quarta-feira, 17 de junho de 2009
Depois das já conhecidas séries de mensagens «Jardim para Hoje» e «Parque para Hoje», inauguro agora a série «Mata para Hoje». Nestes dias infernais de Verão, pretendem estas ser sugestões para passeios à sombra e à fresca. Sendo eu, muito por culpa dos meus costados alentejanos, mais um homem do mato do que da mata, farei, no entanto, um esforço para trazer aqui o que de melhor existe nesse registo florestal. Por outro lado, muito por causa dos meus costados olissiponenses, foram de Lisboa a maioria dos lugares que, até agora, destaquei. Também aí tentarei ir mais longe: primeiro, em Portugal; depois, por essa Europa fora — sempre por sítios meus conhecidos, mesmo que não visitados por mim há muito tempo.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
SEM AGENDA
Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional (Parte II)
Concluo hoje a reprodução de um artigo que escrevi em 2004 para o Boletim e o sítio electrónico do grupo universitário Arautos d’El-Rei, de Coimbra, e nesse ano também publicado no jornal O Dia, a propósito da edição portuguesa do livro maior do arquitecto luxemburguês Léon Krier (1). A Parte I do artigo foi publicada neste espaço a semana passada.
Elevada atenção é dedicada à definição do objecto arquitectónico e à clarificação de conceitos (modernidade, modernismo, tradição, tipo, composição, invenção, inovação, construção vernacular, arquitectura clássica, estilo,...), a começar pela importante distinção entre culturas tradicionais (artesanais, tendo por objectivo a produção de objectos de uso a longo prazo) e modernistas (industriais, tendendo a produzir objectos de consumo a curto prazo).
Krier relembra a diferença fundamental estabelecida por toda a arquitectura tradicional entre os edifícios públicos e sagrados - a ‘Res Publica’ - e os utilitários e privados - a ‘Res Privata’ - sendo a verdadeira cidade, com os seus monumentos criteriosamente inseridos na malha urbana geral, uma combinação das duas. Aponta o arranha-céus e o “arranha-terra” utilitários, bem como alguns pretensiosos complexos habitacionais ou de negócios, como monumentos fictícios, pois proeminência ou vastidão não são garantia, e monotonia e estatuto funcional são inadequados, à criação de significado monumental. (a propósito da liquidação de significados, terá sido uma simples distracção o recente “passo ao lado” a cavalo, de D. João I, para o remate de um eixo iluminista? ; e que pensar do tratamento dado a D. João V, em Mafra? - a lista poderia continuar...).
Quanto ao objecto arquitectónico (a cidade, a rua, a praça, o templo, a igreja, o campanário, a casa, o palácio, a fábrica, a cabine telefónica, o átrio, a abóbada, a coluna, a arquitrave, a porta, a janela,...), invenção humana de uma gama necessariamente limitada, ele é sempre denominável por uma convenção duradoura e de valor constante pela qual a sua aparência e função estabelecem ...«uma relação de verdade evidente» (união entre símbolo e significado, forma e conteúdo, tipo e função, estilo e estatuto). É também notado que a maior parte das inovações arquitectónicas do século XX são ...«transferências de ideias pertencentes a outras categorias» (edifícios que emitam a aparência do paquete, do comboio, da refinaria, do contentor,...) bem como a ...«mistura de géneros» (a “cidade-jardim” não é cidade nem jardim; a “sala polivalente” não substitui convincentemente a igreja, o teatro, o ginásio; assim também o “parque de negócios”, a “máquina de habitar”, o “espaço verde”, o “mur-rideau”,...). Não têm a capacidade de ...«substituir nem o vocabulário, nem a tecnologia nem a natureza própria do objecto arquitectónico». ...«Erros de escala, de proporção e medida, de forma, conteúdo, estilo, tipo e carácter são sempre desqualificados publicamente através do uso espontâneo de “alcunhas” pertinentes» ( “refinaria de petróleo” para o centro Beaubourg de Paris, “o radiador” para a sede da ONU, ou, lembro agora, “o palácio de Ceausescu” para a sede da CGD em Lisboa ou “o King Kong” para a negra torre de escritórios na baixa de Coimbra) apenas reveladoras de poder de imaginação e capacidade de discernimento.
Por outro lado, a substituição generalizada de paredes mestras por estruturas sustentadoras separadas dos paramentos exteriores, e a dos materiais naturais pelos artificiais, tem propiciado o aparecimento de uma imensa vaga ‘kitsch’, pós-modernista ou tradicionalista, caricatura de uma autêntica cultura tradicional e reveladora de uma ...«ruptura ontológica ente o ser e o parecer» ao nível da relação entre tecnologia e expressão arquitectónica. Pela dimensão deste fenómeno, Krier considera-o mesmo o maior antagonismo hoje existente no seio da arquitectura.
Uma extensa parte do livro é totalmente dedicada aos problemas do urbanismo, com larga explanação das teses do autor, as quais integram hoje as recomendações europeias.
Começa por identificar a causa da maioria dos problemas: a sobreexpansão monofuncional, vertical no centro das cidades e horizontal nas periferias, condicionando-se reciprocamente. O ‘zoning’ monofuncional (residencial, escolar, comercial, industrial, administrativo), propagado pela Carta de Atenas de 1931, é tido como o mais grave produto ideológico do urbanismo modernista e essencialmente uma técnica de desenvolvimento industrial causadora da …«fragmentação anti-urbana e anti-ecológica dos aglomerados integrados e multifuncionais».
Para futuro explica como, atendendo à escala nacional e continental a que se decidem hoje os grandes imperativos de transformação, se apresenta a necessidade de ligar crítica ecológica e projecto de cidade num contexto continental de longo prazo, em complemento à constituição política das nações.
Léon Krier diz-nos que as potencialidades da arquitectura tradicional continuam intactas, referindo que existem técnicas artesanais para construir rapidamente e mostrando como o rendimento global de um edifício, em termos de eficácia construtiva, económica e ecológica, tem de ser calculado tendo em vista o ciclo de vida do edifício, os tempos e custos de manutenção e a relação ecológica do edifício com o contexto. Sendo hoje a questão que se coloca a recuperação da sua qualidade, muito degradada pela industrialização da construção, que destruiu o artesanato tradicional e o seu ensino, fica evidente a necessidade da restauração do ensino de um artesanato moderno.
Nada é irreversível. O nosso futuro dependerá sempre, em última análise e no que for dado decidir aos homens, de uma escolha cultural. É esta a ideia final deste livro.
