domingo, 31 de maio de 2009

BLOGUE DO DIA (88)

FILME PARA HOJE (11)

Kagemusha / A Sombra do Guerreiro (Japão, 1980),
de Akira Kurosawa.

AO ANDRÉ AZEVEDO ALVES

Com imperdoável e inexplicável atraso, venho responder à pergunta do André Azevedo Alves sobre o livro que tenho à mão de semear. Já se sabe que leio várias obras ao mesmo tempo, e de diferentes secções da minha biblioteca; mas, aqui vai a 5.ª frase da página 161 do ensaio que, devido ao — para mim — recorrente tema, e muito por causa do autor — que urge redescobrir—, me tem cativo por estes dias:
Para além do facto material dos descobrimentos e das conquistas, há que considerar o espírito da própria Renascença: as intenções dos descobrimentos foram manifestamente religiosas — de ordem espiritual, portanto; as suas consequências, porém, são já económicas, — portanto, de ordem material.
In Meridiano de Lisboa, Augusto da Costa, Editorial Acção, Lisboa, 1943.
Não passo a corrente a ninguém. Fica, assim, rematada, com chave de ouro, por estas bandas.

sábado, 30 de maio de 2009

SÉRIE DE MENSAGENS CINEMATOGRÁFICAS MUITO CÁ DE CASA

Nota (muito importante): A partir de agora, clicando nos nomes dos cineastas, nas mensagens da série destacada, terão hiperligações para quase* todas as referências feitas a eles no blogue. As coisas que eu faço pelos meus leitores...
*Na medida em que por vezes os nomeio apenas pelo apelido.

MAS QUE GRANDE 31!

O Corcunda faz uma genial síntese comparativa entre os frutos do 28 de Maio de 1926 e do 25 de Abril de 1974: 28/25.

NOTAS SOBRE O CINEMATÓGRAFO (3)

O futuro do cinematógrafo está numa nova raça de jovens solitários que filmarão e apostarão até ao último cêntimo sem se deixarem derrotar pelas rotinas materiais do ofício.

ROBERT BRESSON
(1907 — 1999)

FILME PARA HOJE (10)

Procès de Jeanne d'Arc (França, 1962), de Robert Bresson.

SANTA DO DIA

Santa Joana d'Arc (+ 1431).

PASSAR EM REVISTA

Passei o serão a ler as seguintes revistas:
Futuro Presente, n.º 64 — Dezembro de 2008 (Ano XXVII).*
Director: Jaime Nogueira Pinto.
Plátano, n.º 4 — Outono de 2008.
Director: Mário Casa Nova Martins.
Terra e Povo, n.º 1 — Solstício de Verão de 2008.
Director: Duarte Branquinho.
Chamo a atenção, aos leitores mais desatentos, para o facto de os três directores, das referidas publicações, serem bloguistas. Bom sinal.
*Acabadinha de chegar ontem à caixa do correio.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

BLOGUE DO DIA (87)

Pena e Espada, de Duarte Branquinho.

LIVRO PARA HOJE (104)

Ordens Religiosas em Portugal: das Origens a Trento — Guia Histórico, Bernardo Vasconcelos e Sousa (dir.), Isabel Castro Pina, Maria Filomena Andrade, Maria Leonor Ferraz de Oliveira Silva Santos, edição Livros Horizonte, Lisboa, 2005.

A PROPÓSITO DAS DUAS MENSAGENS ANTERIORES

Mapa da Europa com Ordens de Cavalaria e Cruzadas.

TEMPOS TÍBIOS

Agora, a Turquia tem a tarefa facilitada, para novas conquistas, pois a sinistra União Europeia, que nos impuseram à surrelfa, dispõe-se a deixá-la entrar pela Europa adentro.

DATAS TRISTES

Neste dia, em 1453, dá-se a queda de Constantinopla. A conquista da capital bizantina, pelos turcos otomanos, mata Constantino XI, último imperador, e marca o fim do Império Romano do Oriente. Em consequência destes factos, o Império Otomano adquire a preponderância geo-política na Europa de leste, nos Balcãs e no Mediterrâneo oriental. É ainda o fim da Idade Média — época de ouro da espiritualidade cristã e da identidade europeia.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

PRÉMIO «BLOGUE COM TOMATES» DA SEMANA

Adenda (em 2.6.09) : O prémio deixa de ter periodicidade semanal obrigatória.

PRÉMIO «BLOGUE COM TOMATES»

Decidi lançar este novo prémio, destinado a distinguir (semanalmente) um blogue pessoal cujo autor assine as suas opiniões com o seu próprio nome.
Peço às minhas leitoras o favor de me darem sugestões para a designação do equivalente prémio feminino, que pretendo igualmente instituir, com o fim de ser atribuído a blogues de autoras.
(Ambas as escolhas serão anunciadas nas Quintas-Feiras).
Adenda 1 (em 2.6.09) : O prémio deixa de ter periodicidade semanal obrigatória.
Adenda 2 (em 7.6.o9) : Apesar de ter recebido interessantes sugestões — que aproveito para agradecer —, ainda não atinei com o título para o prémio feminino. Fica, portanto, para já, em águas de bacalhau.

COISAS DOS BLOGUES

Das possíveis traduções da palavra post, só me parecem aceitáveis postal, entrada e mensagem. Esta última, adoptada «oficialmente», agrada-me bastante.

MUDANÇA DE RITMO NA DANÇA DO BLOGUE

A seguir a uma mensagem longa surge uma mensagem curta.

SÉTIMA ARTE 11

O Último Romântico da Sétima Arte*
Quem quiser compreender a razão de se chamar autor a um realizador de Cinema deverá mergulhar de cabeça na sereníssima e profunda obra de Eric Rohmer. Este grande mestre da Sétima Arte nasceu em França em 1920 e está mais vivo do que muitos rapazolas que para aí andam armados em artistas. De forma discreta, mas sábia e firme, exerce os ofícios de crítico, jornalista, argumentista, escritor e professor, para além da sua principal actividade como realizador.
Organizou parte da sua filmografia em ciclos. Assim, encontramos os seguintes: «Seis Contos Morais» (seis filmes, 1963 — 1972), «Comédias e Provérbios» (sete filmes, 1981 — 1987) e «Contos das Quatro Estações» (quatro filmes, 1990 — 1998).
Tem como principais temas da sua obra cinematográfica: os encontros e os desencontros, o desejo, os jogos de sedução, a dúvida da escolha, o exame de consciência, e a decisão; enfim, as relações humanas em toda a sua fascinante complexidade, encontrando sempre na palavra o fio-condutor.
Não temendo o peso que os ignorantes atribuem à expressão, podemos afirmar que Rohmer é o maior moralista do Cinema Moderno. A isto acrescentaríamos a sua característica (outros a têm também) de ser um cineasta coleccionador de mulheres, ou, personagens femininas, se preferirem assim. Chamemos-lhe ainda cineasta-retratista, pois revela, através da fotogenia dos corpos e dos rostos — muito particularmente dos olhares —, a alma das suas personagens. Poder alquímico, este, só na posse dos verdadeiros retratistas.
Rohmer é um realizador do tempo e do espaço. Trata-os, com mestria, utilizando uma montagem mínima e subtis movimentos de câmara. O seu sistema narrativo tem por base uma estrutura herdada das convenções teatrais: a sua escrita organiza-se por actos, e as suas cenas são longas — como na vida, sem cortes; domina os diálogos, imprimindo-lhes um profundo cunho verista, e recorre à figura do narrador. O seu sábio conhecimento da História da Pintura transparece na imagem dos seus filmes — nos enquadramentos e nas composições, e nos ambientes. O estilo visual e sonoro é claramente naturalista; o que poderia, aliás, ser a palavra-chave para a sua estética e constitui, sem dúvida, a sua principal marca autoral.
Foi chefe de redacção dos Cahiers du Cinéma; e, nessa categoria e na de crítico da revista, revelou-se decisivo para a criação da «teoria do autor», que ele próprio viria a encarnar como ninguém. Escreveu, entre muitos outros textos teóricos — sobre Dreyer, Hitchcock, Rossellini, etc —, uma fundamental tese sobre «A organização do espaço no Fausto de Murnau», com este mesmo título.
Por outro lado, como isto não é nenhuma tese, mas um conjunto de notas soltas que para aqui estou a alinhar acabadinho de chegar da Cinemateca Portuguesa, vindo de ver o seu delicioso Pauline à la Plage (1982), apetece-me concluir chamando a Eric Rohmer: subtil, natural, alegre, irónico, melancólico, romântico e espiritual. E não é pouco. Eu, por exemplo, quando for grande também quero ser assim.
João Marchante
*Texto que escrevi no blogue Eternas Saudades do Futuro numa entrada de 28 de Setembro de 2007. Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações novamente no blogue Eternas saudades do Futuro.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

INSPIRADOR

Mankind Is No Island, de Jason Von Genderen.

Filme vencedor do Tropfest — «o maior festival de curtas-metragens do mundo» — em 2008. O festival começou em Sydney, em 1993, e levou a cabo a sua primeira edição em Nova Iorque no ano passado.
Mankind Is No Island, de Jason Von Genderen, foi totalmente filmado com um telemóvel, em Sydney e Nova Iorque, e teve um orçamento de 4o dólares (aproximadamente 30 euros).

[Com um abraço ao Tomaz Hipólito, que mo enviou.]

Adenda (em 5.6.09) : À atenção dos alunos que se queixam da falta de dinheiro para executar os seus projectos...

DO BREVISSIMO - REPORT 2

Devido à minha já conhecida azelhice informática, que neste caso me impede de conseguir formatar uma mensagem de correio-electrónico — com um texto e duas fotografias — recebida da minha correspondente em Nova Iorque, não consegui ainda publicar aqui a crónica semanal da Patrícia. Peço desculpa aos meus Leitores e à minha Amiga. A emissão segue dentro de momentos...

MENSAGEM DE PASSAGEM

Na montagem temos de saber fazer a transição para a outra margem.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DAR BANDEIRA

Dom Afonso Henriques, O Conquistador.

