quarta-feira, 17 de junho de 2009
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
SEM AGENDA
Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional (Parte II)
Concluo hoje a reprodução de um artigo que escrevi em 2004 para o Boletim e o sítio electrónico do grupo universitário Arautos d’El-Rei, de Coimbra, e nesse ano também publicado no jornal O Dia, a propósito da edição portuguesa do livro maior do arquitecto luxemburguês Léon Krier (1). A Parte I do artigo foi publicada neste espaço a semana passada.
Elevada atenção é dedicada à definição do objecto arquitectónico e à clarificação de conceitos (modernidade, modernismo, tradição, tipo, composição, invenção, inovação, construção vernacular, arquitectura clássica, estilo,...), a começar pela importante distinção entre culturas tradicionais (artesanais, tendo por objectivo a produção de objectos de uso a longo prazo) e modernistas (industriais, tendendo a produzir objectos de consumo a curto prazo).
Krier relembra a diferença fundamental estabelecida por toda a arquitectura tradicional entre os edifícios públicos e sagrados - a ‘Res Publica’ - e os utilitários e privados - a ‘Res Privata’ - sendo a verdadeira cidade, com os seus monumentos criteriosamente inseridos na malha urbana geral, uma combinação das duas. Aponta o arranha-céus e o “arranha-terra” utilitários, bem como alguns pretensiosos complexos habitacionais ou de negócios, como monumentos fictícios, pois proeminência ou vastidão não são garantia, e monotonia e estatuto funcional são inadequados, à criação de significado monumental. (a propósito da liquidação de significados, terá sido uma simples distracção o recente “passo ao lado” a cavalo, de D. João I, para o remate de um eixo iluminista? ; e que pensar do tratamento dado a D. João V, em Mafra? - a lista poderia continuar...).
Quanto ao objecto arquitectónico (a cidade, a rua, a praça, o templo, a igreja, o campanário, a casa, o palácio, a fábrica, a cabine telefónica, o átrio, a abóbada, a coluna, a arquitrave, a porta, a janela,...), invenção humana de uma gama necessariamente limitada, ele é sempre denominável por uma convenção duradoura e de valor constante pela qual a sua aparência e função estabelecem ...«uma relação de verdade evidente» (união entre símbolo e significado, forma e conteúdo, tipo e função, estilo e estatuto). É também notado que a maior parte das inovações arquitectónicas do século XX são ...«transferências de ideias pertencentes a outras categorias» (edifícios que emitam a aparência do paquete, do comboio, da refinaria, do contentor,...) bem como a ...«mistura de géneros» (a “cidade-jardim” não é cidade nem jardim; a “sala polivalente” não substitui convincentemente a igreja, o teatro, o ginásio; assim também o “parque de negócios”, a “máquina de habitar”, o “espaço verde”, o “mur-rideau”,...). Não têm a capacidade de ...«substituir nem o vocabulário, nem a tecnologia nem a natureza própria do objecto arquitectónico». ...«Erros de escala, de proporção e medida, de forma, conteúdo, estilo, tipo e carácter são sempre desqualificados publicamente através do uso espontâneo de “alcunhas” pertinentes» ( “refinaria de petróleo” para o centro Beaubourg de Paris, “o radiador” para a sede da ONU, ou, lembro agora, “o palácio de Ceausescu” para a sede da CGD em Lisboa ou “o King Kong” para a negra torre de escritórios na baixa de Coimbra) apenas reveladoras de poder de imaginação e capacidade de discernimento.
Por outro lado, a substituição generalizada de paredes mestras por estruturas sustentadoras separadas dos paramentos exteriores, e a dos materiais naturais pelos artificiais, tem propiciado o aparecimento de uma imensa vaga ‘kitsch’, pós-modernista ou tradicionalista, caricatura de uma autêntica cultura tradicional e reveladora de uma ...«ruptura ontológica ente o ser e o parecer» ao nível da relação entre tecnologia e expressão arquitectónica. Pela dimensão deste fenómeno, Krier considera-o mesmo o maior antagonismo hoje existente no seio da arquitectura.
Uma extensa parte do livro é totalmente dedicada aos problemas do urbanismo, com larga explanação das teses do autor, as quais integram hoje as recomendações europeias.
Começa por identificar a causa da maioria dos problemas: a sobreexpansão monofuncional, vertical no centro das cidades e horizontal nas periferias, condicionando-se reciprocamente. O ‘zoning’ monofuncional (residencial, escolar, comercial, industrial, administrativo), propagado pela Carta de Atenas de 1931, é tido como o mais grave produto ideológico do urbanismo modernista e essencialmente uma técnica de desenvolvimento industrial causadora da …«fragmentação anti-urbana e anti-ecológica dos aglomerados integrados e multifuncionais».
