quarta-feira, 30 de março de 2011

SEM AGENDA

Da Democracia e suas Formas (Parte I -- Posição do problema; A ideia de democracia)

Sendo a questão da democracia política uma daquelas questões sempre presentes na nossa vida, e sempre mais ou menos na ordem do dia -- vivemos, há séculos, e hoje, mais do que nunca, quer o queiramos quer não, mergulhados em democracia, ou numa sua imagem -- proponho aqui, a todos os que ainda o não fizeram, um esforço para a contemplar à distância: o de sairmos, por um momento, ao menos, desse mar que nos banha, sentarmo-nos na duna, e daí, ou de outros pontos panorâmicos à nossa escolha, tentarmos compreender um pouco melhor esse mar misterioso, alteroso e imenso. Se o conseguirmos, poderemos depois talvez escolher, com maior liberdade -- em intenção, pelo menos -- ou voltar para ele, para o abraçar em vigorosas braçadas, ou molhar só as pernas (se a maré não puxar), ou ainda, se assim preferirmos, nos deixarem, e porventura isso for viável, na prática (coisa de que, ao fim e ao cabo, muito duvido), ficar pela duna. Proponho-vos hoje, com continuação nas duas ou três semanas seguintes, se Deus quiser, uma visita a um desses pontos panorâmicos, que circunstância familiar me deu a conhecer, sem qualquer merecimento da minha parte: o pequeno ensaio do meu Avô paterno, L. Cabral de Moncada, chamado Problemas de Filosofia Política: Estado -- Democracia -- Liberalismo -- Comunismo, Arménio Amado Editor, Coimbra, 1963, que suponho de difícil acesso, hoje em dia (reúne os dois trabalhos Do conceito e essência do político e Democracia, ambos publicados no Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, volumes XXXVII e XXXVIII, de 1961-1962). O que se segue é uma selecção que fiz, imperfeita embora, de um conjunto de passagens que me pareceram, de certa forma, representativas da intenção do autor.

«Um dos erros que mais tem contribuído para a incorrecta compreensão do problema da democracia, está na confusão em que frequentemente se cai entre três coisas, segundo nós completamente distintas: a própria ideia de democracia, o seu significado axiológico, e o acidental das suas formas e realizações históricas.»...«Uma coisa, com efeito, é democracia, outra, democracias. Mais rigorosamente: uma coisa é a ideia e a essência da democracia; outra, os valores humanos que com essa ideia se pretendem servir; outra ainda, as diversas concretizações e formas de realização que de tal ideia e tais valores, historicamente, tem sido avançadas, ou simplesmente tentadas, através das diferentes estruturas ou tipos de Estado tidos em todos os tempos como mais ou menos democráticos. Se a primeira destas três coisas corresponde a um problema de ordem exclusivamente gnoseológica, não necessariamente filosófico desde logo, a segunda conduz-nos a um problema directamente filosófico, de filosofia dos valores e da cultura; enquanto que a terceira nos coloca de preferência ante um problema, por assim dizer, só de política. Por política entendemos aqui, antes de mais nada, técnica, técnica de organização sobretudo jurídica do Estado: escolha dos meios mais apropriados às várias condições de ambiência social, económica, social e histórica, para a efectivação da democracia e dos seus fins. E é evidente que se nos dois primeiros problemas podemos ainda admitir - se não formos totalmente cépticos - que o nosso espírito vá em busca de algo absoluto, no terceiro jamais ele poderá ultrapassar o domínio da mais fatal e invencível relatividade de todas as coisas humanas.»

...«A ideia de democracia não é uma ideia à priori.»...«Formamo-la em nós, no nosso espírito, é certo, mas a partir de determinados factos e dados de que temos uma experiência. É uma ideia geral, um conceito, que extraímos desses factos e dados. E esses são factos e dados históricos, ou melhor, da história da cultura. A democracia é, antes de mais nada, um facto cultural. Com efeito, olhando para aí, para esse campo de fenómenos, logo verificamos que aquilo a que damos esse nome nunca outra coisa foi senão uma certa forma de Estado, e portanto de estruturação do «político», com determinadas características que a permitem distinguir de outras, antes de qualquer juízo de valor da nossa parte acerca dela. A pergunta então a fazer é: quais essas características? Em que se conhece que um Estado é democrático?

Já os gregos no-lo diziam quando contrapunham a democracia à aristocracia e à monarquia. Eram estas as três formas fundamentais de Estado que eles conheciam. E distinguiam-nas, conforme não é menos sabido, consoante o poder político, ou aquilo a que nós hoje chamamos soberania, essencialmente, residia: ou na generalidade dos cidadãos, ou só numa classe destes, tida como a dos melhores (άριστοι) ou ainda num só de entre eles. Não faltavam já na antiguidade exemplos de tudo isso. Esta classificação das formas do Estado remonta ainda a antes de ARISTÓTELES, mas foi sobretudo este que na sua Política no-la transmitiu com mais rigor descritivo e crítico, tendo-se mantido através dos séculos, sem que outra melhor até hoje a tivesse vindo substituir. E o mesmo pode ser dito das também bem conhecidas formas degenerativas ou doenças que acompanharam sempre de perto aquelas três formas de Estado e se chamam, respectivamente, a demagogia, a oligarquia e a tirania

...«Qualquer que tenha sido o valor atribuído pelo Estarigita a estas três formas de Estado num critério de preferência, questão que para o nosso ponto de vista é aqui indiferente, o inegável é que ele as tomou sempre como base, como arquétipos ideais na sua pureza, ao descrever-nos a organização das repúblicas antigas, mesmo quando teve de verificar que as realidades do seu tempo já não lhes correspondiam. Não devemos confundir os dois pontos de vista.»

...«Deve notar-se que na base desta divisão tripartida está em ARISTÓTELES sempre o critério, não da origem ou legitimidade do poder, coisa que não o preocupou, mas o da entidade que de facto, o detém. Trata-se dum critério de como as coisas são e se apresentam, e não de como elas devem ser. Quanto à legitimidade, esta, que se pode dar em todas, afere-se apenas, segundo em ARISTÓTELES se depreende, pela sua capacidade de realizar o bem e a utilidade de todos, tanto da cidade como dos cidadãos. Além disso, deve também notar-se que a monarquia aparece, as mais das vezes, designada em ARISTÓTELES por basileia (βασιλεία) que quer dizer reino. Também para ele aquilo que nós entendemos por democracia é antes designado por πολιτεία, reservando a palavra democracia para aquilo que nós apelidamos demagogia como forma corrupta ou degenerada da primeira.»

...«Por último, uma outra consideração se impõe ainda aqui fazer, embora com um carácter nimiamente hipotético. Queremos referir-nos à diferença de significação semântica dos dois étimos que como sufixos ARISTÓTELES utiliza para distinguir o governo de um, do governo de poucos, e do de todos os cidadãos ou da demos: arquía e kratia. Assim, enquanto que para a primeira forma de Estado (a monarquia) utiliza o sufixo αρχία (do verbo αρχώ que significa, antes de tudo, ir ou estar à frente, ser o primeiro), utiliza para a terceira, bem como para aristocracia o sufixo ϰρατία (do verbo ϰρατέω) que, derivado de ϰράτος (força), significa mais propriamente dominar, exercer o poder pela força, etc. Esta circunstância, se admitirmos tão rigorosa diferença de significações entre os dois étimos, talvez possa concorrer para nos convencer de que, enquanto a democracia é uma verdadeira forma de Estado, a monarquia não passaria, porventura já para ARISTÓTELES, de uma simples forma de governo: aquela em que um só, o rei, o basileus, se encontra à frente do governo da cidade, sem se dizer donde ele tira o poder e se o detém como próprio ou como derivado. Esta interpretação é ajudada ainda pelo facto de todas as palavras da origem grega, que conhecemos, em que entra o mesmo étimo άρχή como prefixo, terem idêntico significado; por ex. archonte, arcebispo, arquimandrita, arquétipo, etc. A palavra que significaria melhor a ideia do poder radicado nas mãos de um só homem seria , pois, a de monocracia, μονοϰρτία, em vez de μοναρχία, que aliás, deve dizer-se, o Estarigita na sua Política não emprega.

E, assim, em resumo, na democracia, segundo nós, o poder estaria, por direito próprio, nas mãos da generalidade dos cidadãos (penes populum); na oligarquia seria apenas exercido por poucos à frente do Estado; na aristocracia estaria radicado, também por direito próprio nas mãos dos melhores, só por serem os melhores e os mais justos; na monarquia seria exercido também por um à frente do Estado; e finalmente, na monocracia, paralelamente à democracia, o poder estaria radicado também nas mãos de um só, mas agora por direito próprio. Exemplos deste último caso, porém, só os conhecemos nas antigas monarquias orientais e nas nossas monarquias absolutas de direito divino da Idade Moderna, derivadas estas últimas da concepção hebraica do poder real como carisma, que tanta influência exerceu sobre as ideias monárquicas da civilização europeia. Na linguagem de ARISTÓTELES cremos que estas últimas só poderiam classificar-se como forma corrupta da monarquia, ou seja, como tirania. Não entram, porém, nesta categoria as antigas monarquias limitadas da nossa Idade Média, nem as constitucionais parlamentares do século XIX, em que o poder do rei não era considerado autónomo, de origem transcendente, mas derivado da comunidade. Nelas a democracia facilmente se combinava, já com as velhas estruturas corporativas e feudais (rex eris si recte facies), já com as ideias do liberalismo derivado da Revolução Francesa (soberania nacional). É por isso que dizemos ser a monarquia, não a monocracia, uma simples forma de governo e não uma forma de Estado

...«E assim, encurtando razões, podemos também nós dizer com os gregos, muito simplesmente, que a democracia nada mais é senão precisamente aquela forma de Estado em que de qualquer maneira o povo, isto é, a generalidade dos cidadãos, é o detentor do poder. Por outros termos: aquela forma de Estado em que, de qualquer maneira, tiver lugar uma intervenção ou participação do povo, por direito próprio, no governo da cidade...«Por «direito próprio» queremos entender neste caso um direito que não pode ter outro suporte -- digamos assim -- senão o povo ou a generalidade dos cidadãos.»...«Esta doutrina tem em teoria política o nome bem conhecido de doutrina da soberania popular, fonte de inúmeros equívocos e controvérsias. Antes de ser um dogma ou um mito ideológico, foi um facto, ou uma conquista de facto, nas histórias das democracias na sua luta contra outras formas de Estado, nomeadamente, a monocrática