(Guimarães, 25.07.1111 — Coimbra, 06.12.1185)

Reinado: 1128 — 1185.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

SÉTIMA ARTE 10

Suspense*
Alfred Hitchcock nasce, em Londres, em 1899. Sendo, pois, um homem do século XIX, revela, no entanto, um extraordinário sentido de utilização dos modernos meios de marketing e publicidade (antecipando-os), para divulgar as suas obras. Cedo irá transformar em marca o seu nome, tornando-o reconhecível e apetecível para toda a comunidade mundial de cinéfilos, e, mesmo, para os grandes e despersonalizados públicos generalistas. Revela-se, ainda, e dentro desta estratégia de comunicação global, um especialista nas relações públicas: especialmente com a imprensa, com o objectivo de se promover.
Dito isto, há que afirmar, de imediato, que toda esta comunicação era apenas a ponta-de-lança de uma Obra complexa e profunda.
Hitchcock, oriundo de uma família de classe média-baixa, é instruído pelos Jesuítas. Se refiro este facto é porque os seus filmes virão a reflectir uma série de conhecimentos que terá assimilado nos seus estudos feitos numa escola católica destes, bem conhecidos pela vasta cultura que forneciam; terá, também, através dos referidos Jesuítas, tomado contacto com Chesterton, que lerá entusiasmado na juventude. Outras influências literárias que o marcaram, mais tarde, como auto-didacta, foram Poe e Wilde.
E, por outro lado, devorava jornais e lia revistas de criminologia e de Cinema. Curioso é constatar o casamento entre estas fontes de inspiração para o seu despertar como autor de filmes. Os seus temas serão, principalmente: falsos culpados, assassínios, troca de identidades, medo, voyeurismo, e paixões frias mas arrebatadoras.
Porém, antes de chegar à realização de fitas, começa por desenhar intertítulos para filmes mudos, escrever argumentos, e trabalhar como assistente de realização. Esta conjugação de conhecimento prático da técnica cinematográfica com a cultura que ia adquirindo pela leitura possibilita uma mestria na criação das suas narrativas fílmicas, apimentadas com o tão apregoado suspense.
Mas também aqui — na Sétima Arte — Hitch (gostava de ser assim tratado) bebeu de outras fontes: Fritz Lang e Murnau — esses dois mestres do mudo alemão — foram determinantes para a estruturação da sua linguagem estética; esteve, aliás, na UFA — os grandes estúdios de Berlim — e conheceu-os pessoalmente. Lá trabalhou e lá filmou. Esta marca será visível claramente nos seus filmes mudos, e, mais subtilmente, nos sonoros.
O seu género eleito será o melodrama policial, pontuado de fantástico e de mistério. Esbate, pois, assim, as fronteiras de vários géneros convencionais, criando uma abordagem própria, com elementos retirados de todos eles.
No que toca à realização, o seu estilo é essencialmente visual, dando-nos a sensação de que aquelas histórias só fazem sentido em Cinema; isto é, por escrito não teriam o mesmo impacto. Sabia de tal forma o que queria que a montagem das suas películas seguia ao milímetro o que ele próprio tinha definido na planificação (última fase do argumento/guião, em que este fica pronto a ser filmado). A esta atitude chama-se trabalhar com «guião de ferro». Hitch dizia que o acto de filmar/rodar era uma maçada, pois já sabia exactamente como seria o filme ao tê-lo definido na planificação…! Esta ideia traduz uma inabalável confiança do cineasta em si próprio e uma invulgar capacidade de visualização.
Hitchcock assentava a sua estética numa cumplicidade com o espectador: dava-lhe alguns conhecimentos secretos sobre a acção, mantendo-o ansioso pelo desfecho da narrativa. Esta tensão psicológica pode até levar o espectador a querer comunicar com a personagem ameaçada na tela, para a avisar do perigo... Eis a força manipuladora do suspense.
Não havendo, no entanto, técnica que resista à falta de ideias, é preciso deixar bem explícito que o Cinema de Hitch assenta em temas fortes, já atrás referidos. Recapitulando, e desenvolvendo: a culpa — com o inocente falso culpado como fio-condutor da narrativa, entrando aqui, por vezes, a troca de identidades; o medo — pontuado pelo susto, e nas margens do terror; o desejo — com simbologia e alegorias sexuais; a ansiedade — mantida pelo suspense; o voyeurismopeeping-tom, em bom inglês, espreitando e violando a esfera privada e íntima; a autoridade — que assegura a investigação criminal, mas também pode ser desafiada (detestava polícias vulgares, de «ronda»); a morte — sob a forma de assassínio, o crime mais grave, e que os espectadores, morbidamente, gostam de ver no recatado conforto da sala escura. Todos eles temas de identificação e projecção psicológica do espectador. O Cinema na sua mais poderosa forma alquímica, servido pela mão do mestre Hitchcock.
Importante é vencer o medo, esperar para ver o desfecho, e perceber que a chave dos seus filmes é o triunfo final da Luz sobre as Trevas. Toda a sua Obra é uma variação sobre este principal grande Tema.
E, se não menciono um único filme do realizador, a justificação é simples: devem ser vistos todos, cronologicamente — dos mudos aos sonoros, dos ingleses aos americanos, dos filmados a preto-e-branco aos rodados a cores —, com o objectivo de se conseguir captar, na sua plenitude, toda a sua temática de fundo, e todo o seu estilo visual e sonoro profundo; enfim, todas as suas indeléveis marcas autorais.
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano II — N.º 10, Novembro/Dezembro de 2007). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

DA MINHA PESSOALÍSSIMA SÉRIE DE MULHERES ETERNAS

Grace Kelly.

SE AQUI É ESTA RODA-VIVA, COMO SERÁ NAS BADALADAS REDES SOCIAS?... NINGUÉM TRABALHA NESTE PAÍS?!

O meu perfil de bloguista atingiu 6800 consultas. É sabido que a curiosidade é uma forte característica nacional; mas, ainda assim, este número parece-me excessivo! Contudo, já que há tanta gente interessada em saber mais sobre este vosso bloguista, decidi abrilhantar o dito perfil com uns esclarecedores retoques. Ide ver.

SÉTIMA ARTE 9

Pelo Autor é que Vamos*
O autor dos filmes é o realizador.
Para que meio-mundo acreditasse nisto, foi necessário os jovens turcos dos Cahiers du Cinéma produzirem vasta teoria sobre a matéria, vertida em letra de forma em artigos na sua referida revista. Deles, falaremos aqui um destes dias.
Cá para mim, no entanto, quem tivesse olhos de pensar já teria percebido, ao ver os grandes filmes da época de ouro de Hollywood que, embora agrupados em géneros — categorias de produção industrial, mas também estéticas —, as ditas fitas tinham uma assinatura, toda ela marca d’água autoral, por parte do realizador.
Faça-se o teste: entremos numa qualquer sala de cinema a meio da exibição de um filme, vendados (sem saber ao que vamos, olhos e ouvidos tapados); depois, desvendados, recuperados os dois sentidos, e após dois minutos em contacto áudio-visual com a película projectada na tela, tentemos adivinhar quem é o seu realizador. Ah!, pois é, arriscado jogo voyeur este...
Porém, parece-me que quem for verdadeiramente cinéfilo — amigo do Cinema —, e tiver uma cultura filmográfica à altura, logo acertará na mouche: Antonioni, Fellini, Dreyer, Bergman, Ford, Hawks, Bresson, Truffaut, Kurosawa, Ozu — nomes saídos automaticamente, ao correr da pena —, e muitos outros, que poderíamos acrescentar por aí fora, têm marcas de tal forma fortes que ninguém que ame a Sétima Arte poderá confundi-los entre si.
Esta conversa toda tem por objectivo servir de introdução a uma abordagem — infelizmente pouco canónica para os padrões académicos culturalmente correctos — da História do Cinema através da Vida e Obra dos Autores.
Bem sei que não podemos ignorar as três grandes épocas: mudo, sonoro e moderno; nem as principais correntes: expressionismo alemão, impressionismo francês, mudo soviético, etc; nem tão pouco os géneros clássicos, que atingem o paradigma nos E. U. A. com os seus genres indígenas: western, gangsters, musical, aos quais eu gosto de acrescentar o film-noir.
Contudo, olhando noutra direcção, proponho que revisitemos esta Arte, que já atingiu a bela e matura idade de cem anos, tendo os realizadores — grandes mestres técnicos e criadores estéticos — como fios-condutores da sua História.
Assim o farei, já a partir do próximo número desta revista, começando, à boa maneira alfabética, por «A», de Alfred Hitchcock.
Até lá... — suspense...
João Marchante
*Texto escrito para a revista Alameda Digital (Ano II — N.º 9, Setembro/Outubro de 2007) e republicado agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro.

MENSAGEM PUBLICADA COM DEDICATÓRIA...

Excerto de Histoire(s) du Cinéma, de Jean-Luc Godard.

...Ao Clube dos Amigos da Sétima Arte — CASA.

domingo, 24 de maio de 2009

PARA CONHECERMOS AS LINHAS COM QUE NOS COSEMOS

Glossário do Weblog. Um interessante documento da autoria de Eduardo Sousa.