(1) Krier, Léon - Arquitectura : Escolha ou Fatalidade. Editora ESTAR, Lisboa, 1999. Tradução de António Sérgio Rosa de Carvalho. Desenhos do autor.
Francisco Cabral de Moncada
quarta-feira, 29 de junho de 2011
SEM AGENDA
Eis um livro a meu ver excelente, para o português patriota ler: útil, claro e esclarecedor, oportuno, e julgo que raro, ou mesmo único, no seu género, tendo a intenção focada na identificação e explicação dos agentes e das causas -- e, inversamente, também na sugestão de possíveis formas de prevenção, defesa ou remédio -- relativas a muitos dos nossos mais inquietantes, penosos e, muitas vezes, misteriosos, problemas urbanísticos, que ora diariamente nos assaltam e obrigam a com eles convivermos, ora, imperceptível e continuadamente, vão estendendo, ou potencialmente adiando, os seus traiçoeiros efeitos a longo prazo -- desde a poluição urbana e a falta de espaços verdes, à proliferação dos bairros áridos e desumanizados e ao definhar dos antigos centros, ambas as situações geradoras de marginalidade e delinquência, à dependência excessiva do automóvel para as deslocações pendulares entre o centro e a periferia das grandes urbes ou entre os locais de trabalho dos pais e os locais de ensino dos filhos, passando pela "febre" especulativa ou parola da torre habitacional ou de escritórios, pelos congestionamentos de transito e as carências de estacionamento, pela multiplicação, como cogumelos, dos grandes centros comerciais e a depressão do comércio tradicional, pelos edifícios de estética dissonante em áreas históricas, pelas sobrecargas turísticas em zonas sensíveis, insustentáveis a prazo, pelos riscos da construção em leitos de cheia ou encostas instáveis, etc., etc., etc.
Manual de Crimes Urbanísticos -- Exemplos Práticos Para Compreender os Negócios Insustentáveis da Especulação Imobiliária, do urbanista, com actividade em Lisboa, Luís Ferreira Rodrigues (nascido em 1976, licenciado em Arquitectura do Planeamento Urbano e Territorial pela Faculdade de Arquitectura da UTL, mestre em Ordenamento do Território e Planeamento Ambiental pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL) e com prefácio de Gonçalo Ribeiro Telles, saiu a público pela Guerra & Paz em Abril último, e, pelas suas qualidades acima referidas e por ser uma obra feita acessível para o grande público, merecerá provavelmente, assim me parece, ser um livro de cabeceira obrigatório de todos os que se interessem em perceber os mecanismos, simples ou complexos, geradores dos fenómenos urbanos, sobretudo de há algumas décadas a esta parte, em Portugal, fenómenos esses que nos surgem tantas vezes já só em forma acabada e sem que esta permita surpreender facilmente, para o não avisado, as verdadeiras causas e motivações que os originaram. Com efeito, logo na Introdução do livro, diz o autor: «Estando o crescimento progressivo e desqualificado das cidades associado aos negócios ilícitos ou inadequados da «especulação imobiliária» (conceito que tentaremos clarificar mais adiante), urgia tomar uma atitude de cidadania: informar os cidadãos dos problemas subjacentes aos processos de crescimento urbano, munindo-os da informação básica necessária para diagnosticar o que de errado se passa em muitos desses processos.»
E mais adiante: «Ninguém ficará especialista em urbanismo ao ler este manual. Contudo, também não é isso que se pretende: pretende-se apenas despertar a consciência cívica para as inúmeras implicações e consequências económicas, estéticas, ambientais e sociais que determinadas implicações urbanísticas imprimem no mundo que nos rodeia»...«Tendo consciência de que muitas pessoas têm dificuldade em visualizar mentalmente o conteúdo de uma matéria que é, não só «especial», mas também «espacial», algumas dezenas de desenhos tentarão, de forma lúdica e esclarecedora, ilustrar a ideia que se pretende transmitir.»
Passado um capítulo prévio mais técnico, em que são clarificados alguns conceitos urbanísticos (solo; planos municipais de ordenamento do território -- PMOT, segundo três tipos: Planos Directores Municipais (PDM), Planos de Urbanização (PU) e Planos de Pormenor (PP); parcelas, domínio público, lotes e loteamentos; áreas de construção e de implantação; índices de ocupação, utilização e impermeabilização; cotas, cérceas e alinhamentos), o capítulo seguinte, chamado Princípios básicos para compreender a criminalidade urbanística, abre com a seguinte pergunta:
O que é um crime urbanístico?
Para Luís Rodrigues, apesar da subjectividade deste conceito («um edifício, por exemplo, parecerá um monstro a algumas pessoas, enquanto para outras parecerá uma obra de arte»), subjectividade essa que só tem vindo a ser ultrapassada através da forma jurídica, nomeadamente os instrumentos de gestão territorial, entre os quais se inserem os PMOT e demais regulamentos urbanísticos (Regulamento Geral de Edificações Urbanas, regulamentos municipais de urbanização, etc.), um conjunto de projectos urbanísticos pode muito bem cumprir todos os PMOT e regulamentos vigentes, mas a sua inserção e/ou impacto no tecido urbano produzir impactos perturbadores a vários níveis, a saber: económicos (prejuízos para o interesse privado ou público), ambientais (perturbação ou destruição de determinados sistemas ambientais), estéticos (conflito com uma sensibilidade estética colectiva) e culturais (destruição ou desvalorização patrimonial e cultural de um local). Neste sentido, defende o autor que podem ser consideradas duas formas de criminalidade urbanística: uma...«a ser aferida na sua dimensão jurídica» e outra...«a ser aferida na sua dimensão técnica e ética.», sendo para tal, no entanto, indispensável...«que se construa uma clara hierarquia de valores.» (ambientais, culturais, monetários, que adiante são tratados). E mais: «Não pensemos que as leis e os regulamentos são infalíveis, traduzindo verdades universais acerca do urbanismo; contudo, também não devemos pensar que qualquer opinião pessoal é válida e deve impor-se injustificadamente à ordem jurídica existente. Para resolver este conflito, nada melhor do que o clássico método dialéctico: entre a tese e a antítese, há que escolher a síntese.» E remata este ponto, dizendo: «Ao longo deste manual, iremos verificar como um «crime urbanístico» pode assumir várias formas (muitas delas, perfeitamente legais e consentidas), evidenciando-se assim a questão sobre até que ponto a existência de leis (como aquelas que definem crime urbanístico) é insuficiente para travar empreendimentos especulativos que visam a mera obtenção de lucro à custa da degradação do território.»