«Mas tendo as coisas esta simplicidade, como acabamos de ver -- reduzida a ideia de democracia a este núcleo simples e fundamental, sem nos importarmos com as mil formas históricas que ela tem revestido, nem com os múltiplos elementos de ordem institucional e ideológica que sempre a têm acompanhado -- imediatamente teremos de reconhecer não fazer sentido algum falar a seu respeito de crise. Parece-nos isto por demais evidente. Valiosa ou desvaliosa, verdade ou erro, encontramo-nos aí diante de uma ideia ou representação mental extraída da observação de inúmeros factos históricos, relativa a determinada forma de organização das sociedades, e nada mais. Poderia indiscutivelmente dizer-se outro tanto da monarquia ou da aristocracia como puras ideias, se nos ocupássemos delas.»...«A ideia de democracia é tão susceptível de crises como a de monarquia ou aristocracia, como a de capitalismo ou comunismo, como a de vertebrado ou mamífero. As crises, sabe-se, são só dos homens no seu particular modo de quererem e tentarem realizar as ideias.» ...«No «céu inalterável da ideia», aí onde, como diria o poeta, a razão é a «irmã do amor e da justiça», não há crises. As coisas, os objectos e pensamentos, e assim também as estruturas da organização política das colmeias humanas são o que são. Podem umas ser mais valiosas que outras, segundo o critério das nossas preferências doutrinais e ideológicas. Isto será, porém, outra ordem de ideias. Tais simpatias ou antipatias serão sempre indiferentes no ponto de vista, axiologicamente neutro, da realidade e do pensamento que o exprime.

Eis tudo o que nos parece lícito dizer acerca da democracia se apenas, já histórico-empiricamente, já fenomenologicamente, a encararmos no primeiro dos três aspectos que acima descriminamos. Depois disto, querer ainda afirmar seja o que for sobre o modo como o povo deve intervir na governação do Estado -- se directa, se representativamente, se mediante sufrágio universal ou restrito, se por meio de sufrágio de base individualista ou orgânico-corporativa, se através de outras organizações infraestatais ou inclusive de partidos únicos, massas sublevadas, hipnotizadas ou sonâmbulas -- já não pertence a esta parte do tema. Como tão pouco pertencerá aqui a discussão sobre a propriedade e conveniência dos melhores meios técnicos e técnico-jurídicos para a democracia se organizar, tais como poderão ser, por exemplo, o regime parlamentar ou constitucional, a república ou a monarquia, os diferentes sistemas eleitorais, a competência deliberativa ou apenas consultiva das assembleias populares, etc. Incluir aí essas questões seria praticar uma deplorável ignoratio elenchi. Tais problemas, que neste estudo não chegaremos a tratar, só podem ter o seu lugar na última parte, na chamada política da democracia.» L. Cabral de Moncada

Francisco Cabral de Moncada

MACHADADA NA CULTURA

Recebi hoje, por correio tradicional, uma carta que, como amante da Sétima Arte, me impressionou bastante. É igualmente um sinal do estado a que o Estado chegou. Deixo aqui o link para a referida missiva on-line. Ora clicai aqui, Amigos Cinéfilos.

Post Scriptum: O «Aviso sobre o Programa de Abril», que também me foi enviado hoje, pela Cinemateca Portuguesa, traz ainda mais uma mão-cheia de más notícias.

APOSTAR NA FAMÍLIA, CONSTRUIR O FUTURO

terça-feira, 29 de março de 2011

DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA III

Os portugueses têm, na sua matriz genética, a raríssima capacidade de reinterpretar, infinitamente, temas das suas ancestrais raízes europeias, captando-lhes o espírito e dando-lhes renovados sentidos.

DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA II

Um só tema pode dar origem a diversas variações de múltiplos autores.

DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA I

A obra de um autor pode ser composta totalmente por infinitas variações sobre um só tema.

DEVERES SIMPLES DE UM HOMEM DE DIREITA

Trabalhar, casar, ter filhos e educá-los nos valores tradicionais, para que a família e a nação continuem vivas.
O resto são conversas.

PARAR E PENSAR A CIDADE

O Príncipe Carlos de Inglaterra está em Lisboa. Bom seria que O consultassem para efeitos de Arquitectura e Urbanismo. No entanto, cheira-me que os nossos edis não estão para aí virados. A propósito, destaco um oportuno e certeiro texto de António Rosa de Carvalho, o qual sugiro ser complementado com a leitura dos artigos de Francisco Cabral de Moncada sobre Arquitectura Tradicional.

segunda-feira, 28 de março de 2011

EXPRESSO DO OCIDENTE

Quarta-feira, 23 de Março

Os meus concidadãos não se deram ainda ao trabalho mas estimo que vale a pena fixar esta data: 23 de Março de 2011. No parlamento, o anunciado chumbo do PEC IV poderá significar que muito em breve, talvez para finais de Maio, não teremos que voltar a aturar os estados de alma e as aldrabices do "engenheiro" Sócrates e do seu fiel escudeiro das Finanças. Sem esquecer o ministro Santos Silva, figura insubstituível que está para as crónicas políticas como Paulo Futre está para a stand-up comedy desportiva. Já era de facto hora de varrer esta gente… Por uma questão de elementar justiça devemos de qualquer modo fazer notar que, por uma vez, o "engenheiro" se aproximou do sentir da generalidade dos portugueses: uma vez iniciado o desinteressante e arrastado debate parlamentar que conduziria à sua queda, logo Sócrates se meteu a andar em atitude copiada de imediato por Teixeira dos Santos e pelo yes-man Silva Pereira. Os comentadores de referência apressaram-se a reprovar a atitude deselegante mas eu, desta tribuna e uma vez sem exemplo, declaro-me compreensivo para com o nosso (ainda) primeiro: evitar a audição daquelas 230 criaturas e as respectivas banalidades e português sofrível é do mais elementar bom senso, podendo mesmo revelar-se determinante para a manutenção de alguma sanidade mental.

Sexta-feira, 25 de Março

Dia gordo! Depois de há pouco mais de 24 horas ter despachado (e bem) o governo com o argumento, entre outros, de que o dito se preparava para nos subir mais uma vez os impostos, as extraordinárias cabeças que lideram o PSD iniciam uma correria pela imprensa para nos transmitirem que, daqui por mês e meio e uma vez abichado o tacho, vão escalar o IVA até aos 25% entre outros saques de menor monta. É isto o "arco constitucional", meus senhores, uma delícia de gente séria! A notícia corre depressa pelas gazetas, que dão conta em paralelo das declarações da "senhora" Merkel no final da afamada Cimeira. Lá das Europas e com aquele ar de pai a quem esta semana não dá jeito pagar a semanada, afirma a chanceler alemã que os partidos portugueses têm que fazer isto e aquilo, além de tudo o mais que nos próximos meses lhe possa passar pela cabeça. Soa muito mal, sobretudo para quantos, como eu, não só nunca apararam o golpe da cavalgada imparável do federalismo europeu como sempre se bateram por um referendo ao dito regabofe. Para os restantes, que são a larga maioria que há trinta anos sufraga tanto gerente incapaz, a voz de comando alemã tem o mérito de lembrar que já não mandamos em coisa nenhuma, muito menos na carteira. Ou seja, a Soberania foi-se e, lamentavelmente - digo-o pela experiência e pelas sondagens que vamos conhecendo -, não creio que venha a ser nas urnas que a possamos recuperar. A cereja no topo do bolo é ouvir o dr. Durão Barroso a secundar o alto comando germânico, ele que como é sabido não só é de boas contas e promessas como nada tem a ver com o desgoverno lusitano. Escrevam o que vos digo: vamos acabar na Merkel… Como o dia marchava abençoado, a imprensa encarrega-se de nos dar mais duas boas notícias: o novo assessor político de Cavaco Silva é filho de Jaime Gama e - estão bem sentados?… -, Armando Vara recebeu uma simpática indemnização de meio milhão de euros (mais uns trocados) pela saída (forçada por boas razões, como é do conhecimento das massas…) da gestão executiva do BCP. Quem é que nos ensinou em pequeninos que a vergonha na cara era uma virtude, quem foi?...

Domingo, 27 de Março

Ocupo o tempo com a leitura de "Um Promontório em Moledo - Crónicas de um Reaccionário Minhoto", um conjunto de textos de António Sousa Homem recentemente editados pela Bertrand e com a virtude de mostrar na capa uma fantástica fotografia de uma das mais bonitas praias lusitanas. Se aqui o digo é por duas razões: faço questão de partilhar as boas descobertas com os amigos e, não sendo bastante, há muito Portugal naquelas páginas. Fim de dia em Domingo de eleições cantonais em França (segunda volta) e estaduais na Alemanha. Conforme aqui escrevi há umas semanas, confirma-se o óbvio: a chanceler que nos quer ditar as horas a que podemos fazer xixi vai coleccionando derrota atrás de derrota, desta feita esmagada no Baden-Wurttenberg, Estado que a CDU governava há mais de meio século. Estou cheio de pena… Já de França chegam notícias arejadas, confirmando-se a tendência de subida de Marine Le Pen, com a eleição de dois Conselheiros Gerais, a somar a todas as sondagens que por agora lhe garantem presença na segunda volta das presidenciais de 2012. Não é que se note por cá, mas é sempre bom verificar que há povos que ainda não perderam totalmente a capacidade de indignação.

Pedro Guedes da Silva

domingo, 27 de março de 2011

DO DESVARIO EM QUE ANDA O MUNDO

Foram avistados ontem dois tubarões no Guincho.*

*Não, não é uma metáfora sobre o caótico mundo contemporâneo. Aconteceu ontem a um grupo de surfistas onde estava a filha de amigos meus. Felizmente, não aconteceu nada de trágico, além dum valente susto. Parece mentira, mas é verdade.

NOTA EDITORIAL

Os textos aqui publicados que não sejam da minha autoria, à semelhança do que já se faz com os dos convidados semanais, passarão também a não ter itálico. Os nomes dos autores figurarão sempre no fim a negrito; e, simultaneamente, em caixa alta e com os anos de nascimento e morte entre parênteses, quando o escritor já não se encontrar no reino dos vivos. Pretende-se com isto dar maior fluidez à leitura do blogue e harmonizar o aspecto gráfico do mesmo.

É POSSÍVEL FAZER-SE UMA REVOLUÇÃO ESPIRITUAL?

