resta senão agarrar o mote e arranjar-lhe umas voltas.
De há uns tempos para cá, gradual e sub-repticiamente, foi aterrando em Lisboa uma nova espécie de extraterrestre, que tomou a estranha forma de riscas cor-de-tijolo. A Câmara, aliada nesta invasão, chamou-lhes pomposamente ciclovias.
Embora seja uma invenção herdada do séc. XIX, os lisboetas, por nunca antes postos perante tal visão, assumem-nas como o maior símbolo de modernidade à face da Terra.
Claro que as tais riscas são finas. Quero eu dizer com isto que não se dão lá muito com o povo, não apreciam muitas misturas. São mais acomodadas, umas senhoras burguesas que gostam de andar a direito para não se cansarem. Nada de trepar colinas. Etapas com nomes como Castelo ou Graça, são disfarçadamente evitadas, porque prémios de montanha só na Volta a Portugal em bicicleta e em Lisboa ninguém se chama Joaquim Agostinho.
As ciclovias de Lisboa tinham de arranjar maneira de marcar a diferença em relação às ciclovias do resto do Mundo. Tinham de ser únicas, umas alfacinhas de gema. Lá se fez um brain-storming cujo resultado foi considerado genial e então saíram-se com uma característica única: as ciclovias lisboetas acabam abruptamente uns três metros antes de chegarem a uma qualquer rua ou avenida. Entram numa espécie de coma súbito e ressuscitam de forma imprevista outros três metros depois de se atravessar a dita via. Alguém ainda vai reivindicar esta invenção da ciclovia saltitante.
Há ainda um outro pequeno problema com as ciclovias. Esqueceram-se do manual de instruções. Pensaram que os alfacinhas não precisavam, que eram todos viajantes, altamente cosmopolitas, com verdadeiro conhecimento de causa. É verdade que se houvesse manual de instruções, a probabilidade de o lerem era exactamente igual à de lerem os manuais de qualquer equipamento, ou seja, muito próximo de zero, mas pelo menos sabia-se que existia.
Assim, os lisboetas pensam que as riscas cor-de-tijolo foram uma dádiva do céu, uma forma de eles próprios poderem passear ordeiramente porque tem divisória ao meio e tudo.
Há alturas do dia em que as pessoas ocupam todo espaço das ciclovias, às vezes sendo mesmo obrigadas a atrasar o passo na fila ordeira, situação que parece totalmente estranha ao povo português, quando ao seu lado repousa sózinho um enorme passeio de calçada à portuguesa. Parece que as riscas cor-de-tijolo conseguem disciplinar as pessoas só porque tem um risco branco no meio. Afinal era só preciso um risco no meio e ninguém tinha ainda descoberto…
Outros utilizadores frequentes são as crianças com os seus triciclos, os doidinhos por skate, e ainda os maníacos da saúde, nas suas corridas matinais ou de fim-de-tarde.
Até os turistas, tão habituados a elas no seu próprio país, acabam a mimetizar os autóctones e dão-lhes o mesmo tipo de uso, pensando talvez que estavam enganados e aquilo, embora muito parecido, não será uma ciclovia mas outra coisa qualquer. Outro dia fui surpreendida por um grupo de raparigas que, sob as ordens enérgicas da sua treinadora, fazia um treino de aquecimento, precisamente sobre a pista da ciclovia em frente ao seu Hotel. Duvido que tal utilização seja autorizada no seu país, mas em Portugal um dia vira moda. Ainda vamos exportar a ideia.
Pouco a pouco começaram a surgir os verdadeiros utentes das riscas cor-de-tijolo. Espaçados de umas horas entre si, mas vai havendo.
Bicicletas antigas, modernas, inteiriças ou dobráveis, bicicletas simples ou cheias de acessórios. Os que as domam são estudantes de mochila, na sua maioria, mas aparece de tudo. Miúdos, graúdos, mulheres com carteira e homens com mala, gente sem equipamento nenhum e gente equipada dos pés à cabeça, com capacete, luvas, joelheiras, cotoveleiras e tudo o mais que imaginem imprescindível ao que entendem ser o ciclismo. O prémio do melhor apetrecho vai para um capacete com luz traseira, encarnada e intermitente.
Na semana passada assisti, pela primeira vez, in loco, e prometo que tinha os óculos postos no local devido, ao cruzamento de duas bicicletas em plena ciclovia.
Não há dúvida. É mesmo o sinal de que já estamos ao nível dos dinamarqueses.

Leonor Martins de Carvalho

quinta-feira, 15 de março de 2012

SERÁ CHEGADA A HORA DO MERECIDO REPOUSO?