Neste contexto, são seguidamente abordados os três paradigmas de valorização urbanística julgados pertinentes: a) A valorização monetária -- correspondente à tradução puramente quantitativa do custo/receita decorrente de uma intervenção -- que se constata ser a única motivação a justificar os esforços da esmagadora maioria dos agentes urbanísticos; b) A valorização ambiental, quer numa perspectiva de valorização intrínseca (independentemente da capacidade imobiliária de uma determinada intervenção), quer numa de valorização utilitarista (traduzível em consequências positivas -- e quantificáveis -- para a comunidade. Por exemplo, no caso da criação de um jardim público,...o «número de pessoas que frequentam o jardim, a quantificação da capacidade de absorção de dióxido de carbono proporcionada pela vegetação existente, a quantificação da área permeável de solo, etc.) A este propósito, o autor adianta: «Alguns especialistas consideram que apenas a visão instrumental/utilitarista e a sua tradução monetária é apropriada para lidar com as questões de gestão ambiental»...«Compreende-se que, se certos bens ou serviços que os sistemas naturais providenciam não fossem objecto de conversão monetária, a sua já débil conservação poderia ficar ainda mais em risco. Contudo, é necessário que deixemos de encarar estes valores como o parente pobre do desenvolvimento urbanístico, adicionando-lhes, sem timidez, uma quota-parte de mérito intrínseco.»; c) A valorização cultural (consubstanciada em elementos materiais ou imateriais -- paisagem, arte e história, saberes, lazeres, gastronomia, etc.) que, tal como os valores ambientais, também pode assumir uma dupla expressão...«quantitativa e qualitativa (na sua vertente utilitarista) ou apenas qualitativa (na sua vertente intrínseca).» Sendo convencional, pode também ser convertida em valor monetário.
No título seguinte, dedicado ao importantíssimo aspecto, pois que tanto explica, do financiamento local e sua dependência da construção e, com referência aos níveis de definição e transformação do território, o autor identifica, muito para além da Administração Central, os municípios, como protagonistas principais dessa transformação a nível macro, sendo eles que, estando legitimados para aprovar os PMOT, ...«definem as regras e as normas de ocupação do solo (zonamentos, índices de edificabilidade, etc.) através das quais o mercado imobiliário vai actuar.»...«Na maioria dos casos, as receitas dos municípios encontram-se demasiado dependentes da actividade económica promovida pelo sector imobiliário e não por qualquer actividade produtiva que alguém possa desenvolver num terreno onde não é permitida construção. Assim o atesta o relatório produzido para o XIV Congresso da Associação Nacional dos Municípios de 2004 e que aqui transcrevemos em parte:
''Os municípios dispõem de recursos próprios para financiarem a sua actividade. Estes compreendem impostos,...,tarifas, licenças e penalidades, alienação de património e outras receitas... Na generalidade dos municípios, todas estas receitas estão demasiado dependentes da actividade económica de um único sector, o imobiliário...
Esta concentração avultada de recursos próprios nas actividades imobiliárias tem vários inconvenientes.
Primeiro, em termos macroeconómicos, consubstancia uma discriminação negativa do investimento imobiliário face a outras aplicações de riqueza. O solo e as edificações são praticamente as únicas formas de riqueza que pagam imposto sobre a posse e a transmissão... Segundo, é uma aproximação insuficiente ao princípio do utilizador-pagador pois isenta de contribuição para um determinado município todos os utentes de infra-estruturas locais que não tenham património nesse concelho... Terceiro, as receitas próprias ficam muito vulneráveis às crises específicas de um único sector... Quarto, a receita do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) é pouco elástica...''
...«Além dos quatro aspectos negativos referidos no relatório acima (essencialmente de carácter economicista), talvez o aspecto mais grave do financiamento municipal se consubstancie na total ausência de uma concepção sustentável e produtiva do solo em espaço urbano», a qual...«não tem de ser apenas agrícola», no entanto...«tem de se nortear por critérios de sustentabilidade económica e biofísica de longo prazo»...«Em síntese, o quadro contabilístico da Administração Local pode resumir-se ao seguinte: finanças municipais saudáveis equivalem a mais construção e mais população.
Infelizmente, esta saúde saúde financeira não implica necessariamente sustentabilidade: exigindo-se crescimento contínuo para duas variáveis em que a manutenção dessa premissa é insustentável (já que tanto a população como a construção não podem crescer de forma indefinida), todos os alicerces da contabilidade autárquica assentam num pântano. Esta situação tenderá a acentuar a tendência para incentivar as economias de escala (potencialmente geradoras de mais receitas), privilegiando a construção nos grandes centros urbanos - que serão vistos como panaceia para o problema: se o país não pode crescer uniformemente, terá de crescer (ou condensar-se) onde o mercado (ainda) o exige, ou seja, nas grandes cidades.»
...«Uma expansão urbana municipal que se processa ignorando a perda de funcionalidades diversificadas do seu território (favorecendo apenas os usos habitacionais, comerciais e serviços) não potencia sinergias económicas que poderiam gerar formas alternativas de recursos materiais e humanos e consequente desenvolvimento».
Na próxima semana tenciono continuar a apresentação deste importante livro, recomeçando com o título referente à valorização económica de uma propriedade -- nível micro.
Francisco Cabral de Moncada
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
EXPRESSO DO OCIDENTE
Segunda-feira, 19 de Setembro
O estado a que chegou a Nação não é famoso. Ao almoço, relata-me um conhecido recém-chegado da Grécia que a diferença entre Lisboa e Atenas, pelo menos ao nível anímico, é colossal. E, pasmem… a favor dos gregos que, ao que me é dito, não vivem na lusa depressão de se fixar constantemente na crise talvez mesmo aumentando-a. Nem de propósito, na televisão entrevistam-se jovens recém-chegados aos estudos universitários que confessam o sonho que é também antevisão do futuro que têm mais certo: a licenciatura seguida da fuga para o estrangeiro. E fossem apenas os licenciados… não sei se também acontece com o estimado leitor mas a mim surpreende-me constantemente o número de pessoas conhecidas que vão declarando a intenção de tentar a sorte lá por fora - e note-se que não me surpreende porque não tenham razão, mas apenas porque são de facto em número significativo e, o que é talvez pior, em doses crescentes. Sem pingo de soberania, governados por inaptos que pretendem ir mesmo mais longe do que aquilo que exigem os tutores, acorrentados por entre interesses económicos em circuito fechado e influências maçónicas (e outras igualmente obscuras) que quase tudo controlam e, não menos relevante, sem que se perceba a quantos anos de recessão (ou estagnação, dirão os optimistas) estamos condenados, será lícito condenar os que partem mesmo sabendo que desta vez são os mais qualificados? Ou dito de outro modo: pode um país ter um futuro decente num quadro destes?