Para futuro explica como, atendendo à escala nacional e continental a que se decidem hoje os grandes imperativos de transformação, se apresenta a necessidade de ligar crítica ecológica e projecto de cidade num contexto continental de longo prazo, em complemento à constituição política das nações.
Léon Krier diz-nos que as potencialidades da arquitectura tradicional continuam intactas, referindo que existem técnicas artesanais para construir rapidamente e mostrando como o rendimento global de um edifício, em termos de eficácia construtiva, económica e ecológica, tem de ser calculado tendo em vista o ciclo de vida do edifício, os tempos e custos de manutenção e a relação ecológica do edifício com o contexto. Sendo hoje a questão que se coloca a recuperação da sua qualidade, muito degradada pela industrialização da construção, que destruiu o artesanato tradicional e o seu ensino, fica evidente a necessidade da restauração do ensino de um artesanato moderno.
Nada é irreversível. O nosso futuro dependerá sempre, em última análise e no que for dado decidir aos homens, de uma escolha cultural. É esta a ideia final deste livro.
(1) Krier, Léon - Arquitectura : Escolha ou Fatalidade. Editora ESTAR, Lisboa, 1999. Tradução de António Sérgio Rosa de Carvalho. Desenhos do autor.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
SEM AGENDA
-- Esticar ou espalmar a cidade?
-- A invasão das vias
-- A febre da torre
-- Turismo, PIN & Companhia Ilimitada
-- Velhos esquemas, novos esquemas
-- Loteamentos, cedências e compensações
-- O insustentável peso dos fundos de investimento imobiliário
-- Relativismo na estética urbana?
-- SRU & negócios de reabilitação
-- Irracionalidade do crescimento urbano
-- A técnica do cavalo de Tróia
-- O patinho feio da arquitectura paisagista
-- «É a economia, estúpido!»
-- Trânsito: um drama urbano
-- Afastamentos entre edificações
-- O novelo técnico e burocrático do processo administrativo
-- O cadastro urbano negligenciado
-- O mundo académico e profissional dos fazedores de cidades
-- Centros comerciais ou comércio nos centros?
-- O silêncio dos inocentes
-- Entre o interesse público e o interesse privado
-- Servidões administrativas e restrições de utilidade pública
-- A sustentabilidade não começa no fim
-- O despesismo consentido e sem sentido
-- O ataque à memória e ao património
A sustentabilidade não começa no fim
Francisco Cabral de Moncada
quarta-feira, 9 de março de 2011
SEM AGENDA
O Urbanismo Modernista e o Novo Urbanismo (Parte I)
A começar na Europa e nos Estados Unidos e a acabar, hoje em dia, na generalidade das metrópoles e, mais ainda, nas gigantescas - para lá de tudo o imaginável - megalópoles dos cinco continentes, não só o seu aspecto visual caótico e incompreensível, como inclusivamente toda a vivência diária experimentada pela generalidade dos habitantes dessas novas paisagens, construídas posteriormente à Segunda Guerra Mundial - as quais afectam e fatalmente condicionam, directa ou indirectamente, tudo o mais num vasto raio em seu redor - não podem deixar de nos fazer sobressaltar, interrogar e indignar.
Este problema das condições da vida urbana actual, trata-se sem dúvida de um resultado parcial, embora obviamente do máximo alcance e importância para todos - pessoas, famílias, comunidades, nações, continentes inteiros - de um conjunto extremamente complexo de fenómenos dinâmicos, a várias escalas - local, regional, continental, mundial - e de várias naturezas - económica, política e geo-estratégica, ambiental, cultural, religiosa - os quais, se bem que infinitamente justapostos e interdependentes, nos conduzem todos, ou a maior parte deles, assim o julgo, à fonte de onde dimanam principalmente: o paradigma de desenvolvimento vigente de há cerca de dois séculos a esta parte, ou seja, a nossa civilização industrial, materialmente tornada possível pelos fantásticos progressos da ciência e da técnica e pelo consumo dos combustíveis fósseis baratos, e culturalmente dirigida pela família das correntes de pensamento que triunfaram, até ver - a ideologia da modernidade - definida com maior rigor a partir dos Iluminados da Baviera e de Rousseau, que se caracteriza pela emergência metafísica do homem rebelde (1), e por isso revolucionária, anti-tradicional e aberta ou dissimuladamente totalitária, que tem vindo a assumir as várias formas históricas de todas conhecidas, desde o liberalismo selvagem do século XIX ao actual liberalismo democrático, híbrido não menos selvagem, radicalmente ateu e mundialista, passando pelos vários totalitarismos sangrentos do século XX. Temos vivido portanto, de há longo tempo, no Ocidente, embora também, aqui e além, com felizes lacunas e oásis, tempos essencialmente revolucionários e contrários às verdadeiras liberdades necessárias à realização da vida humana natural, ou seja, para um crente como eu, aquela que não só nos foi dada, como também nos foi destinado reconhecê-la e praticá-la, pelo Criador de todas as coisas.
