terça-feira, 5 de maio de 2026

SUSPENSE

Alfred Hitchcock (1899 — 1980) nasce em Londres. Sendo, pois, à partida, um homem directamente herdeiro do espírito vitoriano do século XIX, revela, no entanto, um extraordinário sentido de utilização dos modernos meios de marketing e publicidade (antecipando-os), para divulgar as suas obras. Cedo irá transformar em marca icónica o seu nome, tornando-o reconhecível e apetecível para toda a comunidade mundial de cinéfilos, e, mesmo, para os grandes e despersonalizados públicos generalistas. Revela-se, ainda, e dentro desta estratégia de comunicação global, um especialista nas relações públicas; especialmente com a imprensa, com o objectivo de se promover profissionalmente.


Dito isto, há que afirmar, de imediato, que toda esta comunicação eficaz era apenas a ponta-de-lança de uma obra complexa e profunda. Vamos a ela, que é o fulcro da questão!

Hitchcock, oriundo de uma família de classe média-baixa, é instruído pelos jesuítas. Se refiro este facto é porque os seus filmes virão a reflectir uma série de conhecimentos que terá assimilado nos seus estudos feitos numa escola católica destes, bem conhecidos pela vasta cultura que forneciam; terá, também, através dos referidos jesuítas, tomado contacto com G. K. Chesterton (1874 — 1936), que lerá entusiasmado na juventude. Outras influências literárias que o marcaram, mais tarde, como erudito auto-didacta que era, foram Edgar Allan Poe (1809 — 1849) e Oscar Wilde (1854 — 1900).

Por outro lado, devorava jornais e lia revistas de criminologia e de cinema. Curioso é constatar o casamento entre estas fontes de inspiração para o seu despertar como autor de filmes. Os seus temas serão, principalmente, os seguintes: falsos culpados, assassínios, trocas de identidade, medo, voyeurismo, paixões frias mas arrebatadoras.

Porém, antes de chegar à realização de fitas, começa por desenhar intertítulos para filmes mudos, escrever argumentos e trabalhar como assistente de realização. Esta conjugação, de conhecimento prático da técnica cinematográfica com a cultura que ia adquirindo pela leitura, possibilita uma mestria na criação das suas narrativas fílmicas, apimentadas com o tão apregoado suspense.

Na sétima arte, Hitch (gostava de ser assim tratado) bebeu de várias fontes: Fritz Lang (1890 — 1976) e F. W. Murnau (1888 — 1931) — esses dois mestres do mudo alemão — foram determinantes para a estruturação da sua linguagem estética. Esteve na UFA — os grandes estúdios de Berlim — e conheceu-os pessoalmente. Lá trabalhou e lá filmou. Esta marca será visível, claramente, nos seus filmes mudos; e, mais subtilmente, nos sonoros.

O seu género eleito será o melodrama policial, pontuado de fantástico e de mistério. Esbate, pois, assim, as fronteiras de vários géneros convencionais, criando uma abordagem própria, com elementos retirados de todos eles.

No que toca à realização, o seu estilo é essencialmente visual, dando-nos a sensação de que aquelas histórias só fazem sentido em cinema; ou seja, por escrito não teriam o mesmo impacto. Sabia de tal forma o que queria que a montagem das suas películas seguia ao milímetro o que ele próprio tinha definido na planificação (última fase do argumento, em que este fica pronto a ser filmado). A esta atitude chama-se trabalhar com «guião de ferro». Hitch dizia que o acto de rodar era uma maçada, pois já sabia exactamente como seria o filme ao tê-lo definido na planificação. Esta ideia traduz uma inabalável confiança do cineasta em si próprio, enquanto director de actores, e uma invulgar capacidade de visualização.

Hitchcock assentava a sua estética numa cumplicidade com o espectador. Dava-lhe alguns conhecimentos secretos sobre a acção, mantendo-o ansioso pelo desfecho da narrativa. Esta tensão psicológica pode até levar o espectador a querer comunicar com a personagem ameaçada na tela, para a avisar do perigo... Eis a força manipuladora do suspense.