Mircea Eliade, partindo da análise do caso português, desenvolve uma tese onde conclui que sim. Graças a Deus, ao fim de quase 70 anos, a sua fundamental obra Salazar e a Revolução em Portugal foi vertida para Língua Portuguesa. Lê-la dá-nos esperança para o Futuro.

PODEMOS PASSAR AO LADO DA PRIMAVERA?

Com o tempo da Quaresma começa para os cristãos o acordar da Primavera. Na natureza já não se conseguem esconder os sinais da sua presença: das árvores de grande porte à mais singela flor tudo parece despertar da penumbra do inverno. Sentimo-nos como naquela passagem da Carta aos Hebreus, que diz: «estamos envolvidos por uma nuvem de testemunhas». De facto, o grande alvoroço de vida com que a criação, a nosso lado, se reveste, constitui um desafio que vai directo ao interior de nós. Podemos passar ao lado da Primavera sem reflorir?

Padre José Tolentino de Mendonça

sábado, 26 de março de 2011

CATARINA SAYS...




amor é quando a gente mora um no outro...
(daí sentirmo-nos em casa)



- trim trim


- quem é?


- sou tu. posso entrar?


- se és eu, já estás cá, entraste.


- venho lembrar-te que um dia vamos passear de balão.


- vamos. ver o mundo com os nossos olhos, de cima do alto.


- é o balão que nos leva na mesma direcção.


- quero ir contigo prò mundo seja em que direcção for...quero tu porque tu és eu.


- o mundo contigo será melhor, porque nos cumprimos num só.


- onde me viste?


- sempre por aí..


- onde me achaste?


- no lugar de sempre, onde estavas.


- o que mudou?


- foi o vento, e a estação do tempo.


- nada mudou afinal, tudo está igual, porque eu sempre soube. e agora contei-te o meu segredo.


-então foi isso que mudou..


-sim, acrescentou-se foi isto.


- isto é nós.


-é. nunca de mais até.


- amo-te. de sempre.


-amo-te. p'ra sempre.


Catarina Hipólito Raposo

sexta-feira, 25 de março de 2011

SINOPSES BIO-BIBLIOGRÁFICAS DE INTEGRALISTAS LUSITANOS ESQUECIDOS

Augusto da Costa nasceu em Setúbal em 1899 e morreu em Lisboa em 1953.
Iniciou muito cedo produção literária, publicando nos jornais Cegarrega, Mundo Moral e Setubalense a partir de 1911. No ano de 1918 já era director de A Monarquia, jornal do Integralismo Lusitano, Movimento em que militava. Novelista de fôlego, publicou muitas dessas suas obras nas revistas Bertrand, Civilização, Notícias Ilustrado.
Desde sempre se preocupou com temas económicos e sociais e tornou-se Secretário da Presidência do Conselho em 1933. Foi um dos principais teóricos do Corporativismo e contribuiu decisivamente para a legislação que implantou em Portugal o Regime Corporativo. Destacou-se também como membro do Instituto Nacional de Trabalho e Previdência. Ao mesmo tempo que dirigia os Cadernos Corporativos, colaborava com o Jornal do Comércio e das Colónias, o Diário da Manhã e o Século Ilustrado.
Foi ainda um dos fundadores do Círculo Eça de Queiroz.
Dos livros que escreveu, destaco: Fogo de Palha (teatro); Crepúsculo dos Deuses (estudos sociais); A Nação Corporativa; Apologia do Império Português; Portugal, Vasto Império; Factos & Princípios Corporativos; Linha Quebrada (novelas); Código do Trabalho; Portugal e Inglaterra; Problemas do Tempo Presente; As Inocentes (romance); Meridiano de Lisboa.

COMUNICADO

DIA DA VIDA NASCENTE


Hoje (25 de Março) por todo o Mundo (e muito em especial na Europa), celebra-se o Dia da Vida Nascente. Hoje por todo o Mundo, atenta-se contra milhares de vidas que estão por nascer com a conivência de Estados, Leis e Sociedades. Hoje por todo o Mundo, Movimentos, Instituições e ONG’s lutam pelo Direito à Vida. Hoje por todo o Mundo, apela-se ao primado dos Direitos Humanos onde o Direito a nascer e à vida são os primeiros. Hoje por todo o Mundo, a Vida Humana e os Movimentos Pró-Vida hão-de ganhar mais um passo no caminho da dignidade do Homem e da cultura do Amor. Hoje por todo o Mundo, a contradição gera a Esperança. Hoje por todo o Mundo, celebramos todas as Vidas no Dia da Vida Nascente.


P’la Direcção da Federação Portuguesa pela Vida


Isilda Pegado

DAS ÁRVORES E DAS PÁTRIAS

As Árvores e as Pátrias querem-se antigas e grandes.

BLOGUE DO DIA (142)

quinta-feira, 24 de março de 2011

DEUS, PÁTRIA E REI

Sem Deus e a Pátria, para a Filosofia política portuguesa, o Rei é um fantasma, uma sombra, carimbo ou chancela, títere ou absurdo.
Onde falta Deus, o Rei é como uma árvore sem raíz, casa sem alicerce, poder sem legitimidade; onde falta a Pátria, o Rei não tem razão de ser, porque precisamente o conceito de Pátria é incompleto, se lhe falta aquilo que torna indispensável a existência da Realeza hereditária.
Estas três verdades são irredutíveis; porque se, sem Deus, a Pátria é um mito, sem o Rei, nem o poder de Deus encontra o seu legítimo executor, no mundo da Política, nem a Pátria possui o elo que prende eficazmente, através dos tempos, as gerações, e as torna solidárias ou colaboradoras na procura normal dos seus destinos. É por isto que me oponho sempre ao lugar-comum estafado da «Pátria ao alto!», muito da predilecção de certos pataratas, e não considero doutrinariamente monárquico o que o repete e aplaude.
(...)
E rejeito o lugar-comum, não porque subalternize a Pátria, é evidente; mas porque não distingo a Pátria da Realeza, visto a Pátria portuguesa ter sido obra da Realeza hereditária.
Há quem não goste de que se diga isto e de que se escreva isto. Mas os que não gostam fariam melhor se, em vez de não gostarem, estudassem a História do seu País...
ALFREDO PIMENTA
(1882 — 1950)

quarta-feira, 23 de março de 2011

SEM AGENDA






O Urbanismo Modernista e o Novo Urbanismo (Parte III)

Terminada a II Guerra Mundial e nos anos que se seguiram, o urgente esforço de reconstrução do território europeu, principalmente as suas muitas cidades devastadas pelo conflito, traduziu-se numa série de programas de investimento a larga escala nos países mais afectados, como foram a Inglaterra, a Alemanha, a França a Bélgica e a Holanda. Nesses países, assim como, de uma forma geral e pelo menos em certa medida, nos outros países europeus ocidentais menos ou nada atingidos, como foi o caso português, esse enorme esforço, que se prolongou na verdade, ininterruptamente, por cerca de três décadas com o patrocínio maioritário de Estados-providência, foi um processo altamente dinâmico em que as sempre crescentes necessidades de novos alojamentos se ficaram a dever não só às destruições da guerra mas também ao aparecimento continuado de importantes mudanças demográficas tais como superiores natalidades e menores mortalidades, a desruralização progressiva, a mudança dos hábitos familiares e os novos movimentos migratórios.

Naquela primeira conjuntura de emergência, após a guerra, os decisores responsáveis pelo planeamento urbano em cada país abraçaram, qual solução fatal e milagrosa, de uma forma geral e com variações geográficas nas suas formas de concretização, o essencial da doutrina da Carta de Atenas (CIAM, 1933), ou seja, o já mais que uma vez referido (na Parte I e na Parte II deste texto) zoning, que passou a ser, de facto, por substituição das legislações anteriores, a regra geral do urbanismo oficial no pós-guerra. E apesar de todas as evidências que o têm vindo a desaconselhar cada vez mais, o zoning tem sido ciosamente conservado nas legislações nacionais até aos nossos dias. De facto, o típico ambiente construído resultante da sua aplicação, que numa primeira fase de novidade se apresentou como paradigma de progresso e de excitante modernidade, é hoje e de há já muito de todos bem conhecido e experimentado e caracteriza-se precisamente pela aflitiva falta de carácter cívico e urbano, de escala e de qualidade estética necessárias ao equilíbrio humano, de real funcionalidade e sustentabilidade. O tipo de redes viárias desenhadas quase exclusivamente para supostamente satisfazerem os requisitos funcionais do tráfego automóvel entre zonas funcionais separadas - a habitação, o trabalho, a cultura e lazer, etc. - obrigam na verdade, neste sistema, a constantes, penosas e anti-económicas deslocações pendulares e constituem, frequentemente, barreiras físicas inconvenientes dentro da própria cidade.

Por outro lado, as tipologias urbanísticas mais adoptadas (sumarizadas, grosso modo, no modelo "britânico", mais ligado à tradição da Cidade-Jardim, e no modelo "continental", mais directamente tributário das orientações da Carta de Atenas) ignoraram ambas o carácter da rua e da praça tradicionais - não só funcional, de usos mistos, como morfológico e simbólico, de espaços públicos claramente definidos e limitados não só pelos edifícios utilitários e privados como também por alguns edifícios públicos e monumentais, com hierarquia e critério paisagístico. O abandono do modelo tradicional de ruas, praças e quarteirões e o recuo sistemático das construções, ou dentro de lotes ou em espaços abertos, muitas vezes apenas servidas por acessos desligados (os cul-de-sac), conduzem com demasiada frequência à bárbara fragmentação do espaço (sub)urbano, pela multiplicação aparentemente arbitrária das mais variadas construções (circulemos pelo eixo Norte-Sul de Lisboa ou pela VCI do Porto, p. ex.), originando ambientes por força desorientadores e desumanos.

A primeira contestação parcial da Carta de Atenas surgiu dentro do próprio Movimento Moderno, já na década de 50, com o fim dos CIAM - Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna, seguido mais tarde pelas vozes dissonantes de vários autores considerados já pós-modernistas, como foi o caso do arquitecto italiano Aldo Rossi, (autor do livro L'Archuitettura della Città, 1966) com a sua crítica da contemporânea falta de compreensão da cidade como artefacto humano construído com o tempo, portador de uma memória, e da importância decisiva dos monumentos e do carácter morfológico dos espaços públicos, mormente a rua e a praça, nesse contexto. Mais radical ainda, no pôr em evidência o valor deste último aspecto das morfologias urbanas, foi o arquitecto luxemburguês Robert Krier, irmão mais velho de Léon Krier, no seu influente livro Stadtraum in Theorie und Praxis, 1975. Contudo e como atrás referi, de uma forma geral o decisivo e nefasto zoning, pela sua própria lógica irreformável, incompatível e hostil à cidade tradicional, foi continuando a vigorar nas legislações e na prática.