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quarta-feira, 14 de março de 2012

DO ÁLBUM DE FAMÍLIA [AVÔ JOÃO]

João Augusto Firmino Marchante
(Sousel, Sousel, 12.03.1897 — Lisboa, Santa Isabel, 20.05.1988)

Médico, Lavrador, Proprietário, Político e Administrador.
Filho de João Augusto Marchante e de D. Ana Josefa Firmino.

Licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa (1926)*;
Vice-Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1928-1940);
Presidente da Câmara Municipal de Sousel (1940-1947);
Governador Civil do Distrito de Portalegre (1947-1951);
Presidente da Junta Nacional dos Produtos Pecuários (1951-19...);
Deputado à Assembleia Nacional (1957-1961);
Vogal da Junta de Província do Alto Alentejo (1961-...);
Presidente do Conselho de Administração dos Nitratos de Portugal;
Presidente do Grémio da Lavoura de Sousel;
Vereador da Santa Casa da Misericórdia de Sousel;
Sócio do Centro Académico da Democracia Cristã;
Presidente da Comissão Concelhia de Sousel da União Nacional;
Comandante de Lança da Legião Portuguesa;
Médico da Guarda Nacional Republicana;
Etc.

* Fez os primeiros anos do Curso de Medicina na Universidade de Coimbra.

Nota:
Após o casamento, com a sua prima direita Maria Luísa Firmino Costa Pinto, corta o seu apelido Firmino e passa a assinar apenas João Augusto Marchante.

Bibliografia e Arquivos:
Álbum Alentejano, Pedro Muralha, Imprensa Beleza, Lisboa, 1931.
Governantes de Portugal desde 1820 até ao Dr. Salazar, António Manuel Pereira, Edição Manuel Barreira, Porto, 1959.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Lisboa e Rio de Janeiro, 1936-1960.
Pelas Searas da Vida, Felizardo António Martins, Câmara Municipal de Sousel, Sousel, 1992.
Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974), Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Assembleia da República, Lisboa, 2005.
O Poder Local do Estado Novo à Democracia: Presidentes de Câmara e Governadores Civis, 1936-2012, Maria Antónia Pires de Almeida, Edição da Autora, Lisboa, 2013.
Dicionário Biográfico do Poder Local em Portugal, 1936-2013, Maria Antónia Pires de Almeida, Edição da Autora, Lisboa, 2014.
A Vida Privada das Elites do Estado Novo, Conceição Queiroz, Vogais, Lisboa, 2016.
Arquivo Distrital de Portalegre.
Arquivo Particular de João Miguel Costa Pinto Marchante (Autor do blogue Eternas Saudades do Futuro e desta síntese biográfica sobre João Augusto Firmino Marchante).

terça-feira, 13 de março de 2012

A LIÇÃO DA TERRA E DOS MORTOS

Metido que ando em trabalhos de investigação sobre os meus antepassados, chego a uma conclusão — na linha do pensamento de Maurice Barrès — toda ela límpida e clara: é com a terra e com os mortos que mais temos a aprender nesta vida terrena.