Foi este longo parágrafo acima para por ele começar a enquadrar histórica e culturalmente a evolução do urbanismo dos últimos cerca de oitenta anos até ao que hoje se nos apresenta. A arquitectura e o urbanismo modernistas emergiram decisivamente no período de entre-guerras, com a recepção verificada, por algum público mas sobretudo pelas elites bem pensantes da época, das propostas dos arquitectos modernistas dos anos vinte e trinta do século passado, entre os quais se destacou, de longe, pela sua larga influência, o ideólogo da arquitectura e do urbanismo Le Corbusier, em 1926 com a apresentação dos seus 5 pontos da Nova Arquitectura, e posteriormente, em 1933, com a redacção da chamada Carta de Atenas, saída do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna - CIAM.
A Carta de Atenas, que veio a ser mais tarde, sobretudo depois da II Grande Guerra, a bíblia do urbanismo modernista, revelou-se essencialmente um manual técnico de desenvolvimento industrial. Tendo sido apresentada com o louvável objectivo de resolver o problema das más condições de vida, mormente da classe operária, na cidade industrial, bem como o congestionamento do transito atribuído às malhas urbanas cerradas e a falta de suficiente espaço público para o lazer e a cultura, o seu pressuposto essencial consistiu em pensar a cidade - em consonância com o alegado Zeitgeist - como uma verdadeira máquina - a Cidade Funcional - objecto esse a concretizar primordialmente através do chamado zoning (segregação espacial dos vários tipos principais de funções numa cidade: residencial, comercial, industrial, lazer e cultura, etc., interconectadas por vias de acesso rápido), complementado com a criação de vastas áreas de parque ajardinado, ocupadas com grupos de arranha-céus isolados, para as ocupações terciárias e a habitação das classes superiores, e com numerosas unidades lineares de habitação colectiva extensiva.
O zoning - hoje em dia já largamente desacreditado tanto por força dos muitos efeitos destructivos provocados nas cidades tradicionais europeias (lembro, entre nós, a bárbara destruição realizada em grande parte da Alta de Coimbra para a concentração da Cidade Universitária, ou as ameaças, felizmente não concretizadas, do "saneamento" de uma área significativa da Ribeira do Porto ou da demolição de parte Bairro Alto, em Lisboa) como também, e certamente com maior razão ainda, no caso dos incontáveis novos aglomerados e extensões urbanas, que não merecem o nome de cidade, dado o tipo de vida urbana que neles fatalmente criou, com as constantes e penosas deslocações pendulares entre centro e periferia, a criação de sítios geralmente sem carácter e sem alma e a desumanização ou mesmo a completa anulação de toda e qualquer experiência cívica - continua a reflectir-se, contudo, de forma bem patente e durável, na feição geral dos ambientes urbanos no Ocidente e não só, apesar das tentativas de correcção, as quais, todavia, raramente abordam os aspectos essenciais do problema. O crescente número de demolições e de implosões de edifícios modernistas é deste fracasso apontado um claro sintoma.
Traz-me isto à memória, infelizmente, a verdade contida no seguinte aforismo de Nicolás Gómez Dávila: «o homem moderno destrói mais quando constrói do que quando destrói».
Na próxima semana introduzirei o movimento urbanístico alternativo, nascido há cerca de três décadas nos Estados Unidos e já hoje aí com larga implantação, e com bastante influência também na Europa e noutros pontos do mundo, que dá pelo nome de New Urbanism.
Francisco Cabral de Moncada
quinta-feira, 18 de junho de 2009
PARQUE PARA HOJE (6)
quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
sábado, 11 de abril de 2009
PARQUE PARA HOJE (2)
Começado a plantar, na década de 1750, sob a orientação do grande botânico italiano Domenico Vandelli (1735 — 1816), professor de Ciências Naturais e Químicas, e director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e do Jardim Botânico da Ajuda.
terça-feira, 25 de março de 2008
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
CARTEIRA DE SENHORA
Quando se diz que uma carteira de senhora não tem fundo, é porque cabe lá tudo, sendo exactamente esse o problema. A verdade é que todas têm fundo, mesmo esta, mas não há maneira de conseguir encontrar o tal texto que tinha começado. O truque é não insistir numa procura específica. Um dia o acaso trará à tona o que quero. Assim, surgiu qualquer coisa com uma pitada de crise.