Paralelamente, no entanto, a cidade tradicional europeia e os seus insubstituíveis valores vivenciais, nunca deixaram de estar presentes nas intenções de muitos arquitectos e urbanistas, por norma ignorados, para não falar já das suas presenças na vida vivida ou no coração da esmagadora maioria dos cidadãos. E começaram também a surgir, com o tempo, notáveis exemplos de novas e inovadoras iniciativas particulares de inspiração tradicional, ao arrepio das políticas oficiais modernistas e da ortodoxia cultural "urbanística e arquitectonicamente correcta". Entre outros projectos urbanos pioneiros e dignos de menção, ocorre-me referir os dois seguintes, a título de exemplo:

A nova vila marítima provençal de Port Grimaud, pelo francês François Spoerry, 1964;

e o Pueblo Español, em Palma de Maiorca, que é uma espécie de resumo da Espanha concentrada num bairro, muito à semelhança do nosso Portugal dos Pequenitos mas em ponto grande, pelo arquitecto espanhol Fernando Chueca Goitia, 1965.

Em 1984 teve início o notável conjunto urbano de Richmond Riverside, no Rio Tamisa, pelo inglês Quinlan Terry, e a 30 de Maio do mesmo ano o Príncipe Carlos de Inglaterra proferiu em Hampton Court um célebre discurso, também conhecido pelo "the carbuncle speech", que imprimiu sem dúvida um importante impulso ao mais recente movimento de afirmação da arquitectura e do urbanismo tradicionais na Europa. Em 1988, Léon Krier - que tinha estado na Florida com Andrés Douany, onde com este concebeu e lançou a construção da nova vila de Seaside, para além da infuência que exerceu no surgimento do novo movimento New Urbanism, na América - desenhou o plano geral da nova cidade de Poundbury, no Ducado de Cornwall, no Dorset, com o patrocínio do Príncipe Carlos, a qual tem vindo a ser, desde o início da sua construção, em 1993, e até agora, quando ainda só está completada cerca de 30% da sua dimensão total (de 4 bairros autónomos integrados) com conclusão prevista para 2025, um caso paradigmático de sucesso e uma das principais referências do renovado urbanismo de inspiração tradicional a nível europeu.

Detendo-me um pouco no caso de Poundbury, que é uma extensão da pequena cidade de província de Dorchester, e citando um texto de apresentação do Ducado de Cornwall, observa-se que a sua filosofia...«não diz só respeito à arquitectura, como muitas vezes se pensa;...a sua ideia central é que um projecto desta dimensão deverá incluir não apenas casas e apartamentos mas também locais de trabalho, lojas, escolas, locais de lazer e encontro comunitário - delicadamente organizados, ao contrário da maior parte dos mais recentes programas de habitação, sendo para tal necessário que os projectistas consigam criar paisagem natural e urbana e um sistema de ruas e espaços públicos que possam encorajar o crescimento de uma comunidade integrada». O mesmo texto apresenta dez princípios estratégicos de actuação que incluem preocupações tais como a compreensão e integração no lugar; a hierarquia a considerar entre os edifícios e os significados relativos dos seus elementos; a escala humana dos edifícios; a harmonia dos edifícios entre si e com o ambiente; a contenção física das fronteiras do conjunto e dos espaços urbanos definidos (ruas, praças e largos); a utilização exclusiva de materiais naturais da região, não estandardizados; uma decoração artesanal que realce a singularidade de cada edifício; um tratamento artístico generalizado, com simbolismo e significado; a escolha criteriosa da sinalética e da iluminação; e por último, mas muito importante, a promoção do sentimento de orgulho e de participação da comunidade, desde o início.

Tal como no caso do New Urbanism, na América, o almejado ressurgimento da cidade europeia será pautado, como temos visto - apesar das diferenças ditadas pelas respectivas tradições culturais - pelos mesmo conjunto nuclear de princípios básicos, ou seja, a criação de comunidades integradas e participativas, idealmente com variedade sócio-económica, cultural e etária, através de vizinhanças e bairros bem definidos e minimamente autónomos, com usos mistos e não só a habitação, com dimensões ditadas pela facilidade geral de acesso pedonal ao centro (tempo típico de acesso não superior a 5 minutos), e com prioridade para o peão sobre o carro; os tipos de malhas urbanas, espaços públicos, escalas, arquitecturas e materiais, são também, naturalmente e de preferência, os da cidade tradicional, não por qualquer arbítrio de cariz ideológico ou meramente estético, mas porque sempre se têm revelado, de facto, os mais eficazes, sustentáveis e humanos.

Hoje em dia, a corrente do urbanismo e da arquitectura neo-tradicionais forma já uma apreciável rede mundial integrada, com mútua influência entre os seus dois grandes polos americano e europeu. Uma panorâmica do seu desenvolvimento recente na Europa, ainda minoritário relativamente às correntes modernistas dominantes, apesar dos progressos, pode ser vista, por exemplo, no sítio electrónico do forum internacional A Vision of Europe, sedeado em Bolonha. Pelas suas realizações até agora, a frente e o grosso do movimento tem-se distribuído por Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Espanha.

Como se observa, Portugal situa-se ainda bastante na cauda desses progressos. Até quando?

Francisco Cabral de Moncada

UMA MIÚDA DA MINHA GERAÇÃO (23)

Anne Roussel.

MAL NACIONAL

Perna curta e vistas curtas.

UMA MIÚDA DA MINHA GERAÇÃO (22)

Emmanuelle Seigner.

DAS ACÁCIAS DO JAPÃO

Paira em Lisboa um delicioso aroma fruto da polinização de insectos nocturnos.

UMA MIÚDA DA MINHA GERAÇÃO (21)

Isabelle Pasco.

O 9 SERÁ DE «NOVES FORA, NADA»?

Somos a 30.ª geração de portugueses e descendemos dos fundadores da pátria de há 900 anos.

terça-feira, 22 de março de 2011

... RECORDAÇÕES...

DO FUTURO DO CINEMA PORTUGUÊS

Um País que não tenha uma Cinematografia própria, reconhecida de imediato a olho nu pelos cinéfilos do mundo inteiro através das suas marcas identitárias, não tem futuro. Não se trata de filmar o folclore e de registar as belas paisagens — a publicidade (institucional e comercial) tomou conta desse departamento, para vender o seu peixe, e até o faz bem.

O que quero dizer com isto é que Portugal precisa de fazer um Cinema com uma linguagem autêntica, que corresponda de facto ao modo de pensar e sentir dos Portugueses. O teste parece-me fácil: se o público gostar é porque os filmes são genuínos. Este tornou-se, aliás, o principal problema; as pessoas andam zangadas com os filmes portugueses. Como às vezes sucede na vida, até se zangam com o que desconhecem; mas, cheira-lhes que nem vale a pena espreitar. E — atente-se —, o povo é sábio nos seus instintos, por mais ignorante que possa parecer e — hoje, infelizmente — ser.

O Cinema é uma necessidade cultural do século XXI, como já tinha sido, também, durante todo o século XX — ou, pelo menos, desde que criou, para si próprio, as bases estéticas para se exprimir de forma autónoma em relação às outras Artes (esse nascimento da linguagem cinematográfica deu-se com Griffith, em 1915). Portanto, se um País não for capaz de criar produtos no domínio da maior indústria cultural conhecida, é lícito afirmar-se que está a abrir uma brecha para a entrada de filmes estrangeiros que venham ocupar esse espaço. Não há aqui qualquer nostalgia do tipo «patriotismo da sardinha assada», que, desde sempre, me repugna. Há, isso sim, a consciência de que um Povo só tem futuro se existir culturalmente, e que, sendo o Cinema a maior e mais moderna forma de expressão artística, quem não tem filmes, a que possa chamar seus, é como quem não tem Língua.

Os filmes de uma Cinematografia Nacional reconhecem-se de imediato. Todos nos quedamos fascinados perante o Cinema Clássico Americano (o das décadas de 1930 e 1940), como certamente admiramos — os que o conhecemos… — o Cinema Mudo Alemão e Russo, ou, ainda, nos identificamos com o Cinema Moderno Italiano e Francês, para só falar dos exemplos mais divulgados da História do Cinema.

A estas fitas associamos rostos e corpos — as «estrelas» (do que os americanos chamaram «Star System»). Reside aqui uma lacuna nacional a superar urgentemente: o Cinema Português precisa de novas estrelas, como de pão para a boca. São elas que alimentam os sonhos dos espectadores na sala escura, através de processos de identificação ou negação, amor ou ódio, fascínio ou repulsa (sem entrar em tretas psicanalíticas, que só servem par esvaziar de magia e sensualidade personagens e pessoas). Certo, certinho, é que sem o brilho das estrelas o Cinema não cativa. Uma estrela é mais do que um bom actor. Tem aquele «não sei o quê» que só o espectador, no seu íntimo, sabe reconhecer; e, primeiro do que ele, o realizador — a quem cabe a tarefa de descobrir, revelar e lançar esses seres únicos. Apesar de tudo, Portugal teve já as suas «divas» do celulóide.

Outro aspecto fundamental a não perder de vista são as histórias que estão na base dos filmes. Tecnicamente designados por argumentos ou guiões — após a sua passagem para linguagem cinematográfica —, é nestes que reside o segredo do sucesso das películas.

A propósito, ocorre-me dizer o seguinte: «Pela boca morre o peixe»; isto é, podemos ter uma iluminação magnífica, belos enquadramentos, actores irrepreensíveis, e tudo o mais; mas, se os diálogos forem ridículos — sabem do que estou a falar… —, a fita não tem pernas para andar.

Antes de chegar aos diálogos, no entanto, o tropeção pode ainda dar-se numa outra fase — na história, propriamente dita (aproveito a ocasião para perguntar se alguém sabe porque carga de água é que ultimamente aparece história impropriamente escrita?...). Esta, pode ser baseada numa obra literária (falando-se, assim, em adaptação), ou escrita de raiz (argumento original). Aqui, é obrigatório ter a noção de que escrever para Cinema não é o mesmo do que escrever um livro ou ser-se jornalista… Há toda uma técnica que urge aprender e dominar. Graças a Deus, temos bons exemplos portugueses para estudar.