Não havendo, no entanto, técnica que resista à falta de ideias, é preciso deixar bem explícito que o cinema de Hitch assenta em temas fortes, já atrás referidos. Recapitulando, e desenvolvendo: culpa — com o inocente falso culpado como fio-condutor da narrativa, entrando aqui, por vezes, a troca de identidades; medo — pontuado pelo susto, e nas margens do terror; desejo — com simbologia e alegorias sexuais; ansiedade — mantida pelo suspensevoyeurismo — peeping-tom, em bom inglês, espreitando e violando a esfera privada e íntima; autoridade — que assegura a investigação criminal, mas também pode ser desafiada (detestava polícias vulgares, de «ronda»); morte — sob a forma de assassínio, o crime mais grave, e que os espectadores, morbidamente, gostam de ver no recatado conforto da sala escura. Todos eles temas de identificação e projecção psicológica do espectador. Eis o cinema, na sua mais poderosa forma alquímica, servido pela mão do mestre Hitchcock.

Importante é vencer o medo, esperar para ver o desfecho, e perceber que a chave dos seus filmes é o triunfo final da luz sobre as trevas. Toda a sua obra é uma variação sobre este principal grande tema.

E, se não menciono um único filme do realizador, a justificação é simples: devem ser vistos todos, cronologicamente — dos mudos aos sonoros, dos ingleses aos americanos, dos filmados a preto-e-branco aos rodados a cores —, com o objectivo de se conseguir captar, na sua plenitude, agora em 2026 mais do que nunca, toda a sua temática de fundo, e todo o seu estilo visual e sonoro profundo; enfim, todas as suas indeléveis marcas autorais. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

MÊS DE MAIO, MÊS DE MAIA

Na mitologia grega, Maia é uma das sete filhas de Atlas e Plêione. Para que escapassem do gigante Órion, Zeus tranformou-as no aglomerado estelar das Plêiades, integrantes da constelação de Touro. Com Zeus, Maia teve Hermes, o belo mensageiro dos deuses
Na mitologia romana, Maia é a deusa da fecundidade, da projecção da energia vital, da Primavera e da maternidade. Filha de Fauno, Maia era mulher de Vulcano. Maia está intimamente ligada à feminilidade, à beleza, à sexualidade e ao amor.

terça-feira, 28 de abril de 2026

RENOVADO DESAFIO

Blog  — 113 | X —  392 | Spotify  — 27 | YouTube  — 73

Agradeço a todos estes que se comprometeram de forma permanente a serem meus seguidores nestas plataformas (com vantagens de que assim usufruirão, como receberem notificações das novas publicações, presumo eu) e aproveito o momento para desafiar os mais de 500 visitantes que têm passado no início deste mês de Maio diariamente neste blog, e que ainda não o fizeram, a fazerem o mesmo.

Nota 1: No YouTube o equivalente aos seguidores são os subscritores.

Nota 2: Mensagem actualizada aos 05.05.2026.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DA ARTE DE VIAJAR

Ter mundo não se consegue viajando muito. Ter mundo advém de se viajar bem.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

NOTA EDITORIAL SOBRE GENEALOGIA E HISTÓRIA DA FAMÍLIA

Aos meus leitores especialmente interessados na matéria em epígrafe volto a recordar que todas as publicações que fiz neste blogue resultantes dos meus estudos na área de Genealogia e História da Família foram transcritos para o Da Genealogia embora continuem igualmente a figurar neste.  É nesse meu outro blogue que os referidos posts serão actualizados e é também aí que publicarei em exclusivo novas mensagens na sequência de novos trabalhos sobre o tema acima indicado. 

sábado, 18 de abril de 2026

VOU ALI E JÁ VENHO

A MINHA RESPOSTA À PERGUNTA ANTERIOR

Eu gostava de viver dentro de uma exposição de Magritte. 

PERGUNTA PARA ESTETAS

Gostava de viver dentro de uma exposição de que artista?