Terça-feira, 20 de Setembro
Há coisas que demonstram a verdadeira confiança das pessoas nos governos, muito para além das sondagens e dos estudos de opinião, sinais que não deixam dúvidas. E estando a falar daquilo com que se compram os melões, diminui a margem de erro. Pois bem, conta-nos o i que um número cada vez maior de portugueses transfere as suas poupanças para o Deutsche Bank mesmo perante taxas menos atractivas, agora que o banco alemão é mera sucursal da casa mãe e já não uma sociedade de Direito português. A explicação é simples e deve-se naturalmente à maior procura de garantir a integridade dos depósitos, à nenhuma confiança no Euro e, sobretudo, à escassa confiança de que possamos manter-nos por muito tempo dentro do dito. Apesar da sua importância e de se constituir como importante barómetro da confiança dos portugueses na embrulhada em que estamos metidos, a verdade é que a comunicação social, por estes dias totalmente concentrada no alvo da Madeira, fez pouco eco da notícia. Foi pena. Eu, pelo menos, gostaria de ter visto alguém a questionar o dr. Passos Coelho ou o ministro Gaspar sobre esta pequeno comprovativo da confiança que cada vez mais patrícios realmente depositam nessas criaturas.
Por falar no alvo da Madeira, verifico que o dr. Jardim dispara mais uma vez rumo às desvergonhas continentais. Desta feita, por entre uma poncha e um naco daquele fantástico Bolo do Caco, o líder madeirense desafiou "o Estado português a pôr cá fora, desde o 25 de Abril, qual foi o montante que perdoou de dívida aos países africanos que hoje são independentes". Pergunta certeira a que os destinatários fizeram, naturalmente, orelhas moucas. Arrisco que tivesse o perdão sido nenhum e talvez hoje houvesse um menor número de portugueses a sentir maior conforto nos balcões do Deutsche Bank.
Sexta-feira, 23 de Setembro
Ficamos a saber pelo Jornal de Negócios que as testemunhas já arroladas para o julgamento da "Face Oculta" são já cerca de oitocentas, sendo que o prazo para indicar mais umas quantas ainda não terminou. Eis a Justiça lusa no seu melhor, a antecipar garantias de rapidez nas vésperas de mais esta "Casa Pia" anunciada. Será preciso não ser licenciado em Direito para ver que este tipo de longa-metragem só aproveita aos culpados?
Sábado, 24 de Setembro
O i informa que o número de maçons do Grande Oriente Lusitano duplicou em seis anos. Olhando ao estado do país, não só não estranho o crescimento como ainda deduzo que os noviços tenham todos eles abichado importantes cargos na estrutura do Estado continental e nas suas empresas. Digo continental porque me dizem que na Madeira esta malta não faz farinha. No mesmo quiosque recebo o Expresso. E desta feita não me arrependo de carregar o saco visto que os quilos de papel acompanham o DVD de Gran Torino, obra essencial de Clint Eastwood que cobre de (muito) largo a absoluta inutilidade do pasquim.
Domingo, 25 de Setembro
Em entrevista ao Jornal de Notícias, D. José Policarpo alinhava frase certeira: tal e qual ela está "ninguém sai da política com as mãos limpas". Bingo!
O estado a que chegou a Nação não é famoso. Ao almoço, relata-me um conhecido recém-chegado da Grécia que a diferença entre Lisboa e Atenas, pelo menos ao nível anímico, é colossal. E, pasmem… a favor dos gregos que, ao que me é dito, não vivem na lusa depressão de se fixar constantemente na crise talvez mesmo aumentando-a. Nem de propósito, na televisão entrevistam-se jovens recém-chegados aos estudos universitários que confessam o sonho que é também antevisão do futuro que têm mais certo: a licenciatura seguida da fuga para o estrangeiro. E fossem apenas os licenciados… não sei se também acontece com o estimado leitor mas a mim surpreende-me constantemente o número de pessoas conhecidas que vão declarando a intenção de tentar a sorte lá por fora - e note-se que não me surpreende porque não tenham razão, mas apenas porque são de facto em número significativo e, o que é talvez pior, em doses crescentes. Sem pingo de soberania, governados por inaptos que pretendem ir mesmo mais longe do que aquilo que exigem os tutores, acorrentados por entre interesses económicos em circuito fechado e influências maçónicas (e outras igualmente obscuras) que quase tudo controlam e, não menos relevante, sem que se perceba a quantos anos de recessão (ou estagnação, dirão os optimistas) estamos condenados, será lícito condenar os que partem mesmo sabendo que desta vez são os mais qualificados? Ou dito de outro modo: pode um país ter um futuro decente num quadro destes?
Terça-feira, 20 de Setembro
Há coisas que demonstram a verdadeira confiança das pessoas nos governos, muito para além das sondagens e dos estudos de opinião, sinais que não deixam dúvidas. E estando a falar daquilo com que se compram os melões, diminui a margem de erro. Pois bem, conta-nos o i que um número cada vez maior de portugueses transfere as suas poupanças para o Deutsche Bank mesmo perante taxas menos atractivas, agora que o banco alemão é mera sucursal da casa mãe e já não uma sociedade de Direito português. A explicação é simples e deve-se naturalmente à maior procura de garantir a integridade dos depósitos, à nenhuma confiança no Euro e, sobretudo, à escassa confiança de que possamos manter-nos por muito tempo dentro do dito. Apesar da sua importância e de se constituir como importante barómetro da confiança dos portugueses na embrulhada em que estamos metidos, a verdade é que a comunicação social, por estes dias totalmente concentrada no alvo da Madeira, fez pouco eco da notícia. Foi pena. Eu, pelo menos, gostaria de ter visto alguém a questionar o dr. Passos Coelho ou o ministro Gaspar sobre esta pequeno comprovativo da confiança que cada vez mais patrícios realmente depositam nessas criaturas.