Se o Cinema é a Arte da repetição (mas essa é outra conversa), aproveito para deixar aqui mais um dito que anda na boca do nosso povo há anos, e que reza mais ou menos assim: «Tendo nós novecentos anos de História, com tantas histórias, porque é que não retiramos daí inspiração para criarmos argumentos para os nossos filmes?». Pois… Não sei, ou prefiro não saber. Mas, é fácil de perceber que a vida de Dom Afonso Henriques daria uma extraordinária longa-metragem, com todos os ingredientes de que os espectadores gostam: um herói, acção, aventuras, perseguições, sexo, amor, batalhas, viagens, paisagens, mistério, segredos, traição, ódio, sangue, e por aí fora… Já que estamos lançados, aproveito para lembrar que todo e qualquer um dos nossos Reis daria um filme de fundo bom em qualquer parte do planeta. Não é exagero, é uma convicção formada no visionamento e análise de centenas de filmes históricos. Um possível slogan para estas películas de época seria: «Oitocentos anos de Monarquia são a nossa garantia».

Pelo meio — entre as histórias, que se escrevem e planificam a fim de passarem a imagens em movimento com som e tudo, e as estrelas, também já nossas conhecidas, que brilham na tela — ficam os recursos técnicos de várias áreas estéticas: imagem, som, montagem, direcção artística (cenários e guarda-roupa). Nestas matérias, não julgo haver problemas de maior. Afinal, temos dos melhores profissionais do mundo nestes ofícios artísticos. Bem sei que alguns andam lá por fora a lutar pela vida, mas talvez regressem para ajudar a criar, definitivamente, uma Indústria de Cinema em Portugal. Havendo mercado, haverá dinheiro e remuneração condigna para quem a merece.

Falemos então agora de mercado, palavra que aparentemente não cola com Arte. Mas se não casar é que é o diabo, pois a Arte ficará solitária e estéril… É chegada a hora de deitar fora todos os preconceitos contra a relação dos filmes com o público. As fitas só têm razão de ser na medida em que comuniquem com as pessoas e que estas se revejam nas películas. Tudo isto pode — e deve — ser feito sem cedências de carácter artístico. Um bom filme deve ser fruído por toda a gente (note-se que o público não é uma massa e é composto por indivíduos de culturas e sensibilidades distintas), com prazer e proveito, à medida dos seus apetites estéticos, ou, simplesmente, lúdicos.

Entendamo-nos: os mais simples contentar-se-ão com a superfície do filme, os mais atentos mergulharão na história, e os mais exigentes tirarão as suas próprias conclusões. As grandes fitas estão assim construídas. São feitas a pensar em todos, mas à medida das necessidades e capacidades culturais de cada um.

É tudo tão simples que quando oiço para aí certos pequenos e médios intelectuais da nossa praça a escreverem palavras extraordinárias sobre Cinema, que só servem para complicar o que é claro como a água límpida, até me arrepio todo.

Finalmente, guardei ainda um pouco de tinta para falar de financiamentos. Embora Portugal tenha hoje — mais do que nunca — uma burguesia burgessa, inculta, e pouco dada a investimentos culturais (salvas raríssimas e honrosas excepções), é aí — apesar de tudo — que reside a esperança para um salto de escala da produção nacional. Os cineastas do futuro terão de libertar-se dos subsídios, e começar a pensar na preparação dos seus projectos com outras mais saudáveis engenharias financeiras. Todas as grandes Cinematografias estrangeiras (tirando a Soviética) se edificaram sobre uma estrutura económico-financeira empresarial privada. Já tinham reparado nisso?

E, por aqui me fico, antes que ofenda alguma alma mais sensível de algum confrade cinéfilo...

Apesar de todo o meu desgosto, atrás expresso, em relação ao actual panorama do Cinema Português (sendo sério, não poderia ter dito outra coisa), a minha esperança é muito maior do que o meu pessimismo e acredito no surgimento, no século XXI, de uma Indústria de Cinema em Portugal (feita por portugueses, mas aberta às co-produções lusófonas e europeias) capaz de produzir obras suficientes, em qualidade e quantidade, para serem exportadas para o planeta inteiro, superando barreiras linguísticas com boas traduções e legendagens, e, especialmente, tratando assuntos que cativem os públicos mundiais pela sua originalidade e identidade.

Em frente, Cineastas do meu País!

UPSTAIRS

segunda-feira, 21 de março de 2011

EXPRESSO DO OCIDENTE

Segunda-feira, 14 de Março
A notícia vai correndo, franjas do país entusiasmam-se: Sócrates falará à Nação pelas 20h00 e algumas almas bondosas mantêm a esperança de que o homem apresente a demissão. Como é evidente, não é esse o argumento da fraca curta-metragem. Convicto de que o seu governo arde em lume brando e de que pior ficará depois de conhecido em todo o seu esplendor o PEC4 - e os que eventualmente se lhe seguissem -, o engenheiro entendeu ser este o momento politicamente mais interessante para se deixar cair e aparentemente assim será: o plano vai ao parlamento, a oposição chumba-o e a criatura, daqui por semana e meia, voltará às televisões com ar de vítima para, então sim, decretar com ar enfadonho mas grave que a oposição não o deixa governar, especialmente agora que "iria aumentar as taxas cobradas à banca" pelo que "assim não há condições para prosseguir o caminho por uma sociedade mais justa e mais solidária". Naturalmente, usará mais meia dúzia de frases feitas mas sem conteúdo, rematando que solicitará ao "Senhor Presidente da República" que "devolva a palavra ao Povo". Feita a declaração - e cá estamos para ver se eu não tenho razão… -, seguirá com o ministro Silva Pereira e uma corte de assessores para a Bica do Sapato (a maior parte dos ministros restantes seriam barrados à porta em face da reserva do Direito de Admissão que vigora na casa), onde degustará algumas das coisas mais simpáticas da restauração ribeirinha enquanto se ri, ele e os demais comensais, da quantidade de malta que daqui por dois meses voltará a sufragar entusiasticamente o PS e as virtudes do xuxalismo democrático.
O que nos leva a outra questão: vão ver os meus caros amigos que, confirmando-se a anunciada marcação de legislativas antecipadas, a maior parte dos nossos patrícios depositará a esperança e o voto nos dois partidos que há mais de três décadas são responsáveis com razoável dose de exclusividade pelo estado a que isto chegou. Não se desse o caso de haver gente que está à rasca e sem qualquer responsabilidade pelas escolhas maioritárias e era caso para dizer que o país tem (e terá) exactamente aquilo que merece. Um case-study para a psiquiatria de massas.
Sábado, 19 de Março
As breaking news não mentem, nada há por estes dias que corra bem ao nosso engenheiro: insensível às amizades dos socialistas portugueses e às necessidades da máquina de calcular do extraordinário ministro Teixeira dos Santos, a coligação militar aliada declara o ataque à Líbia e ao regime de son ami Kadhafi. Por cá, fecha-se mais uma torneira. Por lá, pelos lados dos altos comandos aliados, é toda uma nova oportunidade que se abre. Compreende-se: o complexo militar-industrial andaria fraco de negócios e o presidente Obama, o tal que iria fechar aquela coisa humanitária de Guantanamo e que a fazer fé na esquerda lusitana transformaria o Pentágono num imenso festival de Peace and Love, terá sido sensível à necessidade de transmitir alguma confiança ao sector. Afinal de contas, a Sérvia e o Iraque já vão lá longe e a indústria do humanitarismo aliado não se alimenta a manifestações do bloco… sem dinheiro não há palhaços. De modo que cá vai disto: PUM!
Como bem observou a propósito o meu amigo Bruno Oliveira Santos (que o é também do dono desta recomendável casa que me acolhe às segundas-feiras), "O Nobel da Paz está a bombardear a Líbia. Por este caminho vai ganhar outra vez o prémio."
Domingo, 20 de Março
Mas se Obama é demasiado sensível, outros há que o não são: insensíveis ao facto de, à semelhança dos líbios, também termos que levar com um engenheiro há mais anos do que aconselharia o bom senso e sem que aparentemente tenhamos feito mal adicional que o justifique, as lusas televisões plantaram-se em Viseu para nos massacrarem em formato non-stop com o Congresso do CDS, um partido estimável (de quando em vez…) e onde conto alguns amigos embora ele não conte com o meu voto. A espaços, vou deitando a vista pelo conclave na esperança de uma ideia nova. Nada, zero. Para memória futura ficam as sucessivas lágrimas do dr. Portas que, ao que parece, passou o fim de semana a emocionar-se com os abraços e os elogios característicos do habitual one man show. O mesmo dr. Portas que saneava (e bem!) ministros laranjas ao tempo do Independente e que agora reduziu as suas ambições a três ou quatro pastas ministeriais (com os respectivos assessores), de tempos a tempos, a troco de fazer de muleta do agrupamento laranja - embora a encenação implique que diga o contrário nestas ocasiões de maior fervor clubístico. Diz que é isto a direita portuguesa…
Curiosamente, ao passo que vou espreitando a caixinha que mudou o mundo, ocupo o tempo em simpática sessão de divulgação do melhor que a Direita portuguesa (com letra grande e sem itálico) tem: as artes e as letras. A ajuda num trabalho de casa da minha filha mais velha - onde frequentemente sou forçado a suprir as falhas dos programas de ensino pátrio -, presta-se a uma incursão agradavelmente demorada pela Poesia, pela Portugalidade e pelos aspectos em que as duas se cruzam: percorremos algumas páginas de Rodrigo Emílio e de António Manuel Couto Viana, dois nomes grandes das Letras que felizmente tive o prazer de conhecer e que são convenientemente ignorados pela cultura de mediocridade patrocinada pelo chamado Arco Constitucional e, por maioria de razão, pelos programas oficiais que sucessivamente vão ajudando a formar jovens cada vez mais estupidificados. Ora, convenhamos, eis uma missão de Interesse Nacional que vale muitíssimo mais do que uns milhares de votos no CDS.
Pedro Guedes da Silva

domingo, 20 de março de 2011

PRIMAVERA BOREAL

Primavera, c. 1482
SANDRO BOTTICELLI (1445 — 1510)
Têmpera sobre Papel, 203 x 314 cm
Galleria degli Uffizi, Florença.