SÉTIMA ARTE 8

O Pioneiro de Lisboa*
Manuel Maria da Costa Veiga inicia a sua actividade cinematográfica como exibidor de filmes estrangeiros em Lisboa. Embora residente em Algés, era uma típica figura da Capital na viragem do século XIX para o XX — dandy alto e espadaúdo, de farta mas cuidada barba à moda. Além do mais, era um curioso e especialista em mecânica e electricidade, o que lhe conferia uma aura de mágico, nesses tempos da iluminação a gaz.
Costa Veiga ajudou Edwin Rousby na primeira exibição em Portugal de imagens em movimento, que decorreu no Real Coliseu da Rua da Palma (hoje desaparecido, para dar lugar a caixotes pós-modernos); sessão essa que teve na assistência o Infante D. Afonso, irmão do Rei D. Carlos I, o que revela o empenho da Casa Real nas novidades científicas e artísticas que estavam a surgir, na Europa, na sequência da primeira apresentação pública — em Paris, a 28 de Dezembro de 1895 — de imagens captadas, reveladas e projectadas pelos irmãos Lumière, com a sua maravilhosa máquina Cinématographe.
A referida estreia lisboeta aconteceu em Junho de 1896 e nela foram projectadas fitas rodadas à volta do Mundo por operadores do pioneiro londrino Robert-William Paul. Foi um sucesso público, esta iniciativa do misterioso exibidor itinerante (húngaro ou americano, ninguém sabe) Edwin Rousby, «o electricista de Budapeste». Este, em Setembro, propicia nova sessão pública em Lisboa, agora com películas já filmadas no nosso País, pelo operador Harry Short, que Paul mandara para o sul da Europa à caça de imagens. A Cinemateca Portuguesa possui dois destes filmes: A Boca do Inferno e A Praia de Algés na Ocasião dos Banhos. Em Janeiro de 1897, Rousby parte definitivamente de Portugal, mas deixa em Lisboa a semente da cinefilia.
Depois deste flask-back, para enquadramento histórico da aparição do Cinema («Animatógrafo», nas palavras de então) em Lisboa, vamos ao nosso pioneiro: Costa Veiga, após várias tentativas falhadas nesse sentido, conseguiu estabelecer-se como exibidor, inaugurando o Éden Concerto, aos Restauradores, e a Esplanada D. Luiz Filipe, em Cascais. Não tardou, no entanto, a dar o salto para a produção de filmes. Assim, aproveitando a estada sazonal do Rei D. Carlos em Cascais, no Verão de 1899, filma a Pessoa Real na praia, capta mais algumas vistas da então famosa estância balnear, e, finalmente, apresenta a sua primeira película: Aspectos da Praia de Cascais.
Foi o início de uma carreira de grande actividade como documentarista (palavra e conceito inexistentes à época, mas é disso que se trata), que atravessará toda a primeira década do século XX, registando os principais acontecimentos sociais e políticos, com a sua câmara inglesa Urban.
As vindas a Portugal de Chefes de Estado, e outras altas figuras, não lhe escaparam; e, temos, assim, a Série — interessante e fundamental para a compreensão da História da Europa — «Visitas a Lisboa»: Eduardo VII (1903), Afonso XIII (1903), Duques de Connaught (1903) Imperador da Alemanha Guilherme II (1905), Presidente de França Émile Loubet (1905), Rei de Saxe (1908).
Por este motivo, ficou conhecido por «Cineasta dos Reis», em oposição jocosa ao seu contemporâneo Aurélio da Paz dos Reis, «o Reis Cineasta», do Porto — primeiro português a dar à manivela uma câmara de filmar; e, revolucionário republicano, por sinal… Deste, falaremos noutro dia.
Entretanto, Costa Veiga fundou uma empresa produtora de Cinema — Portugal Filme —, continuando ainda a sua actividade profissional nos ramos da exibição e distribuição de fitas. Descobriu também, para o Cinema Português, Artur Costa de Macedo, que viria a ser um dos nossos melhores directores de fotografia, decisivo na Época de Ouro do Cinema Português (décadas de 1930 e 1940), e que trabalhava antes na garagem Auto-Palace, ao Rato.
Num tempo muito anterior ao advento da Televisão, era através do Cinema que os Estados comunicavam com os seus cidadãos e passavam para o exterior as imagens do País. Neste contexto, os filmes de Costa Veiga fizeram parte de uma grande e última ofensiva diplomática da Monarquia Portuguesa. A já referida Série «Visitas a Lisboa» foi distribuída por toda a Europa, com o apoio do Rei D. Carlos, mostrando Lisboa, como capital cosmopolita, acolhendo as principais figuras políticas do Mundo.
Note-se que os filmes, embora numa fase embrionária da Sétima Arte — em formato de curtas-metragens, a preto-e-branco, mudos —, eram um negócio rentável; e, Costa Veiga pôde enriquecer com a produção, distribuição e exibição de fitas, despertando, desta maneira, o apetite de muitos outros para esta indústria, os quais não tardaram a aparecer, em força, em Lisboa.
Sendo Costa Veiga «O Cineasta dos Reis», de facto, pode também dizer-se que a sua carreira sofre um grande abalo com o horrível Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. Temos assim — simbolicamente — como uma das últimas obras do realizador: Os Funerais de S. M. El-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luiz Filipe (1908).
Às portas de passarem cem anos sobre o cobarde crime do Terreiro do Paço, não será a hora de se desenterrarem e exibirem os filmes do pioneiro lisboeta — do Cinema Nacional — Manuel Maria da Costa Veiga?
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 8, Maio/Junho de 2007). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

BLOGUE DO DIA (86)

A Casa de Sarto, de JSarto e Rafael Castela Santos.

ALGUNS DISCOS DE HÁ 30 ANOS [1979]

— Highway To Hell, AC/DC.
The B-52's, The B-52's.
Regatta De Blanc, Police.
Live At The Witch Trials, The Fall.
Fear Of Music, Talking Heads.
Unknown Pleasures, Joy Division.
London Calling, The Clash.
Unbehagen, Nina Hagen
Quiet Life, Japan.
Broken English, Marianne Faithfull.
Armed Forces, Elvis Costello.
Rust Never Sleeps, Neil Young.
At Budokan, Cheap Trick.
— Tusk, Fleetwood Mac.
— The Wall, Pink Floyd.
— Specials, The Specials.
It's Alive, Ramones.
The Great Rock'n'Roll Swindle, Sex Pistols.
The Raven, The Stanglers.

ALGUNS FILMES DE HÁ 30 ANOS [1979]

— Die Ehe Der Maria Braun / O Casamento de Maria Braun, Rainer Werner Fassbinder.
— Stalker / Stalker, Andrei Tarkovsky.
— Alien / Alien — O 8.º Passageiro, Ridley Scott.
— Die Blechtrommel / O Tambor, Volker Schlöndorff.
— Being There / Bem-Vindo, Mr. Chance, Hal Ashbey.
— Life Of Brian / A Vida de Brian, Terry Jones.
— Nosferatu: Phanton Der Nacht / Nosferatu, o Fantasma da Noite, Werner Herzog.
— Mad Max / As Motos da Morte, George Miller.
— Manhattan / Manhattan, Woody Allen.
— Kramer vs Kramer / Kramer contra Kramer, Robert Benton.
— All That Jazz / All That Jazz — O Espectáculo Vai Começar, Bob Fosse.
— Apocalipse Now / Apocalipse Now, Francis Ford Coppola.

sábado, 23 de maio de 2009

BLOGUE DO DIA (85)

Tomar Partido, de Jorge Ferreira.

SÉTIMA ARTE 7

Todos Nós Temos Amália na Voz*
Em Portugal, no ano de 1947, entre as sete longas-metragens produzidas, surge Fado, História d’Uma Cantadeira, que, dez anos depois, virá a ser o primeiro filme exibido pela Televisão Portuguesa, no arranque da RTP.
O seu realizador é Perdigão Queiroga, nascido em Évora, em 1916, e morto fisicamente num acidente de automóvel, em 1980. Este, depois de uma fase de aprendizagem das técnicas cinematográficas, trabalha como profissional nas áreas da imagem/fotografia e da montagem. De seguida, em plena II Guerra Mundial, e Golden Age do Cinema Americano, ruma a Hollywood — para os estúdios da major Paramount (uma das cinco maiores empresas de produção cinematográfica dos E. U. A.) —, onde trabalha em montagem. De regresso à Pátria, inicia a preparação de Fado, que será o seu primeiro filme de fundo, numa obra com dezenas de títulos.
A sua filmografia divide-se, como era hábito nos cineastas clássicos completos, entre documentários (a que hoje chamaríamos «institucionais») e longas-metragens de ficção. Outro ponto alto da sua carreira viria a ser As Pupilas do Senhor Reitor (1961), a partir de Júlio Diniz, e que foi o primeiro filme nacional rodado em cinemascope (formato de ecrã largo).
Mas vamos ao nosso Fado, História d’Uma Cantadeira (1947), de Perdigão Queiroga, que a isso viemos e nisso estamos. Este filme baseia-se, muito livremente, na biografia da grande Amália Rodrigues, então no auge da sua carreira e beleza. Será esta formidável «cantadeira» a protagonizar a fita, com a qual iluminará a tela, como estrela deste melodrama romântico. Para que a musa lusa brilhe, em toda a sua plenitude, muito ajudarão os belíssimos fados de Frederico de Freitas, as letras de Amadeu do Vale, Linhares Barbosa, Gabriel de Oliveira e João Mota, as «sínteses de fados» de Frederico Valério e Jaime Santos, os versos de Silva Tavares e José Galhardo; e, toda esta equipa de luxo, sob a direcção musical de Jaime Mendes.
Abordemos então agora a história, propriamente dita: os cânones do melodrama, herdados — pelo Cinema — da Literatura e do Teatro do século XIX, estão lá todos; e, de uma forma não muito diferente daquela como eram praticados, à época, em Hollywood, mas convenientemente transpostos para a realidade social da Lisboa dos anos 40 do século passado, como se pretende.
Assim, temos uma fadista pobre de Alfama, com um namorado (o guitarrista Júlio — interpretado convincentemente pelo grande Virgílio Teixeira), que, tornando-se famosa, sai do seu bairro, abandonando o apaixonado companheiro e trocando-o pelos círculos da alta-burguesia e da aristocracia de Lisboa. Por fim, depois de peripécias várias, numa trama narrativa bem urdida, temos um final na boa tradição do happy end da Capital do Cinema. Se destaco esta ligação ao cinema clássico narrativo sonoro, que tinha as suas regras ditadas pelos americanos, é porque o filme tem uma desenvoltura própria dos melhores produtos saídos dessas «fábricas de sonhos» que eram os Estúdios de Hollywood.
Perdigão Queiroga junta-lhe ainda os principais ingredientes da Cultura Popular Portuguesa — olhada por alguns arrivistas com desconfiança, pois talvez lhes faça lembrar o berço que renegam —, e, assim, consegue fazer um filme que é um dos maiores êxitos de bilheteira — até hoje — do Cinema Português, ao mesmo tempo que recebia críticas muitíssimo positivas; conjugação esta não habitual. Capas Negras, de Armando de Miranda, desse mesmo ano e também com Amália, foi demolido pela crítica, e com toda a razão, devido ao cinema pobrezinho que revelava.
Neste caso — no nosso Fado —, o pano de fundo de carácter realista com que são pintados os bairros tradicionais de Lisboa, a excepcional representação do galã português de dimensão internacional — Virgílio Teixeira —, o rosto, a voz, e a naturalidade expressiva de Amália, o rigor fotográfico de Francesco Izzarelli, a fluidez da montagem do próprio Perdigão Queiroga — em «estilo invisível», à maneira de Hollywood —, as presenças de António Silva, Vasco Santana, Eugénio Salvador, Tony d’Algy, Raul de Carvalho, e mais uma mão cheia de outros grandes actores, fizeram toda a diferença.
Convém aqui realçar que o Fado e os Toiros são dois mitos permanentes da iconografia nacional; e, se convenientemente levados para a Cinematografia Portuguesa — com um tratamento narrativo e plástico sempre renovado, de acordo com o espírito dos tempos —, podem constituir-se como uma das matrizes estruturais de um verdadeiro género indígena. Os E. U. A. fazem exactamente o mesmo com os seus géneros: Western, Gangsters, Musical. Esta linha do Cinema Português foi, aliás, logo consagrada no primeiro filme sonoro (sonorizado, no entanto, ainda, em França): Severa, de Leitão de Barros.
Em relação a Fado, História d’Uma Cantadeira, diga-se que o Estado Novo — através do SNI, de António Ferro — pareceu gostar a atribuiu-lhe o Grande Prémio nesse ano de 1947, demarcando-se, deste modo, de Capas Negras, que, apesar de tudo, teve um maior sucesso de bilheteira (mesmo um dos maiores de sempre, até à actualidade).
De facto, António Ferro, com o seu inovador bom-gosto, sabia o que fazia ao distinguir este filme, pois Fado tem tudo: por um lado, uma extraordinária beleza plástica — esse rosto de Amália nada fica a dever aos de outras divas do Cinema Mundial, muito graças ao já referido director de fotografia italiano, que tinha trabalhado no Camões, de Leitão de Barros, e que tem um estilo visual a fazer lembrar o expressionismo alemão; por outro, a banda sonora, já convenientemente aqui destacada, que reunia os melhores autores da música popular portuguesa de então. Finalmente, os diálogos — esse ponto fraco da Cinematografia Nacional — são convincentes e vivos, e ditos com boa dicção, e ainda melhor interpretação, depois de saídos da pena criativa de Armando Vieira Pinto.
E agora vou mas é rever a fita, que fiquei cheio de vontade, e esperar — pessimista, mas esperançoso que sou — que o Cinema Português se reconcilie com o seu público e possa voltar a erguer produções desta dimensão, para que, como neste caso, não abdicando da requintada expressão estética do autor, possa servir, com narrativas escorreitas e simples, temas onde as pessoas realmente se revejam, pois já basta de décadas de divagações umbiguistas, em tom hermético, para consumo próprio (com distintas excepções à mistura, apesar de tudo).
Bem sei que já não temos Amália, aqui e ao vivo, nem Virgílio Teixeira — e que falta fazem! —, mas há por cá novos e bons actores — potenciais novas estrelas! Estarão os actores portugueses para sempre fadados a fazer tele-novelas em estilo sul-americano, ou poderão voltar a brilhar em Filmes Portugueses populares e de qualidade?...
… A ver vamos.
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 7, Março/Abril de 2007). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

