quinta-feira, 2 de abril de 2026
sábado, 28 de março de 2026
DA SÉTIMA ARTE
A expressão «Sétima Arte» anda na boca de todo mundo. Falemos, então, sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.
Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) quem baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), sedeada em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des Sept Arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.
Se, por esta altura, os meus leitores já perceberam que estamos perante um teórico da Arte, não estranharão saber que Canudo lança, em 1923, o Manifeste des Sept Arts, após uma série de outros textos preparatórios, o primeiro dos quais data de 1908; e, num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.
Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é — antes de tudo — Arte.
Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa (ou debate, como agora se diz) em aberto, pois isso representa um sinal da vitalidade dos nossos pensadores. Para este escritor italiano, muito activo no primeiro quartel do século XX, as Sete Artes são:
Arquitectura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema.
Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.
É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».
Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.
Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação ao vivo de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direcção de arte, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.
Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!
É, portanto, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética. E, acima de tudo, aquela que, incorporando todas as outras, melhor transporta o nosso Património histórico, estético e cultural — projectando-o no futuro —, através da permanente reformulação e actualização das ancestrais e intemporais narrativas da nossa matriz identitária.
Haja sempre cineastas portugueses à altura desta missão universal.
terça-feira, 24 de março de 2026
DA GENEALOGIA
Aos interessados em Genealogia e História das Famílias em geral e História do Alentejo em particular, faço saber por este meio que acabei de actualizar uma publicação sobre estas matérias aqui (clicai e espreitai).
domingo, 22 de março de 2026
O QUE É QUE AS CEREJEIRAS TÊM?
As Cerejeiras (nome de árvore que é árvore grafa-se com maiúscula) dão flôr (assim mesmo, como deveria ser, com acento circunflexo e tudo) antes das folhas. São mistérios assim que nos levam à contemplação da Natureza. Saibamos retirar ensinamentos dos simbólicos sinais da Flora.
Nota: Este fenómeno verifica-se especialmente na Cerejeira-do-Japão (Prunus campanulata).
AS NOVE MUSAS INSPIRADORAS
Nome — Significado — Associação
Calíope — Bela Voz — Poesia ÉpicaClio — Fama — História
Érato — Encanto — Poesia Lírica
Euterpe — Alegria — Música
Melpómene — Canto — Drama Trágico
Polímnia — Muitas Canções — Mímica e Lírica Sagrada
Terpsícore — Dança Alegre — Dança
Tália — Bom Humor e Abundância — Drama Cómico
Urânia — Celestial — Astronomia
DA INTEMPORAL E ETERNA SABEDORIA DOS CLÁSSICOS
Horácio ensina na sua Arte Poética que um texto antes de ser publicado deverá ficar guardado pelo menos durante nove anos. Talvez seja esse o tempo necessário para as inspiradoras Nove Musas o conferirem e se for caso disso sugerirem alguma alteração. Penso cada vez mais nisto antes de escrever alguma coisa.
sexta-feira, 20 de março de 2026
DA PRIMAVERA
Hoje começa oficialmente a Primavera, pois é o dia do seu Equinócio. Contudo, não se sentem ainda os seus sinais, na fauna e na flora. As aves de arribação ainda não deram à costa e as flores da época ainda não se mostraram. Porém, este atraso costuma significar que a Estação chegará com redobrada intensidade e concomitante esplendor. Assim seja. Nós, os estetas, agradecemos.
terça-feira, 17 de março de 2026
VENHAM MAIS SEGUIDORES NAS REDES SOCIAIS
Blog — 113 | X — 412 | Spotify — 27 | YouTube — 69
Agradeço a todos estes que se comprometeram de forma permanente a serem meus seguidores nestas plataformas (com vantagens de que assim usufruirão, como receberem notificações das novas publicações, presumo eu) e aproveito o momento para desafiar os mais de 1.000 visitantes que passam diariamente neste blog, e que ainda não o fizeram, a fazerem o mesmo.
Nota: No YouTube o equivalente aos seguidores são os subscritores.