Por falar no alvo da Madeira, verifico que o dr. Jardim dispara mais uma vez rumo às desvergonhas continentais. Desta feita, por entre uma poncha e um naco daquele fantástico Bolo do Caco, o líder madeirense desafiou "o Estado português a pôr cá fora, desde o 25 de Abril, qual foi o montante que perdoou de dívida aos países africanos que hoje são independentes". Pergunta certeira a que os destinatários fizeram, naturalmente, orelhas moucas. Arrisco que tivesse o perdão sido nenhum e talvez hoje houvesse um menor número de portugueses a sentir maior conforto nos balcões do Deutsche Bank.
Sexta-feira, 23 de Setembro
Ficamos a saber pelo Jornal de Negócios que as testemunhas já arroladas para o julgamento da "Face Oculta" são já cerca de oitocentas, sendo que o prazo para indicar mais umas quantas ainda não terminou. Eis a Justiça lusa no seu melhor, a antecipar garantias de rapidez nas vésperas de mais esta "Casa Pia" anunciada. Será preciso não ser licenciado em Direito para ver que este tipo de longa-metragem só aproveita aos culpados?
Sábado, 24 de Setembro
O i informa que o número de maçons do Grande Oriente Lusitano duplicou em seis anos. Olhando ao estado do país, não só não estranho o crescimento como ainda deduzo que os noviços tenham todos eles abichado importantes cargos na estrutura do Estado continental e nas suas empresas. Digo continental porque me dizem que na Madeira esta malta não faz farinha. No mesmo quiosque recebo o Expresso. E desta feita não me arrependo de carregar o saco visto que os quilos de papel acompanham o DVD de Gran Torino, obra essencial de Clint Eastwood que cobre de (muito) largo a absoluta inutilidade do pasquim.
Domingo, 25 de Setembro
Em entrevista ao Jornal de Notícias, D. José Policarpo alinhava frase certeira: tal e qual ela está "ninguém sai da política com as mãos limpas". Bingo!
Pedro Guedes da Silva
quarta-feira, 16 de março de 2011
SEM AGENDA
Com as duas imagens acima apresentadas procuro não só reflectir o título deste texto, mas também ilustrar, de forma suficientemente exemplar, a dupla faceta verificada na prática urbanística actual nos Estados Unidos da América - o chamado suburban sprawl, por um lado, e o mais recente New Urbanism, por outro. Em parte, certamente, por herança do génio britânico, muito marcado por um tipo de sensibilidade individual bem característico, tanto aqui como nos países cultural e etnicamente mais ligados ao antigo Império - o Canadá, a Austrália, a África do Sul, etc. - o tipo de crescimento urbano dominante ao longo de todo o século XX seguiu, com alegada intenção ou como intuitiva tendência, o arquétipo nascido com o Garden City Movement, introduzido nos fins do século precedente em Inglaterra pelo militante e teórico social Ebenezer Howard (1850-1928) e pelas realizações de projectistas de inegável talento - Letchworth Garden City, 1903 e Hampstead Garden Suburb, 1907, por B. Parker e R. Unwin; Welwyn Garden City, 1907, por L.de Soissons, etc. Este movimento surgiu como uma tentativa para resolver a dicotomia entre a malha urbana da cidade industrial oitocentista, problemática em vários graves aspectos, e o espaço natural, percebido como ideal da felicidade humana. Howard tinha vivido cinco anos na América dos anos 70, onde recebeu as influências de W. Whitman, R. Emerson e das teorias das origens do Belo na natureza.
As baixas densidades, com a habitação sobretudo disposta em casas isoladas ou em banda (o britânico típico sempre desprezou os flats), desejavelmente com amplas e multiplas áreas verdes, públicas ou privadas, e o zoning, separando a indústria da habitação, deu forma a este novo modelo híbrido (cidade mais campo num só) nascido nas Ilhas mas com mais ou menos influência por toda a Europa, sobretudo em países anglo-saxónicos como a Alemanha a Bélgica e os Países Baixos, diferentemente do outro novo modelo, de raiz cultural mais latina, se assim se pode dizer, que veio a ser maioritariamente praticado na Europa do pós-II Grande Guerra, com zoning também, e bem radical, mas mais característico do texto e do espírito da Carta de Atenas (veja-se a Parte I deste texto), com maior concentração constructiva localizada, quer em grupos de arranha-céus idealmente implantados no interior de amplas áreas ajardinadas (em Portugal temos, como exemplo, o Bairro dos Olivais) quer em bandas de habitação colectiva extensiva de poucos andares, e frequentemente sem hierarquia de fachadas (quando toda a superfície é fachada, mormente nos arranha-céus elevados em pilares, com entrada ao nível térreo por baixo do edifício). Ao passo que na Garden City os arruamentos que servem as habitações perdem o rico significado que possuía a típica rua urbana tradicional, normalmente sempre também com algum comércio e mais outros usos, no outro modelo referido, que eu designaria "à Le Corbusier", todos os arruamentos são dispositivos meramente mecânicos, podendo quando há espaço suficiente tomar no terreno as formas mais livres, para veículos ou como caminhos pedonais independentes, completamente alheios, em todo o caso, à própria ideia convencional de rua.
Nos Estados Unidos, o paisagista e urbanista Clerence Stein (1882-1975) aplicou as teorias da Cidade-Jardim a dois projectos urbanos com jardins comunais e separação entre trânsito automóvel e peões: Sunnyside Gardens, New York, 1924; e Redburn, New Jersey, 1929. Stein era sócio do polémico autor de temas urbanos Lewis Mumford (1895-1990), discípulo de Ebenezer Howard e do biólogo Patrick Geddes, que defendia uma posição humanista muito crítica da dependência moderna da tecnologia.
Mas já a partir dos anos 20, na América, a Garden City ou os Garden Suburbs, que eram extensões periféricas com bastante limitada ou nenhuma autonomia, mas em todo o caso viáveis por estarem ligadas ao centro da grande cidade pelo caminho de ferro, começaram rapidamente a dar primazia a um novo fenómeno tipicamente americano, tanto na sua génese como nas espantosas proporções depois e até hoje alcançadas - o suburban sprawl, tornado possível com a massificação do carro privado e a introdução da auto-estrada, e socialmente vocacionado, sobretudo, para as numerosas famílias de raça branca da pequena burguesia, levadas a sair da cidade não só atrás do ideal de uma nova vida no "campo", mas sobretudo até por razões económicas. Então depois da última guerra, o fenómeno tornou-se imparável e é hoje omnipresente no quotidiano da vida americana. Com ele, as generosas áreas verdes e outras apreciáveis qualidades da cidade-jardim desapareceram e os resultados da obcecação por uma estreita optimização comercial e funcional, assim como a sua completa subordinação ao zoning e à utilização a larga escala do automóvel para todas as mais insignificantes necessidades correntes, com sacrifício adicional para todos os residentes que não guiam, mostram hoje à evidência a insustentabilidade a prazo do modelo de desenvolvimento implícito e o estado de extrema disfunção da vida quotidiana por este ocasionado em tempos de crise económica e de aumento do preço dos combustíveis, como agora mesmo acontece, com muitos milhões de pessoas a ficarem, literalmente, abandonados nos subúrbios.