A MODA E O MODO II

O ar de rock está na moda. O meu modo é mais o hard rock.

A MODA E O MODO I

O Facebook está na moda. O meu modo é mais o face to face.

O QUE UMA FESTA FEZ...

Transformou um blogue morno num blogue escaldante! Já sabem, é remédio santo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

...IN TOKYO

Patrícia* em Tóquio II.
*Correspondente do Eternas Saudades do Futuro em Nova Iorque.

LOST...

Patrícia* em Tóquio I.
*Correspondente do Eternas Saudades do Futuro em Nova Iorque.

SÉTIMA ARTE 6

Futuro do Cinema Português*

Um País que não tenha uma Cinematografia própria, reconhecida de imediato a olho nu pelos cinéfilos do mundo inteiro através das suas marcas identitárias, não tem futuro. Não se trata de filmar o folclore e de registar as belas paisagens — a publicidade (institucional e comercial) tomou conta desse departamento, para vender o seu peixe, e até o faz bem.

O que quero dizer com isto é que Portugal precisa de fazer um Cinema com uma linguagem autêntica, que corresponda de facto ao modo de pensar e sentir dos Portugueses. O teste parece-me fácil: se o público gostar é porque os filmes são genuínos. Este tornou-se, aliás, o principal problema; as pessoas andam zangadas com os filmes portugueses. Como às vezes sucede na vida, até se zangam com o que desconhecem; mas, cheira-lhes que nem vale a pena espreitar. E — atente-se —, o povo é sábio nos seus instintos, por mais ignorante que possa parecer e — hoje, infelizmente — ser.

O Cinema é uma necessidade cultural do século XXI, como já tinha sido, também, durante todo o século XX — ou, pelo menos, desde que criou, para si próprio, as bases estéticas para se exprimir de forma autónoma em relação às outras Artes (esse nascimento da linguagem cinematográfica deu-se com Griffith, em 1915). Portanto, se um País não for capaz de criar produtos no domínio da maior indústria cultural conhecida, é lícito afirmar-se que está a abrir uma brecha para a entrada de filmes estrangeiros que venham ocupar esse espaço. Não há aqui qualquer nostalgia do tipo «patriotismo da sardinha assada», que, desde sempre, me repugna. Há, isso sim, a consciência de que um Povo só tem futuro se existir culturalmente, e que, sendo o Cinema a maior e mais moderna forma de expressão artística, quem não tem filmes, a que possa chamar seus, é como quem não tem Língua.

Os filmes de uma Cinematografia Nacional reconhecem-se de imediato. Todos nos quedamos fascinados perante o Cinema Clássico Americano (o das décadas de 1930 e 1940), como certamente admiramos — os que o conhecemos… — o Cinema Mudo Alemão e Russo, ou, ainda, nos identificamos com o Cinema Moderno Italiano e Francês, para só falar dos exemplos mais divulgados da História do Cinema.

A estas fitas associamos rostos e corpos — as «estrelas» (do que os americanos chamaram «Star System»). Reside aqui uma lacuna nacional a superar urgentemente: o Cinema Português precisa de novas estrelas, como de pão para a boca. São elas que alimentam os sonhos dos espectadores na sala escura, através de processos de identificação ou negação, amor ou ódio, fascínio ou repulsa (sem entrar em tretas psicanalíticas, que só servem par esvaziar de magia e sensualidade personagens e pessoas). Certo, certinho, é que sem o brilho das estrelas o Cinema não cativa. Uma estrela é mais do que um bom actor. Tem aquele «não sei o quê» que só o espectador, no seu íntimo, sabe reconhecer; e, primeiro do que ele, o realizador — a quem cabe a tarefa de descobrir, revelar e lançar esses seres únicos. Apesar de tudo, Portugal teve já as suas «divas» do celulóide. Sobre elas falarei nesta revista em futuros artigos desta coluna.

Outro aspecto fundamental a não perder de vista são as histórias que estão na base dos filmes. Tecnicamente designados por argumentos ou guiões — após a sua passagem para linguagem cinematográfica —, é nestes que reside o segredo do sucesso das películas.

A propósito, ocorre-me dizer o seguinte: «Pela boca morre o peixe»; isto é, podemos ter uma iluminação magnífica, belos enquadramentos, actores irrepreensíveis, e tudo o mais; mas, se os diálogos forem ridículos — sabem do que estou a falar… —, a fita não tem pernas para andar.

Antes de chegar aos diálogos, no entanto, o tropeção pode ainda dar-se numa outra fase — na história, propriamente dita (aproveito a ocasião para perguntar se alguém sabe porque carga de água é que ultimamente aparece história impropriamente escrita?...). Esta, pode ser baseada numa obra literária (falando-se, assim, em adaptação), ou escrita de raiz (argumento original). Aqui, é obrigatório ter a noção de que escrever para Cinema não é o mesmo do que escrever um livro ou ser-se jornalista… Há toda uma técnica que urge aprender e dominar. Graças a Deus, temos bons exemplos portugueses para estudar, já por mim aqui citados em anteriores textos.

Se o Cinema é a Arte da repetição (mas essa é outra conversa), aproveito para deixar aqui mais um dito que anda na boca do nosso povo há anos, e que reza mais ou menos assim: «Tendo nós novecentos anos de História, com tantas histórias, porque é que não retiramos daí inspiração para criarmos argumentos para os nossos filmes?». Pois… Não sei, ou prefiro não saber. Mas, é fácil de perceber que a vida de Dom Afonso Henriques daria uma extraordinária longa-metragem, com todos os ingredientes de que os espectadores gostam: um herói, acção, aventuras, perseguições, sexo, amor, batalhas, viagens, paisagens, mistério, segredos, traição, ódio, sangue, e por aí fora… Já que estamos lançados, aproveito para lembrar que todo e qualquer um dos nossos Reis daria um filme de fundo bom em qualquer parte do planeta. Não é exagero, é uma convicção formada no visionamento e análise de centenas de filmes históricos. Um possível slogan para estas películas de época seria: «Oitocentos anos de Monarquia são a nossa garantia».

Pelo meio — entre as histórias, que se escrevem e planificam a fim de passarem a imagens em movimento com som e tudo, e as estrelas, também já nossas conhecidas, que brilham na tela — ficam os recursos técnicos de várias áreas estéticas: imagem, som, montagem, direcção artística (cenários e guarda-roupa). Nestas matérias, não julgo haver problemas de maior. Afinal, temos dos melhores profissionais do mundo nestes ofícios artísticos. Bem sei que alguns andam lá por fora a lutar pela vida, mas talvez regressem para ajudar a criar, definitivamente, uma Indústria de Cinema em Portugal. Havendo mercado, haverá dinheiro e remuneração condigna para quem a merece.

Falemos então agora de mercado, palavra que aparentemente não cola com Arte. Mas se não casar é que é o diabo, pois a Arte ficará solitária e estéril… É chegada a hora de deitar fora todos os preconceitos contra a relação dos filmes com o público. As fitas só têm razão de ser na medida em que comuniquem com as pessoas e que estas se revejam nas películas. Tudo isto pode — e deve — ser feito sem cedências de carácter artístico. Um bom filme deve ser fruído por toda a gente (note-se que o público não é uma massa e é composto por indivíduos de culturas e sensibilidades distintas), com prazer e proveito, à medida dos seus apetites estéticos, ou, simplesmente, lúdicos.

Entendamo-nos: os mais simples contentar-se-ão com a superfície do filme, os mais atentos mergulharão na história, e os mais exigentes tirarão as suas próprias conclusões. As grandes fitas estão assim construídas. São feitas a pensar em todos, mas à medida das necessidades e capacidades culturais de cada um.