segunda-feira, 12 de março de 2012

ARTISTA E MUSA

Salvador Dalí e Raquel Welch

sexta-feira, 9 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 7
Pela primeira vez, meto a mão na carteira e aparece o que procurava. Deve ser caso único, e aproveito esta generosa dádiva.
Vou então toda lampeira discorrer sobre a condução, assunto em que a minha competência pode ser considerada duvidosa, já que apenas passei quando fiz o exame pela segunda vez. O que se passou na primeira tem que se lhe diga, mas não me vou alongar em argumentos que sei serão prontamente rebatidos com ar trocista, especialmente pelo, sempre pronto a isso, género complementar (nunca digo oposto).
Sobre táxis e taxistas não me vou pronunciar. São um mundo à parte, que parece ter regras escritas em código específico a que não nos é dado acesso. Nem adianta refilar em caso de conflito porque a razão mesmo não lhes assistindo, está estranhamente sempre do mesmo lado. Talvez um dia apareça um capítulo próprio com as histórias, boas e más.
De camiões e camionistas então, nem arrisco falar. Tenho um respeito imenso. Sempre que ultrapasso um, passa-me pela cabeça que é desta que apanho um maluco que quer brincar com o meu matchbox e encosto-me perigosamente à divisória de betão até me lembrar que assim ainda vai parecer suicídio, e que o plano dele vai resultar, e ninguém vai perceber que foi engendrado pelo camionista, pelo que tento então manter uma rota que me pareça salvaguardar dos dois, para sair dali o mais rapidamente possível sem pensar muito nisso.
Voltemos pois ao que interessa. O resto dos condutores, os nossos vizinhos de estrada, esses condóminos em andamento.
Cada português está convencido que ninguém conduz melhor que ele. Vê-se desde logo na atitude com que acciona o comando remoto e depois abre lentamente a porta do carro, varrendo disfarçadamente o espaço em seu redor com olhar sobranceiro, apenas aparentemente indiferente. Eis-me, o condutor magnífico entrando no meu carro magnífico.
Se antes de entrar no carro já achava que era o melhor condutor do Universo, quando se senta e põe as mãos no volante passa a ter a certeza. Absoluta. Encarna todos os campeões de Fórmula 1 ou de todo-o-terreno e sabe que foi apenas um pequeno percalço, um revés da vida que não o levou à internacionalização, ao reconhecimento, à fama. A partir daqui, tudo pode acontecer.
Há vários tipos de condutores e estes são apenas alguns: os muito conhecidos condutores de domingo, que com muita calma, mesmo com muita calma, levam a passear a família inteira com excepção do canário, os que guiam de chapéu, um verdadeiro mistério, de quem devemos fugir a sete rodas porque há-de haver uma razão secreta para o usarem mas não é com certeza a boa condução, os nervosos, que chamam nomes que não conseguimos ouvir ou que insistem em fazer gestos obscenos não percebendo que nunca os chegamos a ver, os que têm como lema “o camisola amarela sou eu”, os que nem sabem para que serve o pisca-pisca mas têm a mão colada à buzina, e os que estão ali para proporcionar aos outros música ambiente, debitada a decibéis não previstos por Regulamentos da União Europeia.
A estrada não é como uma festa privada por convite. Toda esta diversidade se encontra ao mesmo tempo nos mesmos sítios, quer sejam estradas municipais, nacionais ou auto-estradas.
Dantes, as auto-estradas eram simples, tinham apenas duas faixas: uma para andar, outra para ultrapassar. Se bem que sempre houve alguns que apenas conheciam a faixa da esquerda.
Com a invenção da 3ª faixa, conseguiram baralhar os portugueses. Convenceram alguns, normalmente os que conduzem a 60 à hora, que a faixa da direita está reservada. Não para eles, mas para camiões, que até andam a 80. É pois vê-los todos catitas, na faixa do meio, obrigando os que estejam à sua direita a manobras dignas de rali para os conseguir ultrapassar e voltar à faixa normal, a da direita, como diz o Código, o tal que todos esquecem mal ouvem a palavra “passado!”, no exame.
Este fenómeno da faixa do meio chama-se “complexo Scaletrix”, e é perfeitamente compreensível pelo facto de a iniciação à condução se ter dado nas pistas com o mesmo nome. Se bem se lembram, a pista tinha uma espécie de guia, ao longo da qual o carrinho telecomandado deslizava. Não saía da guia a não ser por despiste.
É assim, nas auto-estradas portuguesas. Entram com o carro na faixa do meio e nunca, mas nunca mais de lá saem. Para alguns, esse complexo aplica-se à faixa mais à esquerda, mas esses já nós conhecíamos e tratávamos por tu.
Há ainda toda uma série de características de condução, por mero acaso ou não, mais masculinas, que levam a situações como por exemplo, estarmos a ultrapassar e aparecer de repente um tipo coladinho (de onde é que este apareceu?) a fazer sinais de luzes desesperados. Esqueça. Não faça isso que eu travo.
Ou naqueles dias de filas desesperantes, saltitarem de faixa em faixa com ar vitorioso, em guinadas súbitas, sem se aperceberem que afinal, o vizinho do lado acabou por chegar ao destino antes.
Ou as entradas intempestivas, à papo-seco em linguagem de automobilista, na auto-estrada. Estas entradas têm relação directa com o complexo Scaletrix, uma vez que quem entra, pensa estar ainda na mesma pista.
Ou aqueles que após serem ultrapassados por uma mulher, mais feridos no seu orgulho do que quando o seu clube perde com o maior rival, não descansam enquanto não executam a sua vingança mesmo à custa do esforço hercúleo de um motor fraquito. Coitados, nem lhes passa pela cabeça que o sabor da vitória dura pouco. O tempo de voltar à faixa da direita. Ou do meio, se sofrer do complexo Scaletrix.
Não há como a experiência de ter um carro de velocidade limitada para aprender a ter calma ao volante. Quando andava de Dyane, e tive duas, naquelas idas ou voltas de férias, nunca me queixei de filas. É verdade que era sempre a última.
Agora apenas queria informar que aquela que está a guiar o meu carro, não sou eu…

Leonor Martins de Carvalho

quarta-feira, 7 de março de 2012

FRANCISCO CABRAL DE MONCADA TEM A PALAVRA

Portugal morreu?