NATUREZA E NATUREZA HUMANA

Já sinto outra vez o Equinócio da Primavera no corpo e na alma.

sábado, 19 de março de 2011

CATARINA SAYS...






O Plano alto é afinal, o lugar de todas as viagens.
Aqui se descobre então a linguagem dos deuses....
Hoje era para ser assim, e foi.
Quando os dias se prometem assim, parece mesmo que não caibo em mim.
Os anúncios e os avisos chegam, como telegramas encomendados.
Gozo por antecipação, como me preparando, para nada de nada esquecer, e viver plena aproveitando.
A medida minha transborda e tropeço, tropeço de ternura e alegria, não não tropeço afinal..antes me sinto a voar.
Então com os avisos digeridos, acordo hoje para o dia. Sabendo que ia ser assim.
Acordo contente, e receptiva de braços todos abertos. Venham os presentes, porque eu quero mesmo recebê-los....
Dia do Pai + Dia de Lua Maior + Véspera de Equinócio + Sol que promete brilhar na subida da temperatura...
Como posso não estar contente e cheia de tanto festejo num só dia? Agradecendo e vivendo, ou vivendo e agradecendo...desde logo. Viva me sinto de tanta vida à minha volta.
Fui para a praia, luz solta, em nada contida. O mar em chão azul que varre a areia, as ondas estão descansadas. O cheiro que estava guardado daquela praia desde o Verão..bebo cerveja e rio-me, entrego.
Volto para casa, com um fito: vou então procurar a Lua.
O céu estava desenhado, como se um cenário fosse, estrelas por todo o lado suspensas que aplaudem, e eu olho-a, A Lua Maior majestosa e segura.
Estou aqui para que me vejas, parece dizer-me em segredo. A infinitude da Lua, posta em mim naquele momento.
Tem dias assim que nos sentimos imortais, porque perpétuamos em sentimento a beleza das coisas simples.
Tem dias que nascem para nos mostrar que a alegria nos faz maiores.
Festejo a vida, que me acolhe num abraço sem fim.
Catarina Hipólito Raposo

PORTUGAL ESTÉRIL

Noutros tempos, nascia-se e morria-se na mesma casa. De lá, saía-se para dar-se a volta ao mundo; mas, lá se regressava sempre. Depois, voltava-se a saír, para casar, mas retornava-se, com netos — muitos! —, para as festas de família; e, a casa ia renascendo, geração após geração.
Agora, passa-se a vida de casa em casa, quais salta-pocinhas, sem rei nem roque, nem filhos à vista. As casas de família deixaram de ser referências para as terras e para os bairros — o povo ficou órfão dos senhores das terras e os bairros perderam as suas mais dinâmicas e ilustres personagens.
Isto não é fantasia. É — desgraçadamente! — a realidade, nua e crua, e passa-se do Minho ao Bairro Alto. Em trinta gerações de portugueses, contam-se hoje pelos dedos as casas que atravessaram o século XX nas mesmas famílias; e, sem estas âncoras, as comunidades abriram portas à desorganização e ao caos, substituindo o alto exemplo das famílias tradicionais pelas novas referências exóticas, sub-urbanas e pequeno-burguesas da televisão.
É o fim.

PORQUE É O MEU SEGUNDO DIA DO PAI SEM PAI MAS O PRIMEIRO COM TRÊS FILHOS

DIA DO PAI

Dia do Pai, porque Dia de S. José, marido da Virgem Santa Maria.
É hoje. Por enquanto, pois estas bestas, que teimam em apagar os Fundamentos Cristãos da Europa, podem sempre lembrar-se de o mudar, como fizeram com o Dia da Mãe.

LUA CHEIA

Às 18 horas e 10 minutos teremos Lua Cheia. Para já, é a vez que estará mais perto da Terra, neste Milénio. Contemplai-a, iluminando o Céu, e inspirai-vos.

BLOGUE DO DIA (141)

Minoria Ruidosa, de Miguel Vaz.
Porque faz hoje dois anos que nasceu. Nessa altura escrevi isto. Agora tenho a certeza que não me enganei. Parabéns! E continuação...

sexta-feira, 18 de março de 2011

COM O JAPÃO NO CORAÇÃO



Uma belíssima composição feita na sequência da catástrofe que abalou o Japão pelo muito cá de casa Ryuichi Sakamoto.

Sirva esta desgraça para vermos os filmes de Ozu, Kurosawa e Oshima, lermos os livros de Kawabata e Mishima e ouvirmos os discos de Sakamoto. Será uma forma de nos unirmos espiritualmente ao Povo do Japão.

quinta-feira, 17 de março de 2011

DO FUTURO DA PÁTRIA

AINDA A PROPÓSITO DA MANIFESTAÇÃO DE SÁBADO, 12 DE MARÇO

PARA PÔR NA AGENDA

quarta-feira, 16 de março de 2011

SEM AGENDA





O Urbanismo Modernista e o Novo Urbanismo (Parte II)
Com as duas imagens acima apresentadas procuro não só reflectir o título deste texto, mas também ilustrar, de forma suficientemente exemplar, a dupla faceta verificada na prática urbanística actual nos Estados Unidos da América - o chamado suburban sprawl, por um lado, e o mais recente New Urbanism, por outro. Em parte, certamente, por herança do génio britânico, muito marcado por um tipo de sensibilidade individual bem característico, tanto aqui como nos países cultural e etnicamente mais ligados ao antigo Império - o Canadá, a Austrália, a África do Sul, etc. - o tipo de crescimento urbano dominante ao longo de todo o século XX seguiu, com alegada intenção ou como intuitiva tendência, o arquétipo nascido com o Garden City Movement, introduzido nos fins do século precedente em Inglaterra pelo militante e teórico social Ebenezer Howard (1850-1928) e pelas realizações de projectistas de inegável talento - Letchworth Garden City, 1903 e Hampstead Garden Suburb, 1907, por B. Parker e R. Unwin; Welwyn Garden City, 1907, por L.de Soissons, etc. Este movimento surgiu como uma tentativa para resolver a dicotomia entre a malha urbana da cidade industrial oitocentista, problemática em vários graves aspectos, e o espaço natural, percebido como ideal da felicidade humana. Howard tinha vivido cinco anos na América dos anos 70, onde recebeu as influências de W. Whitman, R. Emerson e das teorias das origens do Belo na natureza.
As baixas densidades, com a habitação sobretudo disposta em casas isoladas ou em banda (o britânico típico sempre desprezou os flats), desejavelmente com amplas e multiplas áreas verdes, públicas ou privadas, e o zoning, separando a indústria da habitação, deu forma a este novo modelo híbrido (cidade mais campo num só) nascido nas Ilhas mas com mais ou menos influência por toda a Europa, sobretudo em países anglo-saxónicos como a Alemanha a Bélgica e os Países Baixos, diferentemente do outro novo modelo, de raiz cultural mais latina, se assim se pode dizer, que veio a ser maioritariamente praticado na Europa do pós-II Grande Guerra, com zoning também, e bem radical, mas mais característico do texto e do espírito da Carta de Atenas (veja-se a Parte I deste texto), com maior concentração constructiva localizada, quer em grupos de arranha-céus idealmente implantados no interior de amplas áreas ajardinadas (em Portugal temos, como exemplo, o Bairro dos Olivais) quer em bandas de habitação colectiva extensiva de poucos andares, e frequentemente sem hierarquia de fachadas (quando toda a superfície é fachada, mormente nos arranha-céus elevados em pilares, com entrada ao nível térreo por baixo do edifício). Ao passo que na Garden City os arruamentos que servem as habitações perdem o rico significado que possuía a típica rua urbana tradicional, normalmente sempre também com algum comércio e mais outros usos, no outro modelo referido, que eu designaria "à Le Corbusier", todos os arruamentos são dispositivos meramente mecânicos, podendo quando há espaço suficiente tomar no terreno as formas mais livres, para veículos ou como caminhos pedonais independentes, completamente alheios, em todo o caso, à própria ideia convencional de rua.
Nos Estados Unidos, o paisagista e urbanista Clerence Stein (1882-1975) aplicou as teorias da Cidade-Jardim a dois projectos urbanos com jardins comunais e separação entre trânsito automóvel e peões: Sunnyside Gardens, New York, 1924; e Redburn, New Jersey, 1929. Stein era sócio do polémico autor de temas urbanos Lewis Mumford (1895-1990), discípulo de Ebenezer Howard e do biólogo Patrick Geddes, que defendia uma posição humanista muito crítica da dependência moderna da tecnologia.
Mas já a partir dos anos 20, na América, a Garden City ou os Garden Suburbs, que eram extensões periféricas com bastante limitada ou nenhuma autonomia, mas em todo o caso viáveis por estarem ligadas ao centro da grande cidade pelo caminho de ferro, começaram rapidamente a dar primazia a um novo fenómeno tipicamente americano, tanto na sua génese como nas espantosas proporções depois e até hoje alcançadas - o suburban sprawl, tornado possível com a massificação do carro privado e a introdução da auto-estrada, e socialmente vocacionado, sobretudo, para as numerosas famílias de raça branca da pequena burguesia, levadas a sair da cidade não só atrás do ideal de uma nova vida no "campo", mas sobretudo até por razões económicas. Então depois da última guerra, o fenómeno tornou-se imparável e é hoje omnipresente no quotidiano da vida americana. Com ele, as generosas áreas verdes e outras apreciáveis qualidades da cidade-jardim desapareceram e os resultados da obcecação por uma estreita optimização comercial e funcional, assim como a sua completa subordinação ao zoning e à utilização a larga escala do automóvel para todas as mais insignificantes necessidades correntes, com sacrifício adicional para todos os residentes que não guiam, mostram hoje à evidência a insustentabilidade a prazo do modelo de desenvolvimento implícito e o estado de extrema disfunção da vida quotidiana por este ocasionado em tempos de crise económica e de aumento do preço dos combustíveis, como agora mesmo acontece, com muitos milhões de pessoas a ficarem, literalmente, abandonados nos subúrbios.
O New Urbanism apareceu no início dos anos 80 com a intenção de poder vir a constituir uma alternativa urbanística, radical mas viável, a este estado de coisas. Embora existisse já parcialmente em potência, sem esse nome ainda, numa tradição adormecida mas nunca extinta, que veio a integrar a seu favor os contributos teóricos inovadores da escritora Jane Jacobs, com o seu clássico livro The Live and Death of Great American Cities, 1961, e do matemático e arquitecto Cristopher Alexander, com o artigo A City is not a Tree, 1965 e o livro A Pattern Language, 1977, o New Urbanism veio a ter a sua primeira concretização prática na iniciativa do arquitecto de Miami Andrés Douany e sua mulher Elisabeth Plater-Zyberk, convertidos pela influência pessoal de Léon Krier, que naquela altura passava uma temporada nos EUA, às ideias e princípios urbanísticos de matriz tradicional por este defendidos.
A nova vila balnear de Seaside, na Flórida, começada em 1984, constituiu a primeira realização exemplar destes princípios, adaptados às condições e à tradição arquitectónica regional, e um verdadeiro balão de ensaio do movimento, tendo Léon Krier aí construído, de princípio a fim, a sua própria casa. Em resumo, pretendia-se obter a criação de uma comunidade onde todas as necessidades urbanas mais correntes - o comércio local e os serviços e equipamentos básicos, como a escola primária, os correios, a capela, as actividades balneares e de lazer, etc., fossem todas facilmente acessíveis à distancia de cerca de 5 minutos a pé, através de uma malha urbana de ruas e de outros espaços públicos interligados, claramente reconhecíveis e hierarquizados, com centro, áreas periféricas e limites naturais bem definidos e com prioridade do peão ou da bicicleta em relação ao automóvel. Tudo isto usando o parcelamento, as tipologias dos espaços públicos e das construções e um vocabulário arquitectónico que permitisse alcançar os seguintes resultados: variedade sócio-económica e etária da população, por um lado; unidade com variedade justificada, de cada um e do conjunto dos espaços públicos e da arquitectura, por outro.
Os resultados alcançados em Seaside e, não muito depois, também noutros pontos, ao longo de processos construtivos com suficiente lentidão, para que assim melhor pudessem ser incorporados os próprios feed-backs alcançados, foram muito animadores. Esse sucesso encorajou a rápida expansão do movimento, tanto por Duany como por outros e cada vez mais urbanistas, arquitectos, utentes, empresários e até políticos, em muitas partes do país. Em 1993 era fundado o CNU - Congress for the New Urbanism, com a sua Carta de princípios e intenções em que se adivinha o ambicioso projecto de mudar em algumas décadas a face da América. A missão revelada inclui ...«a reestruturação da política pública e de práticas urbanísticas que dêem suporte à regeneração de centros urbanos e de cidades existentes, integradas no interior de regiões metropolitanas coerentes. Defendemos a reconfiguração de expansões suburbanas em comunidades de vizinhança com os seus diferentes bairros, a conservação dos ambientes naturais e a preservação do património construído....A reconstrução das vizinhanças, das cidades e das regiões é profundamente interdisciplinar. Acreditamos que as comunidades, a economia, o ambiente e o desenho projectual têm de ser abordados simultaneamente através do projecto urbano e do planeamento.»
A maior limitação a uma mais rápida expansão deste movimento continua até hoje a ser a rigidez das leis e das normas urbanísticas, profundamente alteradas após a II Grande Guerra por forma a consagrar generalizadamente o zoning, as quais, enquanto não forem alteradas, continuam a ser radicalmente hostis ao tipo de experiência urbana tradicional característica do New Urbanism. Para tentar ladear este problema, Duany e a sua equipa criaram o chamado SmartCode, o qual inclui um tipo de zoning ditado pelo afastamento sucessivo e gradual das várias regiões urbanas desde o centro de uma metrópole até ao seu espaço exterior rural, perfeitamente compatível com a variação das densidades e do carácter urbano historicamente observáveis em todas as zonas urbanas tradicionais, e tem-se procurado, caso a caso e com crescente sucesso, negociar este tipo de códigos, adaptados a cada região e local em concreto, com as autoridades licenciadoras.
Hoje, são já largas centenas as realizações acabadas ou em construção, também designadas por TND - Traditional Neighborhood Developments. O movimento tem feito o seu caminho, não só na América como pela sua influência levada a outras partes do mundo. No próximo texto falarei da situação actual do novo urbanismo de inspiração tradicional na Europa.
Francisco Cabral de Moncada