É tudo tão simples que quando oiço para aí certos pequenos e médios intelectuais da nossa praça a escreverem palavras extraordinárias sobre Cinema, que só servem para complicar o que é claro como a água límpida, até me arrepio todo.

Finalmente, guardei ainda um pouco de tinta para falar de financiamentos. Embora Portugal tenha hoje — mais do que nunca — uma burguesia burgessa, inculta, e pouco dada a investimentos culturais (salvas raríssimas e honrosas excepções), é aí — apesar de tudo — que reside a esperança para um salto de escala da produção nacional. Os cineastas do futuro terão de libertar-se dos subsídios, e começar a pensar na preparação dos seus projectos com outras mais saudáveis engenharias financeiras. Todas as grandes Cinematografias estrangeiras (tirando a Soviética) se edificaram sobre uma estrutura económico-financeira empresarial privada. Já tinham reparado nisso?

E, por aqui me fico, antes que ofenda alguma alma mais sensível de algum confrade cinéfilo...

Apesar de todo o meu desgosto atrás expresso em relação ao actual panorama do Cinema Português (sendo sério, não poderia ter dito outra coisa), o meu entusiasmo é muito maior do que o meu pessimismo, e acredito no surgimento, no século XXI, de uma Indústria de Cinema em Portugal (feita por portugueses, mas aberta às co-produções lusófonas e europeias) capaz de produzir obras suficientes, em qualidade e quantidade, para serem exportadas para o planeta inteiro, superando barreiras linguísticas com boas traduções e legendagens; e, especialmente, tratando assuntos que cativem os públicos mundiais pela sua originalidade e identidade.

Em frente, Cineastas do meu País!

João Marchante

*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 6, Fevereiro de 2007). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

NÃO HÁ SÉRIE TELEVISIVA COMO A PRIMEIRA

A minha foi esta — a gravar-se-me indelevelmente na memória —, e ficar-lhe-ei fiel para sempre. Vem este postal a propósito de uma roda-viva que para aí anda na blogosfera por causa de uma «corrente» (coisa que abomino, pois sou um rapaz sempre contra-a-corrente). Porém, agradecendo aos caros confrades que me desafiaram para entrar no «jogo», dedico-lhes estas imagens, que me trazem mil recordações, e esta música, que volta-e-meia ainda trauteio.

SANTA DO DIA

Santa Rita de Cássia (+ 1457). Viúva e Religiosa.
Advogada das Causas Perdidas.

NESTE DIA NASCERAM:

Gérard de Nerval, em 1808; Richard Wagner, em 1813; Arthur Conan Doyle, em 1859; Hergé, em 1907. Todos, mas mesmo todos, muito cá de casa. Há dias assim!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

EM MEMÓRIA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

Ordet / A Palavra (Dinamarca, 1955), de Carl Theodor Dreyer.
Sem palavras.

...AINDA AS AFINIDADES ARTÍSTICAS

E, com esta, já não é a primeira vez que a Menina Bem Comportada e eu andamos sintonizados na mesma onda...

NUM DIA TRISTE PARA CINÉFILOS COMO EU...

...Dou de caras com um revigorante blogue: Com a Luz Acesa, de Ângela. Redentor.

LIVRO PARA HOJE (103)

Os Filmes da Minha Vida / Os Meus Filmes da Vida, João Bénard da Costa, edição Assírio & Alvim, colecção Livros de Cinema / 3, Lisboa, 1990.
Porque a melhor forma de homenagear um homem culto é lê-lo.
Deus lhe dê o eterno descanso.

BLOGUE DO DIA (84)

SÉTIMA ARTE 5

Preparando um Centenário*
António Lopes Ribeiro (Lisboa, 1908 — Lisboa, 1995) é cineasta, jornalista e crítico de Cinema. Entenda-se aqui a palavra cineasta na sua acepção total: Lopes Ribeiro foi realizador, argumentista, produtor, director artístico e montador. Temos, assim, um homem que respira Cinema.
Estudou engenharia no Instituto Superior Técnico, mas logo o abandonou, em 1929, para se entregar à Sétima Arte a tempo inteiro.
Nos anos 20, dedica-se ao jornalismo; e, estreia-se na crítica cinematográfica no Diário de Lisboa com uma página própria, «Arte Cinematográfica — O Claro-Escuro Animado», onde usa as iniciais «A. R.» e o pseudónimo «Retardador», a partir de 1927; esta rubrica terá sido a primeira — em todo o Mundo — dedicada exclusivamente ao Cinema num jornal diário. De seguida, funda e dirige as revistas especializadas Imagem (1928), Kino (1930) e Animatógrafo (1933). Colabora ainda, ao longo de toda a sua longa vida, nas seguintes publicações, entre outras: A Bola, Diário Popular, Cine-Jornal, A Revista de Portugal e A Rua.
Inicia-se como realizador, em 1928 — aos 20 anos de idade —, com o documentário artístico Bailando ao Sol. Lança-se, a partir daí, numa carreira que terá mais de 100 títulos e que só será interrompida — à força! — em 1974. Nessa vasta Obra, encontramos documentários, adaptações literárias, dramas, e comédias. O arranque da sua actividade cinematográfica encontra-se fortemente enraizado nos conhecimentos técnicos que adquiriu em visitas aos estúdios alemães e russos (um bom exemplo do amor à arte e da estética quebrando fronteiras políticas).
Foi, enquanto teórico, um apologista do Cinema Sonoro, contrariando muitos dos seus camaradas de ofício da época, que viam no Sonoro um desvirtuar do Cinema como forma de expressão artística, pois passaria a ser — segundo eles — um mero meio de reprodução da realidade. Lopes Ribeiro viu, antes de todos, que o Som — se bem utilizado — poderia ajudar o Cinema a crescer como Arte. Assim foi.
Os seus documentários são, na sua maior parte, encomendas do Estado Novo, através de vários Organismos. Mostrar-se-á, neste domínio, um Autor rigoroso, do ponto-de-vista histórico, e com um fino sentido estético. Destacaria, nesta área, os seguintes documentários: A Exposição do Mundo Português (1941), Inauguração do Estádio Nacional (1944), A Morte e a Vida do Engenheiro Duarte Pacheco (1944), O Cortejo Histórico de Lisboa (1947), Jubileu de Salazar (1953), Rainha Isabel II em Portugal (1957). Se quisermos conhecer a História de Portugal do Século XX, teremos de vê-los a todos — dezenas de títulos, de semelhante nível técnico-artístico e igual valor histórico, repartidos entre curtas-metragens e longas-metragens documentais. Um olissipógrafo que se preze deverá visionar os seus documentários sobre Lisboa, antes de escrever o que quer que seja sobre a antiga Capital do Império.
Quanto ao Cinema de ficção, Lopes Ribeiro saberá integrar muito bem nas suas equipas um conjunto de luxo de técnicos provenientes da Alemanha, e assegurar, desta forma, um sentido visual apurado — na luz, nos enquadramentos, e nos movimentos de câmara — nos seus filmes. A sua primeira longa-metragen de ficção — Gado Bravo (1934) — irá logo deixar bem à vista do público essas marcas. Note-se que a propósito desta fita rodou um documentário («making-of», no vocabulário técnico de hoje; coisa inédita à época).
António Ferro — que sabia, como ninguém, detectar talentos — vai desafiá-lo a rodar uma película sobre a Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, a fim de Comemorar os seus 10 anos. O argumento é escrito por António Lopes Ribeiro e pelo próprio António Ferro (com os pseudónimos de Baltazar Fernandes e Jorge Afonso, respectivamente) e terá a produção assegurada pelo Secretariado de Propaganda Nacional. (Sobre esta fita — A Revolução de Maio (1937) —, não resisto a relembrar aqui o sucedido, há uns anos atrás, quando algum «especialista» de programação da RTP decidiu exibir este filme, no 1.º de Maio, julgando tratar-se de uma película panegírica da data...! Ia caindo o Carmo e a Trindade!...)
A partir de 1938, na sua nova responsabilidade de director artístico da Missão Cinegráfica às Colónias de África, visita e trabalha — supervisionando e dirigindo produções — nas Províncias Ultramarinas. Resultante desta aproximação a África, surge Feitiço do Império (1940); ainda hoje um filme de grande escala e enredo cativante, e a necessitar de urgente reposição para que as novas gerações digam de sua justiça.
Em 1941, cria as Produções Lopes Ribeiro, com o objectivo de produzir longas-metragens de ficção, ou filmes de fundo, entre os quais temos a nata do Cinematografia Portuguesa do Século XX: O Pátio das Cantigas (1942), de Francisco Ribeiro (seu irmão «Ribeirinho»); Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira; Camões (1946), de Leitão de Barros; para além de todas as Comédias Portuguesas que iluminaram a Época de Ouro do Cinema Nacional.
Para podermos avaliar convenientemente a genialidade heterodoxa deste Autor, esplanada em géneros cinematográficos tão distintos, basta referir O Pai Tirano (1941), que representa um certo paradigma da Comédia Portuguesa, e Amor de Perdição (1943), exemplo perfeito de como se pode obter êxito comercial com adaptações de qualidade de clássicos da Literatura Portuguesa.
Toda esta Obra Cinematográfica foi construída a par de uma outra carreira como Homem de Teatro. Fundou a Companhia «Os Comediantes de Lisboa», que actuou sucessivamente no Teatro da Trindade, no Teatro Avenida, e no Teatro Apolo; e, em 1952, fundou o «Teatro do Povo», que levou à cena desde Gil Vicente até peças da sua própria autoria.
Numa outra frente, traduziu Tchekov, Maeterlinck, Pagnol, Maugham e Giradoux, entre outros.
Como escritor, publicou O Livro de Aventuras (1939) e O Livro das Histórias (1940) — colectâneas de sonetos e poemas; editou ainda as várias compilações das suas crónicas, destacando-se: Esta Pressa de Agora (1962), Anti-Coisas & Tele-Coisas (1963) e Belas-Artes & Malas-Artes (1964).
Na televisão, ficou na memória de várias gerações de famílias portuguesas com o seu programa semanal Museu do Cinema, fazendo dupla com o famoso pianista «mudo» António Melo, entre 1957 (ano de fundação da RTP) e 1974 (ano do não desejado fim da sua brilhante carreira).
No nosso imaginário colectivo, ressoam ainda também as deliciosas e sincopadas quadras do seu «Procissão», imortalizadas pela voz única de João Villaret.
Entretanto, hei-de cá voltar para continuar a falar de António Lopes Ribeiro; preparando, assim, a Comemoração — à minha maneira — do Centenário do seu Nascimento.
Não perdem pela demora.
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 5, Janeiro de 2007). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

LET'S DANCE

«Let's Dance», David Bowie.