O New Urbanism apareceu no início dos anos 80 com a intenção de poder vir a constituir uma alternativa urbanística, radical mas viável, a este estado de coisas. Embora existisse já parcialmente em potência, sem esse nome ainda, numa tradição adormecida mas nunca extinta, que veio a integrar a seu favor os contributos teóricos inovadores da escritora Jane Jacobs, com o seu clássico livro The Live and Death of Great American Cities, 1961, e do matemático e arquitecto Cristopher Alexander, com o artigo A City is not a Tree, 1965 e o livro A Pattern Language, 1977, o New Urbanism veio a ter a sua primeira concretização prática na iniciativa do arquitecto de Miami Andrés Douany e sua mulher Elisabeth Plater-Zyberk, convertidos pela influência pessoal de Léon Krier, que naquela altura passava uma temporada nos EUA, às ideias e princípios urbanísticos de matriz tradicional por este defendidos.
A nova vila balnear de Seaside, na Flórida, começada em 1984, constituiu a primeira realização exemplar destes princípios, adaptados às condições e à tradição arquitectónica regional, e um verdadeiro balão de ensaio do movimento, tendo Léon Krier aí construído, de princípio a fim, a sua própria casa. Em resumo, pretendia-se obter a criação de uma comunidade onde todas as necessidades urbanas mais correntes - o comércio local e os serviços e equipamentos básicos, como a escola primária, os correios, a capela, as actividades balneares e de lazer, etc., fossem todas facilmente acessíveis à distancia de cerca de 5 minutos a pé, através de uma malha urbana de ruas e de outros espaços públicos interligados, claramente reconhecíveis e hierarquizados, com centro, áreas periféricas e limites naturais bem definidos e com prioridade do peão ou da bicicleta em relação ao automóvel. Tudo isto usando o parcelamento, as tipologias dos espaços públicos e das construções e um vocabulário arquitectónico que permitisse alcançar os seguintes resultados: variedade sócio-económica e etária da população, por um lado; unidade com variedade justificada, de cada um e do conjunto dos espaços públicos e da arquitectura, por outro.
Os resultados alcançados em Seaside e, não muito depois, também noutros pontos, ao longo de processos construtivos com suficiente lentidão, para que assim melhor pudessem ser incorporados os próprios feed-backs alcançados, foram muito animadores. Esse sucesso encorajou a rápida expansão do movimento, tanto por Duany como por outros e cada vez mais urbanistas, arquitectos, utentes, empresários e até políticos, em muitas partes do país. Em 1993 era fundado o CNU - Congress for the New Urbanism, com a sua Carta de princípios e intenções em que se adivinha o ambicioso projecto de mudar em algumas décadas a face da América. A missão revelada inclui ...«a reestruturação da política pública e de práticas urbanísticas que dêem suporte à regeneração de centros urbanos e de cidades existentes, integradas no interior de regiões metropolitanas coerentes. Defendemos a reconfiguração de expansões suburbanas em comunidades de vizinhança com os seus diferentes bairros, a conservação dos ambientes naturais e a preservação do património construído....A reconstrução das vizinhanças, das cidades e das regiões é profundamente interdisciplinar. Acreditamos que as comunidades, a economia, o ambiente e o desenho projectual têm de ser abordados simultaneamente através do projecto urbano e do planeamento.»
A maior limitação a uma mais rápida expansão deste movimento continua até hoje a ser a rigidez das leis e das normas urbanísticas, profundamente alteradas após a II Grande Guerra por forma a consagrar generalizadamente o zoning, as quais, enquanto não forem alteradas, continuam a ser radicalmente hostis ao tipo de experiência urbana tradicional característica do New Urbanism. Para tentar ladear este problema, Duany e a sua equipa criaram o chamado SmartCode, o qual inclui um tipo de zoning ditado pelo afastamento sucessivo e gradual das várias regiões urbanas desde o centro de uma metrópole até ao seu espaço exterior rural, perfeitamente compatível com a variação das densidades e do carácter urbano historicamente observáveis em todas as zonas urbanas tradicionais, e tem-se procurado, caso a caso e com crescente sucesso, negociar este tipo de códigos, adaptados a cada região e local em concreto, com as autoridades licenciadoras.
Hoje, são já largas centenas as realizações acabadas ou em construção, também designadas por TND - Traditional Neighborhood Developments. O movimento tem feito o seu caminho, não só na América como pela sua influência levada a outras partes do mundo. No próximo texto falarei da situação actual do novo urbanismo de inspiração tradicional na Europa.
Francisco Cabral de Moncada
quarta-feira, 18 de junho de 2008
JARDIM PARA HOJE (8)
Jardim do Ultramar.
Porque lá, nessa genial criação de S. M. F. El-Rei Dom Carlos I, se respira ainda o espírito do primeiro e último império pluricontinental moderno. E esses ares fazem bem à alma lusíada. Lugar ideal para quem tem saudades do futuro.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
NO REINO DOS PORQUÊS
Acrescentei «o porquê» a todos os postais da série «jardim para hoje». Eis uma enorme vantagem da escrita digital: possibilitar a reescrita em linha, com o objectivo de fazer o permanente aperfeiçoamento da rede; assim sendo, introduzindo o título da série na janela de «pesquisar no blogue», logo darão de caras com as minhas explicações para a escolha de cada jardim.
JARDIM PARA HOJE (6)
Jardim Alfredo Keil.
Porque é romântico. E especialmente porque foi bem recuperado. Depois não digam que eu só digo mal. Tenho é pouca coisa para elogiar. Mas tenho sempre grande prazer em o fazer.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
JARDIM PARA HOJE (1)
Jardim do Torel.
Porque é lá que melhor se materializa — de corpo e alma — o amor louco na cidade de Lisboa. Só para conhecedores.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
JARDIM PARA HOJE (10)
Jardim Marquês de Marialva.