Dei com esta pergunta do meu amigo Manuel Brás aqui de chofre, há poucos dias. Reconheci então prontamente que essa pergunta, ela mesma, inquietantemente, dolorosamente, se me alojara no espírito, como hóspede não convidado, há muito tempo. E que, como uma lapa bem viva, foi resistindo sempre à rejeição. Hoje, vejo que é tempo de expressar a atenção que ela merece, e que é enorme. De facto, creio que nos últimos tempos, medidos por décadas, não há mesmo coisa que deva merecer maior atenção dos Portugueses.

O brado final da Mensagem -- «É a Hora!» -- poderia condensar, se fosse possível um resumo, o que me ocorreria chamar o testamento moral de Fernando Pessoa: aquilo que fica, aparentemente, de mais positivo e virado para o outro, singular ou colectivo, da sua mensagem. Liberto, ou esquecido, em ultra-lúcido transe, do seu ego angustiado, desesperado, encarcerado (que será o do seu poema Hora Absurda, p. ex.), ele deixa-nos uma última e dupla exortação -- primeiro, à nossa consciência colectiva e, logo após, à de cada um -- para que reajamos ao marasmo, ao desalento, à desgraça pessoal e colectiva, e a transformemos, ou colaboremos na transformação redentora do estado de abatimento e confusão (o «nevoeiro») a que se teriam confinado as nossas almas e, por extensão, a do País, através de um renovado projecto pessoal e nacional (a «Distancia»). Não sendo eu, sei-o bem, um grande conhecedor da vasta e complexa obra de Fernando Pessoa, suponho que isto que acabo de dizer não deverá ter nada de original ou de polémico e constituirá talvez até uma interpretação bastante vulgar.

Uma questão crucial, aqui hoje, é a da identidade, mais concretamente, o problema gravíssimo da negação e abandono forçado da nossa identidade histórica fundamental, associado e agravado por um ingente problema de fundo, no chamado mundo ocidental em que nos situamos, de esvaimento gradual e progressivo das energias morais, se quisermos. Pensando bem, nem sei qual destes dois aspectos será o mais decisivo, visto o intricado, entre nós, das suas mútuas relações.

Estou em crer que uma nação não resiste inteira a mudanças radicais de identidade. Costuma partir-se em dois, as mais das vezes. Que tem hoje a França pós-moderna a ver com os restos da França profunda, os que ainda se lembram de Santa Joana d'Arc? Portugal -- para mim, e julgo que também para uma maioria mais ou menos consciente, pelo menos até há algumas décadas -- já desde o seu princípio e ao longo dos séculos, representou sempre sobretudo um projecto comum, e autónomo, em acção. Não um projecto qualquer mas, precisamente, a expressão de um certo ideal de convivência fraterna (o contrário da confusão igualitária) e universal entre homens e entre raças, povos ou nações: numa palavra, o Ideal Católico. Viver e partilhar o exemplo de Cristo, aqui e pelo mundo fora, à nossa maneira. Uma maneira forçosamente imperfeita, é claro, mas que num balanço geral se deve reconhecer ter sido generosa e levada avante de boa fé. E, vendo bem as coisas como se passaram parece que, nessa grande aventura, foi como se a Providência nos tivesse ido presenteando, em jeito de pródiga e não negociada recompensa, com as condições e os frutos que nos vários momentos fomos porfiada e esforçadamente buscando, encontrando e conquistando, e que tão necessários foram ao nosso sustento, à nossa realização e à nossa independência.

Parece-me que é isto mesmo, em suma, o que uma História bem contada reiteradamente nos recorda. Um testemunho flagrante desta ideia de Portugal, do tempo em que Portugal foi mais feliz, e que revela o estado de um Povo em uníssono, é o que nos oferece, em luminoso instantâneo, o conjunto dos painéis de Nuno Gonçalves. Esta mesma ideia-mestra, e o seu pôr em prática, vigorou e persistiu, apesar de todas as crises e depressões passadas, gravíssimas algumas, até não há muitos anos. Tudo isto são coisas sabidas e já ditas e reditas, mas que nunca são demais relembrar. Mas é de realçar que aquelas anteriores crises e depressões nunca foram crises e depressões de identidade, pelo menos em grau que de longe se compare à gravidade da derradeira e presente grande crise (não me refiro à recentíssima crise financeira, que já é em parte uma consequência daqueloutra).