De há uns tempos a esta parte que vimos ouvindo dia sim, dia não, sermões admoestadores de um senhor Silva e de muitas outras réplicas do senhor Silva, economistas na sua maioria, sobre como os portugueses têm vivido acima das suas possibilidades.
Confesso que não me tinha apercebido desse facto, e dediquei-me de coração a elaborar um estudo aprofundado sobre o assunto na parte que me diz respeito.
Os senhores Silvas até parecem videntes e deviam concorrer com os inúmeros professores de nomes vagamente africanos que prometem mil e uma salvações em minúsculos papelinhos que distribuem à porta do metropolitano. Então não é que estava mesmo a viver acima das minhas possibilidades? Esquadrinhando despesa a despesa e saltando convenientemente a linha que continha a palavra tabaco e que até pusera em pé-de-página com letra de apólice de seguro, apercebi-me que, de facto, uma determinada área da minha vida saltava à vista desarmada, em letras grandes e florescentes, como problemática: o almoço.
Almoçar fora todos os dias gastando uma média de 8 € era sem dúvida viver acima das minhas possibilidades, e como não queria mais sentir-me incluída nos tais sermões, mudei radicalmente a minha vida, como aquelas mentes que se iluminam pelos discursos inflamados de homens vulgares erigidos a profetas glorificando os seus livros de auto-ajuda agora no topo das vendas das livrarias.
Sendo funcionária pública, retomei o antigo hábito de quando a idade era boa por ser pouca mas rimava com dificuldade: ir à cantina. Nós dizemos ir à cantina, mas na verdade, o nome oficial é refeitório. Palavra comprida demais para frases que se querem curtas no aperto dos horários e cantina até lembra escola.
Aqui perto há dois lugares à escolha, um mais “chique” do que o outro, mas o preço por uma refeição completa é o mesmo, menos de metade do que pagava apenas por um prato!
Um deles é enorme, provavelmente antiga garagem transformada em cantina. Permite um almoço mais sossegado e tem uma outra vantagem: as mesas são para quatro pessoas e as cadeiras, surpresa das surpresas, são uma espécie de baloiços. Não sei descrever à moda de manual técnico, mas em termos simples, são giratórias. Como se fosse um parque infantil à mesa do almoço, uma espécie de presente para os mais velhos, com um certo sabor a brincadeira proibida, lembrando os dias em que seus pais lhes chamavam a atenção “está quieto com a cadeira!”.
Aqui são mais os reformados que vêm, alguns desde muito cedo, sentando-se na sala de entrada à espera de serem os primeiros da fila e adoram ter motivos para chamar a atenção de quem acham que lhes está a passar à frente.
Na cantina chique, mais pequena, as mesas são corridas, há mais gente e, embora também seja frequentada por velhinhos, os mais novos estão aqui em grande número, pelo que o barulho é a condizer.
Antes de ordeira e pacientemente ir para a fila do self-service, compram-se as refeições em máquinas muito evoluídas, com ecrã táctil e uma voz de senhora num metálico irritante a dar ordens: insira o seu cartão, não retire o seu cartão, efectue o pagamento, retire o cartão, retire o troco, retire o recibo. Na cantina grande, as máquinas até têm arrumador. Um senhor que ajuda quem se atrapalha com a máquina diabólica esperando que lhe caia em sorte ou bondade uma moeda.
As funcionárias adoram ser cúmplices e sugerem o que devemos comer com acenos de cabeça, um piscar de olhos ou uma deixa apropriada.
Há os velhinhos que vêm em grupo, normalmente mulheres, antigas professoras aposto, muito bem arranjadas, às vezes até de casacos de peles e maquilhadas, sobretudo muito conversadeiras. Há os que vêm sozinhos e descobrem os outros, e os que vêm sozinhos e não querem mesmo ser descobertos.
Os que vêm de bengala ou canadianas são ajudados pelas funcionárias que lhes levam o tabuleiro até á mesa.
Há quem ache que tem aquele lugar reservado e se sente no lugar ao lado refilando entre dentes o tempo todo, em tentativa de reconquista do lugar adorado pela força da indignação expressa em palavras sussurradas.
Há, descobri hoje quando um senhor desmaiou, muita solidariedade e um conhecimento mútuo mas calado.
A cantina parece um outro mundo, paralelo, com passagem secreta atrás de portas discretas, mas é o nosso mundo. O meu e o vosso.
Deprimente? Nem tanto. É a vida.