Em memória da Festa do Ano!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

SE EU FOSSE UM HERÓI DE BD...

Corto Maltese.
...Seria este.

SÉTIMA LEGIÃO

«Por Quem Não Esqueci», Sétima Legião.

SÉTIMA ARTE 4

Alegria de Viver*
Em Dezembro de 1932 iniciaram-se os trabalhos de edificação do estúdio cinematográfico da Tobis, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, em Lisboa. No início do ano tinha sido dado o arranque para a Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klang Film, que se constituiu formalmente em Junho de 1932. Este nome ficou a dever-se à casa-mãe alemã (Tobis, abreviatura de Tonbild SyndiKat), por ter sido esta a fornecer-lhe a aparelhagem técnica. Lisboa e Berlim de mãos dadas, para o advento do Cinema Sonoro em Portugal.
O então jovem arquitecto Cottinelli Telmo desenha e orienta a construção do estúdio, num radical projecto de fino recorte moderno e funcional, em articulação com a bela paisagem envolvente. José Ângelo Cottinelli Telmo nasceu em Lisboa, em Novembro de 1897, e viria a morrer num trágico acidente de pesca desportiva na Praia do Guincho, sportsman que era, em 1948. Filho de músicos, entra em 1915 para as Belas-Artes de Lisboa, a fim de cursar Arquitectura. Antes de aí se licenciar, em 1920, Cottinelli participa nas animadas tertúlias do Chiado, onde convive com os «novos», virando as costas ao academismo passadista da escola. Dessas relações sairiam, por exemplo, trabalhos para bailados (com Almada Negreiros), bandas desenhadas (para o ABC), décors de filmes de Leitão de Barros, etc e tal. Revelou-se, ainda, como actor e compositor, nas festas de estudantes de Belas-Artes. Como arquitecto, constrói alguns dos primeiros edifícios modernistas de Lisboa: Stand da FIAT (Av.da Liberdade, 1926-1929); Estação Fluvial do Terreiro do Paço (1928-1932); e, finalmente, a nossa Tobis. Carreira esta que atingiria o apogeu com a sua nomeação para arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português, em 1940.
Foi, por esta altura, o principal colaborador de Duarte Pacheco (se este não tivesse morrido em 1943, Cottinelli em 1948, e Ferro em 1956, a História das Artes e dos Espectáculos, no Século XX, em Portugal, teria cantado mais alto… mas, essa é outra história… fica para a próxima).
A Tobis só ficou concluída em 1934. No entanto, antes disso, Portugal vai ter o seu primeiro filme sonoro rodado aí, num plateau improvisado. Ao mesmo tempo que orienta a construção do estúdio, que, no local, era dirigida pelo francês A. P. Richard, Telmo escrevia e realizava A Canção de Lisboa, tendo como conselheiro técnico Chianca de Garcia, outro dos grandes entusiastas da Tobis, desde a primeira hora, a par de Cottinelli Telmo e Leitão de Barros.
A Canção de Lisboa surge, pois, como fruto da gente nova, formada na cinefilia, no culto das Artes, e no bom-gosto. Se esta nova geração está pronta, e as infra-estruturas lançadas no terreno, faltavam ainda técnicos e actores para dar corpo ao primeiro filme sonoro totalmente feito (rodado e sonorizado) em Portugal.
Olhando com atenção para a ficha técnica (hábito perdido nos apressados dias de hoje, onde nos servem ao domicílio os filmes amputados dessa parte…!), descobrimos toda a fina-flor da Arte Portuguesa de então. O próprio genérico é de Almada Negreiros, que desenha também os dois cartazes do filme; o pintor Carlos Botelho é assistente de realização; José Galhardo escreve os inesquecíveis diálogos e as letras das canções, que passam de pais para filhos há mais de setenta anos; encontramos um trio de luxo na fotografia — Henri Barreyre, Octávio Bobone e César de Sá; o «russo branco» — vindo do Cinema Mudo Russo (pré-soviético; pois, não foram os comunistas que lá inventaram o Cinema, como alguns parecem pensar) — Chakatonny; o engenheiro Paulo de Brito Aranha na direcção de som (cargo que iria manter na Tobis, por largos anos); o poeta José Gomes Ferreira — esse mesmo! — na assistência de montagem; Raul Ferrão e Raul Portela na autoria da música das canções; e, por aí fora…
Os actores constituem um elenco «de se lhe tirar o chapéu»: Vasco Santana, Beatriz Costa, António Silva, Teresa Gomes, Álvaro de Almeida, Manuel Santos Carvalho, e o jovem realizador Manoel de Oliveira, numa breve aparição como o galã, bon-vivant (que, de facto, era) e fiel amigo, Carlos, do desgraçado Vasquinho (Vasco Santana).
A articulação entre as equipas técnica e artística contou com a preciosa colaboração de técnicos profissionais vindos, essencialmente, da Alemanha e de França: Hans-Christof Wolhrab, Tonka Taldy, Jeanette Pakon, para além dos já nomeados anteriormente.
Sinal dos tempos, é de referir que Beatriz Costa saía de uma peça de teatro de revista, em cena na altura, onde era cabeça de cartaz, às duas horas da manhã, e apresentava-se às sete horas, da mesma manhã, na Tobis, impecavelmente maquilhada, à espera da «Acção!».
Por tudo isto, estamos perante um filme fundador: não só do Cinema Sonoro Português, mas do género fílmico da Comédia Portuguesa. Até hoje, tudo o que se tenta fazer, neste domínio, continua a ter como referência e influência A Canção de Lisboa.
Não vamos contar aqui a história da fita, pois ela está gravada na memória colectiva das famílias da nossa Terra. Parece-me é ser importante, para os intelectuais desconfiados do género cómico, lembrar que, à época, também René Clair e Jean Renoir o praticavam, na Europa; e, vendo a nossa Canção ao lado dessas películas, percebemos que o Cinema Português esteve alinhado com o «espírito do tempo» e conseguiu — simultaneamente — ser espelho da comunidade lisboeta, em todos os seus detalhes de puzzle social complexo, por de trás de uma aparente simplicidade brejeira.
Não basta, de facto, olhar. É preciso ver. E, para isso, há que lavar os olhos entre dois olhares, libertando-os de preconceitos aviados em estilo erudito por certos escribas da nossa praça que conseguem descortinar maravilhas nos mais obscuros objectos (antes fosse o do Buñuel) e cegar perante a luminosidade d’A Canção de Lisboa.
Aproveitemos esta Quadra de Vida para a revermos — em Família.
Alguns cépticos perguntarão ainda: «Mas o que é que a fita tem?». Tem uma história bem contada — o estudante de Medicina, apaixonado pela costureirinha do bairro, filha de um «pai tirano», surpreendido pelas velhas tias tontas, mas ricas, e provincianas —, diálogos de extraordinário ritmo — ditos com irrepreensível dicção, e cheios de segundos sentidos e trocadilhos —, actores que representam com alegria e vivacidade, uma bela estrutura musical, o fado, o lirismo, os sentimentos — sem ser sentimentalista —, as piadas, a psicologia do Povo Português (Lisboa como síntese da Alma Nacional) apresentada com naturalidade e com subtil — quase invisível… — profundidade.
Tão simples… e tão difícil de fazer!
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 4, Dezembro de 2006). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

REMÉDIO SANTO PARA CATÓLICOS BARALHADOS

Constança Cunha e Sá terá como convidado do seu programa Cartas na Mesa, na TVI 24, nesta Quarta-Feira, dia 20 de Maio, às 22 horas, o Cónego João Seabra.

terça-feira, 19 de maio de 2009

BLOGUE DO DIA (83)

Controversa Maresia, de Sofia Vieira.

BREVISSIMO - REPORT 1

The show everybody is talking about is the ginormous art installation of
ERNESTO NETO @ the Armory NYC
It’s interactive!!!!
Roam inside a Gaudi like space & LOOSE YOURSELF!
Forget your anxieties and fears! Hide inside a sock like brave new world!
***
YES, this show is SOOO appealing to New Yorkers in a time that NYC is in extreme depression mode
Stores & restaurants are empty, everybody is saving like crazy, every day new lay offs,
another out of business report, no one has any cash to spend … even the wealthy feel
guiltyand are saving ….HARD TIMES are here …only shrinks are doing well!
***
On the bright side, it’s a great time for “super amazing deals” in hotels, shopping & flights
to NYC
Hey, let the “pessoal Turista“ know in Portugal.
See you, then
Patrícia
[Correspondente do Eternas Saudades do Futuro em Nova Iorque.]

DA VIDA SOCIAL SEM REDE

Ao Facebook prefiro o face-a-face. Mas isto sou eu, que sou antiquado, e que não passo sem ver o olhar, cheirar o aroma e sentir a pele. Porém, verdade seja dita, socializar ao vivo e a cores, e sem rede, é mais perigoso. Quem cai, vai direito ao chão.