Desgraçadamente, parece que Portugal, há coisa de uns quarenta anos a esta parte, se cansou, e esqueceu, de si próprio. E digo parece porque, na realidade, por essa data e em certos meios sociais, políticos e militares, para já não falar no chamado católico-progressista, as suas forças morais e a própria ideia nacional já vinham sendo paulatina, insensível e insidiosamente minados. O certo é que, cruamente, quase de um dia para o outro, o nosso plurissecular projecto apareceu desfeito como um castelo de cartas. Hoje, Deus nos valha, Portugal lembra a espaços um louco perdido, querendo fugir da própria sombra, e a ideia que os pomposamente chamados cidadãos revelam ter do seu País pulverizou-se já em enorme parte ou sumiu-se mesmo por completo em muitas almas, após anos e anos de demagogia maciça e de tentativa constante, em grande parte conseguida, de transformação gradual, disfarçada e insensível, do senso comum, objectivo este tão caro, como é sabido, do marxismo cultural, inconfessado mas de facto omnipresente, à semelhança do ar que a ave não vê. Resultado final: Mourinho, CR7 e companhia (por muito estimáveis que sejam...) são hoje os heróis da pátria... E nisto, curiosamente, talvez não passe afinal de um pudor que receia o abuso do nome santo, a juntar à intuição da verdade, o uso, já relativamente vulgar, cru e castigador, que uma certa parte da população, da porventura mais sábia, vem fazendo, quando se refere à terra onde vive em termos alternativos, depreciativos ou anedóticos, para designar uma realidade que sente ser produto adulterado, e o qual não quer, no fundo, ver confundido com o original -- tais como «este país», «isto», «esta m....», «tugolândia», etc.

Releia-se Franco Nogueira e os gritos de alerta por ele deixados há vinte e mais anos (As Crises e os Homens; Juízo Final). Eu diria que agora será um verdadeiro milagre poder regenerar-se a situação descrita a curto prazo, porque os poderes inimigos da Nação, da autoridade do Estado, da Igreja e da justa e tradicional relação de complementaridade, nas suas esferas próprias (nem sempre perfeitamente respeitadas no passado, é certo), entre estes dois últimos -- ordenada ao respeito da moral católica no plano do poder temporal -- vêm triunfando, no balanço actual, em toda a linha.

Esses poderes, que têm servido desígnios em última análise meta-políticos, aberta ou veladamente revolucionários (e tem-nos havido para todos os gostos, desde os do liberalismo e no capitalismo até ao comunismo), tiranicamente e em nome dos «sagrados princípios», e não raro em conjunto com o próprio auto-aniquilamento, conseguiram acabar já há muito com a nossa Nobreza (o escol, a elite, em suma, o conjunto dos melhores valores na sociedade, reconhecido como tal), a qual, quando com genuíno papel social, constitui naturalmente um membro especialmente eficaz e indispensável de qualquer comunidade justamente ordenada. Não obstante, em círculos restritos mas sobretudo, isoladamente, continua a haver, apesar de tudo, estou em crer, um número muito razoável de portugueses a muitos títulos, nobres.

Por outro lado, e custa admiti-lo, não se percebem claramente na actual hierarquia da Igreja, em Portugal, as altas e tão necessárias qualidades de zelo pastoral e vigor reactivo face aos inimigos externos e internos, que os há igualmente desta última espécie, o que não surpreende e já foi aliás mencionado pelo actual Papa Bento XVI, em alusão de abrangência geral não confinada ao nosso país.

Com a ruptura brutal do projecto Português, de que não há fugir, e sem outra versão igualmente digna daquele, no horizonte próximo das possibilidades que se afiguram viáveis; sem um Estado visando sempre o bem-comum para lá dos discursos e dos textos, e detendo a necessária autoridade, impossível em partidocracia; com uma Igreja que não tem demonstrado a capacidade de estar plenamente à altura das agressões e ameaças da hora presente; sem o vislumbre de um escol organizável e minimamente efectivo; e, para cúmulo, com a continuada lavagem de cérebros e obnubilação infligidas ao nosso Povo -- o quadro é mesmo muito, muito negro e tende a enegrecer cada vez mais. O «nevoeiro» está cada vez mais cerrado. O que equivale a dizer: a identidade e o nervo da Nação, cada um deles, estão cada vez mais indistintos. Daí a pertinência e a lucidez da cruciante mas fatal pergunta do meu valente amigo Manuel Brás: Portugal morreu?

Não sei se já morreu. Ou se é como se tivesse morrido, qual nau cativa num mar de «sargaço». Mas porém, como acredito de facto em milagres, aos que desconhecem o verbo desistir, direi: oxalá não seja esse, ainda, o caso. Como..., quando..., não sei (alguém saberá já, ao certo?); contudo, e querendo acreditar que ainda não é findo, o tempo, de conseguirmos começar a repintar o negro quadro, parece-me que, para começar, bem forçoso seja -- e para mim próprio falo, em primeiro lugar -- que aqueles, menos ou mais numerosos, os que formos, que não desistimos de Portugal, passemos todos a acordar com o cantar do galo, a lavar bem os olhos, a abrir velhos e novos livros, a ouvir o silêncio, a procurar os nossos pares. Será este o nosso prévio trabalho de casa, a dosear à medida de cada um.