Adenda: Este post foi reeditado aos 22.03.2026.
segunda-feira, 16 de março de 2026
TEMAS DO AUTOR NO BLOGUE
Arte | Literatura | Cinema | Televisão | Vídeo | Fotografia | Música | História | Estética | Cultura
sábado, 14 de março de 2026
1960, ANO ITALIANO
Em Itália, em 1960, são feitos os seguintes filmes: L'Avventura, de Michelangelo Antonioni; La Dolce Vita, de Federico Fellini; La Maschera Del Demonio, de Mario Bava e Lee Kresel; e, Rocco E I Suoi Fratelli, de Luchino Visconti. Que se pode esperar duma cinematografia que arranca, para uma nova década, assim? Tudo!
segunda-feira, 9 de março de 2026
CANAL DE JOÃO MARCHANTE NO YOUTUBE
JoãoMarchante@JoãoMarchante-vídeo
Lanço o desafio aos leitores do blogue que ainda não conhecem o canal para o espreitarem e se for caso disso passarem a segui-lo subscrevendo-o. Força nisso!
quinta-feira, 5 de março de 2026
À ATENÇÃO DOS INTERESSADOS EM GENEALOGIA
Andando eu com pouco tempo para alimentar os meus quatro outros blogues, já se sabe, não pude no entanto, perante uma relevante notícia do respectivo foro, deixar de ir ao Da Genealogia fazer uma publicação (para lê-la, clicai neste link).
segunda-feira, 2 de março de 2026
A TRILOGIA DE ANTONIONI EM TRÊS PALAVRAS
A Aventura revela-nos um caso, A Noite um acaso e O Eclipse um ocaso.
domingo, 1 de março de 2026
SINAIS SENSORIAIS DA ESTAÇÃO QUE SE AVIZINHA
Sei que a Primavera se aproxima porque os longos e sedosos cabelos das belas lisboetas já refulgem sob a luz dourada do subido Sol, ainda intermitente mas já forte, que anuncia o Equinócio.
DA LITERATURA
A literatura pura e dura (sem ilustrações nem nada) é por excelência a arte da meia-idade e da consequente maturidade porque só nessa fase da vida já vimos e vivemos o suficiente para podermos traduzir em pessoalíssimas imagens mentais as palavras que lemos.
DOS LIVROS DE HISTÓRIA AOS ROMANCES HISTÓRICOS
Existe o hábito -- entre vários de nós outros, os bibliófilos que lemos os nossos livros (espécie duplamente rara) -- de usarmos os volumes de História apenas e só para consulta. Isto leva a que sejam percorridos pela rama, mesmo que passados sob o rápido olhar atento de quem pesquisa com um objectivo definido. Por outro lado, lendo-os de fio a pavio, como quem devora um romance, encontrar-se-iam muito provavelmente os dados procurados que escaparam à detectivesca lupa aplicada na diagonal pelo investigador. Dito isto (a despropósito, ou como introdução), ocorre-me agora partilhar, com os seguidores deste blogue, o facto de estar a reler um delicioso romance histórico -- género literário de síntese -- que não consumi quando veio a lume, vai para quase quarenta anos: A Casa do Pó, de Fernando Campos, edição Difel, Lisboa, 1986. Uma secreta obra-prima da literatura portuguesa.
DOS DELICIOSOS PARADOXOS
Quanto menos aqui escrevo, mais leitores aqui tenho (diz o contador do blogue que passam pelo Eternas Saudades do Futuro mais de mil pessoas todos os dias).
DO FASCÍNIO DA LITERATURA E DO CINEMA
Um conto e uma longa-metragem têm em comum o facto de serem formatos narrativos que se podem e devem consumir do princípio ao fim, sem interrupções, em deliciosas viagens interiores de hora e meia.
LIÇÕES DA TERRA, DOS MORTOS E DOS PAPÉIS
Metido em trabalhos de pesquisa genealógica sobre os meus antepassados, investigações cujos resultados disponibilizo em vários posts do blog Da Genealogia, chego a uma conclusão — na linha do pensamento de Maurice Barrès —, toda ela límpida e cristalina: é com a terra, os mortos e os papéis (livros de assentos paroquiais, com os seus registos de baptismos, casamentos e óbitos, e outras fontes primárias) que mais se aprende.