SÉTIMA ARTE 3

Saudades do Futuro*
Em 1 de Abril de 1930, estreia simultaneamente no São Luiz e no Tivoli (parece mentira, mas é verdade; bons tempos!), Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. Este cineasta tem como marca principal um apurado sentido estético, partilhado com a extraordinária geração de que faz parte — Chianca de Garcia, Jorge Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Cottinelli Telmo, e outros de igual qualidade.
José Júlio Marques Leitão de Barros nasceu no Porto, filho de um Capitão-de-Mar-e-Guerra, mas foi registado em Lisboa, onde veio a morrer em 1967. Depois de tirar o Curso da Escola de Belas-Artes, foi Professor dos Liceus — o seu manual Elementos de História da Arte é ainda hoje uma referência —, e destacou-se como pintor, estando representado em vários Museus portugueses e estrangeiros. Por outro lado, como dramaturgo, escreveu várias peças que foram representadas no Teatro Nacional e noutras salas. Foi também jornalista em O Século, A Capital e ABC, e, fundou e dirigiu Domingo Ilustrado, Notícias Ilustrado e Século Ilustrado; ficaram ainda célebres as suas crónicas semanais no Diário de Notícias, sob o título «Os Corvos» (publicadas em dois volumes, com ilustrações de João Abel Manta). Organizou os cortejos históricos das Festas da Cidade de Lisboa (1934-1935) e foi Secretário-Geral da Exposição do Mundo Português (1940). Tudo isto e muitas outras actividades de idêntica relevância.
Recuando agora ao seu debute cinematográfico, há que referir 1918 como o ano dos seus primeiros (quatro!) filmes, de que se destaca o infelizmente desaparecido Sidónio Pais — Proclamação do Presidente da República. No entanto, é preciso esperar por 1930, para assistirmos ao seu arranque em duas frentes, ainda no Cinema Mudo, com duas obras de enorme beleza plástica: a já referida Lisboa e Maria do Mar — filme este que marca presença, com exibições habituais, nas principais cinematecas europeias e que a nossa Cinemateca Portuguesa em boa hora restaurou e exibiu, no ano passado, numa sessão onde se perfilaram dez pessoas (sim, eu estava lá com um par de alunos e vi com os meus próprios olhos!). Esta película tinha sido antecedida por Nazaré, Praia de Pescadores (1929), que cativou, de imediato, público e crítica — uma característica deste cineasta ao longo da sua extensa carreira, que coincidiu com uma época de profunda identificação dos portugueses com o seu Cinema.
O viveiro de todo este Novo Cinema, em pleno Estado Novo, seria a Brasileira do Chiado, os escritórios do São Luiz e do Trindade, e os estúdios da Tobis no Lumiar, de cuja fundação Leitão de Barros viria a ser um dos principais impulsionadores (mas, disso trataremos nesta revista no próximo número, se Deus quiser, quando falarmos de Cottinelli Telmo).
No início de 1929, Leitão de Barros e António Lopes Ribeiro partem em viagem, à descoberta dos principais estúdios de Cinema da Europa, onde conhecem e convivem com os maiores cineastas desse tempo — da Alemanha à Rússia…! Regressados à Pátria, Leitão de Barros lança-se na rodagem de Lisboa, Crónica Anedótica, a fita que hoje aqui trazemos, e que é um marco mundial na tendência europeia dos documentários poéticos, de matriz futurista, sobre a vida das grandes cidades, que tinha até aí em Berlim, Sinfonia de uma Capital (1926), de Walter Ruttmann, o seu mais alto expoente.
Lembremos aqui que Leitão de Barros, que trabalhava como professor de Desenho e Matemática (mais uma das suas aparentes contradições, expressão máxima da sua versatilidade criativa), era um nacionalista puro, sempre em busca da exaltação estética dos valores tradicionais de Portugal; conseguia extrair beleza da nossa Terra e do nosso Povo, numa linguagem moderna e apelativa. O seu apurado sentido de humor fazia-o evitar o ridículo e o mau-gosto (tão comuns na nossa burgessa e deslumbrada burguesia).
Homem de várias Vidas — pintor, professor, cineasta, jornalista, criador de grandes espectáculos —, foi no Cinema, porém, que encontrou o meio para explanar totalmente a sua Arte: estão aí A Severa (1930) — primeiro filme sonoro português —, As Pupilas do Senhor Reitor (1935), Bocage (1936), Ala-Arriba! (1942) — premiado no Festival de Veneza —, Inez de Castro (1944), Camões (1946), Vendaval Maravilhoso (1949), para o demonstrar, além de vários documentários, que são peças fundamentais para estudar a época histórica do Estado Novo.
Vamos então a Lisboa, Crónica Anedótica, que se faz tarde. Este filme é o mais autêntico documentário feito até hoje sobre a Capital; mas é também, ainda, muito mais do que isso: é uma fita onde aparecem os maiores actores da época — e de sempre?… — do Teatro e do Cinema de Portugal (Nascimento Fernandes, Beatriz Costa, Vasco Santana, Erico Braga, Chaby Pinheiro, Estevão Amarante, Josefina Silva, Eugénio Salvador, Adelina Abranches, Costinha, Alves da Cunha, e muitos outros… — caramba!). Todos eles interpretam personagens típicas de Lisboa, misturadas com as figurais reais do quotidiano da cidade. Esta convincente articulação de realidade e ficção, de linguagem documental e fantasia, fazem desta obra um caso sério de inovação, qual precursora de fenómenos cinematográficos do pós-II Guerra Mundial, como o neo-realismo italiano . No caso da nossa Lisboa, o verismo antropológico conjuga-se com um requinte formal de artista sofisticado — Leitão de Barros era um esteta — e surge livre de visões marxistas, habitualmente transformadoras dos tipos sociais em estereótipos.
O filme avança em animado ritmo, com uma montagem que assegura a colagem dinâmica dos fragmentos — pitorescos, mas ao mesmo tempo poéticos — e cria um sentido para as imagens (magníficas, do grande operador Artur Costa de Macedo), ao som da Música de Frederico de Freitas, Juan Fabre e António Melo — interpretada ao vivo, pelas melhores orquestras, durante as projecções (Cinema Mudo oblige). O que seria apenas um documentário, eleva-se, assim, à categoria de grande peça «cinegráfica» (na feliz expressão do meu Saudoso Mestre Luís de Pina, na sua História do Cinema Português).
Ao vermos este filme, sentimos a nostalgia de uma cidade branca, monumental, simples, luminosa, alegre, dinâmica, viva, habitada — com seus tipos genuínos —, com Alma! E, apetece-nos perguntar: — Por que será que agora Lisboa aparece sempre cinzenta e triste no Cinema Português a que temos direito e que pagamos com os nossos impostos?…
Lisboa, Crónica Anedótica apresenta-se, assim, como mais uma prova de que é possível alinhar Portugal com o «ar dos tempos» — a par de Ruttmann e Vertov, neste caso — sem abdicar da Identidade Nacional.
Veja-se e faça-se, de novo.
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 3, Novembro de 2006). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

segunda-feira, 18 de maio de 2009

OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA

Recebi hoje o boletim Olivença Portugal (Maio de 2009 — n.º 9 — III Série ), órgão do Grupo dos Amigos de Olivença — Sociedade Patriótica. E gostei do que li. Se quiserem saber mais sobre a causa oliventina, consultem o site do Grupo dos Amigos de Olivença.

A CORRESPONDENTE DO ETERNAS SAUDADES DO FUTURO EM NOVA IORQUE

A bela e misteriosa Patrícia.
Em breve aqui começarei a publicar crónicas de Nova Iorque, da autoria da minha amiga Patrícia, especialmente escritas para o Eternas Saudades do Futuro. Não perdem pela demora!

DAS MARAVILHAS DA TECNOLOGIA

Retrato de João Marchante,
tirado por Cláudia Mealha,
na Festa do Liceu D. Filipa de Lencastre,
em 16 de Maio de 2009.

Esta fotografia foi-me enviada de Nova Iorque, por correio electrónico, pela minha boa amiga Patrícia, que não é Filipada, nem esteve na Festa! Há coisas fantásticas, não há?

SÉTIMA ARTE 2

A Causa da Coisa*
A expressão «Sétima Arte» anda na boca de toda a gente. Venho aqui, desta vez, falar sobre a origem dessa — feliz — designação para o Cinema.
Foi o escritor, jornalista, crítico e dramaturgo italiano Ricciotto Canudo (Bari, 1879 — Paris, 1923) que baptizou o Cinema de Sétima Arte. Canudo fundou a revista Montjoie! (1913-1914), com sede em Paris, e manteve uma tertúlia com — entre outros — Léger, Apollinaire e D’Annunzio. Em 1920, cria o «Clube dos Amigos da 7.ª Arte», que é, assim, precursor do movimento do cine-clubismo. Edita, finalmente, em 1923, a Gazette des sept arts, revista fundamental como suporte teórico das vanguardas estéticas da época.
Se, por esta altura, já percebemos que estamos perante um teórico da Arte, não estranharemos saber que Canudo lança, em 1923, o Manifesto das Sete Artes, após uma série de outros textos preparatórios; o primeiro dos quais data de 1908, e num deles, em 1912, cunhou a nossa expressão. Esta publicação definitiva das suas inovadoras ideias, surge como legitimação estética do Cinema, elevando-o à categoria das restantes Artes.
Em primeiro lugar, chama a atenção, no seu Manifesto, para o facto de o Cinema ser muito mais do que apenas indústria e comércio, resgatando-o à mera tentação material e convocando-o para as fileiras da espiritualidade criadora. De facto, o Cinema é, até, antes de tudo — Arte.
Depois, Canudo diz-nos, do seu ponto-de-vista, quais são as seis Artes que antecedem cronologicamente o Cinema. Desde a Antiga Grécia que as Artes têm andado numa roda-viva, no que diz respeito à sua catalogação (convém nunca perder de vista as nove musas inspiradoras). Ainda bem que se trata de uma conversa em aberto, pois isso é um sinal da vitalidade dos pensadores e artistas da Cultura Ocidental. Para este escritor italiano do século XX, as Sete Artes são: Arquitectura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema. Se as três primeiras — artes plásticas, porque do espaço — aparecem, segundo Canudo, por necessidades materiais (abrigo, no caso da Arquitectura, com as suas complementares Pintura e Escultura), para, no entanto, logo depois se afirmarem artisticamente, já a Música é fruto duma vontade espiritual de elevação e vai irmanar-se com os fundamentos rítmicos da Dança e da Poesia. Curiosamente, no pensamento do teórico italiano, a Dança e a Poesia antecedem a Música, que só se autonomizará destas quando se liberta e chega à sinfonia, como forma de música pura.
É óbvio que a génese das Artes aqui descrita tem de ser contextualizada na época em que foi criada — início do século XX, em toda a sua pujança Futurista (Graças a Deus!) — e entendida como visão pessoal do seu autor. No entanto, se aqui a trago, é porque sem ela não poderemos compreender a expressão «Sétima Arte».
Por fim, entramos naquilo que me parece ter resistido ao crivo do tempo (esse destruidor de mitos de vão de escada) e manter, ainda hoje, enorme actualidade.
Canudo apresenta o Cinema como síntese de todas as Artes e como Arte Total — ao que não é alheio o pensamento de Wagner; assim, na plenitude da sua linguagem estética, a Sétima Arte integra elementos plásticos da Arquitectura, da Pintura e da Escultura e elementos rítmicos da Música, da Dança e da Poesia, que se vão todos revelar nos filmes nas seguintes áreas técnicas (podendo nós tentar fazer um jogo de concordâncias): imagem ou fotografia (ainda a preto-e-branco, em vida de Ricciotto Canudo); som ou, mais tarde, banda sonora (note-se que, quando o italiano teorizou, o Cinema era Mudo e os filmes eram acompanhados, apenas, pela interpretação de uma partitura musical durante a sua projecção nas salas); montagem, que confere um sentido às imagens; cenografia, que entretanto evolui para direccção artística, alargando o seu campo de intervenção; realização, que tem como missão a planificação do filme, a orquestração dos vários elementos aqui referidos, assegurados por outras tantas equipas técnicas, e a direcção dos actores; e, por último, sendo no entanto o princípio de tudo, argumento.
Mais ainda: como grande síntese criadora — para além de fusão —, o Cinema une Ciência e Arte, num casamento feliz, e produz uma novíssima Linguagem, para a qual as outras Artes tenderam desde sempre, de imagens em movimento e som — formas e ritmos à velocidade da luz!
É, pois, a última das Artes, fechando o ciclo da Estética; mas, essencialmente, a que, incorporando todas as outras, transporta o património histórico e estético da Cultura Ocidental e o projecta no tempo e no espaço.
Haja novos realizadores portugueses à altura desta missão universal.
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 2, Outubro de 2006). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).

sábado, 16 de maio de 2009

ENQUANTO HOUVER PORTUGUESES...