Mas depois, ou enquanto isso, que mais deveremos fazer? Como avaliar o que nos espera e quais as reais possibilidades de salvação?

Antes de continuar, porém, é necessário abordar, em breve linhas, o problema político. Há um problema político em Portugal? É evidente que sim. Consiste ele no actual e já velho beco sem saída, no nosso país, que é o divórcio crónico insanável entre governantes -- por sistema desenquadrados de uma visão integrada e continua, ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, do bem-comum e da própria realidade concreta do País -- e governados -- por sistema desenquadrados das formas de participação política que melhor poderão representar o papel de cada um e o todo nacional. O sistema político vigente, assente num conjunto de supostas certezas contestáveis, tais como a liberdade do indivíduo como fim único do Estado e a igualdade dos homens, conducentes à noção atomizada/massificada de povo, a razão das maiorias, a soberania popular e a excelência do sufrágio universal individualista e do sistema dos partidos políticos, tem demonstrado ficar muito aquém das necessidades concretas da Nação e do Povo real que a constitui. O resultado está bem à vista e é este: uma partidocracia demagógica num Estado gigantesco, controlador e omnipresente, mas fraco. É muito mau, é muito curto, não serve. É preciso outro.

Em todo o caso, a resolução do problema político parece poder vir a ser a verdadeira chave mágica do problema mais geral -- a salvação de Portugal. Uma mudança política que nos abra o caminho para um novo projecto mobilizador e regenerador das nossas energias mais profundas -- a tal «Distancia» na voz do Poeta, em continuidade e harmonia com a nossa identidade de sempre. Teremos aqui um caso de aplicação maurrasiana da «politique d'abord»? Veremos.

Em tese, assim poderia ser. Em 1926, assim foi -- por intermédio de um golpe militar e de uma posterior revolução contra-revolucionária, que conseguiu em grande medida sanar a situação anterior. Mas hoje, aqui, no momento presente, não se afigura possível uma coisa dessas. Não só os militares estão, ao que parece, se não maioritariamente conformados, pelo menos eficazmente submetidos ao poder civil, como a população em geral não parece ainda consciente e suficientemente receptiva a qualquer mudança decisiva, pela confusão que tomou muitos espíritos, resultado da continuada desinformação e propaganda que lhes tem sido ministrada ao longo de muitos anos. O caminho a seguir, portanto, para chegar a conseguir uma eficaz mudança política a prazo, parece só poder vir a ser o da recuperação das inteligências e das vontades -- a recuperação da consciência patriótica, das consciências tout-court, de um número crítico inicial de Portugueses, pondo-se depois em marcha o esperado efeito multiplicador. Tal só será possível, assim, pela intensificação do combate cultural. À revolução mundial e ao marxismo cultural, preferencialmente utilizado por aquela depois da II Grande Guerra, só poderá responder-se com a contra-revolucão. Com anti-marxismo cultural e, sobretudo, idealmente, com a devoção expressa publicamente por palavras e por obras ao tríplice desígnio Deus -- Pátria -- Rei. Invista-se pois a fundo, por todos os meios ao nosso alcance -- em que se destaca a enorme e até ao presente bem aberta janela da Internet -- neste combate cultural.

Agora, sobre a possibilidade de um novo sistema. Julgando-me eu monárquico e convencido da bondade e da viabilidade a certo prazo por ora indeterminado, de uma solução política monárquica para Portugal (não vou agora aqui detalhar porquê, mas bastará ter em devida conta os resultados da nossa tradição política alargada), uma saída verdadeiramente regeneradora não ficará garantida, como alguns poderão pensar, com uma nominal troca de regime: será necessário ir muito mais além do que sair simplesmente o Presidente da República e entrar o Rei. Será preciso, a meu ver e indo por partes, começar por substituir o actual sistema político por um sistema novo, com outros pressupostos. Um sistema em que a participação dos Portugueses represente, de facto, o valor e o papel social de cada pessoa, desde a mais humilde e até ao topo. Em que o voto e a participação de cada um não se limitem à de indivíduo isolado mas o sejam, de preferência, hierarquicamente e como membro das diversas comunidades naturais, profissionais, culturais, etc., em que se integra. Falo de um sistema de representação orgânica, como já repararam.