Sim, este é o verdadeiro nome do jardim que se esplana à volta da monumental Praça de Touros do Campo Pequeno.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
JARDIM PARA HOJE (7)
Jardim do Príncipe Real.
Porque, estando o jardim situado no centro da Lisboa Romântica, o nosso coração — provavelmente por contaminação — bate com mais força nesse lugar. E porque, por mais vezes que se lá vá, há sempre um novo recanto intimista a descobrir. E ainda porque esse sítio se chamou em tempos o Alto da Cotovia.
terça-feira, 25 de março de 2008
JARDIM PARA HOJE (4)
Jardim Botânico da Ajuda.
Porque é o mais antigo jardim botânico de Portugal. E porque lá se respira História. E ainda porque tem uma surpreendente e encantadora relação com o Tejo.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
terça-feira, 6 de outubro de 2009
quinta-feira, 18 de junho de 2009
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
JARDIM PARA HOJE (3)
Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.
Porque será sempre o mais moderno, mas mantendo eternamente um sabor ancestral — que sugere o paraíso perdido.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
JARDIM PARA HOJE (2)
Jardim do Palácio do Marquês de Pombal e Conde de Oeiras.
Porque se sente aí o espírito do tempo desse século XVIII onde Portugal atingiu o seu auge estético e político com D. João V.
quarta-feira, 23 de março de 2011
SEM AGENDA



O Urbanismo Modernista e o Novo Urbanismo (Parte III)
Terminada a II Guerra Mundial e nos anos que se seguiram, o urgente esforço de reconstrução do território europeu, principalmente as suas muitas cidades devastadas pelo conflito, traduziu-se numa série de programas de investimento a larga escala nos países mais afectados, como foram a Inglaterra, a Alemanha, a França a Bélgica e a Holanda. Nesses países, assim como, de uma forma geral e pelo menos em certa medida, nos outros países europeus ocidentais menos ou nada atingidos, como foi o caso português, esse enorme esforço, que se prolongou na verdade, ininterruptamente, por cerca de três décadas com o patrocínio maioritário de Estados-providência, foi um processo altamente dinâmico em que as sempre crescentes necessidades de novos alojamentos se ficaram a dever não só às destruições da guerra mas também ao aparecimento continuado de importantes mudanças demográficas tais como superiores natalidades e menores mortalidades, a desruralização progressiva, a mudança dos hábitos familiares e os novos movimentos migratórios.
Naquela primeira conjuntura de emergência, após a guerra, os decisores responsáveis pelo planeamento urbano em cada país abraçaram, qual solução fatal e milagrosa, de uma forma geral e com variações geográficas nas suas formas de concretização, o essencial da doutrina da Carta de Atenas (CIAM, 1933), ou seja, o já mais que uma vez referido (na Parte I e na Parte II deste texto) zoning, que passou a ser, de facto, por substituição das legislações anteriores, a regra geral do urbanismo oficial no pós-guerra. E apesar de todas as evidências que o têm vindo a desaconselhar cada vez mais, o zoning tem sido ciosamente conservado nas legislações nacionais até aos nossos dias. De facto, o típico ambiente construído resultante da sua aplicação, que numa primeira fase de novidade se apresentou como paradigma de progresso e de excitante modernidade, é hoje e de há já muito de todos bem conhecido e experimentado e caracteriza-se precisamente pela aflitiva falta de carácter cívico e urbano, de escala e de qualidade estética necessárias ao equilíbrio humano, de real funcionalidade e sustentabilidade. O tipo de redes viárias desenhadas quase exclusivamente para supostamente satisfazerem os requisitos funcionais do tráfego automóvel entre zonas funcionais separadas - a habitação, o trabalho, a cultura e lazer, etc. - obrigam na verdade, neste sistema, a constantes, penosas e anti-económicas deslocações pendulares e constituem, frequentemente, barreiras físicas inconvenientes dentro da própria cidade.
Por outro lado, as tipologias urbanísticas mais adoptadas (sumarizadas, grosso modo, no modelo "britânico", mais ligado à tradição da Cidade-Jardim, e no modelo "continental", mais directamente tributário das orientações da Carta de Atenas) ignoraram ambas o carácter da rua e da praça tradicionais - não só funcional, de usos mistos, como morfológico e simbólico, de espaços públicos claramente definidos e limitados não só pelos edifícios utilitários e privados como também por alguns edifícios públicos e monumentais, com hierarquia e critério paisagístico. O abandono do modelo tradicional de ruas, praças e quarteirões e o recuo sistemático das construções, ou dentro de lotes ou em espaços abertos, muitas vezes apenas servidas por acessos desligados (os cul-de-sac), conduzem com demasiada frequência à bárbara fragmentação do espaço (sub)urbano, pela multiplicação aparentemente arbitrária das mais variadas construções (circulemos pelo eixo Norte-Sul de Lisboa ou pela VCI do Porto, p. ex.), originando ambientes por força desorientadores e desumanos.
A primeira contestação parcial da Carta de Atenas surgiu dentro do próprio Movimento Moderno, já na década de 50, com o fim dos CIAM - Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna, seguido mais tarde pelas vozes dissonantes de vários autores considerados já pós-modernistas, como foi o caso do arquitecto italiano Aldo Rossi, (autor do livro L'Archuitettura della Città, 1966) com a sua crítica da contemporânea falta de compreensão da cidade como artefacto humano construído com o tempo, portador de uma memória, e da importância decisiva dos monumentos e do carácter morfológico dos espaços públicos, mormente a rua e a praça, nesse contexto. Mais radical ainda, no pôr em evidência o valor deste último aspecto das morfologias urbanas, foi o arquitecto luxemburguês Robert Krier, irmão mais velho de Léon Krier, no seu influente livro Stadtraum in Theorie und Praxis, 1975. Contudo e como atrás referi, de uma forma geral o decisivo e nefasto zoning, pela sua própria lógica irreformável, incompatível e hostil à cidade tradicional, foi continuando a vigorar nas legislações e na prática.
Paralelamente, no entanto, a cidade tradicional europeia e os seus insubstituíveis valores vivenciais, nunca deixaram de estar presentes nas intenções de muitos arquitectos e urbanistas, por norma ignorados, para não falar já das suas presenças na vida vivida ou no coração da esmagadora maioria dos cidadãos. E começaram também a surgir, com o tempo, notáveis exemplos de novas e inovadoras iniciativas particulares de inspiração tradicional, ao arrepio das políticas oficiais modernistas e da ortodoxia cultural "urbanística e arquitectonicamente correcta". Entre outros projectos urbanos pioneiros e dignos de menção, ocorre-me referir os dois seguintes, a título de exemplo:
A nova vila marítima provençal de Port Grimaud, pelo francês François Spoerry, 1964;
e o Pueblo Español, em Palma de Maiorca, que é uma espécie de resumo da Espanha concentrada num bairro, muito à semelhança do nosso Portugal dos Pequenitos mas em ponto grande, pelo arquitecto espanhol Fernando Chueca Goitia, 1965.