ÉTICA DA ESFERA DOS BLOGUES

Liguemo-nos uns aos outros...

AINDA SOBRE A MANIFESTAÇÃO DE SÁBADO, 12 DE MARÇO

terça-feira, 15 de março de 2011

AINDA A MANIFESTAÇÃO DE SÁBADO, 12 DE MARÇO

FILOSOFIA DA ESFERA DOS BLOGUES

To link or not to link...

segunda-feira, 14 de março de 2011

EXPRESSO DO OCIDENTE

Quinta-feira, 10 de Março
O parlamento, uma das instituições mais cómicas da desinteressante vida política portuguesa, tratou hoje de debater e votar uma Moção de Censura ao governo e não deixou os seus créditos por mãos alheias: a comédia começou com a apresentação da proposta, momento escolhido pelo proponente - o sempre chiquérrimo bloco de extrema-esquerda - para tratar de dizer em voz alta que a censura também se dirigia às bancadas que, vai-se a ver, poderiam aprovar a proposta. A razão desconhece-se, balançando a dúvida entre o excesso de ganzas do aparelho ou o simples serviço a Sócrates. Certo é que, independentemente do frete ao nosso primeiro, a desastrada Moção logo agradou à oposição dita de Direita que, deste modo, arranjou motivo para tratar de segurar o desgoverno socialista por mais algum tempo. No final, o resumo televisivo do exercício de esquizofrenia seria já estudado pelos melhores gabinetes de psicologia do planeta: as bancadas parlamentares da "oposição" levantavam-se para desancar o executivo recordando as suas compulsivas mentiras para, momentos depois, inviabilizarem a queda do governo. Há quem garanta que é para repetir com brevidade e eu, cidadão atento, até acredito que sim e que uma das próximas encenações possa trazer melhores resultados aos pagadores de impostos cá do burgo. De qualquer modo e na dúvida, sempre vos digo que se perderam esta ocasião, repete sempre mais que não seja pelo menos no período de Natal, no Chen ou no Cardinale. Casas igualmente divertidas e que até ficam a ganhar, parece-me, no profissionalismo dos executantes.
Sexta-feira, 11 de Março
O dia informativo arranca cedo: nos salões da pasta do Tesouro que andam a montar com o dinheiro que diariamente nos levam, o notável Ministro das Finanças anuncia ao país que, afinal de contas, é preciso sacar mais uns cobres. Parece que é o PEC4, o que me permite pensar que esta rapaziada das contas, apesar da distribuição dos famosos Magalhães munidos de folha de cálculo, não as sabe fazer com rigor categórico. Desta vez comem logo à cabeça os reformados, são eles a pagar a sustento dos boys. Isto nas gordas, dado que a lista de pilhagens era grande e, para alguns especialistas em entrelinhas, promete até o pagamento do 13º mês em papel de parede - para não lhe chamar pior. A má-fé do governo não impressiona: anunciam-se as medidas menos de vinte e quatro horas depois da tal Moção, sem dar conhecimento prévio ao Presidente da República (que, não se iludam, vê a pilhagem como "inevitável"), e ao mesmo tempo em que o inenarrável Sócrates seguia para as Europas com discurso pronto e com o intuito de apresentar a quem manda o excel com os novos roubos. O verdadeiro problema desta gente que se apanhou ao leme é que, bem vistas as coisas, aquelas cabeças já engendraram o PEC5, o 6 e os seguintes, mas vão lançá-los a conta-gotas e em função dos seus exclusivos interesses pessoais e partidários. Preparem-se pois, que isto vai doer.
Curiosamente, já ao final da noite, o dr. Passos Coelho subiu ao púlpito para assegurar que não apoia semelhante ataque às nossas carteiras (como já não apoiava o anterior, o Orçamento de Estado, etc.), garantindo com pose nervosa e pretensões de estadista que desta vez o PSD não viabilizará o furto. Pode ser então que tenhamos eleições para breve. Desculpar-me-ão a falta de esperança mas nesta coisa do dr. Passos Coelho, que antevejo um Sócrates laranja, tomo as célebres precauções de São Tomé.
Sábado, 12 de Março
E o governo ficou à rasca! Só entre Lisboa e Porto, mais de duzentas mil pessoas encheram a Avenida da Liberdade e os Aliados, numa manifestação que surpreende pelo seu carácter transversal e heterogéneo. Falo com conhecimento de causa, meus amigos, desci do Marquês ao Rossio, subi ao Camões e voltei a fazer o percurso inverso. Vi comunistas, bloquistas e anarquistas? Vi aos magotes, claro. A manifestação era isso? Não, não era e não foi independentemente do que a imprensa possa querer transmitir - e quem de facto lá esteve sabe bem que não falto à verdade. Cumprimentei aliás inúmeros amigos e camaradas que também disseram presente. E vi outra coisa importante: um protesto que em significativa parte dos casos era genuíno e não instrumentalizado - quem souber fazê-lo que o aproveite, a oportunidade está aí! - e, fundamentalmente, um mar de gente que se percebia (e ouvia) não votar habitualmente. Por cansaço, por desilusão, por revolta. Acresciam centenas de mensagens politicamente interessantes: contra a partidocracia e os seus boys, contra a maçonaria e os seus tentáculos, pela Soberania Nacional e contra a falta de vergonha. Regressei a casa com a sensação de que existe margem bastante para uma alternativa; com a noção de que quem a quiser desenhar terá forçosamente que sair à rua ao encontro destas muitas pessoas que estão fartas, que estão à rasca, que ainda se indignam e que estão disponíveis para reinventar alguma esperança. Fica um conselho: falem-lhes em coisas do mundo real, falem-lhes nas cada vez maiores complicações da vida de todos os dias. É que grande parte dos portugueses está mesmo à rasca e, tentando sobreviver, não tem grande tempo para esoterismos, percebem?
Pedro Guedes da Silva

domingo, 13 de março de 2011

DE PORTUGAL AO JAPÃO

Busquemos o porto de abrigo propiciado pelas imagens em movimento — e sons — do cinematógrafo. Ainda a propósito do martirizado Japão, sugiro agora o visionamento de A Ilha dos Amores (1982), complementado por A Ilha de Moraes (1984). Cada uma destas obras de Paulo Rocha provém de um diferente caudal da História do Cinema: a ficção e o documentário, respectivamente; formando, assim, um díptico com registos distintos (coisas boas, possíveis na Sétima Arte). O ponto de encontro dos referidos filmes dá-se na sua unidade temática, que os faz convergir; e, pede uma sessão especial, com a exibição de ambas as fitas, para mergulharmos totalmente no mundo especialíssimo de Wenceslau de Moraes — o genial aventureiro português, cultivador da literatura de viagens, que se deixou seduzir pelo Japão e o adoptou como sua segunda Pátria .