Não vou aqui alongar-me muito neste tema, mas queria só adiantar que provavelmente não serão necessárias excepcionais qualidades criativas no levantar esse novo sistema político: bastará alguma inspiração, a retirar da nossa plurissecular tradição, e uma sábia adaptação aos novos tempos. Garantido isto, o Rei virá, de preferência já em simultâneo, presidir o novo (afinal já muito antigo, em sua essência) sistema, com a sua devida autoridade. Uma autoridade e um poder que deverão transcender, em boa medida, os de simples árbitro. Já tem sido defendido que as funções vitais da Justiça, da Defesa e das Relações Externas, pelo menos, deveriam ficar sob o seu directo controlo. Quem já cedo no século passado e até pode dizer-se aos nossos dias, veio propugnando uma solução deste tipo, sabemo-lo bem quem foi: os fundadores do Movimento do Integralismo Lusitano, com António Sardinha à cabeça, e as suas várias gerações de continuadores. Eu acredito que será esse o melhor caminho. O mais natural, no fundo. E que ele poderá ser viável, dada a sua estabilidade intrínseca básica (já durou grosso modo pelo menos cinco séculos seguidos), mesmo que numa conjuntura futura tão complexa e imprevisível como a presente, desde que aos Portugueses o dito caminho venha a ser apresentado de boa fé e tal como é ou poderá ser antevisto. Então, mais tarde ou mais cedo e apesar de tudo, eles o saberão reconhecer, e eleger.

Para concluir, uma referência ao aspecto, tão importante, das relações, dependências e influências externas, oficiais ou apenas reais, existentes ou expectáveis. Tal como as coisas estão agora deveremos contar com a hostilidade declarada dos poderes internacionais dominantes a qualquer mudança política interna que se pareça com a atrás defendida -- veja-se o actual caso da Hungria, e as imediatas reacções internacionais surgidas face à sua nova Constituição. No entanto, a relação de forças representativa dos diferentes desígnios em presença, na Europa, poderá mudar no futuro. Que nos reservará o amanhã? Devendo-nos nós preocupar, antes de mais nada, em prosseguir com o nosso próprio trabalho, poderá bem acontecer que o caminho húngaro, por exemplo, acabe por vingar, fazer carreira e chegar também até nós. Por outro lado, noutro campo muito distinto, julgo que poderemos ter muito a ganhar, a vários títulos entre os quais realço aqui o do nosso reforço identitário, com o estreitamento das relações com os países que outrora integraram ou se relacionaram com o nosso passado Império, e nos quais persistem populações que prezam a nossa memória e desejam uma colaboração renovada.

Dito isto tudo, poderá, é claro, o cepticismo de alguém, e até sem nenhuma malícia, começar por questionar: não será este longo repto algo de pouco credível? Vã pretensão apenas, de um Dom Quixote menor?... Bom..., a isso também não sei responder. Em todo o caso isto sei:

Se nos afirmamos Portugueses, então..., cumpre-nos honrar, todos nós e de preferência em concerto, e em concreto, custe o que custar, o brado final..., a ordem..., de Fernando Pessoa.

Portugal passou e continua a passar pela sua, nossa voz.

Francisco Cabral de Moncada

PROVA ANUAL DE VIDA

Quarenta e seis anos já cá cantam.

domingo, 4 de março de 2012

SENHORAS DESTAS JÁ NÃO HÁ. HÉLÀS!

Conchita Cintrón
(1922 – 2009)

Bayonne, França, 1947
Fotografia atribuída a
Jean Dieuzaide
(1921 – 2003)

Neste mesmo ano de 1947, em que aqui em cima a vemos registada para a posteridade numa belíssima fotografia, a maior cavaleira tauromáquica de todos os tempos veio ser cabeça de cartaz a Portugal. Conchita Cintrón, na Praça de Touros de Portalegre, lidou touros do meu Tio-Avô Mariano Firmino Costa Pinto. Ainda no Alentejo, toureou também em Cabeço de Vide, onde alternou com o cavaleiro tauromáquico, Primo-Direito do meu Pai, Mariano Vaz Costa Pinto. Quem quiser conhecer a vida e a obra desta extraordinária Senhora, pode começar por consultar a Wikipédia. Vão ver, que vão gostar; e, muito provavelmente, apaixonar-se. Sobre Conchita Cintrón, disse Orson Welles: «A sua memória destaca-se como uma repreensão aos que afirmam que uma mulher perde algo da sua feminilidade quando pretende competir com os homens».

QUE FAZER?