Em 1984 teve início o notável conjunto urbano de Richmond Riverside, no Rio Tamisa, pelo inglês Quinlan Terry, e a 30 de Maio do mesmo ano o Príncipe Carlos de Inglaterra proferiu em Hampton Court um célebre discurso, também conhecido pelo "the carbuncle speech", que imprimiu sem dúvida um importante impulso ao mais recente movimento de afirmação da arquitectura e do urbanismo tradicionais na Europa. Em 1988, Léon Krier - que tinha estado na Florida com Andrés Douany, onde com este concebeu e lançou a construção da nova vila de Seaside, para além da infuência que exerceu no surgimento do novo movimento New Urbanism, na América - desenhou o plano geral da nova cidade de Poundbury, no Ducado de Cornwall, no Dorset, com o patrocínio do Príncipe Carlos, a qual tem vindo a ser, desde o início da sua construção, em 1993, e até agora, quando ainda só está completada cerca de 30% da sua dimensão total (de 4 bairros autónomos integrados) com conclusão prevista para 2025, um caso paradigmático de sucesso e uma das principais referências do renovado urbanismo de inspiração tradicional a nível europeu.
Detendo-me um pouco no caso de Poundbury, que é uma extensão da pequena cidade de província de Dorchester, e citando um texto de apresentação do Ducado de Cornwall, observa-se que a sua filosofia...«não diz só respeito à arquitectura, como muitas vezes se pensa;...a sua ideia central é que um projecto desta dimensão deverá incluir não apenas casas e apartamentos mas também locais de trabalho, lojas, escolas, locais de lazer e encontro comunitário - delicadamente organizados, ao contrário da maior parte dos mais recentes programas de habitação, sendo para tal necessário que os projectistas consigam criar paisagem natural e urbana e um sistema de ruas e espaços públicos que possam encorajar o crescimento de uma comunidade integrada». O mesmo texto apresenta dez princípios estratégicos de actuação que incluem preocupações tais como a compreensão e integração no lugar; a hierarquia a considerar entre os edifícios e os significados relativos dos seus elementos; a escala humana dos edifícios; a harmonia dos edifícios entre si e com o ambiente; a contenção física das fronteiras do conjunto e dos espaços urbanos definidos (ruas, praças e largos); a utilização exclusiva de materiais naturais da região, não estandardizados; uma decoração artesanal que realce a singularidade de cada edifício; um tratamento artístico generalizado, com simbolismo e significado; a escolha criteriosa da sinalética e da iluminação; e por último, mas muito importante, a promoção do sentimento de orgulho e de participação da comunidade, desde o início.
Tal como no caso do New Urbanism, na América, o almejado ressurgimento da cidade europeia será pautado, como temos visto - apesar das diferenças ditadas pelas respectivas tradições culturais - pelos mesmo conjunto nuclear de princípios básicos, ou seja, a criação de comunidades integradas e participativas, idealmente com variedade sócio-económica, cultural e etária, através de vizinhanças e bairros bem definidos e minimamente autónomos, com usos mistos e não só a habitação, com dimensões ditadas pela facilidade geral de acesso pedonal ao centro (tempo típico de acesso não superior a 5 minutos), e com prioridade para o peão sobre o carro; os tipos de malhas urbanas, espaços públicos, escalas, arquitecturas e materiais, são também, naturalmente e de preferência, os da cidade tradicional, não por qualquer arbítrio de cariz ideológico ou meramente estético, mas porque sempre se têm revelado, de facto, os mais eficazes, sustentáveis e humanos.
Hoje em dia, a corrente do urbanismo e da arquitectura neo-tradicionais forma já uma apreciável rede mundial integrada, com mútua influência entre os seus dois grandes polos americano e europeu. Uma panorâmica do seu desenvolvimento recente na Europa, ainda minoritário relativamente às correntes modernistas dominantes, apesar dos progressos, pode ser vista, por exemplo, no sítio electrónico do forum internacional A Vision of Europe, sedeado em Bolonha. Pelas suas realizações até agora, a frente e o grosso do movimento tem-se distribuído por Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Espanha.
Como se observa, Portugal situa-se ainda bastante na cauda desses progressos. Até quando?
Francisco Cabral de Moncada
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
REVISTA PARA HOJE (1)
Colóquio Letras.
A magnífica revista da Fundação Calouste Gulbenkian. Para desfolhar muito devagarinho, a fim de melhor nos deleitarmos com o prazer de ler. O que é bom deve ser fruído com respeito, e com todo o tempo do mundo. Comecei a fazê-lo na esplanada da cafetaria do museu da referida instituição, e soube-me muitíssimo bem. Até os pássaros do idílico jardim pareciam querer criar o ambiente propício à leitura, aproximando-se silenciosamente. Mais longe, os papagaios — que os novos tempos trouxeram a Lisboa — também participavam: cantando, à sua maneira, e tracejando o céu — subitamente azul — com as suas garridas cores. Estes detalhes provam-nos que estamos vivos, e mostram-nos que a vida é bela. Saibamos vivê-la: com elevação, e com espírito de partilha.
sábado, 11 de abril de 2009
PARQUE PARA HOJE (2)
Parque Botânico do Monteiro-Mor.
Mandado fazer, nos terrenos do seu Palácio de campo, no Lumiar, pelo ilustre naturalista, coleccionador de espécies dos reinos vegetal e animal, D. Pedro José de Noronha de Albuquerque Moniz e Sousa (1716 — 1788), 3.º Marquês de Angeja, e Primeiro-Ministro da Rainha D. Maria I.
Começado a plantar, na década de 1750, sob a orientação do grande botânico italiano Domenico Vandelli (1735 — 1816), professor de Ciências Naturais e Químicas, e director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e do Jardim Botânico da Ajuda.
Começado a plantar, na década de 1750, sob a orientação do grande botânico italiano Domenico Vandelli (1735 — 1816), professor de Ciências Naturais e Químicas, e director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e do Jardim Botânico da Ajuda.