A MINHA RESPOSTA À PERGUNTA ANTERIOR

Eu gostava de viver dentro de um livro de Somerset Maugham.

PERGUNTA PARA BIBLIÓFILOS

Gostava de viver dentro de um livro de que escritor? 

PRINCIPAIS TEMAS DO AUTOR DO BLOGUE NO BLOGUE E EM TODA A PARTE

Arte | Literatura | Cinema | Televisão | Vídeo | Fotografia | Música | História | Estética | Genealogia | Cultura

AS DUAS PRINCIPAIS COISAS PARA UM HOMEM CULTO

Uma biblioteca e um jardim.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

SURPRESA E EXPECTATIVA

Recebi a notícia de que alguém está a desenvolver uma tese sobre o meu trabalho partindo da seguinte poética premissa:
A arte de João Marchante é sempre subliminarmente erótica e simbólica.
Parece-me bem. Vamos lá a ver o que daí sai.

O QUE É UM POETA VISUAL?

Um poeta visual é um criador que consegue transmitir uma ideia universal usando apenas uma só imagem.

A MINHA RESPOSTA À PERGUNTA ANTERIOR

Eu gostava de viver dentro de um filme de Éric Rohmer. 

PERGUNTA PARA CINÉFILOS

Gostava de viver dentro de um filme de que realizador? 

domingo, 12 de abril de 2026

DO VENTO VIRIL

Na Primavera, para que as plantas se eternizem, o vento fecundador sopra com força.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

DO CHEIRO DOS LIVROS

Tenho o hábito de cheirar os meus livros. São quase todos antigos. Portanto, os seus aromas transportam-me no tempo e no espaço. Fragrâncias de tabacos, lareiras, madeiras, flores... Assim se vão recordando, ou imaginando, pessoas e lugares.

sábado, 4 de abril de 2026

MENSAGEM DE PÁSCOA

O autor deseja uma Santa Páscoa a todos os seguidores do blogue.

DAS PALAVRAS E DAS OBRAS

Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras. 

PADRE ANTÓNIO VIEIRA
(1608 — 1697)

SINAIS DO APOCALIPSE CULTURAL

Os alfarrabistas tornaram-se tão raros quanto as raridades que outrora lá encontrávamos e não faltará muito para que desapareçam pois estes tempos vulgares não gostam de coisas raras.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

À ATENÇÃO DOS BIBLIÓFILOS

ABRIR ABRIL

Já está.

sábado, 28 de março de 2026

DA SÉTIMA ARTE

A expressão «Sétima Arte» anda na boca de todo mundo. Falemos, então, sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.


Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) quem baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), sedeada em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des Sept Arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.

Se, por esta altura, os meus leitores já perceberam que estamos perante um teórico da Arte, não estranharão saber que Canudo lança, em 1923, o Manifeste des Sept Arts, após uma série de outros textos preparatórios, o primeiro dos quais data de 1908; e, num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.

Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é — antes de tudo — Arte.

Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa (ou debate, como agora se diz) em aberto, pois isso representa um sinal da vitalidade dos nossos pensadores. Para este escritor italiano, muito activo no primeiro quartel do século XX, as Sete Artes são: 
ArquitecturaEsculturaPinturaMúsicaDançaPoesia e Cinema.
Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.

É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».

Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.

Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação ao vivo de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direcção de arte, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.

Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!

É, portanto, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética. E, acima de tudo, aquela que, incorporando todas as outras, melhor transporta o nosso Património histórico, estético e cultural — projectando-o no futuro —, através da permanente reformulação e actualização das ancestrais e intemporais narrativas da nossa matriz identitária.

Haja sempre cineastas portugueses à altura desta missão universal.

Nota: Texto à especial atenção dos meus alunos do Curso Livre de História e Estética do Cinema do Clube dos Amigos da Sétima Arte.

terça-feira, 24 de março de 2026

DA GENEALOGIA

Aos interessados em Genealogia e História das Famílias em geral e História do Alentejo em particular, faço saber por este meio que acabei de actualizar uma publicação sobre estas matérias aqui (clicai e espreitai).