...Será sempre a vontade soberana do Povo da Terra de Santa Maria a resolver as crises, assim Deus nos dê Chefes à altura!

IMAGEM DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA VISITA LISBOA

No âmbito das comemorações do Cinquentenário do Santuário Nacional de Cristo-Rei, a Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima visita hoje Lisboa: ver programa completo aqui.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

BLOGUE DO DIA (82)

O Sexo dos Anjos, de Manuel Azinhal.

VÉSPERA DA FESTA

Claudia Schiffer por Helmut Newton.

DA EXPRESSÃO «PEQUENO-BURGUÊS»

A expressão «pequeno-burguês» é redundante na medida em que todo o espírito burguês é pequeno.

DA MENTALIDADE PEQUENO-BURGUESA

Como não consegue ter vitórias contenta-se com as derrotas dos outros.

LIVRO PARA HOJE (102)

Corrida — Breve História da Tauromaquia em Portugal, Mascarenhas Barreto, edição do Autor, Lisboa, 1970.
A propósito da corrida que assinalou ontem os três anos da reinauguração da Monumental do Campo Pequeno.

DAR BANDEIRA

Dom João I, O de Boa Memória.
(Lisboa, 11.04.1357 — Lisboa, 14.08.1433)
Reinado: 1385 — 1433.

SAUDADES DE UM FUTURO LUSÍADA

amantes furiosos
raça eterna
almas ardentes
suplício feroz
amor e ódio
morte honrosa
sacra nobreza
cruel inocência
chama de triunfo
paixões violentas
amantes furiosos
fiéis ao romance
cruzaremos rotas sem fim
Letra: Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade, Paulo Borges.
Música: Heróis do Mar.

CORTAR A DIREITO

Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria.
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
(1893 — 1970)

DOS MENINOS BEM COMPORTADOS

Há certa direita, tão direitinha, que faz tudo para cair no goto da esquerda.

REPONDO A VERDADE PORQUE SÓ ELA IMPORTA

O blogue Tribuna mudou de sítio (é só clicar, pois já actualizei — nesta mensagem e na barra das ligações — o seu novo endereço).

AS ELEIÇÕES EUROPEIAS VISTAS DA DIREITA

Indico-vos dois textos escritos no passsado mês de Abril por dois dos mais destacados pensadores de direita da blogosfera nacional. Parece-me que o avançar da entretanto já iniciada pré-campanha e o desenrolar da campanha que se segue irão confirmar as suas visões. São portanto mensagens de leitura obrigatória. Aqui ficam:
Manual do Candidato às Europeias, por Mário Casa Nova Martins.
As eleições europeias, por Manuel Azinhal.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SÉTIMA ARTE 1

Cinema Nacional de Dimensão Universal*
Em 1953, ano em que apenas se produzem e estreiam cinco filmes em Portugal, anunciando assim uma tendência de empobrecimento após os Anos de Ouro das décadas de 1930 e 1940, surge — como lufada de ar fresco e tiro no escuro — o melhor filme de sempre, da nossa cinematografia, sobre o Ultramar.
Chaimite, de Jorge Brum do Canto — autor maior da História do Cinema Português, completamente apagado nos dias de hoje pela historiografia oficial —, é a segunda longa-metragem nacional sobre a matéria. Facto estranho este, que confirma o inexplicável desinteresse dos nossos produtores pelo tema (que tem pano para mangas, aliás). É o primeiro filme da empresa de produção Cinal, dirigida pelo Professor Luís Pinto Coelho, que se caracteriza por películas de qualidade.
Jorge Brum do Canto atingiu, nesta obra, uma autenticidade nas resconstituições de época e militares, como nunca mais o nosso Cinema logrou alcançar. Se, no que diz respeito à imagem, ao som e à montagem, percebemos que estamos na presença de um esteta — Brum do Canto iniciou-se com a Geração de 1930, profundamente ligada à modernidade cultural portuguesa, onde também se perfilaram, como cinéfilos ou cineastas, Leitão de Barros, Cottinelli Telmo, António Lopes Ribeiro, Chianca de Garcia, Dr. Ricardo Jorge, João Ortigão Ramos, Dr. Félix Ribeiro, Domingos Mascarenhas, e muitos outros, de igual calibre, que se constituíram como tertúlia cinematográfica no Cine-Teatro S. Luís (aberto em 1928) —, por outo lado, no que se refere à História, é um cineasta profundamente conhecedor do assunto abordado que avança para este arriscado registo épico de Chaimite.
O filme — na linha de Feitiço do Império (1940), de António Lopes Ribeiro — mostra o heróico esforço português para defender o Ultramar dos ataques estrangeiros — neste caso inglês, sendo assim premonitório das cobiças americana e soviética —, e não é, como muitas vezes erradamente se refere, uma fita contra a revolta vátua, nem, muito menos, contra a sua identidade enquanto povo. Digamos que é um filme pela positiva: eleva Portugal, respeitando os que se lhe opunham directamente; mas denuncia os ingleses, que pretendem levar os moçambicanos à revolta contra Portugal para alimentar os seus apetites imperiais.
Mouzinho de Albuquerque (interpretado por Jacinto Ramos) destaca-se como grande protagonista, herói e fio-condutor da narrativa, não apagando, note-se, os outros camaradas de armas — Caldas Xavier (Augusto Figueiredo) e Paiva Couceiro (o próprio Brum do Canto, num notável trabalho de actor).
É que este cineasta era o protótipo do artista-total: neste filme assina o argumento, os diálogos, a planificação, a realização, a montagem, e actua. Sabia-se ainda fazer rodear dos melhores: a demonstrá-lo encontramos na música Joly Braga Santos, e na fotografia — de belíssimos e ousados enquadramentos — César de Sá e Aurélio Rodrigues, para além de termos o Major Vassalo Pandayo como consultor militar.
A biografia de um criador contém, quase sempre, a chave para a sua Obra. Neste caso, a tradição familiar, em que Jorge Brum do Canto bebeu, revela-se fundamental. Nascido e criado numa família católica e monárquica — próxima da Família Real e amiga de Paiva Couceiro —, habituou-se a pensar pela sua própria cabeça — nunca se envolveu institucionalmente com o Estado Novo, embora dele fosse simpatizante — e foi um Homem Culto e Livre. Sabemos que apreciava António Ferro, pelo projecto que este tinha para as Artes Nacionais, e, por sua vez, era admirado por Carmona.
Encontramos como tema principal do seu Cinema, nas suas próprias palavras, «a Terra e o Povo». Portugal e os Portugueses vão ser, assim, os protagonistas de uma filmografia que se esplana, entre 1924 e 1929, por 23 filmes — do vanguardista A Dança dos Paroxismos (1929) ao policial O Crime de Simão Bolandas (1978-1984), passando por documentários e obras de ficção. Quem quiser encontrar a nação em toda a sua diversidade e plenitude, terá de ver A Canção da Terra (1938), Lobos da Serra (1942), Fátima, Terra de Fé (1943), Um Homem às Direitas (1944), e A Cruz de Ferro (1969).
Voltando a Chaimite: a acção desenrola-se, temporalmente, entre 1894, momento do ataque a Lourenço Marques pelos negros, e 1897, altura em que Mouzinho, Comissário Régio de Moçambique, vence definitivamente os vátuas, derrotando Maguiguana, que tinha escapado durante a captura de Gungunhana. A fita alia este lado épico a um tom intimista, ao mostrar a Mulher de Mouzinho, presença discreta mas firme, verdadeira apoiante e companheira das empresas do herói. Paralelamente, o realizador dá-nos ainda uma história de amor entre um soldado e uma bela rapariga, com um final feliz. Cabe aqui destacar que Chaimite tem também valor como documento histórico para o estudo da vida colonial da época, que é retratada com verosimilhança e mestria, desde a da cidade até à do mato.
Para a «coisa militar», Brum do Canto baseou-se no livro A Guerra de África em 1985, de António Ennes, e em textos do próprio Mouzinho, o que assegura o rigor histórico-militar. Ainda no campo da autenticidade, é de realçar que os indígenas africanos falam nos seus dialectos próprios — muda a tribo, muda a língua —, criando assim um verdadeiro realismo, tão em voga nesses mesmos anos de 1950 noutras paragens. O difícil será, como neste caso, juntar, no mesmo filme, uma escala monumental, num registo de credível reconstituição histórica, a um intimismo de fino recorte humano. E, se termino falando na escala, é porque Chaimite atinge uma grandiosidade no tratamento do espaço e dos cenários, servindo o argumento na sua enorme dimensão épica, como nunca mais o Cinema Português — e, de um modo geral, a Arte Nacional — conseguiu fazer.
Saibam os jovens realizadores pôr os olhos em Chaimite, para se poderem aventurar em novas e belas criações, com som e imagens em movimento, nesta linguagem universal que o Cinema é — e que sai sempre enriquecida quando trata temas que dizem respeito aos Povos, como aqui bem se vê.
Veja-se, pois!
João Marchante
*Texto que escrevi para a revista Alameda Digital (Ano I — N.º 1, Setembro de 2006). Republico-o agora nesta nova versão com ligeiras alterações no blogue Eternas Saudades do Futuro).