Talvez ler.

sexta-feira, 2 de março de 2012

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 6
Inesperadamente, da carteira hoje saltou qualquer coisa que, para alguns, parecerá não condizer com um acessório de senhora. Já agora aviso que para meu puro deleite recorro propositadamente a generalizações.
Primeiro, o objecto. A coisa. Estou a referir-me ao automóvel, à viatura, mais comummente designada de carro. Assim o chamam as mulheres, claro, que o tratam por aquilo que o objecto é, um carro. Quando o assunto vem à baila é sempre como o meu carro, ou quando muito, a minha carrinha.
Os homens, não. Dizer o meu carro é pouco. Fazem questão de marcar a diferença e tratá-lo pelo nome próprio. O meu Audi, o teu Porsche, o nosso Jaguar, o vosso Mercedes e o Aston Martin, sempre invejado, mas que é dele, do outro.
Alguns até preferem usar o nome completo com os apelidos todos da família, ipsis verbis o livrete, “o meu BMW X3 série 5 JKYHG”, especialmente quando sabem que o interlocutor tem um BMW da série inferior. Se a situação fosse inversa, ou não tendo a certeza, apenas refeririam “o meu BMW” para que a dúvida ficasse subtilmente a pairar…
Alturas houve em que os modelos de carros tiveram direito a estatuto próprio, emanciparam-se do nome de família e ganharam alcunha: a arrastadeira, o 2 cavalos, o boca de sapo, o carocha, o 4 latas... Já não acontece. Os carros deixaram de ter personalidade.
Há muitos anos, quando se comprava um carro era quase para a vida. A escolha era ponderada e discutida, tornava-se quase cerimonial a ida familiar ao stand (mais conhecido por alguns como stander…). Muito estimado pois, o carro, queria-se bem protegido com aquelas capas de retalhos em formatos desiguais de vários tons de cinzento, e a matrícula ora pintada em letras garrafais, de lado, ou no tecto, para proporcionar uma visão do alto, não se percebia bem a quem, mas talvez aos próprios donos que o espreitavam com desvelo do seu apartamento no 6º frente, ora num rectângulo desenhado precisamente por cima do sítio onde estava a verdadeira matrícula, reproduzindo-a fielmente, como se o carro fosse mesmo aquilo, aquele embrulho cinzento. Uma grande parte dos fins-de-semana era dedicada à viatura, proporcionando-lhe uma sessão de beleza completa com manicura incluída, e o célebre passeio de domingo.
Hoje muitos já nem compram carro, devolvem-no após poucos anos, no fim de contratos rebuscados com nomes cada vez estranhos e estrangeirados. Não é bem coisa sua. É como se fosse emprestada. Perdeu-se também, este bem-querer.
Para a mulher um carro é apenas uma coisa útil. Tão útil quanto outra coisa qualquer. As coisas, para as mulheres, ou são bonitas ou são úteis. Só as coisas bonitas têm autorização para serem inúteis. As úteis podem ser feias, desde que a utilidade esteja comprovada. Para além de permitir cumprir o objectivo de executar com rapidez uma sucessão de tarefas num período mais ou menos curto, as mulheres gostariam que o carro fosse ainda mais útil e avisasse, talvez com aquelas vozes de GPS ou vários alarmes sonoros, quando é preciso mudar o óleo, a água, os limpa pára-brisas, os pneus, tudo com a antecedência devida, porque a agenda é apertada. Também dava jeito que um senhor engenheiro inventasse uma forma mais simples de mudar pneus.
O meu carro, que é carrinha, não diz nada. Foi muito útil antes de o preço da gasolina ter inviabilizado a sua utilidade. Agora, está para ali, sujo, a desfazer-se, coleccionando anúncios de videntes, ginásios e gabinetes de estética. Qualquer dia não pia. Não parece, mas gosto dele: não se queixa e espera-me.
Do verbo, conduzir ou guiar, como vos aprouver, tentarei que salte da carteira no próximo dia, em capítulo próprio.

Leonor Martins de Carvalho

quinta-feira, 1 de março de 2012

COISAS INDISSOCIÁVEIS — IV

Boa-educação, bom-gosto e bom-humor.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — III

Beleza, Bem e Verdade.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — II

Fé, Esperança e Caridade.

COISAS INDISSOCIÁVEIS — I

Deus, Pátria e Rei.

NESTE DIA NASCERAM

O Nascimento de Vénus, 1483
SANDRO BOTTICELLI (1445 — 1510)
Têmpera sobre Tela, 172,5 x 278,5 cm
Galleria degli Uffizi, Florença.


1445 — Sandro Botticelli.
1647 — S. João de Brito.
1810 — Frédéric Chopin.
1905 — Álvaro Ribeiro.


Um Pintor, um Santo, um Músico e um Filósofo. Todos muito cá de casa. Ora digam lá se há melhor maneira do que esta de começar o meu querido Mês de Março.