ESCRITOR PARA HOJE (11)

Yukio Mishima.

LIVRO PARA HOJE (118)

A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunary Kawabata, tradução de Luís Pignatelli, edição Assírio & Alvim, colecção «o imaginário» / 11, Lisboa, 1986.
Porque o meu coração está com o Japão.

CINEASTA PARA HOJE (18)

Referências ao Mestre feitas no blogue: clicar.

REVELANDO UM SEGREDO

Várias vezes mo perguntaram, mas nunca respondi. Revelo-o hoje, levado pela tragédia do Japão. O livro que aparece no cabeçalho deste blogue é Clepsidra, de Camilo Pessanha.

BLOGUE DO DIA (140)

The Last Nan Ban Jin, de NanBanJin (Luís Filipe Afonso).
Com um forte abraço lusíada meu para o Autor e para o Japão.

REFLECTIR E AGIR

O pensamento sem acção é impotente e a acção sem pensamento é estéril.

sábado, 12 de março de 2011

CATARINA SAYS...




A PROFUNDIDADE DA INDIFERENÇA É ALÉRGICA À FLOR DA PELE.
MANIFESTAR - É DAR VOZ AO QUE SE SENTE.


DAR VOZ AO QUE SE SENTE DE BEM OU MAL É UMA FORMA DE LIBERDADE.
LIBERDADE DA EXPRESSÃO PELA EXPRESSÃO.
DEVEMOS ISSO A NÓS PRÓPRIOS POR UMA QUESTÃO DE RESPEITO E
CONSIDERAÇÃO AOS SENTIMENTOS DE CONTENTAMENTO
OU DESCONTENTAMENTO QUE NOS HABITAM, A VIDA NA ALMA, NO CORPO E NO ESPÍRITO.
PORQUE UMA SOLUÇÃO SATURADA É UM PROBLEMA, TEMOS DE AGIR E ENFRENTAR A CAUSA,
A ACREDITAR QUE A NOSSA VOZ COMUNGADA COM A DOS OUTROS, FARÁ A AGULHA MUDAR.
MUITAS VOZES A FALAREM DO MESMO TÊM MUITO MAIS FORÇA DO QUE UMA SÓ.
MUITAS VOZES EM CORO, OUVEM-SE MELHOR E CONTAGIAM A VONTADE.
AQUILO DE SER MORNO PELA INDIFERENÇA NÃO DÁ.
O MORNO NÃO TEM SENTIDO PORQUE NÃO TEM ALMA. NÃO FALO DO SILÊNCIO,
FALO SIM DA INDIFERENÇA EGOÍSTA QUE NOS LEVA A FICAR QUIETOS
E A ENGOLIR A CUSTO AQUILO DE QUE DESISTIMOS SEM TER TENTADO,
SÓ PORQUE SIM.


POR ISSO VAMOS, DEVEMOS IR. DAR O CORPO, A ALMA E A VOZ AO MANIFESTO.
FICAR CALADO, NESTE CASO, É CONFORMAR-SE, É DIZER QUE SE ACEITA,
AQUILO QUE NÃO SE ACEITA.
IR EM FRENTE, PARA MUDAR, IR EM FRENTE PARA RECUSAR O ESTADO DAS COISAS,
QUE JÁ NEM TÊM ESTADO - DE TÃO POUCO CONSISTENTES QUE SE TORNARAM.


OS OUTROS NÃO NOS ADIVINHAM, NÃO SABEM O QUE SABEMOS,
NEM O QUE SENTIMOS SE CALARMOS A VOZ.
DAR VOZ À VOZ É ESTAR VIVO, É REVELAÇÃO DA FIDELIDADE A NÓS MESMOS.
TORNAMO-NOS MAIS FORTES POR ISSO.
PORQUE NOS CONFIRMAMOS, ATRAVÉS DE NÓS E DOS OUTROS.


MAIS DO QUE UM DIREITO - ESSE É UM DEVER, NOSSO,
E DOS OUTROS QUE FAZEM PARTE DO MAPA.
A ENERGIA CONVIDA À SINERGIA.VAMOS? JÁ LÁ ESTAMOS.
Catarina Hipólito Raposo

QUE FAZER?

Talvez ler.

quarta-feira, 9 de março de 2011

SEM AGENDA



O Urbanismo Modernista e o Novo Urbanismo (Parte I)

A começar na Europa e nos Estados Unidos e a acabar, hoje em dia, na generalidade das metrópoles e, mais ainda, nas gigantescas - para lá de tudo o imaginável - megalópoles dos cinco continentes, não só o seu aspecto visual caótico e incompreensível, como inclusivamente toda a vivência diária experimentada pela generalidade dos habitantes dessas novas paisagens, construídas posteriormente à Segunda Guerra Mundial - as quais afectam e fatalmente condicionam, directa ou indirectamente, tudo o mais num vasto raio em seu redor - não podem deixar de nos fazer sobressaltar, interrogar e indignar.

Este problema das condições da vida urbana actual, trata-se sem dúvida de um resultado parcial, embora obviamente do máximo alcance e importância para todos - pessoas, famílias, comunidades, nações, continentes inteiros - de um conjunto extremamente complexo de fenómenos dinâmicos, a várias escalas - local, regional, continental, mundial - e de várias naturezas - económica, política e geo-estratégica, ambiental, cultural, religiosa - os quais, se bem que infinitamente justapostos e interdependentes, nos conduzem todos, ou a maior parte deles, assim o julgo, à fonte de onde dimanam principalmente: o paradigma de desenvolvimento vigente de há cerca de dois séculos a esta parte, ou seja, a nossa civilização industrial, materialmente tornada possível pelos fantásticos progressos da ciência e da técnica e pelo consumo dos combustíveis fósseis baratos, e culturalmente dirigida pela família das correntes de pensamento que triunfaram, até ver - a ideologia da modernidade - definida com maior rigor a partir dos Iluminados da Baviera e de Rousseau, que se caracteriza pela emergência metafísica do homem rebelde (1), e por isso revolucionária, anti-tradicional e aberta ou dissimuladamente totalitária, que tem vindo a assumir as várias formas históricas de todas conhecidas, desde o liberalismo selvagem do século XIX ao actual liberalismo democrático, híbrido não menos selvagem, radicalmente ateu e mundialista, passando pelos vários totalitarismos sangrentos do século XX. Temos vivido portanto, de há longo tempo, no Ocidente, embora também, aqui e além, com felizes lacunas e oásis, tempos essencialmente revolucionários e contrários às verdadeiras liberdades necessárias à realização da vida humana natural, ou seja, para um crente como eu, aquela que não só nos foi dada, como também nos foi destinado reconhecê-la e praticá-la, pelo Criador de todas as coisas.

Foi este longo parágrafo acima para por ele começar a enquadrar histórica e culturalmente a evolução do urbanismo dos últimos cerca de oitenta anos até ao que hoje se nos apresenta. A arquitectura e o urbanismo modernistas emergiram decisivamente no período de entre-guerras, com a recepção verificada, por algum público mas sobretudo pelas elites bem pensantes da época, das propostas dos arquitectos modernistas dos anos vinte e trinta do século passado, entre os quais se destacou, de longe, pela sua larga influência, o ideólogo da arquitectura e do urbanismo Le Corbusier, em 1926 com a apresentação dos seus 5 pontos da Nova Arquitectura, e posteriormente, em 1933, com a redacção da chamada Carta de Atenas, saída do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna - CIAM.

A Carta de Atenas, que veio a ser mais tarde, sobretudo depois da II Grande Guerra, a bíblia do urbanismo modernista, revelou-se essencialmente um manual técnico de desenvolvimento industrial. Tendo sido apresentada com o louvável objectivo de resolver o problema das más condições de vida, mormente da classe operária, na cidade industrial, bem como o congestionamento do transito atribuído às malhas urbanas cerradas e a falta de suficiente espaço público para o lazer e a cultura, o seu pressuposto essencial consistiu em pensar a cidade - em consonância com o alegado Zeitgeist - como uma verdadeira máquina - a Cidade Funcional - objecto esse a concretizar primordialmente através do chamado zoning (segregação espacial dos vários tipos principais de funções numa cidade: residencial, comercial, industrial, lazer e cultura, etc., interconectadas por vias de acesso rápido), complementado com a criação de vastas áreas de parque ajardinado, ocupadas com grupos de arranha-céus isolados, para as ocupações terciárias e a habitação das classes superiores, e com numerosas unidades lineares de habitação colectiva extensiva.

O zoning - hoje em dia já largamente desacreditado tanto por força dos muitos efeitos destructivos provocados nas cidades tradicionais europeias (lembro, entre nós, a bárbara destruição realizada em grande parte da Alta de Coimbra para a concentração da Cidade Universitária, ou as ameaças, felizmente não concretizadas, do "saneamento" de uma área significativa da Ribeira do Porto ou da demolição de parte Bairro Alto, em Lisboa) como também, e certamente com maior razão ainda, no caso dos incontáveis novos aglomerados e extensões urbanas, que não merecem o nome de cidade, dado o tipo de vida urbana que neles fatalmente criou, com as constantes e penosas deslocações pendulares entre centro e periferia, a criação de sítios geralmente sem carácter e sem alma e a desumanização ou mesmo a completa anulação de toda e qualquer experiência cívica - continua a reflectir-se, contudo, de forma bem patente e durável, na feição geral dos ambientes urbanos no Ocidente e não só, apesar das tentativas de correcção, as quais, todavia, raramente abordam os aspectos essenciais do problema. O crescente número de demolições e de implosões de edifícios modernistas é deste fracasso apontado um claro sintoma.

Traz-me isto à memória, infelizmente, a verdade contida no seguinte aforismo de Nicolás Gómez Dávila: «o homem moderno destrói mais quando constrói do que quando destrói».

Na próxima semana introduzirei o movimento urbanístico alternativo, nascido há cerca de três décadas nos Estados Unidos e já hoje aí com larga implantação, e com bastante influência também na Europa e noutros pontos do mundo, que dá pelo nome de New Urbanism.

Francisco Cabral de Moncada